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Espírito e significado do Natal


19/12/2011 - 8:37 -

Desejo boas festas às gentis leitoras e pacientes leitores com estes presentes: o espírito de natal do Calvin criado (sim, há um criador!) por Bill Watterson e duas abordagens natalinas do escritor português José Saramago. Que em 2012 construamos novas vitórias e avancemos nas conquistas democráticas e sociais.

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Natalmente crônica

Vai o ano correndo manso entre noites e dias, entre nuvens e sol, e quando mal nos precatamos, chegamos ao fim, e é natal. Para incréus empedernidos como eu sou, o caso não tem assim tanta importância: é mais uma das trezentas mil datas assinaladas de que se servem inteligentemente as religiões para aferventar crenças que no passar do tempo se tornariam letra morta e água chilra. Mas o natal (tal como as primeiras andorinhas, o carnaval, o começo das aulas, e outras efemérides do estilo) está sempre à coça da atenção ou da penúria do cronista, para que se repitam, pela bilionésima vez na história da imprensa, as banalidades da ocasião: a paz na terra aos homens de boa vontade, a família, o bolo-rei, a mensagem evangélica, o ramo de azevinho, o Menino Jesus nas palhinhas, etc. etc. E o cronista, que no fundo é um pobre diabo a quem ás vezes falta o assunto, não resiste à conspiração sentimental da quadra, e bota a fala de circunstância.

Acontece porém que tenho fortes razões para não estar de bons humores, o que me permite esquivar-me desta vez, se alguma outra caí em tão ingênua fraqueza, ao jogo cúmplice do amplexo universal. De mais sei eu que na enfiada de abraços há sempre os que apertam e os que são apertados. De mais sei eu que a confiança é, em muitos casos, a armadilha que a nós próprios armamos, e para ela é que os outros nos empurram, sorrindo. Por isso, esta crônica de natal não vai passar do fala-falando que é a minha única voz possível quando haveria lugar para gritos. Mas o leitor também lá tem a sua vida, quem sabe se dura e difícil, e não há-de aceitar que eu lhe agrave as amarguras. Desculpe o desabafo.

In A bagagem do viajante.

Natal

Nem aqui, nem agora. Vã promessa

Doutro calor e nova descoberta

Se desfaz sob a hora que anoitece.

Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.

Dessa velha ilusão desenganemos:

É dia de Natal. Nada acontece

In Os poemas possíveis

O tempo continua sem solavancos no twitter: @Carlopo.

 

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Não existe fundamentalismo ateu


12/12/2011 - 9:19 -

Reproduzo a resposta de Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira dos Ateus e Agnósticos, ao artigo de integrante da Opus Dei que critica o “fundamentalismo ateu†brasileiro.

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Legenda: Sottomaior, presidente da Atea

O fundamentalismo de cada dia

Segundo Ives Gandra, em recente artigo nesta Folha (“Fundamentalismo ateu”, 24/11), existe uma coisa chamada “fundamentalismo ateu”, que empreende “guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã”. Nada disso é verdade, mas fazer os religiosos se sentirem atacados por ateus é uma estratégia eficaz para advogados da cúria romana. Com o medo, impede-se que indivíduos possam se aproximar das linhas do livre-pensamento.

É bom saber que os religiosos reconhecem o dano causado pelo fundamentalismo, mas resta deixar bem claro que essa conta não pode ser debitada também ao ateísmo.

Os próprios simpatizantes dos fundamentos do cristianismo, que pregam aderência estrita a eles, criaram a palavra “fundamentalista”. Com o tempo, ela se tornou palavrão universal. O que ninguém parece ter notado é que, se esses fundamentos fossem tão bons como querem nos fazer crer, então o fundamentalismo deveria ser ótimo!

Reconhecer o fundamentalismo como uma praga é dizer implicitamente que a religião só se torna aceitável quando não é levada lá muito a sério, ideia com que enfaticamente concordam centenas de milhões de “católicos não praticantes” e religiosos que preferem se distanciar de todo tipo de igrejas e dogmas.

Já o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses, e não tem qualquer doutrina. Por isso, fundamentalismo ateu é um oximoro: uma ficção ilógica como “círculo quadrado”.

Gandra defende uma encíclica papal dizendo que “quem não é católico não deveria se preocupar com ela”. No entanto, quando ateus fazem pronunciamentos públicos preocupa-se tanto que chama isso de “ataque orquestrado aos valores das grandes religiões”.

Parece que só é ataque orquestrado se for contra a religião. Contra o ateísmo, “não se preocupem”.

Aparentemente, para ele os ateus não têm os mesmos direitos que religiosos na exposição de ideias.

A religião nunca conviveu bem com a crítica mesmo. Já era hora de aprender. Se há ateus que fazem guerra contra cristãos, eu não conheço nenhum. Nossa guerra é contra ideias, não contra pessoas.

Os ateus é que são vistos como intrinsecamente maus e diuturnamente discriminados pelos religiosos, não o contrário. Existem processos movidos pelo Ministério Público e até condenação judicial por causa disso.

O jurista canta loas ao “respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade”, mas aqui também pratica o oposto do que prega: ele está ao lado da maioria que defende com entusiasmo que o Estado seja utilizado como instrumento de sua própria religião.

Para entender como se sente um ateu no Brasil, basta imaginar um país que dá imunidade tributária e dinheiro a rodo a organizações ateias, mas nenhum às religiosas; que obriga oferecimento de estudos de ateísmo em escolas públicas, onde nada se fala de religião.

Um país que assina tratados de colaboração com países cuja única atividade é a promoção do ateísmo; cujos eleitores barram candidatos religiosos; que ostenta proeminentes símbolos da descrença em tribunais e Legislativos (onde se começam sessões com leitura de Nietzsche) e cuja moeda diz “deus não existe”.

E depois os fundamentalistas que fazem ataque orquestrado somos nós.

