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Livro didático: sobrou para o Stálin!

sexta-feira, junho 3rd, 2011

No dia 31 de maio, o ministro da Educação, Fernando Haddad, esteve na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado para falar sobre o material didático adotado pelo seu Ministério. Em especial, livros de história que enalteceriam a administração petista e criticariam a gestão tucana na Presidência da República, e o livro que ensina: “Mas eu posso falar ‘os livro?’. Claro que pode.â€

Após a argumentação inicial do ministro, que acusou os que criticaram o livro de Português de não o terem lido, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), referiu-se “a uma corrente do Partido Comunista Russo que, quando Stalin chegou ao poder, tentou introduzir uma nova língua do partido. Stalin não permitiu. Essa língua sepultaria a norma cultaâ€.
Para rebater o tucano, o ministro petista se valeu da velha cantilena de comparar Stalin com Hitler: “O senador Alvaro Dias fez uma referência ao Stalin que achei muito interessante, porque há uma diferença entre Hitler e Stalin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas o Stalin lia os seus livros antes de fuzilá-los. Essa é a grande diferençaâ€.
Haddad, que se vangloriou de não criticar “um autor sem cobrir sua obraâ€, fazendo questão de frisar que defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo, acabou não informando onde aprendeu que a “grande diferença†entre Hitler e Stalin é que o dirigente da URSS lia aos obras dos autores que fuzilava. Mas quem quiser se aprofundar a respeito das inúmeras diferenças – de classe, senhor ministro, de classe – entre o dirigente nazista e o dirigente comunista poderá consultar, dentre outros, “Stalin, história crítica de uma lenda negraâ€, de Domenico Losurdo (Editora Revan). Aliás, sobre o assunto educação, registra o livro:
“Aqueles que, com o delinear-se da crise da Grande Aliança, tinham começado a comparar a União Soviética de Stalin e a Alemanha de Hitler, foram duramente rebatidos por Thomas Mann. O que caracterizara o III Reich fora a ‘megalomania racial’ da pretensa ‘raça de senhores’, que pusera em ação uma ‘política diabólica de despovoamento’, e antes ainda de extirpação da cultura, nos territórios sempre de novo conquistados. Hitler se ativera à máxima de Nietzsche:’Se quiser escravos, é tolice educá-los como senhores’. Diretamente oposta era a orientação do ‘socialismo russo’, que, difundindo maciçamente instrução e cultura, demonstrara não querer ‘escravos’, mas ‘homens pensantes’ e, portanto, a serem postos no ‘caminho da liberdade’. Então se tornava inaceitável a comparação entre os dois regimes. Melhor dizendo, aqueles que argumentavam assim podiam ser suspeitos de cumplicidade com o fascismo, o qual declaravam querer condenar.”
Durante a audiência do ministro, o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) distribuiu aos presentes um livro sobre o poeta cearense Patativa do Assaré. Demonstrou que, língua padrão à parte, o português popular também produz arte de qualidade, e esta arte deve ter guarida também nos bancos escolares.
Por atinente, reproduzo artigo da professora e jornalista Dad Squarisi sobre episódios de revisão histórica e de trato da língua nas escolas:
Nós dá um jeitinho
A maior tragédia do Brasil? É o jeitinho. Sem regras claras, fica-se numa zona pantanosa. O sim não significa sim. O não tampouco quer dizer não. Tudo depende. Depende do crachá, do QI (quem indica), da conta bancária, da rede de amigos. Às vezes, do tempo. Outras vezes, do humor. Daí termos mais de 50 formas de responder à pergunta “como vai?” É um tal de vou indo, navegando, levando, como Deus quer, como o vento sopra, empurrando com a barriga. Etc. Etc. Etc. O jeitinho faz milagres.
Apaga fatos históricos. Graças a ele, o impeachment do Collor virou detalhe, indigno de figurar na história do Senado. Depois da grita — dos caras-pintadas aos historiadores —, o mais importante acontecimento da democracia contemporânea desta alegre Pindorama reconquistou a relevância. Ganhou espaço no túnel do tempo da Câmara Alta.
O jeitinho confunde ciências e muda conceitos. Erro não é mais erro. É preconceito linguístico. Escrever “os livro” ou “nós pega o peixe” figura em livro didático com o mesmo status de “os livros” e “nós pegamos o peixe”. Apesar dos esperneios de pais, estudantes, professores, empresários, políticos & gente como a gente, o ministro da Educação bate pé. Jura que os indignados estão indignados porque não leram o livro.
Há os que leram e os que não leram a obra. Uns e outros sabem que o buraco é mais embaixo. O ser bonzinho esconde baita discriminação. Acredita que o aluno da escola pública nunca vai chegar lá. Se aprender ou deixar de aprender a gramática normativa, não faz diferença. Ele não passará das tamancas. Não é por acaso que impera nas instituições públicas o jogo do faz de conta. O professor finge que ensina. O aluno finge que aprende. O Estado se finge de cego.
O teatro não se restringe ao português. Abrange matemática, história, geografia, ciências. Mas é mais notável na língua pátria. Sem a habilidade da leitura, o estudante não entende enunciados. Prejudica-se em todas as disciplinas. Sem a habilidade da escrita, não pode exprimir-se. Se sabe a resposta da questão, não consegue escrevê-la. Assim, cada macaco mantém-se no seu galho. Em resumo: o ensinar que “nós pega” está correto foi a gota d´água. Os que leram e os que não leram o livro sofrem na carne, no coração e no bolso o resultado do preconceito.
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Quem gosta de ingnorãça é intelequituau burgueis

