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A crise na visão de Delfim Netto e do PCdoB

segunda-feira, setembro 26th, 2011

Na semana que passou, Antonio Delfim Netto publicou o artigo Garantia legal, abordando a atual crise capitalista. Dias antes, Renato Rabelo fez uma intervenção sobre o mesmo assunto. As visões de mundo opostas dos dois analistas ficaram bastante evidenciadas.

Delfim escreveu que o capitalismo “é sujeito a crises porque: 1º) O próprio comportamento do homem oscila entre o entusiasmo e a depressão e 2º) As ‘respostas’ do sistema produtivo (variações da oferta) aos estímulos da demanda são, simultaneamente, condicionadas pelas incertezas do futuro opaco e pela natureza do avanço da tecnologiaâ€.

O presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo, fez um informe ao Comitê Central, que o incorporou ao documento do encontro, afirmando: “Esta crise acelera o já constatado declínio progressivo e relativo da hegemonia do imperialismo estadunidense, enquanto cresce o papel da República Popular da China – país socialista – pela pujança da sua economia (o 2º. maior PIB do mundo: 5 trilhões e 700 bilhões de dólares, acima do Japão) e sua ascendente influência geopolíticaâ€. E, mais adiante: “Para compreender o essencial desta grande crise lançamos mão também de outras categorias: a luta de classes na fase atual da vida do capitalismo, e do conceito de que a economia é, em verdade, Economia Política. Os ultraliberais responsáveis pela crise continuam à frente do comando político de grandes potências. O neoliberalismo, embora desmoralizado pelo fracasso, recrudesceu no centro capitalistaâ€.

Duas abordagens sobre a mesma crise, duas visões distintas, de classe, do momento econômico. Delfim é um economista conceituado, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento (todos os cargos, durante a ditadura militar), professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e professor titular de análise macroeconômica. No entanto, vê como primeiro fator de uma crise capitalista a oscilação humana “entre o entusiasmo e a depressãoâ€. E, no segundo fator, adjetiva o futuro (“opacoâ€, na sua opinião) e fica preso ao “deus mercado†(relação entre oferta e demanda) e ao avanço tecnológico. Nada de contradição entre modo e relação de produção. Nada de antagonismo entre a produção social e a apropriação privada. Nenhuma possibilidade de o avanço tecnológico converter-se em elevação do padrão de vida da comunidade e redução da jornada de trabalho. Embora filho de trabalhadores e apesar de ter começado sua vida profissional como contínuo (hoje chamado Office-boy) numa fábrica de sabonetes, ele se impregnou da ideologia burguesa e com ela faz suas análises. Como escreveu Marx no terceiro volume d´O Capital, “a economia vulgar se limita a interpretar, a sistematizar e a pregar doutrinariamente as ideias dos agentes do capital, prisioneiros das relações de produção burguesaâ€.

Diferente é a postura dos que se colocam sob a visão do mundo dos proletários, que, ao analisar o capitalismo, o fazem tendo por perspectiva, não o “futuro opacoâ€, mas a luta por uma nova sociedade que o substitua, como fez o presidente do PCdoB. Trata-se de uma indicação dada por Lênin, o líder da revolução socialista na Rússia de 1917, que, em Materialismo e empiriocriticismo, referiu-se aos economistas e pensadores burgueses como “caixeiros viajantes†dos capitalistas e disse ser tarefa dos marxistas “saber assimilar e reelaborar as aquisições destes ‘caixeiros’ (por exemplo, não dareis um passo no domínio do estudo dos novos fenômenos econômicos sem utilizar os trabalhos destes caixeiros) e saber cortar-lhes a tendência reacionária, saber aplicar a nossa própria linha e combater toda a linha das forças e classes que nos são hostisâ€.

Daí os comunistas acompanharem as análises dos economistas que são ideólogos e, até, sicofantas do capital, como os classificou Marx no primeiro volume d´O Capital, mas não verem na crise do sistema um problema de humor ou temperamento, e sim uma questão da essência deste tipo de sociedade dividida em classes exploradas e exploradoras. Como afirmou Renato Rabelo, insere-se “na concepção marxista acerca das crises do capitalismo, para nossa compreensão da situação atual, que as crises fazem parte dos ciclos do capital e, independentemente de suas intensidades, o capitalismo não se destrói por si mesmo. Se não for confrontado por alternativas distintas — que inaugurem um novo ciclo político e econômico, que levem a rupturas do sistema — ele encontra sempre saídas, embora provocando maiores desastres econômicos, sociais e políticos, para prosseguir com seu processo de expansão. A profundidade da crise é o fator objetivo, imprescindível à mudança radical, revolucionária. Mas se o fator subjetivo mudancista ou revolucionário, que é decisivo, não atua no sentido de nova condução, de novo ciclo, não haverá mudança nem revoluçãoâ€.

