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Sobre o Confiar…

terça-feira, dezembro 1st, 2009

Algo tem me impelido a pensar muito sobre o confiar. Não sei se as notícias sobre os nossos inconfiáveis políticos, não sei se as dores trazidas ao consultório, não sei se os inúmeros casos sobre pedofilia veiculados nos meios de comunicação, não sei se alguma coisa dentro de mim se assoma e eu ainda não estou dando conta… Mas sei bem que confiar está cada vez mais difícil.

Thiago de Melo, em seu magistral “Os Estatutos do Homemâ€, evoca ao homem confiar no homem como um menino confia em outro menino. Sempre me deleitei com esta forma poética de sentir a confiança. Por toda a vida fiz disto um refrão de possibilidades e sonhei com esta quimera. No entanto, o que vejo, o que observo, o que sinto não corresponde a este sonho. Vejo crianças abandonadas esmolando pelas ruas, por não ter um lar que as abrigue e pais que as protejam. Vejo governos se sucedendo e não encontro nada de efetivo em suas políticas públicas. Escuto histórias de homens que batem em suas mulheres, chefes que assediam moralmente seus funcionários, crianças abusadas física e emocionalmente, adolescentes crescendo sem orientação e sem apoio. Vejo e escuto toda sorte de coisas deste mundo e muitas vezes me dá uma desesperança… Dá uma vontade de perguntar indignada, como fez Vinícius de Moraes em “Cotidiano n°2â€, no momento em que vê tanta insensatez e ao querer crer e não conseguir, perguntar a Deus: “escute, amigo se foi pra desfazer, por que é que fez?â€

Ando a ponto de fazer esta pergunta a Deus: se foi pra desfazer por que é que você fez? Se foi para sua obra prima transformar-se em sucata sem valor, por que a colocou em exposição? Por outro lado, existe uma crença em mim que se contrapõe a minha indignação. Existe um lado sonhador e irresponsável que faz meu coração batucar e se encher de fé na humanidade. E este lado me diz que confiar é possível e que nós conquistamos quando ultrapassamos a nossa barreira do egoísmo e penetramos no nosso espaço doador. Este lado meu percebe o livre arbítrio e que nem todos são iguais. Este lado percebe as particularidades humanas e que em nossa maioria somos bons. E que confiar é possível. É que bondade não sai no jornal. Pessoas generosas não são notícia, homens honrados existem, mesmo neste mundo do vale tudo.

Resta a nós termos sabedoria para escolher em quem confiar. Na nossa ânsia de nos dizermos, de mostrarmos quem somos e pra que viemos, findamos por nos entregarmos por qualquer tostão, sem armas, sem defesas e não é assim tão indefesos que devemos e podemos lidar com o mundo. As armas não devem estar a nossa frente nos defendendo de tudo e de todos, mas devem estar ao nosso alcance para quando necessitarmos delas. E bem sabemos que precisamos muitas vezes… Confiar é algo muito sutil.Confiar é mais do que relatar coisas a alguém. Costumo dizer em consultório que, ao chegar até a mim, o cliente confia na ética do profissional que ele procurou, sabe que não posso falar o que é dito, sabe que o que me disser está protegido pelas leis que regem a minha profissão, mas que ele não confia em mim de verdade e que só o tempo dirá se sou ou não digna de que ele me entregue a sua história com as verdadeiras cores que ela possui. Digo que confiar é tempo, é observação, é conhecimento e só após esta tríade ele estará realmente apto a saber se sou merecedora da sua confiança, pois confiar é entregar para o outro coisas que nem sabemos que são nossas, é dizer algo que nem a si próprio é dito, é rasgar mentiras para se estabelecer a verdade.

Confiar não é simples…A história que vivemos no mundo em que moramos nos diz para não mais confiar. Os ecos das notícias e da nossa experiência pessoal ressoam nos lembrando que o outro é um potencial inimigo. O nosso vizinho, o nosso companheiro, o nosso amigo pode nos trair. Pode sim, não vamos nos enganar, mas não é justo para conosco e para com o outro que sejamos tão paranóicos nas nossas relações. Não podemos viver acreditando que o outro é sempre o vilão. Podemos confiar sim, na medida em que confiamos em nós. Na medida em que nos propiciamos arcabouços que nos garantam fazer bons juízos de valores. Na medida em que tenhamos estrutura para não acreditar apenas em um sorriso bonito, palavras sedutoras e gestos de pura amabilidade. Na medida em damos a nós a vantagem do tempo, da observação e do conhecimento. A partir daí o bom senso se instala, pois mesmo sem garantias de uma confiança incondicional, nós merecemos como seres humanos, o benefício da dúvida. Merecemos, acima de tudo, a tranqüilidade que nos dá termos em quem confiar e sabermos que podemos caminhar junto de alguém quase (não quero ser utópica) confiando da mesma forma que “um menino confia em outro meninoâ€.

cartasdocotidiano@tudoglobal.com.br

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