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Um Novo Ano Novo


29/12/2009 - 13:08 -

O novo ano vai chegando e eu fico louca para me livrar do antigo. Deste que estou vivendo. Esperando que ele se acabe para que eu possa colocar um ano novinho em folha na minha vida. Estou falando de mim, sei que um ou outro não gosta de ano novo, mas cá pra nós, é bom demais um novo ano! É como vestir uma roupa nova feitinha para nós. Olhamo-nos no espelho, nos arrumamos e saímos para vida com todos os poderes que Deus nos deu. É assim com um ano recém-nascido. Entramos com tudo, cheios de esperanças, certos de que vai tudo ser diferente, carregados de promessas de melhorar em todos os campos, convictos de que vamos fazer um novo amanhã. Vem uma profunda sensação de um novo começo, muitas vezes de recomeço, um “agora tudo vai ser diferenteâ€, vontade de fazer, de deixar de fazer, vontade de viver… A impressão que temos é de separação, como se um marco invisível apartasse um ano do outro deixando tudo de ruim para trás, jogando para longe desventuras, mágoas, impotências…e assim entramos no novo ano sacudindo a poeira, com a cara lavada, com a alma limpa e uma impressão de que tudo podemos.

Depois a vida vai entrando nos eixos. Os dias vão passando, os meses também, engrenamos no todo dia e vemos que tudo continua do mesmo jeito. Não consertamos a nossa vida, nada mudou de cor e o que era esperança muitas vezes vira desalento. As coisas que nos rodeiam continuam no mesmo lugar, tudo como antes, tudo como estava no ano velho, sem mudança, sem novidade, sem desejos alcançados, sem promessas cumpridas. Seria aí que deveríamos dar-nos conta de que o ano não muda sozinho, que se não mudarmos, tudo continuará igual, tudo vai se estagnar, perder cor, perder brilho e as nossas expectativas jamais se tornarão palpáveis. Mas não tomamos consciência disto, ficamos de novo esperando um outro novo ano para que a nossa vida fique do jeito que desejamos.

Não sei as razões de tanto esperarmos, quando temos todas as possibilidades. Quando somos cheios de graças e de instrumentos que nos permitem fazer diferente. Que nos credenciam a sermos diferentes. A mudar. A fazer. A criar. Talvez devêssemos olhar para trás e vermos o que fizemos, observarmos os erros, os desacertos, os inúmeros inacabados e daí olhar para frente e sentirmos o que precisamos modificar. O que devemos abandonar. O que precisamos retomar. Atentos aos erros do ontem poderemos fazer um novo amanhã a partir do agora. Vigilantes das nossas fraquezas saberemos que poderemos nos tornar fortes, capazes, melhores. Gente de verdade, não expectadores dos palcos da vida.

Vida é invenção. É capacidade de criação. Concordando com Noel Rosa, “a vida é uma só, não tem segunda parteâ€. Vida é o jeito que damos na nossa para ficarmos em paz. Podemos ter uma vida boa. E merecemos. Podemos deixar de nos ocuparmos tanto com os problemas e apreciarmos mais as venturas. Podemos mudar pequenas coisas na nossa rotina para que o dia faça sentido. Permitirmo-nos o riso, a lágrima, a emoção. Deixarmo-nos levar ao invés de controlar. Não fazermos nada, nos conceder um dia do mais absoluto ócio. Ou fazermos tudo que nunca nos permitimos fazer. Fazermos no hoje o que tanto deixamos para depois. Na verdade a mudança começa em nós, nas pequenas coisas, mudanças grandes engavetam-se, ficam para o próximo ano e este nunca chega.

Sábio e inspirador, Carlos Drummond de Andrade nos deixou um belo poema, que acredito ser conhecido de todos: “Receita de Ano Novoâ€. Deixo aqui como reflexão, a sua estrofe final:

“Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempreâ€.

Um grande 2010 para todos. Com pequenas e conscientes mudanças, para que a vida possa despertar.

Este texto vai para minha filha, que sabe como ninguém que “a atitude de recomeçar é todo dia, toda horaâ€. Com sua capacidade de ser inteira com a sua vida e verdadeira com seus sonhos tem sido meu guia mais revelador e majestoso.