sexta-feira, maio 20th, 2011

A compra e distribuição, pelo Ministério da Educação, do livro “Por uma vida melhorâ€, de autoria de Heloísa Ramos, deu motivo para analistas e comentaristas conservadores e reacionários hostilizarem o governo. A indignação causada pela adoção no ensino público de uma obra que buscar validar erros gramaticais crassos foi utilizada para atacar o MEC e até o ex-presidente Lula, por sua falta de escolaridade.

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Houve quem, preocupado em defender o governo da sanha direitista, golpeou a mídia pelas suas também constantes agressões à língua pátria e acabou dando aval à cartilha. “Por uma vida melhor†ensina, com todas as letras: “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro?’.’ Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico.†Ora, não cabe a um livro destinado ao ensino do uso correto da língua dizer que o aluno pode falar errado. Pode não! Ele será entendido, se assim falar, mas estará falando errado – e está na aula de Português para aprender a ler, escrever e falar corretamente. Se alguém o corrigir, não estará sendo preconceituoso, mas auxiliando-o a sair do erro.

Em seguida, ao exemplificar as falas “Nós pega o peixe†e “Os menino pega o peixeâ€, a cartilha, além de não dar a forma correta, confunde o estudante: “Nos dois exemplos, apesar de o verbo estar no singular, quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de falaâ€. Ou seja, tudo pode, desde que o falante domine as duas variedades (norma culta e a “norma popularâ€). Indubitavelmente, a autora revela preconceito linguístico, ao achar que a população deve falar errado, sob o risco de confundir-se com as “classes sociais que têm mais escolarização†e, “por uma questão de prestígioâ€, falam corretamente – sim, isso está escrito no “Por uma vida melhorâ€.

A crer-se que a autora faz o que escreve, quando vai à feira rebaixa seu linguajar para pedir “O Japa, me dá umas garapa e dois pastéu de boi raladoâ€, mas, num vernissage de obras conceituais, empina o nariz, estica o minguinho e solicita “Garçom, por favor, sirva-me um caldo de cana acompanhado de um pastel de carne  E aí, de quem é o preconceito?

Até a Maria Helena Rubinato de Sousa, filha do autor do Samba do Arnesto, Adoniran Barbosa, reproduziu no seu blog uma crítica, de Carlos Eduardo Novaes, infelizmente com certo viés direitista, registrando que “no meu modexto entender a linguajem horal é para sair pela boca e não para ser botada no papel. A palavra impreça deve obedecer o que manda a Gramáticaâ€.

Com mais sobriedade, a Academia Brasileira de Letras registrou o empenho do MEC em melhorar o nível do ensino escolar no país, mas pontificou: “Todas as feições sociais do nosso idioma constituem objeto de disciplinas científicas, mas bem diferente é a tarefa do professor de Língua Portuguesa, que espera encontrar no livro didático o respaldo dos usos da língua padrão que ministra a seus discípulos, variedade que eles deverão conhecer e praticar no exercício da efetiva ascensão social que a escola lhes proporciona. A posição teórica dos autores do livro didático que vem merecendo a justa crítica de professores e de todos os interessados no cultivo da língua padrão segue caminho diferente do que se aprende nos bons cursos de Teoria da Linguagemâ€.

Na sociedade – e no governo – existem correntes de pensamento que, para mostrar sua simpatia ou engajamento com os setores mais explorados ou sofridos da população,  buscam a identidade com eles e aproximam-se do seu modo de comportamento e fala. Pior, há os que acham que esses setores devem ser mantidos na sua “pureza†– os índios, no neolítico; os ignorantes, no seu falar “exóticoâ€, popular…

Já Marx enfrentou esse problema quando, numa reunião do Comitê de Correspondência Comunista, em 1846, debatendo com Wilhelm Weitling, um alfaiate que queria atuar no movimento operário usando um linguajar messiânico cristão, bateu na mesa e gritou: “A ignorância nunca ajudou ninguém até hoje!†É conhecido o enfrentamento de Lênin com os “amigos do povo†que, não raro, obstaculizavam a luta pelo socialismo.

Estamos no século XXI. Ãndio não precisa de apito, mas de condição digna de vida e internet com banda larga; trabalhadores não se satisfazem com o macacão roto e a cachaça de má qualidade, mas anseiam por inclusão social e cultural. Para isso, carecem de ensino público de qualidade, e não populista. “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”, ensinou Joãosinho Trinta, em português escorreito, para quem quiser ler, ouvir e bem entender.

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