 

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Marighella e a religião


05/12/2011 - 10:31 -

Dia 5 de dezembro marca o centenário de nascimento de Carlos Marighella, assassinado durante o regime militar. Importante dirigente do Partido Comunista, ele foi deputado constituinte em 1946. Na sessão do dia 4 de julho daquele ano, quando estava em discussão a liberdade de culto no país, o parlamentar baiano fez um longo pronunciamento, publicado depois pela revista Problemas com o título “A Religião, o Estado, a Famíliaâ€. Em modesta homenagem a esse herói brasileiro, que dedicou a vida à causa do socialismo e do progresso, reproduzo trechos do discurso:

Hoje, coube-me a honra de debater, em nome da minha bancada, o ponto a que acabo de referir-me — a separação da Igreja do Estado.

Assim como nem sempre existiu união da Igreja com o Estado, nem a sua separação, é necessário acentuar que o Estado também nem sempre existiu. É que o Estado não é senão a resultante dos antagonismos de classes; e, mais, é a instituição que visa refrear esses mesmos antagonismos. Como instrumento de domínio de classes, tem ele de valer-se de todos os meios para impor a vontade das classes dominantes sobre as dominadas.

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Carteira de filiação de Marighella no Partido Comunista

Imposto, polícia, cadeia, tribunal, são como que os quatro pontos cardeais do Estado, instrumento de dominação de classes. E não deixa, também, de valer-se de um outro meio, exatamente a religião.

Lenin afirmava — e tenho de citar Lenin porque estou fazendo a demonstração de uma tese materialista-dialética: “A religião é um aspecto da opressão espiritual que pesa sempre e por toda a parte sobre as massas populares submetidas pelo trabalho perpétuo em proveito de outrem, pela miséria e a solidão. A fé em uma vida melhor, no além, nasce, inevitavelmente, da impotência das classes exploradas contra os exploradores tanto quanto a crença nas divindades, nos diabos, nos milagres etc. . . nasce da impotência do selvagem em luta contra a natureza”.

Quer dizer: a religião adormece, a religião faz que os explorados não se possam erguer contra os seus exploradores, a não ser quando se tornam cientes da própria exploração e adquirem a consciência da classe. Mas, assim como a religião era utilizada pelo Estado, a Igreja o foi. O mesmo aconteceu com o Cristianismo. Entretanto, como a tese que procuro demonstrar é de que o Estado nem sempre se tem mantido ligado à Igreja e à religião, faz-se mister, no estudo do início do Cristianismo, observar que este representou uma religião de deserdados, de escravos e, por isso mesmo, se opôs ao Estado durante muito tempo.

Era de Kautsky, ao tempo em que era marxista, a seguinte interpretação: “A igreja cristã tem sido uma organização de domínio, ora no interesse de seus próprios dignitários, ora no interesse dos dignitários de outra organização, o Estado, onde este conseguiu obter o controle da igreja. Quem batesse estes poderes teria também que bater a Igreja. A luta pela Igreja, bem como a luta contra a Igreja, tem sido, por conseguinte, uma causa de partido, à qual se acham ligados os mais importantes interesses econômicos”.

Nós, comunistas, sabemos respeitar as religiões; somos pela liberdade completa de consciência e não desejamos, de forma alguma, que essa liberdade seja utilizada pelos dominadores, pelos fascistas, pelos reacionários, pelos senhores feudais para acorrentar o nosso povo, miseravelmente, como o têm feito.

Não combatemos religiões, porque não seria útil, proveitoso, nem mesmo científico, visto como a religião só desaparecerá quando desaparecerem os antagonismos de classe. É necessário compreender que, hoje, todo o povo sofre sem que seus dominadores se lembrem de procurar ver se os que estão sendo explorados são católicos, positivistas, teosofistas, ateus, ou pertencem a qualquer outro credo religioso. O patrão, capitalista explorador, não paga melhor salário a seus operários, porque se trata de um católico se a religião desse patrão antiprogressista é a católica. O sistema de exploração é o mesmo. A única divisão que se pode fazer no seio da sociedade é realmente entre os explorados e os exploradores.

Daí, Senhores Constituintes, a posição do Partido Comunista em querer lutar, com todas as forças da Democracia, como Partido democrata que é, para garantir, no Brasil, a liberdade de consciência, respeitando-se todos os credos, fazendo que se não estabeleça privilégio de um credo sobre os demais, ou não se recorra a essa situação, no sentido de impedir a liberdade democrática e acorrentar mais ainda a nossa gente.

Assim, Sr. Presidente, dentro de nossa tese materialista dialética, interpretamos a separação entre a Igreja e o Estado não considerando de maneira alguma entre eles união eterna, mas vendo tudo em movimento e ligando sempre esses fenômenos às condições materiais de vida, às relações de produção, porque religião não é coisa que tenha proporcionado a existência do homem e, sim, porque a vida deste é que faz a religião. Quanto ao Estado, como nem sempre existiu, também não poderia ser dado aqui como coisa estática que tivesse sua existência sempre ligada à Igreja ou à religião.

Se marchamos para a democracia, se estamos sinceramente devotados a respeitar a opinião de nosso povo e acatar a realidade, é preciso considerar que a liquidação do monopólio da terra é o primeiro passo para chegarmos à democracia a que aspiramos. Mas também não existirá democracia, em hipótese nenhuma, sem a liberdade de culto, sem o casamento civil — casamento civil sem nenhuma intromissão da religião, — sem o ensino leigo e sem o divórcio.

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Capital e clero unidos para espoliar os portugueses


01/12/2011 - 9:45 -

A Igreja Católica e o governo de Portugal entabularam uma negociação no mínimo peculiar: a extinção de feriados nacionais. O motivo é materialista: o país quer produzir mais para sair da crise econômica, aumentando o número de dias de trabalho.

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Protesto de trabalhadores em Lisboa

Em nome do governo, o ministro da Economia, Ãlvaro Santos Pereira, propôs no início deste mês o fim, a partir do ano que vem, de dois feriados religiosos: Assunção de Maria (15 de agosto) e Corpus Christi (que os portugueses chamam Corpo de Deus e que, lá e aqui, ocorre na quinta-feira, 60 dias após a Páscoa). A Conferência Episcoal Portuguesa chantageou – aceita a mudança, desde que o governo renuncie a dois outros feriados civis. “É esta a condição”, anunciou Manuel Morujão, porta-voz dos homens de batina, informando que “os bispos manifestaram o seu desejo de colaborar com o governo” na resolução da crise, embora tenham consciência de que “suprir um feriado não é uma varinha mágica que resolva os problemas da economia nacional”.

