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Legenda: The book is on the table, obra de Guto Lacaz

sexta-feira, maio 27th, 2011

Nem tudo que é novo é revolucionário, nem toda regra é reacionária

A opinião que expressei sobre a cartilha “Por uma vida melhorâ€, de Heloísa Ramos, animou várias leitoras pacientes e leitores severos a se manifestarem. Fizeram comentários com respeito e graça. Agradeço aos que gostaram, quero explanar melhor minhas opiniões aos que discordaram – não com a pretensão de mudar-lhes as convicções, mas de evitar possíveis mal-entendidos.

A escola é, ou deveria ser, lugar de formação do cidadão, de transmissão de conhecimentos, de contato com a ciência, de apreciação do belo. Paulo Freire dizia que “o ser cidadão é o ser político, capaz de questionar, criticar, reivindicar, participar, ser militante e engajado, contribuindo para a transformação de uma ordem social injusta e excludente.â€
No caso da aprendizagem da língua, a escola deve ampliar o universo linguístico do aluno, auxiliá-lo a adquirir um bom vocabulário e a combinar adequadamente as palavras. Saber expressar os próprios pensamentos e opiniões é fundamental para o exercício da cidadania e, também, para a ascensão social. Em “Vidas Secasâ€, Graciliano Ramos registra o sofrimento de Fabiano por não dominar as palavras.
Muitos dos nossos melhores jornalistas não tiveram curso superior, mas exploravam os recursos da língua, seja para expressar o vocabulário popular, seja para fazer-se entender por leitores da mais variada formação escolar. Autores como Guimarães Rosa e Mário de Andrade registraram em suas obras o falar popular, mas nem por isso prescindiram das regras gramaticais.
A fala e a escrita são modalidades diferentes da língua, mas pertencem ao mesmo sistema. E a língua padrão – a que deve ser ensinada na escola – favorece que um interlocutor distante no tempo e no espaço compreenda a mensagem escrita. Há a fala mais descontraída, numa conversa de botequim ou em casa; mas há também a mais planejada, numa apresentação ou entrevista para emprego. Na escola, e na vida, é preciso o conhecimento de ambas. Se ao professor cabe respeitar as diferenças de linguagem, cabe-lhe também ensinar a escrever e falar bem, com correção e elegância. Para isso, capítulos da gramática, como concordância, regência, formação de plural, normas da acentuação, conjugação verbal etc. não são um engessamento, mas uma ferramenta.
Estudante, tenha a idade que tiver, deve ter abertos para si novos horizontes na prática da escrita e da oralidade. Quando ler o Cebolinha tlocando letlas, saberá que a grafia adotada por Maurício de Souza é para registrar o problema de fala do garoto, e não que essas grafia e pronúncia são as corretas. Dominar o idioma exige empenho, estudo, trabalho – não é um ato espontâneo. Requer memória e raciocínio. “Todo o começo é difícil — isto vale em qualquer ciênciaâ€, indicou Marx, que escrevia em alemão, grego, inglês, francês e russo, respeitando as regras de cada idioma.
O livro de Heloísa Ramos é didático, e não de linguista ou para linguistas. Ninguém fala em preconceito verbal quando os professores de inglês ensinam “The book is on the tableâ€, mas haveria justa reclamação se ensinassem “The books is on the tables†(Os livros está nas mesas). E não é considerado discriminação se o mestre emendar os alunos que disserem “We is the Worldâ€, afirmando que “o certo é We are the World†(Nós somos o mundo).
Como escreveu em carta aberta ao ministro da Educação um professor de Brasília, língua não se constrói por decreto, mas se organiza a partir de um. Há de se ter uma organização e, mais ainda, há de se propagar, por todo o país, o modo CORRETO de se escrever, para que TODOS os brasileiros tenham chance de construir uma carreira como advogado, até chegar ao ponto máximo dela – ministro do Supremo Tribunal Federal.
Machado de Assis, que não tinha diploma, mas tinha sabedoria e conhecimento e era cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, ensinou-nos: “A influência popular tem um limite; e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razãoâ€. Vale para 1872, quando foi escrito, e vale também para hoje, adicionando, ao escritor, o comunicador e o professor.
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã,
versou Carlos Drummond de Andrade, mestre da língua que sabia como, inclusive, ferir dogmas gramaticais, quando tinha (e não “haviaâ€) uma pedra no caminho.

