Na última semana eu fui à duas exposições de arte. Não é hábito meu ir à exposições e saà das duas me penitenciando por não ir à todas. Tudo tão diferente. Eu conhecia o trabalho dos dois artistas, mas nada era igual. Tudo era novo, parido de criação. Percebi como a minha alma saiu renovada. Saà de mim e olhei para o que o outro é capaz de fazer. E os admirei. Os reverenciei. Fiquei pensando em que lugar se perdeu o meu processo artÃstico, onde se escondeu tudo aquilo que se expandia dentro de mim e em que momento ele foi bloqueado. Olho para trás e vejo um monte de desejos não realizados. Dançar, cantar, pintar… Eu não dei andamento a nenhum deles. Outras necessidades me tomaram e eu fui esquecendo partes importantes do meu eu, me negligenciei em nome do dever. E como eu que deixei para trás, vejo inúmeros artistas caminhando por aà sem saber que o são, sem olhar para dentro de si e sem se perceberem criadores.
A vida que escolhemos levar nos torna meros fazedores. Existe um poema de Drummond, “Fazedor de Homensâ€, um dos seus mais belos, em que ele fala que o homem fez o homem sem nem o homem querer e por isto ele possui direitos sobre este homem. Ele diz cresça, o homem fica mais alto, diz trabalhe e ele usa o seu corpo para o trabalho, diz viva e este homem respira, diz procrie e ele faz homens. E que quando este homem morre, percebe-se que a vida foi longa demais para viver e muito pequena para morrer, pois nada foi escolhido, nada foi pensado. Este homem foi apenas um fazedor de homens, não um criador. E o que diferencia um homem que faz do homem que cria é o seu pensamento. É a sua capacidade de exigir, de querer, de reivindicar que o torna maior. Este texto poderia parar por aqui… tudo já está dito. No entanto, atrevo-me a dizer mais.
Este homem que faz o outro homem, somos nós. Nós nos fazemos. Nós escolhemos ser esta pessoa que deixa os desejos para trás e segue a vida apenas trabalhando, apenas respirando, apenas procriando sem nada criar. Somos a nossa rotina, a nossa acomodação, a nossa preguiça, a nossa aceitação do que vivemos. Somos o acordar e seguir os passos do dia sem darmos conta do que foi feito. Somos o desejo de expansão encoberto pelo que devemos fazer. Paramos pouco para olhar dentro de nós e vermos o que desejamos mudar. E quando não expandimos, estagnamos. Acabamos nos tornando aquele que sempre come a mesma comida, que não pensa nada de novo, que não olha a vida de um prisma diverso, que não muda de opinião. Somos, realmente, simples fazedores. E até acreditamos que estamos bem, que conquistamos aquilo que querÃamos, que fizemos as coisas que um dia desejamos fazer. Nem percebemos o quanto estamos engessados num modelo pronto de vida ideal, no quanto somos fazedores temerosos da mudança e como tais, sem pensar, estamos prontos para cumprir.
De repente, em meio ao tudo certo da nossa vida, aparece não sabemos de onde, um desejo mexendo dentro de nós. Desejo de mudar. Pintamos casa, trocamos almofadas, cortamos cabelo e por um tempo aquilo se aquieta. Em um outro momento, de novo vem o desejo. De novo o abafamos. De novo fazemos coisas. Coisas que garantam a nossa segurança, que muda, mas não de verdade. Colocamos os pés no mar e não mergulhamos. E em um cÃrculo interminável de desejar e apenas fazer sem criar, encaixotamos necessidades que poderiam nos fazer melhores. Deixamos de experimentar novas texturas, novos sabores, novas experiência, novas capacidades… E continuamos a acreditar que isto é o correto. Mas nem sempre o que é correto é bom. Acredite nisto.
Uma das frases que mais venho repetindo para mim é de Raul Seixas: “prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter a velha opinião formada sobre tudo.†Repito para não esquecer minhas necessidades, para não ficar parada em um tempo acreditando que o que penso ter e acredito ser é o único lugar possÃvel para mim. Metarmorfosear-se nada mais é que descobrir o nosso poder de criação, para que um dia nos orgulhemos de não sermos na vida apenas fazedores de homens e sim o artista, o criador da nossa existência.
Agradeço a arte de Gama Júnior e Vera Gama, que foi a inspiração para este texto.
P.S. Um enorme obrigada a todas as pessoas que me doaram um tempo de suas vidas para comentar o que escrevo, como também àqueles que passaram por aqui e nada disseram. A generosidade de cada um, com certeza, me engrandeceu como pessoa.
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