Sem nenhum constrangimento, o governo português de pronto aceitou a proposta do clero e anunciou que cancelaria também os feriados de 5 de outubro, que celebra a Implantação da República, e de 1 de dezembro, que assinala a Restauração da Independência. É a resposta “criativa†do governo de Portugal, que recorreu a um empréstimo de 78 bilhões de euros junto à União Europeia (UE) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

A concretizar-se a intenção, no calendário de 2012, em vez dos atuais 13 feriados, os portugueses terão nove. Mas a redução total do número de dias de descanso poderá ser superior. Fala-se também em eliminar a folga da terça-feira de Carnaval que, no Código do Trabalho de Portugal, aparece como “feriado facultativo”. A medida visa “contrariar o risco da deterioração económica”, nas palavras do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

Têm razão os bispos quando dizem que suprir feriado não debela a crise. Na verdade, o que o governo e a Igreja portuguesa estão patrocinando é o aumento da mais-valia absoluta. Explica Marx, no Volume I d’O Capital: “A produção de mais-valia absoluta se realiza com o prolongamento da jornada de trabalho além do ponto em que o trabalhador produz apenas um equivalente ao valor da sua força de trabalho e com a apropriação pelo capital desse trabalho excedente. Ela constitui o fundamento do sistema capitalista e o ponto de partida da produção da mais-valia relativa. Esta pressupõe que a jornada de trabalho já esteja dividida em duas partes: trabalho necessário e trabalho excedente. Para prolongar o trabalho excedente, encurta-se o trabalho necessário com métodos que permitam produzir-se em menos tempo o equivalente ao salário. A produção da mais-valia absoluta gira exclusivamente em torno da duração da jornada de trabalho; a produção da mais valia relativa revoluciona totalmente os processos técnicos de trabalho e as combinações sociaisâ€.

Em outras palavras: a burguesia, nativa e estrangeira, que explora o proletariado português vai embolsar mais quatro dias de trabalho, aumentando a jornada de trabalho anual de seus assalariados, sem nada desembolsar – mais-valia absoluta. Pode não erradicar a crise, mas aumenta seus lucros… Os proletários vão aceitar esse esbulho? Dependerá da sua unidade e luta, porque os inimigos são poderosos: os capitalistas, usando o seu governo, e o clero unidos.

 

Provoquemos o capital e o clero reacionário também no twitter: @Carlopo

 

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Protesto em Wall Street contra efeitos do capitalismo


22/11/2011 - 9:02 -

A crise econômica na Eurolândia e nos Estados Unidos trouxe de volta às ruas as populações de vários países em protestos contra a degradação de suas condições de vida. Parodiando James Carville, que escreveu “É a economia, estúpido!†num quadro de avisos da campanha de vitoriosa de Bill Clinton, “É a economia, mas também é a política, gente boa que protesta!â€

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E por ser a economia e também a política, nada melhor do que a teoria de Karl Marx, economista, político, filósofo – comunista, enfim – para iluminar caminhos.  O fundador do comunismo científico alertou nO Capital, que tem o sugestivo subtítulo de “Crítica da economia políticaâ€, que os economistas burgueses clássicos, em especial Adam Smith e David Ricardo, buscavam entender o mundo que os cercava, mas que a limitação de suas posições de classe impediam que eles chegassem a uma visão totalizante do sistema capitalista, inclusive da luta de classes entre proprietários dos meios de produção e vendedores da força de trabalho. Marx valorizava, porém, a analise que fizeram: “Acumulação pela acumulação, produção pela produção, é a fórmula com que a economia clássica expressou a vocação histórica do período burguêsâ€, escreveu no volume I dO Capital.

Mas Marx também acusou que, depois de consolidado o sistema burguês, uma nova safra de economistas, que ele chamava vulgares, abandonou a visão científica e passou a fazer a apologia do sistema vigente: “A doce intenção de ver num mundo burguês o melhor dos mundos possíveis substitui, na economia vulgar, o amor à verdade e a paixão pela pesquisa científicaâ€, notou, no volume III dO Capital. Nesse mesmo volume, registrou: “Na realidade, a economia vulgar se limita a interpretar, a sistematizar e a pregar doutrinariamente as ideias dos agentes do capital, prisioneiros das relações de produção burguesaâ€.

Em novembro de 1969, o marxista norte-americano Paul M. Sweezy escreveu que, para os economistas burgueses, a ordem social existente é um fato definitivo, “o que significa que sanciona, implícita ou explicitamente, a permanência do sistema capitalistaâ€. É o que expõe um dos mais influentes ideólogos capitalistas do Brasil, o ex-ministro Antonio Delfim Netto, que, analisando a atual crise sistêmica, escreveu na Folha de S.Paulo, dia 16 passado: “É preciso reconhecer que o ‘mercado’, como instrumento alocativo eficiente, não encontrou, ainda, nenhum substituto, como mostram o fracasso soviético e o sucesso chinês, e que o seu bom funcionamento não depende do irrestrito movimento internacional de capitais e, muito menos, de mistificações ‘científicas’ de ‘inovações’ financeirasâ€. Simples assim: neste mundo tudo passa, menos o mercado (capitalista).

No mesmo artigo, Delfim declara: “Para que o sistema de economia de mercado (que é compatível com a liberdade individual) funcione adequadamente, ele precisa de um Estado constitucionalmente limitado que: 1º) seja fiscalmente responsável; 2º) tenha poder para mitigar os seus defeitos (a flutuação que lhe é incitada e a redução das desigualdades que ele produz); 3º) seja capaz de controlar o sistema financeiro. Deixado a si mesmo, este tem a tendência de servir-se do setor real e de controlar o poder incumbente, pondo em risco, ao mesmo tempo, o ‘mercado’ e a ‘urna’”.

Tal como expôs Sweezy, para o apólogo burguês considera que, no capitalismo:

“a) Os interesses dos indivíduos, grupos e classes são harmônicos (ou, se não são harmônicos, são pelo menos conciliáveis);

b) existem – e afirmam-se a longo prazo – tendências para o equilíbrio;

c) a mudança realiza-se e continuará a realizar-se sob a forma de uma adaptação gradualâ€.