Continuemos vivendo e aprendendo também no twitter: @Carlopo

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Quem gosta de ingnorãça é intelequituau burgueis

sexta-feira, maio 20th, 2011

A compra e distribuição, pelo Ministério da Educação, do livro “Por uma vida melhorâ€, de autoria de Heloísa Ramos, deu motivo para analistas e comentaristas conservadores e reacionários hostilizarem o governo. A indignação causada pela adoção no ensino público de uma obra que buscar validar erros gramaticais crassos foi utilizada para atacar o MEC e até o ex-presidente Lula, por sua falta de escolaridade.

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Houve quem, preocupado em defender o governo da sanha direitista, golpeou a mídia pelas suas também constantes agressões à língua pátria e acabou dando aval à cartilha. “Por uma vida melhor†ensina, com todas as letras: “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro?’.’ Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico.†Ora, não cabe a um livro destinado ao ensino do uso correto da língua dizer que o aluno pode falar errado. Pode não! Ele será entendido, se assim falar, mas estará falando errado – e está na aula de Português para aprender a ler, escrever e falar corretamente. Se alguém o corrigir, não estará sendo preconceituoso, mas auxiliando-o a sair do erro.

Em seguida, ao exemplificar as falas “Nós pega o peixe†e “Os menino pega o peixeâ€, a cartilha, além de não dar a forma correta, confunde o estudante: “Nos dois exemplos, apesar de o verbo estar no singular, quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de falaâ€. Ou seja, tudo pode, desde que o falante domine as duas variedades (norma culta e a “norma popularâ€). Indubitavelmente, a autora revela preconceito linguístico, ao achar que a população deve falar errado, sob o risco de confundir-se com as “classes sociais que têm mais escolarização†e, “por uma questão de prestígioâ€, falam corretamente – sim, isso está escrito no “Por uma vida melhorâ€.

A crer-se que a autora faz o que escreve, quando vai à feira rebaixa seu linguajar para pedir “O Japa, me dá umas garapa e dois pastéu de boi raladoâ€, mas, num vernissage de obras conceituais, empina o nariz, estica o minguinho e solicita “Garçom, por favor, sirva-me um caldo de cana acompanhado de um pastel de carne  E aí, de quem é o preconceito?

Até a Maria Helena Rubinato de Sousa, filha do autor do Samba do Arnesto, Adoniran Barbosa, reproduziu no seu blog uma crítica, de Carlos Eduardo Novaes, infelizmente com certo viés direitista, registrando que “no meu modexto entender a linguajem horal é para sair pela boca e não para ser botada no papel. A palavra impreça deve obedecer o que manda a Gramáticaâ€.

Com mais sobriedade, a Academia Brasileira de Letras registrou o empenho do MEC em melhorar o nível do ensino escolar no país, mas pontificou: “Todas as feições sociais do nosso idioma constituem objeto de disciplinas científicas, mas bem diferente é a tarefa do professor de Língua Portuguesa, que espera encontrar no livro didático o respaldo dos usos da língua padrão que ministra a seus discípulos, variedade que eles deverão conhecer e praticar no exercício da efetiva ascensão social que a escola lhes proporciona. A posição teórica dos autores do livro didático que vem merecendo a justa crítica de professores e de todos os interessados no cultivo da língua padrão segue caminho diferente do que se aprende nos bons cursos de Teoria da Linguagemâ€.

Na sociedade – e no governo – existem correntes de pensamento que, para mostrar sua simpatia ou engajamento com os setores mais explorados ou sofridos da população,  buscam a identidade com eles e aproximam-se do seu modo de comportamento e fala. Pior, há os que acham que esses setores devem ser mantidos na sua “pureza†– os índios, no neolítico; os ignorantes, no seu falar “exóticoâ€, popular…

Já Marx enfrentou esse problema quando, numa reunião do Comitê de Correspondência Comunista, em 1846, debatendo com Wilhelm Weitling, um alfaiate que queria atuar no movimento operário usando um linguajar messiânico cristão, bateu na mesa e gritou: “A ignorância nunca ajudou ninguém até hoje!†É conhecido o enfrentamento de Lênin com os “amigos do povo†que, não raro, obstaculizavam a luta pelo socialismo.

Estamos no século XXI. Ãndio não precisa de apito, mas de condição digna de vida e internet com banda larga; trabalhadores não se satisfazem com o macacão roto e a cachaça de má qualidade, mas anseiam por inclusão social e cultural. Para isso, carecem de ensino público de qualidade, e não populista. “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”, ensinou Joãosinho Trinta, em português escorreito, para quem quiser ler, ouvir e bem entender.

Sejamos beletristas, também no twitter: @Carlopo

 

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