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Doutrinação religiosa em escola pública vai ao STF

segunda-feira, agosto 22nd, 2011

No jardim de infância da quadra 404 Norte, em Brasília, as crianças são reunidas para rezar antes das aulas. Alguns pais reclamaram da atitude, mas outros fizeram um abaixo-assinado para manter o que é considerado uma “tradição” na escola. A Lei de Diretrizes e Bases prevê educação religiosa apenas nos ensinos fundamental e médio e, mesmo assim, como matéria facultativa.

De acordo com a diretora da Regional de Ensino, Roberta Callaça, a escola fazia as orações descumprindo a lei e a orientação da secretaria. A oração foi suspensa por dois dias, mas as professoras voltaram a reunir as crianças antes da aula. Flagradas, disseram que não estavam orando, mas fazendo as crianças se darem as mãos, em círculo, “para agradecimentosâ€. Almas pias e puras aceitaram a explicação, talvez considerando que os agradecimentos eram aos pagadores de impostos e ao governo, por oferecerem escolas públicas. Mas gente de má fé acredita que as crianças estavam mesmo sendo doutrinadas em alguma seita cristã e seis escolas do Plano Piloto, inclusive essa, foram denunciadas à Secretaria de Educação, em agosto, por misturar religião com educação.

Legenda: Estariam agradecendo ao Estado a escola pública?

Já no Rio de Janeiro, um aluno de 13 anos, filho de Andrea Ramito, foi expulso da sala de aula pela professora de português, que é evangélica, aos xingos de “demônio†e “filho do capetaâ€. Isso aconteceu há 3 anos e a mãe aguarda, até hoje, o julgamento no Tribunal de Justiça. Andrea é adepta do candomblé e seu filho usava colares de contas por debaixo do uniforme. Isso irritou a, digamos assim, “mestra†que devia abrir-lhe os caminhos, mistérios, desafios e benesses que podem ser ofertados pelo domínio da língua natal.

A pesquisadora Denise Carrera conheceu casos parecidos de intolerância religiosa em escolas da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo ela, que é ligada à Plataforma de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca Brasil), “a intolerância religiosa no Brasil se manifesta principalmente contra as pessoas vinculadas às religiões de matriz africanaâ€, historicamente demonizadas pelos cristãos. Na sua opinião, a discriminação “afeta a construção da autoestima positiva no ambiente escolar e isso mina o processo de aprendizagem porque ele se alimenta da afetividade, da capacidade de se reconhecer como alguém respeitado em um grupoâ€.

Duas ações diretas de inconstitucionalidade foram encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal (STF) questionando o espaço da religião dentro da escola. A vice-procuradora Deborah Duprat é autora de uma das ações e explica seu objetivo: “A nossa Constituição tem dois dispositivos: um, que existe desde 1890, determina que o Estado é laico. A laicidade é um princípio que vem desde o início da República. Outro dispositivo prevê a oferta de ensino religioso em caráter facultativo. Então é preciso compatibilizar esses dois dispositivos. Também a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) tem uma cláusula prevendo a oferta, em caráter facultativo, do ensino religioso, mas ela diz claramente que está vedado qualquer tipo de proselitismo. No Direito existe o princípio da unidade da Constituição: não existem dispositivos antagônicos dentro dela, você precisa compatibilizá-los. Para isso você tem que fazer a leitura que a ação pretende que se faça: o Estado é laico e, quando fala na possibilidade de previsão da oferta de ensino religioso em caráter facultativo nas escolas, tem que ser ensino religioso necessariamente não confessional (não relacionado a uma determinada confissão ou religião). Ou seja: a história, a doutrina das religiões e até a falta da religião, é preciso que essa informação seja completa. Ao lado das várias doutrinas, há também aquelas pessoas que pregam a ausência de qualquer crença, como os agnósticosâ€.

E argumenta: “A religião com esse caráter de proselitismo, confessional, priva o aluno, que é um público formado basicamente por crianças e adolescentes, da autonomia para fazer as suas escolhas essenciais, inclusive no campo da cidadania. Pretende-se que o Estado e a criança que estuda na escola fornecida por ele esteja livre desse tipo de coerção. Essa é uma questão discutida no mundo todo. Em alguns lugares, com um caráter muito mais incisivo, ao ponto de discutir laicidade e laicismo. O laicismo é um conceito que não admite nenhum tipo de cooperação do Estado com as religiões como acontece na França (que proibiu alunas muçulmanas de usar o véu nas escolas). Outros países, como os Estados Unidos, admitem algum tipo de cooperação, mas não admitem, por exemplo, que sejam fixados crucifixos nas dependências das escolas, porque entendem que a criança faz uma leitura de que aquela escola professa aquele tipo de religião e pode ser algo coercitivo para elaâ€.