Em contraposição, o marxismo aponta no capitalismo, ensina o economista estadunidense, os conflitos de interesse, a tendência para a ruptura, mudanças bruscas e violentas. Por não perceber estas características, a economia burguesa é incompetente e incapaz de dar solução para a crise que atenda às demandas populares. Para tal, voltemos ao marxismo, proletárias e proletários indignados de todo mundo. Unamo-nos por um novo mundo possível, socialista!

Errei, sim, manchei o teu nome…

O camarada Wellington Pinheiro dos Santos, de Jaboatão dos Guararapes/PE, informa que o bispo Robinson Cavalcanti não é da Diocese Anglicana do Recife (informação que obtive na revista Cristianismo Hoje e reproduzi no artigo “O contra-ataque dos igrejeirosâ€). Segundo o Wellington, ele é bispo da Diocese do Recife, ligada à Província Anglicana do Cone Sul (Argentina, Uruguai e Chile). O camarada afirma que a Diocese Anglicana do Recife “possui valores progressistas e vários de seus membros são militantes de partidos de esquerdaâ€.

Caminhemos, entre erros e acertos, também no twitter: @Carlopo

 

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O contra-ataque dos igrejeiros


12/11/2011 - 8:41 -

“Difícil encontrar espaço na sociedade laica, num país laico, para ser ateu ou agnósticoâ€. O desabafo, feito por Cláudia Rodrigues, em seu blog, reflete uma realidade que está longe de ser modificada. Pelo contrário, com os ateus “saindo do armário†e buscando apresentar suas posições abertamente, líderes e adeptos religiosos invadem ainda mais os espaços institucionais e os meios de comunicação para propagar suas seitas.

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Religiosos temem perder suas ovelhas

O professor doutor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-consultor-geral da República, Ronaldo Rebello de Britto Poletti, escreveu uma série de artigos defendendo o Acordo Brasil-Santa Sé, que está tendo sua constitucionalidade questionada no Supremo Tribunal Federal. Em estilo tronítuo ele desqualifica os autores da ação judicial no STF: “Ateus, agnósticos, materialistas, ideólogos (não se sabe bem do quê), anticristãos, adversários de todas as religiões, no fundo censores, avessos às tradições brasileiras, como às do Ocidente Cultural, esses falsos intelectuais têm se agitado para (…) disseminar a ideia da antirreligiãoâ€. Ufa! Será que é esse conteúdo que ele ministra aos alunos na UnB?

Já o bispo Robinson Cavalcanti, da Diocese Anglicana do Recife, vê “uma ameaça à liberdade religiosa no espaço euro-ocidentalâ€. Ele acredita que “o secularismo vem agindo com força no aparelho do Estado brasileiro, nos três poderes e em todos os níveis, além da academia, das artes e dos meios de comunicação†(deus te ouça, pensei eu). Ele faz um chamamento – “Os protestantes devem se preparar para dar uma resposta à altura a essa questãoâ€â€“, para depois abastardar o tema dizendo que “não se pode permitir que se promova a implosão do Cristo Redentor ou que mudem os nomes dos estados do Espírito Santo e de São Paulo. Se os ateus quiserem trabalhar na Sexta-Feira da Paixão, peçam a chave da empresa aos seus chefes e façam hora extraâ€. Arre, só faltou chamar os comunistas de pedófilos (comem as criancinhas) e condenar ao Inferno os que não rezam pela sua cartilha…

Já o pastor e deputado federal João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente Parlamentar Evangélica, é um dos que lidera a reação aos projetos de lei que criminalizam a homofobia, a descriminalização do aborto e criam o Plano Nacional dos Direitos Humanos. Propositadamente confundindo a laicidade do Estado com a perseguição religiosa ou proibição dos vários cultos, ele vocifera: “O Estado laico é aquele que protege a expressão de todas as religiões, e nenhuma em particularâ€, e logo em seguida puxa a sardinha para o lado de sua comunidade: “o Estado é laico, mas a sociedade, cristãâ€. Arrepiem-se daqui, ubandistas, budistas, judeus, islâmicos e crentes de todos os outros sistemas.

Os interessados em ler o belo texto de Cláudia Ribeiro a respeito da busca de uma escola laica para a filha, acesse aqui: http://sul21.com.br/jornal/2011/07/ateus-e-agnosticos-esses-seres-esquisitos/

Enfrentemos os demônios também no twitter: @Carlopo

 

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O anticomunismo grosseiro de Eugênio Bucci


30/10/2011 - 11:58 -

Eugênio Bucci, professor de comunicação que influencia as novas gerações de jornalistas com seus livros e aulas, vendeu sua força de trabalho para um panfleto anticomunista publicado pelas Organizações Globo, a edição do semanário Época que teve por capa “PCdoBolsoâ€, onde estava estampada uma adulteração da logomarca do PCdoB. Os editores determinaram ao professor (de pronta obediência) que escrevesse “Por que roubam os comunistas?â€.

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O título já nos classifica, a mim, a vocês, camaradas, como ladrões, e o autor, talvez com conhecimento de causa (no artigo, ele insinua já ter compartilhado esperanças de uma sociedade melhor, ou seja, não capitalista), propõe-se explicar porque roubamos.

Primeiro, faz digressões para mostrar intimidade da produção cultural, em especial cinematográfica e livresca. Tenta valorizar-se enquanto testemunha não só pessoal, mas intelectual – afinal, é professor universitário, autor de livros adotados em escolas e até participou do Governo Lula, como diretor da Rádio Nacional (onde conheceu o governo por dentro. Como dizia o humorista Leon Eliachar a respeito das mulheres que terminavam o relacionamento com ele, Bucci está “cuspindo no prato que o comeuâ€).