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Feliz Aniversário Senhor!


22/12/2009 - 13:51 -

Senhor! Nem sabemos mais se os homens crêem em ti, eles estão tão assustados, tão acuados… eles têm medo Senhor! Temem uns aos outros, seus iguais, feitos Tua imagem e semelhança com o capricho e o amor de um Pai. Talvez tenham razão, existem tantos companheiros desvirtuados, que enganam, que mentem, que tecem tramas e preparam armadilhas para prejudicar ao seu irmão. Quem sabe se hoje não estás chorando Senhor, ao contemplar o paraíso que construístes? Onde anda a paz e o sentimento de fraternidade que pregastes? Onde estão os ecos de Tuas palavras sábias e amorosas? No coração dos homens sabemos que não estão, não encontrariam guarida.

Senhor, Tuas palavras não ultrapassaram o tempo como pretendias. Teus filhos não mais o reconhecem como Pai, ou pior, só lembram de Ti nas aflições. O Teu mundo está corrompido, Teus filhos sucumbidos ao poder e estão legando ao futuro uma geração mais pobre de caráter. A própria natureza está encolhendo, está doente por causa dos desmando dos homens. Nos destes uma natureza perfeita, como todas as Tuas obras, mas não nos adequamos a ela. Teus filhos não sabem mais rezar, mas sabem destruir.

Os Teus arautos não proclamam mais notícias dignas de júbilo sobre o Teu mundo. Elas estão tão escassas… guerras insensatas (será que há sensatez nas guerras, Senhor?), desumanidades, desrespeito ao outro, disputas por poder, fazem parte dos nossos dias e estão tão perfeitamente instalados que conseguimos ficar indiferentes. Temos razão de ter medo, Pai. O futuro muitas vezes é temido no mundo em que vivemos. Nossos amanhã não é mais colorido com a esperança.

Existem pessoas vendendo o corpo nas ruas e outras que o compram. Pessoas que vendem a dignidade e também existe quem a compre. Existe preconceito, Senhor, alguns velados, mascarados, outros que insultam e magoam. Todos revoltam. Existem crianças abandonadas pedido esmola na madrugada, velhos dormindo nas calçadas, jovens drogados, prostituídos. Senhor, existem pessoas passando fome, sem abrigo e sem vestes! Existe solidão, Senhor, na alma de cada um de nós. Existem marcas de servícias e escravidão no corpo e na alma de Teus filhos.

Sabemos, Senhor, que ainda existem flores despertando, sorrisos luminosos em faces infantis e um sol que ainda não apagou. Mas quem tem tempo de observar? Não nos deixamos ver a miséria, por isto não enxergamos a beleza. Estamos perdidos Senhor e clamamos por Tua piedosa ajuda. Teu sacrifício na cruz não melhorou Teus filhos, não sanou os males que destrói o mundo que criastes, Tuas ovelhas multiplicaram em número e diminuíram em valores. Mas será, Senhor, que com Tua infinita grandeza e sabedoria, com Teu amor desmedido e imparcial, não poderia colocar no coração de cada um de nós um pouco de humanidade?

Queremos viver Senhor, sabemos que ainda não é hora de compartilhar a glória do reino do céu, mas queremos a vida imaginada por Ti. Queremos desfrutar deste paraíso terrestre com sentimentos limpos e corações amigos. Faça com que Teus filhos falem a mesma linguagem, perdoa a ambição dos nossos antepassados, construtores de Babel, já pagamos demais por um pecado não cometido por nós. Hoje não temos mirra, nem incenso, nem tão pouco ouro para Te ofertar, estamos pobres. Mesmo vivendo no reino de fartura ofertado por Ti, nós precisamos pedir e como pedintes rogamos a Ti uma graça, um valioso presente de Natal: a paz. Seremos eternamente gratos, Pai.

Feliz Aniversário Senhor!

Texto que publique no Jornal Opinião em 24 de dezembro de 1983, confio que continua atual. Infelizmente.