O relator da ação no STF será o ministro Carlos Ayres Britto. Esperemos que seja favorável à causa e que leve em conta o que disse sua colega de Supremo, ministra Cármem Lúcia, quando sabatinada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em maio de 2006: “O cidadão já sabe que essa história de que a Justiça tarda, mas não falha não é verdadeira. Justiça que tarda, falha”.

Acompanhemos com olhos abertos a Justiça que, acreditam alguns, é cega. @Carlopo

 

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Entre a cruz e o descarrego

segunda-feira, agosto 15th, 2011

As relações dos poderes estatais (que deveriam ser laicos) favorecendo seitas religiosas não só tornaram-se comuns, como continuam avançando. Não se trata apenas da profusão de símbolos religiosos, em especial crucifixos, em instalações do Executivo, Legislativo e Judiciário.

Alguns acontecimentos recentes:

Em julho, o juiz José Brandão julgou um jovem de 18 anos que, meses antes de completar a maioridade, bateu o carro da mãe no muro da igreja da cidade, Maracás (BA). O desastrado infeliz foi condenado a assistir a missa dominical durante um mês, com registro de frequência repassado à comarca diretamente pelo pároco.

Palavras do julgador: “A intenção era fazê-lo pensar nos atos da vida. Coloquei essa ‘punição’ porque ele declarou que é católico, e mesmo a mãe do rapaz, presente à audiência, achou a medida bastante interessante – ele poderia sofrer punições até maiores. E o caso não foi algo assim tão graveâ€. Ele cogita em castigar desse modo “detentos em geral, como condição de liberdade, de orientá-los para uma religião –porque a religião sempre socializa o indivíduoâ€.

Indagado se a medida não contradiz o Estado laico, Brandão minimizou: “O juiz tem independência funcional para emitir decisões que ele entenda que tenham benefício para o indivíduo apenado, ou até à sociedade. E foi apenas uma ordem de recomendação, orientação – se ele não cumprir, não vamos dar puniçãoâ€.

Até o padre da paróquia, Sidney Marques da Silva, ficou embasbacado: “Nunca vi uma coisa assim e estou surpreso. Se eu tivesse sido consultado antes, não acolheria porque religião é algo livre, que vai da consciência da pessoa, e não imposta. Hoje a luta é por isso. E o curioso é que na época estragou mais o carro que a parede da igreja, consertada pela família (do rapaz) – que por sinal é católica, mas nem é muito praticanteâ€.

Nem só de hóstia vive o homem. Em Januária, cidade mineira de 67,2 mil habitantes, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), por meio de emenda parlamentar do deputado estadual Arlen Santiago (PTB), liberou R$ 25 mil para o Grupo Espírita Imaculada Conceição comprar um carro. “Muitas vezes, vamos em socorro de doentes na zona rural e além de levar ao hospital, damos assistência espiritual e aconselhamento”, justifica o pai de santo e vereador Ademir Batista de Oliveira (PSC), principal beneficiado da doação. A assistência espiritual a que se refere o santo homem são sessões de banhos de descarrego.

Enquanto isso, os mortais viventes somente desta vida e não de outra no Além,organizados na Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), continuam seu combate ao preconceito contra os descrentes. Até o momento, os outdoors da campanha para conscientizar a população e “tirar do armário†os ateus só podem ser encontrados em Porto Alegre (RS). Em Salvador (BA) e em São Paulo (SP), as peças foram proibidas por supostamente incitarem a violência religiosa. “Hoje, o nosso maior alvo é o Rio de Janeiroâ€, informa Daniel Sottomaior, presidente da Atea. Para ele, a recusa de empresas de ônibus a veicular a campanha ateísta em busdoors mostra que o país não está preparado para aceitar os ateus. “É só você olhar na internet que percebe esse tipo de comportamento. Se você se diz ateu, automaticamente você é satanista e estuprador de criancinhas. Existe um preconceito muito grande contra nós. No Brasil, você pode questionar a sexualidade do outro e a crença política, mas religião não se questiona de forma alguma. As pessoas parecem ter medoâ€.

Satanizemos no Twitter: @carlopo.

 

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