Segundo o artigo na Época, quando Che morreu (em 1967, Bucci tinha 9 aninhos, mas acusa), “os ladrões proliferaram nas fileiras de esquerda. Rechonchudos e felizes. Não roubaram apenas automóveis, mas utopias. Transformaram sonhos dos camaradas em butim. Estão por aí, de terno, gravata e dinheiro vivo dentro de casa. Nisso se resume o grande dilema existencial e político das organizações de esquerdaâ€. Vale lembrar: nesse período, alguns “rechonchudos e felizesâ€, no Brasil, perseguidos nas cidades, estavam se deslocando para o Sul do Pará, onde aconteceu anos depois a Guerrilha do Araguaia, onde menos de uma centena de “ladrões de utopia†enfrentaram milhares de militares em defesa da democracia e do povo. Mas isso são fatos que prejudicariam as acusações de Bucci.

Segue o formador de profissionais de comunicação: “Passemos ao Brasil de 2011. Passemos para hoje. Estamos aí atordoados com mais um escândalo, outra vez embaralhando ONGs, mas agora com militantes e ex-militantes do PCdoB e autoridades do Ministério dos Esportes. Passarão meses, talvez anos, até que saibamos quem de fato tem culpa no cartório, se é que o tabelião e os cartorários não estavam no esquema. Desde já, porém, sabemos que há milhões e milhões de reais em irregularidades, tudo em nome de dar assistência a crianças carentes que não recebiam assistência nenhumaâ€.

Uau! O escriba se protegeu! Não a ponto de investigar que o ministério não é “dos Esportesâ€, mas “do Esporteâ€, mas a afeição à exatidão anularia todo o seu bolodório. Nunca saberemos o que de fato aconteceu, já que até “o tabelião e os cartorários†estavam no esquema que ele não conseguiu comprovar, mas que a família Marinho e os outros donos da mídia monopolista que emprega gente como Bucci dizem ser verdade, e ponto final. O mentor de hordas de jornalistas descomprometidos com a apuração dos fatos já se traiu, em outros momentos, defendendo uma “objetividade†alheia aos fatos, e que este seu texto mostra ser uma farsa, como as muitas da ideologia burguesa, desde que se tornou reacionária. Escreveu ele, em “A missão de servir ao cidadão e vigiar o poder†(25/9/2007) que “os veículos jornalísticos, na busca de aperfeiçoar os parâmetros de sua governança, vêm desenvolvendo métodos que garantem independência de gestão editorial em relação não apenas às intervenções dos anunciantes, mas também às interferências – demandas extra-jornalísticas – dos acionistas†(não tem como nomear quaisquer desses veículos).

Continua: “Apartidário, equilibrado – e livre. Se quer ser fiel à sua responsabilidade social, o jornalista não deve permitir que agendas, causas ou doutrinas totalizantes de uma parte da sociedade – venham elas de ONGs, de igrejas, de governos, grandes corporações, de partidos, de onde vierem – contaminem seu trabalho. É mais adequado que ele procure desvincular-se material e formalmente desses pólos de poder e de influência, sem que isso signifique desmerecer a legitimidade que eles têmâ€.

O jornalista é, portanto, um ser humano sem causa, sem doutrina, sem governo, sem patrão, sem partido, sem religião, sem ONG. Apesar de um mal tamanho, Bucci ainda deu uma entrevista, no dia seguinte, afirmando: “A comunicação pública só irá vingar entre nós se for independente, tanto dos governos quanto dos mercados, se for gerida com austeridade, se for uma escola para novas linguagens, se encontrar sua especificidade insubstituível. Isso é possível, mas ainda falta muito chãoâ€. Bem, falta chão, mas garante seu sustento, quando vende sua força de trabalho para a mídia monopolista e se torna teórico da ideologia capitalista, anticomunista, portanto.

Em sua diatibre contra nós, Bucci ainda diz que, mais do que ladrões de dinheiro, somos também de utopias. Estamos “por aí, de terno, gravata e dinheiro vivo dentro de casaâ€. Não vou aprofundar a “acusação†de que usar terno, gravata ou ter dinheiro vivo em casa é crime – até os Marinhos, Cívitas, Frias e Mesquitas, proprietários da mídia monopolista brasileira, devem ter sentido algum desconforto quando leram isso. Vamos analisar a questão da utopia.

Utopia se refere a um projeto de sociedade, justa, mas ainda inexistente. Neste sentido, os comunistas, materialistas dialéticos, superaram a visão sonhadora do projeto, e o trouxeram para o factível, mas levando em conta as circunstâncias em que as pessoas de fato vivem, para mudar a realidade circundante. Assenhoreados de tal visão, os comunistas atuaram no Ministério do Esporte, primeiro no Governo Lula, depois no Governo Dilma.

Uma Pasta que se voltava em especial para o esporte profissional e para a demanda dos desportistas de várias modalidades, passou a adotar, sob a gestão comunista, uma orientação de inclusão social, que tantos resultados positivos tem trazido para o país e seu povo.

Tratando o tema jornalisticamente, ouçamos pessoas que labutam na área. Não é um escriba de aluguel, mas a ex-jogadora de voleibol Ana Mozer quem, voluntariamente, testemunhou no Twitter: “Minha experiência com políticas públicas de esporte começou em 2000 e segue até hoje. (…) Nesses anos, vi o país avançar, participei de vários fóruns, encontros, conferências. O Brasil do esporte ampliou, aumentou a visibilidade. Se debateu mais, aumentaram as fontes de financiamento para ações de esporte. Concentrou no rendimento, mas também criou outras frentes. Ainda há muito a avançar, mas reconheço o trabalho de Orlando Silva e equipe. Que o próximo siga avançando”.

Não posso deixar de testemunhar a alegria e orgulho que me proporcionaram a atitude do Orlando Silva, dirigente do PcdoB e ex-ministro do Esporte, que fez juz à tradição que vem de Dimitrov, na época do domínio nazifascista na Europa, de que “a defesa acusa†e partiu para cima de seus detratores durante o episódio que o levou a pedir demissão do Ministério. E também da garra revolucionária dos camaradas, amigos do Partido e democratas que, nas redes sociais e por todos os meios defenderam a causa revolucionária nesta que foi, ao que tudo indica, a maior operação de “cerco e aniquilamento†dos comunistas desde o ataque final da ditadura militar à gloriosa Guerrilha do Araguaia.