A crise está aí. Decisivo, no entanto, o fator subjetivo, a luta dos trabalhadores no campo econômico, político e ideológico. Luta que ganha maior potência se unida e organizada.

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Quem gosta de ingnorãça é intelequituau burgueis

sexta-feira, maio 20th, 2011

A compra e distribuição, pelo Ministério da Educação, do livro “Por uma vida melhorâ€, de autoria de Heloísa Ramos, deu motivo para analistas e comentaristas conservadores e reacionários hostilizarem o governo. A indignação causada pela adoção no ensino público de uma obra que buscar validar erros gramaticais crassos foi utilizada para atacar o MEC e até o ex-presidente Lula, por sua falta de escolaridade.

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Houve quem, preocupado em defender o governo da sanha direitista, golpeou a mídia pelas suas também constantes agressões à língua pátria e acabou dando aval à cartilha. “Por uma vida melhor†ensina, com todas as letras: “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro?’.’ Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico.†Ora, não cabe a um livro destinado ao ensino do uso correto da língua dizer que o aluno pode falar errado. Pode não! Ele será entendido, se assim falar, mas estará falando errado – e está na aula de Português para aprender a ler, escrever e falar corretamente. Se alguém o corrigir, não estará sendo preconceituoso, mas auxiliando-o a sair do erro.

Em seguida, ao exemplificar as falas “Nós pega o peixe†e “Os menino pega o peixeâ€, a cartilha, além de não dar a forma correta, confunde o estudante: “Nos dois exemplos, apesar de o verbo estar no singular, quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de falaâ€. Ou seja, tudo pode, desde que o falante domine as duas variedades (norma culta e a “norma popularâ€). Indubitavelmente, a autora revela preconceito linguístico, ao achar que a população deve falar errado, sob o risco de confundir-se com as “classes sociais que têm mais escolarização†e, “por uma questão de prestígioâ€, falam corretamente – sim, isso está escrito no “Por uma vida melhorâ€.

A crer-se que a autora faz o que escreve, quando vai à feira rebaixa seu linguajar para pedir “O Japa, me dá umas garapa e dois pastéu de boi raladoâ€, mas, num vernissage de obras conceituais, empina o nariz, estica o minguinho e solicita “Garçom, por favor, sirva-me um caldo de cana acompanhado de um pastel de carne  E aí, de quem é o preconceito?

Até a Maria Helena Rubinato de Sousa, filha do autor do Samba do Arnesto, Adoniran Barbosa, reproduziu no seu blog uma crítica, de Carlos Eduardo Novaes, infelizmente com certo viés direitista, registrando que “no meu modexto entender a linguajem horal é para sair pela boca e não para ser botada no papel. A palavra impreça deve obedecer o que manda a Gramáticaâ€.

Com mais sobriedade, a Academia Brasileira de Letras registrou o empenho do MEC em melhorar o nível do ensino escolar no país, mas pontificou: “Todas as feições sociais do nosso idioma constituem objeto de disciplinas científicas, mas bem diferente é a tarefa do professor de Língua Portuguesa, que espera encontrar no livro didático o respaldo dos usos da língua padrão que ministra a seus discípulos, variedade que eles deverão conhecer e praticar no exercício da efetiva ascensão social que a escola lhes proporciona. A posição teórica dos autores do livro didático que vem merecendo a justa crítica de professores e de todos os interessados no cultivo da língua padrão segue caminho diferente do que se aprende nos bons cursos de Teoria da Linguagemâ€.

Na sociedade – e no governo – existem correntes de pensamento que, para mostrar sua simpatia ou engajamento com os setores mais explorados ou sofridos da população,  buscam a identidade com eles e aproximam-se do seu modo de comportamento e fala. Pior, há os que acham que esses setores devem ser mantidos na sua “pureza†– os índios, no neolítico; os ignorantes, no seu falar “exóticoâ€, popular…

Já Marx enfrentou esse problema quando, numa reunião do Comitê de Correspondência Comunista, em 1846, debatendo com Wilhelm Weitling, um alfaiate que queria atuar no movimento operário usando um linguajar messiânico cristão, bateu na mesa e gritou: “A ignorância nunca ajudou ninguém até hoje!†É conhecido o enfrentamento de Lênin com os “amigos do povo†que, não raro, obstaculizavam a luta pelo socialismo.

Estamos no século XXI. Ãndio não precisa de apito, mas de condição digna de vida e internet com banda larga; trabalhadores não se satisfazem com o macacão roto e a cachaça de má qualidade, mas anseiam por inclusão social e cultural. Para isso, carecem de ensino público de qualidade, e não populista. “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”, ensinou Joãosinho Trinta, em português escorreito, para quem quiser ler, ouvir e bem entender.

Sejamos beletristas, também no twitter: @Carlopo

 

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