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Decisões de Natal


15/12/2009 - 14:09 -

Decidi este ano que não vou ser mais generosa no Natal do que sou o ano inteiro. Decidi não ser mais gentil, mais humana do que sou… Decidi não distribuir mais perdões do que costumo, nem ajudar as pessoas mais do que me é comum. Decidi me livrar de todos os estereótipos do Natal. Não consigo entender as razões que levam a tantas confraternizações! Passa-se todo o ano sem tempo para os amigos, incomodado com o excesso de telefonemas de instituições de caridade, irritado com os pequenos imprevistos do dia a dia, sem tempo para ouvir e sem paciência para entender. Como mágica, tudo muda no Natal! As confraternizações pipocam em todos os cantos, as instituições de caridade são lembradas, os amigos reverenciados, as famílias se unem como modelo de fraternidade e votos de paz são distribuídos sem a consciência do seu valor. Por isto eu decidi fazer diferente. Não quero mudar no natal se esta mudança não for perene. Não quero mais nem menos amor, não quero gentilezas temporárias, nem palavras de apreço sazonais. Quero apenas o que me é devido e aquilo que me chega todos os dias da minha vida.

Não se enganem, eu adoro o Natal! Gosto das luzes piscando, dos inúmeros papais noéis que enfeitam as casas, dos presentes trocados, dos rituais que o cercam. Mas é só mais um período de festa. E como tal deveria ser encarado. Não estou pensando nas questões religiosas, isto é pessoal e nem todos são católicos, estou observando apenas os ritos natalinos, aquilo que se acredita ser o papel pessoal a ser desempenhado no Natal. É isto que me incomoda: existir um período para se ser bom, generoso, altruísta, amigo, amoroso, gentil… existir um período do ano para que se almeje a paz e a fraternidade entre os homens.

O Natal vai embora, chega o ano novo, desejos são expressos, promessas estabelecidas, mas o ano se inicia e tudo fica para trás. De novo a falta de tempo para olhar o outro, de novo a irritação com os acontecimentos diários, de novo o distanciamento dos amigos e colegas com quem confraternizou, outra vez o sentido de família sendo esquecido e a generosidade para com o próximo sendo colocada em segundo plano. Mais uma vez o Natal se foi de dentro de nós e voltamos a ser pessoas comuns, normais, nem mais nem menos, só gente com o seu cotidiano viciado e estreito.

Por isto quero fazer diferente: neste Natal quero ser quem eu sou. E na minha existência neste mundo, quero ser alguém melhor. Quero doar a quem dôo durante o ano inteiro e receber de quem nunca esquece de me ofertar. Não quero encontros vazios, taças brindando numa comunhão que não existe em outros momentos, desisto de presentear a quem não lembro do aniversário e não faz parte do meu universo, como não quero ajudar instituições que nem sei direito o que fazem, prefiro ficar com as que conheço. Neste momento quero ser apenas eu, mas quero melhorar. Quero que o verdadeiro sentido do Natal faça parte do meu mundo durante toda minha vida, quero que a minha capacidade de amar, perdoar, respeitar seja construída e ampliada enquanto eu existir, quero que todos os sentimento bons que são expressos no natal não precisem de datas dentro de mim para se manifestar, quero que chegue o próximo Natal sem que eu precise decidir fazer uma comemoração diferente para mim…

Não vou desejar um Feliz Natal à vocês… desejo sim, a cada um, comprometimento com seus sentimentos e ações que impulsionem ao crescimento pessoal, para que palavras como solidariedade, paz, amor, fé, companheirismo, felicidade, sejam, como expressa Thiago de Mello com a palavra liberdade em “O Estatuto do Homemâ€, suprimidas “dos dicionários e do pântano enganosos das bocas†e que habitem por todo o sempre nos nossos corações.

cartasdocotidiano@tudoglobal.com.br

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A Arte de Escutar


08/12/2009 - 20:46 -

Sou uma apaixonada pelas palavras, pelo seu significado, pela mágica de transformarem-se em frases, poemas, textos, significados. Da beleza que é vê-las transfigurarem-se em rimas, prosas, deduções, dúvidas, interrogações, afirmações, questionamentos… A junção das palavras me deixa atenta, sôfrega para saber da alma que se esconde por trás delas. Talvez por hábito da profissão tento escutar além do que o outro está me dizendo, do que não é dito, do que ainda nem se pensou em dizer, do quem nem se sabe se existe.