Henfil, o genial humorista, irmão do Herbert de Souza, criou nos tempos da ditadura militar um “cemitério dos mortos-vivosâ€, onde enterrava pessoas que, mesmo talentosas, acabavam prestando serviço aos algozes. Vez por outra, ressuscitava algumas, como Clarice Lispector e Elis Regina, porque elas – e não ele – haviam mudado de comportamento. Que Eugênio Bucci saia da vala comum. Pode ser bom para o país e os oprimidos, em que pese o que signifique para o seu “dinheiro vivo dentro de casaâ€, que poderá ser diminuído.

Lutemos pela verdade classista, também no Twitter: @Carlopo.

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Padre Marcel em guerra com os bichanos


17/10/2011 - 10:17 -

Ao convocar suas ovelhas para uma missa celebrando Francisco de Assis, que os cristãos creem ser protetor dos animais e da natureza, o padre Marcelo Rossi pediu que seus seguidores não levassem animais ao seu templo. Os que quisessem que o religioso  abençoasse seus bichos de estimação, que os deixassem ao lado de um rádio sintonizado na cerimônia. Mas fez uma exceção, o pregador de orações medievais: “menos os traiçoeiros gatosâ€

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Deusa e gato: há quem não goste

Desta feita, mais que suspiros de algumas mocinhas e garotos, beatas e beatos, o padre pop provocou a indignação, em especial de pessoas que têm nos gatos o animal de estimação preferido. Até uma petição pedindo retratação pública do religioso, que pode ser assinada aqui: http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N15010.

Assim como sua fé em divindades, a ojeriza do sacerdote aos gatos também tem sua origem no misticismo que acompanha a humanidade, na busca de melhor compreender o mundo em que existimos. No caso de gato, há milhares de anos inspira apreço ou aversão. Tanto o Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, quanto O grande livro dos símbolos, de Jack Tresidder, tributam essa relação passional à atribuição ao felino de características humanas.

Atuação furtiva, clarividência, desconfiança e poder de transformação (por dilatar as pupilas, desembainhar ou esconder as garras, mudança repentina de comportamento), agilidade, vigilância, sensualidade, malícia, liberdade (por sua capacidade de locomoção mesmo em lugares inóspitos), dentre outros, são qualidades imputadas aos felídeos.

No Egito, Bastet, com seu corpo de mulher e cabeça felina, era a deusa da fertilidade, protetora das mulheres grávidas, associada ao prazer, fertilidade e proteção. Freia, deusa nórdica da do sexo e da sensualidade, fertilidade, do amor, da beleza e da atração, da luxúria, da música e das flores, mãe da dinastia de Vanir, em algumas representações é puxada, numa carruagem, por gatos, ou tem um gato aos seus pés. Para a tribo pawnee, norte-americana, o gato é sagrado e representa a sagacidade, só podendo ser morto com finalidade religiosa. Já na Ãfrica Central, algumas tribos ainda fabricam sacolas de remédios exclusivamente com pele de gato – os brasileiros, musicais, preferem sua pele para tamborim. Na China antiga, era animal benfazejo; no Camboja, são engaiolados e levados de casa em casa, em procissão, no período de seca, para atrair chuva. Para alguns povos árabes, são Djins, entidades superiores aos homens, mas inferiores aos anjos, podendo ser benéficos ou maléficos. Entre os mulçumanos, são benéficos, desde que não sejam pretos. Na Cabala e no budismo indicam o pecado, o abuso dos bens terrestres – aliás, os budistas dizem que os gatos e as serpentes foram os únicos animais que não lamentaram a morte de Buda.

Quando preto, o gato é mais associado ao mal, à obscuridade, à morte. No Japão, indicam mau augúrio (crença também de muitos povos ocidentais) e podem tomar a forma de mulher. Há quem sugira que essa crença nipônica estaria na gênese de mulheres bonitas, sensuais e atraentes serem chamadas de gatas. Os ingleses têm a expressão cat-o’-nine-tails para significar mulher rancorosa, malévola, e an old cat, gata velha, para designar pessoa falsa.

Não faltam mitologias para explicar os arrepios que o gato causa no pastor católico. No Antigo Testamento, numa de seus muito acessos de fúria contra a humanidade, Deus maldiz uma região onde “se encontrarão cães e gatos selvagens, e os sátiros chamarão uns pelos outros; espectro noturno frequentará esses lugares e neles encontrará o seu repouso†(Isaías, 34, 14). Em  Baruc 6,21, Jeremias, em carta aos deportados para a Babilônia, narra que Deus, sempre ciumento e invejoso, fará com que gatos saltem sobre o as estatuetas de outros deuses.  Na Idade Média, quando o terror da Igreja Católica era a lei, o gato era perseguido, identificado com as bruxas que tanto atemorizavam e concorriam com o clero com suas poções medicinais.

Se o sacerdote-cantor realmente acredita na realidade de seus mitos, que se acautele, portanto. Como diz a plebe ignara e rude, “cara de beato, unha de gatoâ€.

Sejamos gatos pretos e de todas as cores também no twitter: @Carlopo

 

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O que mais quer a igreja católica?


10/10/2011 - 8:10 -

Reproduzo, por instigante, artigo do jornalista, mestre em Comunicação pela UnB, autor de A arte de pensar e fazer rádios comunitárias, Dioclécio Luz:

A igreja católica não quer abrir mão do espaço que conseguiu na Empresa Brasil de Comunicação (EBC). No início de 2011, depois de prorrogar por um ano seu posicionamento, o Conselho da EBC decidiu que os programas religiosos – cultos e missas – deveriam sair da grade de programação da TV Brasil. Para chegar a isso, a EBC colocou o tema em consulta pública. Por fim, decidiu que os programas das igrejas tinham um prazo para sair do ar – setembro de 2011 – e seriam substituídos por programas educativos que tratassem do fenômeno religioso. É o lógico, é o correto, é o decente.

Mas, quando estava prestes a cair o prazo para a igreja abandonar o lugar que não lhe pertence, ela apelou para o “tapetãoâ€, a Justiça. E achou um juiz que manteve os privilégios.

