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Eu vi a Semana da Pátria na ditadura

segunda-feira, setembro 5th, 2011

Com a chegada de mais uma Semana da Pátria, lembrei-me de uma canção que entoávamos no grupo escolar, nos anos 60 do século passado. “Sete de Setembro, data tão festiva, foi a Independência desta terra tão querida  e por aí seguia. Já não lembro o resto.  Sob o regime militar, na escola éramos doutrinados no patriotismo e anticomunismo, respeito e não questionamento das autoridades, e no cristianismo, pois o maior país católico do mundo era parte integrante da “Civilização Cristã Ocidentalâ€.

Éramos alfabetizados usando a cartilha Caminho Suave, elaborada pela professora Branca Alves de Lima, em 1948, cheia de ilustrações. Para aprender a letra B, por exemplo, éramos informados: “Eu vejo a barriga do bebêâ€. Semanalmente, éramos reunidos no pátio, em fila, para cantar o Hino Nacional e ouvir um discurso patriótico do diretor da escola. Na véspera dos dias de comemoração cívica (21 de Abril, 7 de Setembro, 15 de Novembro) era hasteada a bandeira e cantado o Hino Nacional. Alguma autoridade pública ou militar aparecia para uma peroração às crianças e o padre ou o bispo católico (nunca um integrante de outra seita religiosa, todas consideradas satânicas) deitava sua pregação em nossas cabecinhas. Prometia-nos o Reino no Céu se fôssemos cordeiros de Deus. Ameaçava-nos com o inferno se fôssemos desobedientes aos pais, professores e autoridades. Em seguida, marchávamos (isso mesmo, marchávamos) para a sala de aula.

Não sei como é hoje comemorada, se o é, a Semana da Pátria nas escolas. A democracia foi reconquistada, as escolas não são militarizadas e não existe censura a livros (já no fim da minha passagem pelo ensino escolar, ainda havia livros proibidos, por tratarem de política ou sexo, que, é claro, líamos, mas escondíamos a capa) e manifestações artísticas são liberadas. É muito valorizada a formação do cidadão participante, embora eu desconheça como ela de fato se dá nos estabelecimentos de ensino. O cristianismo continua sendo pregado usando espaços públicos, principalmente o católico, mas não mais exclusivamente ele.

Caminho Suave não é mais adotado no ensino público, alguns estabelecimentos privados ainda o usam. Os responsáveis pela escolha dos livros no Ministério da Educação consideraram que a repetição dos exercícios adotada era tediosa para as crianças e a cartilha não levava em conta os conhecimentos dos alunos na vida pré-escolar. Ela nos contava que “Eva viu a uvaâ€, mas a escola não nos informava que Eva também tinha comido o fruto do conhecimento, gostado e iniciado Adão nessa gula. Em todo caso, numa época em que a população morava majoritariamente no campo e em cidades pequenas e que muitas casas tinham quintais, o livrinho de Branca Alves de Melo (por sinal, este ano é o centenário de seu nascimento) reproduzia este poema que tinha correspondência com o que muitos de nós vivíamos:

Casa Pequenina

Uma casa na colina,

Pequenina Amarela,

Um quartinho, uma cozinha

E gerânios na janela.

 

Ciscando lá no terreiro

Um galo, um peru e um pato

E o céu azul espelhado

Na água mansa do regato.

 

Muito verde em toda a volta,

Trepadeiras na cancela,

Uma mãe e uma criança

Completando a aquarela.

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Os estudantes entre a cruz e o crucifixo

sexta-feira, julho 1st, 2011

Projeto de lei nº 256, apresentado no dia 5 de abril pelo deputado Orlando Morando (PSDB) na Assembléia Legislativa de São Paulo, quer tornar obrigatória a exibição de crucifixo nas escolas públicas. Mais uma investida religiosa nestes tempos de renascimento obscurantista.

Joana D´Arc na fogueira – bons tempos, ein?

O tucano pretende decretar: “Artigo 1º – Os estabelecimentos de ensino do Estado de São Paulo deverão fixar crucifixo no interior de suas instalações.

Parágrafo único – o crucifixo a que se refere o caput deste artigo deverá ser mantido  em local e em tamanho de fácil visualização, em área de circulação.

Artigo 2º – As despesas decorrentes da execução desta lei correrão à conta das dotações orçamentárias próprias consignadas no orçamento vigenteâ€.

Apesar da evidência de impor uma seita, o cristianismo, aos estudantes paulistas, o deputado diz que não pretende contrapor-se “ao estado laicoâ€.  Considera, ó bondade!, que a liberdade religiosa “deve pautar as normas legais das sociedades modernas, inclusive com tolerância até mesmo†(uau!) “do ateísmoâ€, mas não quer “permitir que o sentimento de minorias imponha normas a serem seguidas pela grande maioria das pessoasâ€.

Dez dias depois, o deputado Gilmaci Santos, do PRC, propôs um substitutivo ao projeto de lei, trocando seis por meia dúzia: sai a palavra crucifixo, entra a palavra cruz. Na sua compreensão, “a cruz denota um signo de relação com Deus de maneira a não fazer distinção entre as religiões†(que o digam os judeus com sua Estrela de Davi) “nem ferir a liberdade religiosa do cidadãoâ€, enquanto “o crucifixo é uma marca de uma das religiões presentes em território nacional — o catolicismoâ€. Aliás, a deputada carioca Myrian Rios (PDT), católica da corrente Canção Nova, também trata dessa distinção entre cruz e crucifixo. Diz ela: “se a cruz é o símbolo perfeito  do problema da dor, o Crucifixo então é a sua solução. A diferença entre a cruz e o crucifixo é Cristoâ€.

Então, tá. Fica combinado: a maioria vai impor normas e cultos que devem ser seguidos por todas as pessoas. A Europa e suas colônias já foram assim, na Idade Média, quando, em nome da “maioria das pessoas†aduladas pelo deputado, judeus e pagãos eram queimados em praça pública, em cerimônias comandadas pelo clero com o crucifixo, ou a cruz, em punho.

O avanço do obscurantismo religioso nas escolas tem defensores em todos os parlamentos brasileiros. É uma realidade ameaçadora. Como alerta o professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e filósofo Paulo Ghiraldelli Jr: “Estamos dando diplomas de professores, na universidade pública, para pessoas que não pensam de maneira racional. Elas são cativas dessas igrejas. Logo teremos uma mentalidade mística em cargos importantes da República. Gente incapaz de entender como funciona mecanismos de inflação ou como que é possível evitar a dengue. Será difícil fazer do país uma grande nação com esse tipo de mão de obra, completamente imbecilizada. Estamos confundindo liberdade religiosa com condescendência à burrice. Temo que paguemos todos, de modo drástico, por esse nosso descuido. Esse descuido de nossas universidades para com a evolução da barbárie embaixo de nossos narizesâ€.

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