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Marighella e a religião

segunda-feira, dezembro 5th, 2011

Dia 5 de dezembro marca o centenário de nascimento de Carlos Marighella, assassinado durante o regime militar. Importante dirigente do Partido Comunista, ele foi deputado constituinte em 1946. Na sessão do dia 4 de julho daquele ano, quando estava em discussão a liberdade de culto no país, o parlamentar baiano fez um longo pronunciamento, publicado depois pela revista Problemas com o título “A Religião, o Estado, a Famíliaâ€. Em modesta homenagem a esse herói brasileiro, que dedicou a vida à causa do socialismo e do progresso, reproduzo trechos do discurso:

Hoje, coube-me a honra de debater, em nome da minha bancada, o ponto a que acabo de referir-me — a separação da Igreja do Estado.

Assim como nem sempre existiu união da Igreja com o Estado, nem a sua separação, é necessário acentuar que o Estado também nem sempre existiu. É que o Estado não é senão a resultante dos antagonismos de classes; e, mais, é a instituição que visa refrear esses mesmos antagonismos. Como instrumento de domínio de classes, tem ele de valer-se de todos os meios para impor a vontade das classes dominantes sobre as dominadas.

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Carteira de filiação de Marighella no Partido Comunista

Imposto, polícia, cadeia, tribunal, são como que os quatro pontos cardeais do Estado, instrumento de dominação de classes. E não deixa, também, de valer-se de um outro meio, exatamente a religião.

Lenin afirmava — e tenho de citar Lenin porque estou fazendo a demonstração de uma tese materialista-dialética: “A religião é um aspecto da opressão espiritual que pesa sempre e por toda a parte sobre as massas populares submetidas pelo trabalho perpétuo em proveito de outrem, pela miséria e a solidão. A fé em uma vida melhor, no além, nasce, inevitavelmente, da impotência das classes exploradas contra os exploradores tanto quanto a crença nas divindades, nos diabos, nos milagres etc. . . nasce da impotência do selvagem em luta contra a natureza”.

Quer dizer: a religião adormece, a religião faz que os explorados não se possam erguer contra os seus exploradores, a não ser quando se tornam cientes da própria exploração e adquirem a consciência da classe. Mas, assim como a religião era utilizada pelo Estado, a Igreja o foi. O mesmo aconteceu com o Cristianismo. Entretanto, como a tese que procuro demonstrar é de que o Estado nem sempre se tem mantido ligado à Igreja e à religião, faz-se mister, no estudo do início do Cristianismo, observar que este representou uma religião de deserdados, de escravos e, por isso mesmo, se opôs ao Estado durante muito tempo.

Era de Kautsky, ao tempo em que era marxista, a seguinte interpretação: “A igreja cristã tem sido uma organização de domínio, ora no interesse de seus próprios dignitários, ora no interesse dos dignitários de outra organização, o Estado, onde este conseguiu obter o controle da igreja. Quem batesse estes poderes teria também que bater a Igreja. A luta pela Igreja, bem como a luta contra a Igreja, tem sido, por conseguinte, uma causa de partido, à qual se acham ligados os mais importantes interesses econômicos”.

Nós, comunistas, sabemos respeitar as religiões; somos pela liberdade completa de consciência e não desejamos, de forma alguma, que essa liberdade seja utilizada pelos dominadores, pelos fascistas, pelos reacionários, pelos senhores feudais para acorrentar o nosso povo, miseravelmente, como o têm feito.

Não combatemos religiões, porque não seria útil, proveitoso, nem mesmo científico, visto como a religião só desaparecerá quando desaparecerem os antagonismos de classe. É necessário compreender que, hoje, todo o povo sofre sem que seus dominadores se lembrem de procurar ver se os que estão sendo explorados são católicos, positivistas, teosofistas, ateus, ou pertencem a qualquer outro credo religioso. O patrão, capitalista explorador, não paga melhor salário a seus operários, porque se trata de um católico se a religião desse patrão antiprogressista é a católica. O sistema de exploração é o mesmo. A única divisão que se pode fazer no seio da sociedade é realmente entre os explorados e os exploradores.

Daí, Senhores Constituintes, a posição do Partido Comunista em querer lutar, com todas as forças da Democracia, como Partido democrata que é, para garantir, no Brasil, a liberdade de consciência, respeitando-se todos os credos, fazendo que se não estabeleça privilégio de um credo sobre os demais, ou não se recorra a essa situação, no sentido de impedir a liberdade democrática e acorrentar mais ainda a nossa gente.

Assim, Sr. Presidente, dentro de nossa tese materialista dialética, interpretamos a separação entre a Igreja e o Estado não considerando de maneira alguma entre eles união eterna, mas vendo tudo em movimento e ligando sempre esses fenômenos às condições materiais de vida, às relações de produção, porque religião não é coisa que tenha proporcionado a existência do homem e, sim, porque a vida deste é que faz a religião. Quanto ao Estado, como nem sempre existiu, também não poderia ser dado aqui como coisa estática que tivesse sua existência sempre ligada à Igreja ou à religião.

