Percebi ontem que não lembro do rosto do meu pai…todas as vezes que tento vê-lo nas minhas lembranças me vem uma imagem nebulosa carregada das sensações dos momentos vividos com ele. Recorro à fotografia quando desejo ter sua imagem definida para mim. A minha memória recorda do seu jeito, das palavras, das ações, lembra essencialmente da emoção de instantes vividos, mas seus olhos, suas mãos, tudo vem em fragmentos esparsos e nada se completa como um todo. Parece que a imagem deixa de existir . A lembrança tem um jeito bem próprio de se fazer presente e nunca, nunca mesmo, é plenamente completada. Muitas vezes me fixo em um momento que está sendo especial para mim e tento retê-lo, quando vejo, já passou, já se foi e não mais se repetirá, jamais do mesmo jeito. Olho para trás e tento ver a menina que eu fui, tento enxergar os passos dados, o caminho percorrido, mas parece que tudo ocorre em uma rotação diferente do tempo do existir. Tento insistentemente completar os instantes, dar-lhes vida, e o que me chega são sensações, emoções, sentimentos, que muitas vezes não estão claros, estão misturados com todas as experiências por mim vivenciadas.
Quantas vezes, infelizmente, tenho a sensação de que não vivi plenamente! Quantas vezes desejei voltar no tempo e viver, não apenas reviver, as emoções por mim experimentadas. Quantas vezes desejei que o tempo estacionasse e ficasse ali, congelado como numa fotografia e eu pudesse, desta vez do jeito certo, guardar por inteiro o meu momento de plenitude. Mas a vida se move, não volta atrás. A vida caminha e nós caminhamos juntos com ela, queiramos ou não. Quando a gente menos espera já é amanhã e o ontem? O que eu fiz com o meu ontem?Onde eu o coloquei? E assim ficamos sem saber o que vivemos, não damos importância as pequenas coisas que a vida nos oferece, passamos o dia e achamos que foi rotineiro, igual, insÃpido, nada foi vivido, nada de novo foi experimento, nada grandioso!
Quando nos deparamos com o amanhã que é o nosso hoje e num raro momento de lucidez percebemos o que tivemos no ontem, queremos agarrar a lembrança, torná-la palpável, presente e tudo que temos são fragmentos fugazes de um tempo que não é mais nosso, pois o único momento possÃvel de ser vivido é o hoje, é o agora, este exato momento em que estou escrevendo para você e só nele poderemos existir. Temos lembranças, sensações e emoções do ontem, temos anseios, temores, desejos do amanhã, mas só e apenas só, poderemos viver no agora. Este pleno, completo, inteiro instante que é o agora. Viver o momento não significa apenas estar ali, é um investimento muito maior. Viver agora é deixar-se conduzir pela beleza do que está sendo vivido e não controlar o que se está sentindo. Deixar-se levar e apenas experimentar. Sem pensar tanto, sem grandes argumentos, sem respostas prontas. Apenas viver. Viver por inteiro. Com plenitude. E mais, nem pensar se está vivendo ou não, apenas viver. Isto basta, já é precioso demais podermos experimentar. Depois disto, quando você perceber, como eu, que do seu passado lhe resta apenas fragmentos de imagens, você vai ter para lembrar não apenas o sorriso do outro, não só o seu corpo de criança preso em um tempo, mas sim a emoção de tudo que foi vivido no momento em que você estava presente.
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