Não me espanta que a igreja católica tenha feito isso. Acharia estranho se ela – democraticamente – acatasse a decisão. Por quê? Porque estamos tratando de uma religião acostumada a mandar, dar ordens, determinar como o mundo girar e, naturalmente, ter poder acima de todos os outros poderes. A igreja se acha o deus que ela inventou. E para deixar bem claro quem manda, coloca o crucifixo (seu símbolo) no plenário da Câmara dos Deputados, no Senado, no Supremo Tribunal Federal, nas várias Assembleias Legislativas. Inaugurada em 2010, a Câmara Distrital do Distrito Federal ostenta no plenário um grande crucifixo. Sobre a mesa, aberta, a Bíblia alerta sobre quem manda ali. O cristianismo – católico ou evangélico – não abre mão do poder.

A igreja católica entrou na justiça contra a EBC porque ela sempre mandou neste país – em todos os poderes – e não admite deixar esse poder. É claro que, do ponto de vista da moral, não há sustentação para ela permanecer ocupando esse espaço público. Mas desde quando a igreja tem pudores com relação à usurpação de espaços públicos?

A Constituição proíbe, mas…

Vide o que ocorre em todas as cidades do Brasil. A igreja sempre pegou os melhores terrenos para construir seus templos, suas catedrais, suas casas paroquiais etc. Isso não é coisa do passado. O caso de Brasília é emblemático. Ao buscar um terreno para instalar a Universidade de Brasília, Darcy Ribeiro descobriu que a melhor área já tinha dono: a igreja católica. Em seu livro Confissões, ele relata como teve que ir ao Vaticano para negociar com o papa o terreno.

Como a igreja conseguiu um terreno numa cidade que mal tinha sido inaugurada? Ela comprou esse terreno? Claro que não. Do mesmo modo, não veio um centavo do Banco do Vaticano para comprar o terreno e construir a catedral de Brasília, na Esplanada dos Ministérios. É a única religião instalada na Esplanada dos Ministérios. Como ela conseguiu pegar esse terreno público em área nobre, destinada somente aos ministérios? Ora, porque sempre foi poder.

Hoje, quando a catedral precisa de reforma ou de ampliação de suas instalações, são empregados recursos públicos. Para construção do batistério, por exemplo, ela recebeu R$ 1 milhão. Na verdade, essa coisa de receber dinheiro público para reconstrução de igrejas “seria†ilegal, mas como elas (essas igrejas velhas) recebem a tipificação de “patrimônio históricoâ€, sempre têm dinheiro público para sua reconstrução. Isso está em lei. Ou melhor, no acordo assinado pelo governo brasileiro com a Santa Sé – a gente reconstrói as igrejas deles. A Constituição proíbe, mas como se trata da igreja católica… Ou a sociedade aceitaria o investimento de recursos públicos num templo da Igreja Universal?

Revelações do passado

Esse tipo de coisa acontece em todo Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas acham normal ter uma imensa imagem católica (o Cristo) num espaço público, construído com recursos públicos, mas sob o comando da igreja. Ela fatura para “administrar†essa imagem. Em determinadas regiões, como no Nordeste, a força da igreja é tal que metade dos terrenos de alguns municípios lhe pertence. Sem contar o seu esforço de continuar dominando o povo pobre com milagres e mistificações. O melhor exemplo, no caso, é Juazeiro do Norte (CE), onde se estimula o sofrimento como forma de moeda de troca do deus criado pela igreja católica e se reconstrói a imagem de Padre Cícero, como santo, e agora – acredite-se – até como “ecologistaâ€.

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Acontece que, ao entrar com a ação na Justiça contra a EBC, a igreja católica não percebeu que o mundo mudou. Acostumada a mandar e a não receber críticas, agora ela está recebendo um monte delas. Pior, seu passado está sendo revelado. Pior ainda, revelou novamente sua ambição por mais poder e riqueza.

Consta que a ação pela manutenção dos programas foi apresentada pela arquidiocese do Rio de Janeiro na 15ª Vara de Brasília. Na ação, a igreja diz que houve “discriminação religiosaâ€. Se fosse sincera deveria dizer: “Olha, estamos acostumados a mandar no Brasil, por que vocês não obedecem?†Ou então: “Queremos manter esse espaço porque sempre ocupamos espaços públicos e ninguém nunca reclamouâ€.

Ações como essa da igreja têm a ver com a sua decadência. O número de católicos caiu quase 20% nos últimos 10 anos; falta quem queira ser padre. Tudo isso tem a ver com a sua imagem (manchada com as acusações de pedofilia acobertadas pelo papa); a falibilidade da retórica cristã sustentada por dogmas e imposições (que não convencem ninguém); revelações do seu passado de (muita) lama e sangue, incluindo matança de não-cristãos, de mulheres (somente por serem mulheres) e até relações com Hitler e Mussolini.

Não é preciso ser ateu

A doutrina ou moral católica é uma questão central nesse debate. Porque, afinal, o que a igreja quer é o direito de usar um espaço público – rádio e TV – para difundir que a mulher não vale nada; que homossexualidade é doença; que a camisinha não deve ser usada “porque não garante sexo seguroâ€; que o homem veio da mulher; que o sofrimento é bom; que somos todos pecadores; que o casamento deve ser eterno. O mais espetacular é que quem prega tudo isso são pessoas a quem foi proibido namorar, transar, casar, ter filhos, formar família. Bem, caiu a ficha: muita gente descobriu o óbvio: essa pessoa não tem condições de dar conselhos sobre família, filhos, sexo, moral.

Vejamos a questão política. Inventou-se na América Latina a tal Teologia da Libertação. A doutrina não mudou uma linha, apenas incorporou o pobre em seus discursos. Entenda-se o processo: ela não abandonou sua relação com o poder, com os ricos; somente acrescentou os pobres. Fez-se uma releitura dos ensinamentos bíblicos e se descobriu que Jesus era esquerdista e revolucionário. Surge a igreja progressista. Como se por acaso essa doutrina e essa hierarquia tivessem algo de socialista ou democrático.

No bojo disso tudo, para suprir a carência de religião do revolucionário de esquerda, dá-se um nó no marxismo e inventa-se o marxista cristão, o marxista transgênico. Desse modo todos ficam felizes: não é preciso ser ateu para ser marxista; o cristianismo aceita. No túmulo, Marx se revolve com esta invenção moderna da igreja. Patologia tupiniquim. Freud já explicou essa carência que faz com que o militante não consiga viver sem pedir a benção aos padres.