Se marchamos para a democracia, se estamos sinceramente devotados a respeitar a opinião de nosso povo e acatar a realidade, é preciso considerar que a liquidação do monopólio da terra é o primeiro passo para chegarmos à democracia a que aspiramos. Mas também não existirá democracia, em hipótese nenhuma, sem a liberdade de culto, sem o casamento civil — casamento civil sem nenhuma intromissão da religião, — sem o ensino leigo e sem o divórcio.

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Padre Marcel em guerra com os bichanos

segunda-feira, outubro 17th, 2011

Ao convocar suas ovelhas para uma missa celebrando Francisco de Assis, que os cristãos creem ser protetor dos animais e da natureza, o padre Marcelo Rossi pediu que seus seguidores não levassem animais ao seu templo. Os que quisessem que o religioso  abençoasse seus bichos de estimação, que os deixassem ao lado de um rádio sintonizado na cerimônia. Mas fez uma exceção, o pregador de orações medievais: “menos os traiçoeiros gatosâ€

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Deusa e gato: há quem não goste

Desta feita, mais que suspiros de algumas mocinhas e garotos, beatas e beatos, o padre pop provocou a indignação, em especial de pessoas que têm nos gatos o animal de estimação preferido. Até uma petição pedindo retratação pública do religioso, que pode ser assinada aqui: http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N15010.

Assim como sua fé em divindades, a ojeriza do sacerdote aos gatos também tem sua origem no misticismo que acompanha a humanidade, na busca de melhor compreender o mundo em que existimos. No caso de gato, há milhares de anos inspira apreço ou aversão. Tanto o Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, quanto O grande livro dos símbolos, de Jack Tresidder, tributam essa relação passional à atribuição ao felino de características humanas.

Atuação furtiva, clarividência, desconfiança e poder de transformação (por dilatar as pupilas, desembainhar ou esconder as garras, mudança repentina de comportamento), agilidade, vigilância, sensualidade, malícia, liberdade (por sua capacidade de locomoção mesmo em lugares inóspitos), dentre outros, são qualidades imputadas aos felídeos.

No Egito, Bastet, com seu corpo de mulher e cabeça felina, era a deusa da fertilidade, protetora das mulheres grávidas, associada ao prazer, fertilidade e proteção. Freia, deusa nórdica da do sexo e da sensualidade, fertilidade, do amor, da beleza e da atração, da luxúria, da música e das flores, mãe da dinastia de Vanir, em algumas representações é puxada, numa carruagem, por gatos, ou tem um gato aos seus pés. Para a tribo pawnee, norte-americana, o gato é sagrado e representa a sagacidade, só podendo ser morto com finalidade religiosa. Já na Ãfrica Central, algumas tribos ainda fabricam sacolas de remédios exclusivamente com pele de gato – os brasileiros, musicais, preferem sua pele para tamborim. Na China antiga, era animal benfazejo; no Camboja, são engaiolados e levados de casa em casa, em procissão, no período de seca, para atrair chuva. Para alguns povos árabes, são Djins, entidades superiores aos homens, mas inferiores aos anjos, podendo ser benéficos ou maléficos. Entre os mulçumanos, são benéficos, desde que não sejam pretos. Na Cabala e no budismo indicam o pecado, o abuso dos bens terrestres – aliás, os budistas dizem que os gatos e as serpentes foram os únicos animais que não lamentaram a morte de Buda.

Quando preto, o gato é mais associado ao mal, à obscuridade, à morte. No Japão, indicam mau augúrio (crença também de muitos povos ocidentais) e podem tomar a forma de mulher. Há quem sugira que essa crença nipônica estaria na gênese de mulheres bonitas, sensuais e atraentes serem chamadas de gatas. Os ingleses têm a expressão cat-o’-nine-tails para significar mulher rancorosa, malévola, e an old cat, gata velha, para designar pessoa falsa.

Não faltam mitologias para explicar os arrepios que o gato causa no pastor católico. No Antigo Testamento, numa de seus muito acessos de fúria contra a humanidade, Deus maldiz uma região onde “se encontrarão cães e gatos selvagens, e os sátiros chamarão uns pelos outros; espectro noturno frequentará esses lugares e neles encontrará o seu repouso†(Isaías, 34, 14). Em  Baruc 6,21, Jeremias, em carta aos deportados para a Babilônia, narra que Deus, sempre ciumento e invejoso, fará com que gatos saltem sobre o as estatuetas de outros deuses.  Na Idade Média, quando o terror da Igreja Católica era a lei, o gato era perseguido, identificado com as bruxas que tanto atemorizavam e concorriam com o clero com suas poções medicinais.

Se o sacerdote-cantor realmente acredita na realidade de seus mitos, que se acautele, portanto. Como diz a plebe ignara e rude, “cara de beato, unha de gatoâ€.

Sejamos gatos pretos e de todas as cores também no twitter: @Carlopo

 

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