Nem tudo que é novo é revolucionário, nem toda regra é reacionária
A opinião que expressei sobre a cartilha “Por uma vida melhorâ€, de HeloÃsa Ramos, animou várias leitoras pacientes e leitores severos a se manifestarem. Fizeram comentários com respeito e graça. Agradeço aos que gostaram, quero explanar melhor minhas opiniões aos que discordaram – não com a pretensão de mudar-lhes as convicções, mas de evitar possÃveis mal-entendidos.
A escola é, ou deveria ser, lugar de formação do cidadão, de transmissão de conhecimentos, de contato com a ciência, de apreciação do belo. Paulo Freire dizia que “o ser cidadão é o ser polÃtico, capaz de questionar, criticar, reivindicar, participar, ser militante e engajado, contribuindo para a transformação de uma ordem social injusta e excludente.â€
No caso da aprendizagem da lÃngua, a escola deve ampliar o universo linguÃstico do aluno, auxiliá-lo a adquirir um bom vocabulário e a combinar adequadamente as palavras. Saber expressar os próprios pensamentos e opiniões é fundamental para o exercÃcio da cidadania e, também, para a ascensão social. Em “Vidas Secasâ€, Graciliano Ramos registra o sofrimento de Fabiano por não dominar as palavras.
Muitos dos nossos melhores jornalistas não tiveram curso superior, mas exploravam os recursos da lÃngua, seja para expressar o vocabulário popular, seja para fazer-se entender por leitores da mais variada formação escolar. Autores como Guimarães Rosa e Mário de Andrade registraram em suas obras o falar popular, mas nem por isso prescindiram das regras gramaticais.
A fala e a escrita são modalidades diferentes da lÃngua, mas pertencem ao mesmo sistema. E a lÃngua padrão – a que deve ser ensinada na escola – favorece que um interlocutor distante no tempo e no espaço compreenda a mensagem escrita. Há a fala mais descontraÃda, numa conversa de botequim ou em casa; mas há também a mais planejada, numa apresentação ou entrevista para emprego. Na escola, e na vida, é preciso o conhecimento de ambas. Se ao professor cabe respeitar as diferenças de linguagem, cabe-lhe também ensinar a escrever e falar bem, com correção e elegância. Para isso, capÃtulos da gramática, como concordância, regência, formação de plural, normas da acentuação, conjugação verbal etc. não são um engessamento, mas uma ferramenta.
Estudante, tenha a idade que tiver, deve ter abertos para si novos horizontes na prática da escrita e da oralidade. Quando ler o Cebolinha tlocando letlas, saberá que a grafia adotada por MaurÃcio de Souza é para registrar o problema de fala do garoto, e não que essas grafia e pronúncia são as corretas. Dominar o idioma exige empenho, estudo, trabalho – não é um ato espontâneo. Requer memória e raciocÃnio. “Todo o começo é difÃcil — isto vale em qualquer ciênciaâ€, indicou Marx, que escrevia em alemão, grego, inglês, francês e russo, respeitando as regras de cada idioma.
O livro de HeloÃsa Ramos é didático, e não de linguista ou para linguistas. Ninguém fala em preconceito verbal quando os professores de inglês ensinam “The book is on the tableâ€, mas haveria justa reclamação se ensinassem “The books is on the tables†(Os livros está nas mesas). E não é considerado discriminação se o mestre emendar os alunos que disserem “We is the Worldâ€, afirmando que “o certo é We are the World†(Nós somos o mundo).
Como escreveu em carta aberta ao ministro da Educação um professor de BrasÃlia, lÃngua não se constrói por decreto, mas se organiza a partir de um. Há de se ter uma organização e, mais ainda, há de se propagar, por todo o paÃs, o modo CORRETO de se escrever, para que TODOS os brasileiros tenham chance de construir uma carreira como advogado, até chegar ao ponto máximo dela – ministro do Supremo Tribunal Federal.
Machado de Assis, que não tinha diploma, mas tinha sabedoria e conhecimento e era cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crÃtico e ensaÃsta, ensinou-nos: “A influência popular tem um limite; e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razãoâ€. Vale para 1872, quando foi escrito, e vale também para hoje, adicionando, ao escritor, o comunicador e o professor.
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã,
versou Carlos Drummond de Andrade, mestre da lÃngua que sabia como, inclusive, ferir dogmas gramaticais, quando tinha (e não “haviaâ€) uma pedra no caminho.
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