Morte anunciada

A igreja tem poder sobre os espaços públicos, mas também atua na educação (é dona das escolas mais ricas) e, principalmente, na comunicação. Embora se apresente como aliada do movimento pelo direito à comunicação (tem gente que acredita nisso), a igreja católica (progressista? direitista?) é “dona†de 46 emissoras de televisão, tem 863 retransmissoras e nove grupos filiados. Essa igreja católica dos padres de direita e dos “progressistas†possui 133 emissoras de rádio. Alguns programas ela consegue retransmitir por mais de mil emissoras. (Fonte: www.donosdamidia.com.br).

Por que essa igreja não se satisfaz com o que tem? Rica em finanças, dona de escolas, terras, emissoras de rádio e TV, ela ainda quer mais. Qual o limite para a ambição da igreja católica? A resposta é: a igreja tem um projeto de poder eterno e para conseguir isso ela precisa sempre e sempre juntar mais e mais poder. Este seu projeto não aceitaria jamais abrir mão de um espaço na TV e no rádio, mesmo que seja moralmente indefensável. Mesmo sabendo que se encontra em processo de extinção – ou talvez por isso mesmo. É o seu jeito de evitar a morte anunciada.

***

Publicado originalmente em 04/10/2011 na edição 662 do Observatório de Imprensa.

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Uma vassourada na ingenuidade


05/10/2011 - 8:46 -

No último mês, a mídia monopolista fez grande agitação tentando transformar em movimento de massas a luta contra a corrupção. Acionou repórteres, açulou ONGs, abriu espaço para parlamentares que se identificassem ou vissem proveito no tema. Nos artigos publicados, números inflados, porém sem imagens que os comprovassem. Nas argumentações, moralismo estéril e antipartidarismo militante. Os efeitos não foram os esperados, mas mexeu com o imaginário, em especial, da pequena burguesia.

Os espaços abertos pela mídia ao tema já começavam na própria convocação dos atos: no Rio de Janeiro, emissoras de radiodifusão e jornais impressos repercutiam uma manifestação “convocada†pela internet (na verdade, estava, dessa forma, sendo convocada por todos os meios de comunicação) que alcançaria 35 mil participantes. Alguns artistas se encantaram, mas ficaram desapontados ao chegar ao local: os cálculos mais otimistas resultaram em 3.500 pessoas, entre os habituais da praça onde aconteceu o ato e grevistas que lá realizavam seus protestos, nada relacionados com o tema. Mesmo assim, não foram mostradas fotos da “multidãoâ€, e sim alguns populares segurando cartazes contra a corrupção, contra o PT (“Abaixo a clePTocraciaâ€) e um “Pra frente, Brasil†– um dos lemas da ditadura militar instaurada em 1964.

No 7 de Setembro, em Brasília, os manifestantes se misturaram com as dezenas de milhares de pessoas que foram ver a parada oficial diante da presidenta Dilma. A imprensa quis incluir todos no ato contra a corrupção, e acabou noticiando algo pouco convincente: a se crer no repórter, a manifestação começou tímida na Catedral de Brasília, mas foi crescendo até atingir 25 mil pessoas! Sucesso tamanho, só os trios elétricos – e em Salvador! Também em Brasília, apesar de movimento ser “apartidárioâ€, teve manifestante usando máscara com a cara do Zé Dirceu, dirigente petista odiado por parte da mídia monopolista e por integrantes dos partidos de oposição.

Optou-se, então, pela manifestação sem povo: um pastor que dirige uma ONG carioca, com grande cobertura da mídia, espetou 594 vassouras verde-amarelas numa praia no Rio e depois na Esplanada dos Ministérios. O número se refere à quantidade de parlamentares do Congresso Nacional. Garantida a cobertura jornalística, o pastor foi recebido por alguns congressistas. Pretendia entregar uma vassoura para cada deputado e senador, mas a intenção foi frustrada: ao ver tantas vassouras novas à disposição, populares que nelas têm um instrumento de uso e não de política trataram logo de “expropriá-lasâ€, digamos assim. Diante do inusitado da situação, o tal pastor distribuiu aos passantes as poucas que lhes sobraram para a sua “limpeza éticaâ€.

Legenda: Manifestação “popular†sem povo

Novos atos estão sendo chamados para 12 de outubro. Uma convocação, na internet, diz: “Essas marchas são do povo e para o povo. Portanto, não queremos a presença de partidos políticos, sindicatos ou qualquer movimento ligado à política”. Ou seja, nada de gente politizada e organizada.

Há quem seja, se não mobilizado, ao menos seduzido por esse tipo de atividade. Há quem veja, com mais propriedade, nesse tipo de campanha um modo de a oposição elitista ganhar adeptos contra os aspectos mais populares e avançados do governo federal. No conto “O empréstimoâ€, Machado de Assis nos atentava: “Como deveis saber, há em todas as coisas um sentido filosóficoâ€.

É justa a indignação com a corrupção. É necessária a luta contra esse mal arraigado na sociedade dividida em classes. Vivemos no capitalismo e, sem o conhecimento das suas leis econômicas, não podemos alcançar eficazmente o propósito de transformar a realidade e colocar tais leis a serviço do homem, buscando dar fim à corrupção, por exemplo. Sem conhecer as possibilidades objetivas e subjetivas, nenhuma pessoa pode projetar um comportamento ético eficaz, que a realize e explicite como ser humano. Para combater efetivamente a corrupção, é necessário conhecer os movimentos causais e as leis da realidade que serão colocadas em operação.

O caminho provado para alcançar mudanças seguras na sociedade é o político. Neste estágio da história, a atuação partidária – em um partido de vanguarda, que se guie utilizando os métodos da ciência social mais avançada, o marxismo, para iluminar sua prática – é fundamental para o êxito da luta que almeja, ao fim e ao cabo, a tomada do poder político. Portanto, o benefício da dúvida pode até levar a considerar-se ingênuo um movimento contra a corrupção que vete a participação dos partidos, das entidades sindicais e demais movimentos sociais avançados. Mas esse benefício à dúvida tem que ser, realmente, incomensurável, ultrapassando até mesmo qualquer ingenuidade…

Busquemos a esperteza também no twitter: @Carlopo

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