Minha outra grande paixão são as pessoas, gente em toda simplicidade do ser. Eu gosto mesmo de gente. Gosto do pensar do outro, de tudo que difere e se assemelha a mim. Gosto das suas dúvidas, seus medos, sua coragem, sua força e da sua imensa capacidade de dar novos significados a sua história. São as palavras que me trazem o outro, são elas que me abrem o caminho para o imenso quebra-cabeça do ser. Palavras e homens andam juntos.

Para que palavras e homens nos tenha significado real, precisamos saber escutar. Entonações, ritmos só têm sentido se realmente escutamos. E quanta coisa se perde ao não escutarmos verdadeiramente… Quanto deixamos de saber do outro sempre que não o ouvimos. Quantas discórdias, desentendimentos ocorrem por não estarmos atentos ao que nos dizem. Quantas fantasias criamos por não termos escutado! O outro fala e nós ficamos pensando como responder. Nos conta a sua história e nós só esperamos um pequeno espaço, quando não o interrompemos, para dizermos o quanto somos iguais. Ou como fazemos diferente. O outro tenta se explicar e nós retrucamos sem ouvir suas desculpas. Tudo acaba se referindo a nós, ao que pensamos, ao que achamos, ao que sabemos. Como se apenas nós e nossas crenças existissem. Somos, na verdade, grande “Eus†perambulando por este mundo. E não escutamos…

Quando não escutamos perdemos a nossa capacidade de nos solidarizarmos, de passarmos para o lado do outro em busca de uma nova perspectiva, nada aprendemos e, conseqüentemente, não poderemos ensinar. Ao não escutarmos nos tornamos surdos à nossa humanidade, surdos ao princípio de respeito ao outro, surdos ao sentimento de compaixão. Quando não temos humildade para procurar entender o que o outro quer nos dizer, ficamos cada vez mais solitários e prisioneiros de um único ponto de vista: o nosso. E desta forma, estacionamos.

Escutar requer interesse genuíno pelo outro. Requer paciência, doação. Requer, acima de tudo, respeito pelo nosso igual. Quando o outro nos fala, nem sempre ele está em busca dos nossos conselhos, de resoluções, de explicações. Talvez ele não queira ouvir a nossa experiência, a forma como agiríamos ou como seríamos pertinentes na solução. Talvez ele só deseje compreensão. Talvez queira somente um ouvido atento que não o faça sentir-se inadequado, um entendimento silencioso, um olhar bondoso para com suas faltas e uma aceitação dos desvios que fez em sua jornada. Talvez, a única coisa que ele deseje de nós, é a nossa inteireza. Para que ele possa descobrir a sua.

No entanto, para ouvirmos ao outro, temos que, primeiro, aprender a nos ouvir. A nos dar ouvidos. Precisamos escutar as nossas necessidades, as nossas vozes internas, aquilo que nos cutuca sem cessar, aos nossos desejos. Necessitamos saber o que nos importa. Assim como escutamos mal ao outro, como o atropelamos com a nossa necessidade de explicar, de resolver, fazemos o mesmo com o que nos aflige. Nos culpamos, nos justificamos, mas não ouvimos o que o nosso interior quer dizer. Não sabemos o que realmente sentimos. Ou não queremos saber. Não somos atenciosos com o que a nossa alma nos diz. É preciso parar e ficarmos atentos ao nosso íntimo, nos termos consideração, nos levarmos em conta, pois será a partir de nós que poderemos ir até ao outro escutando não apenas as suas palavras, mas o seu significado, ouvindo não só as suas sentenças, mas o ritmo com que ele as expressa. Assim, e só assim, seremos capazes de escutar genuinamente.

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Sobre o Confiar…


01/12/2009 - 17:23 -

Algo tem me impelido a pensar muito sobre o confiar. Não sei se as notícias sobre os nossos inconfiáveis políticos, não sei se as dores trazidas ao consultório, não sei se os inúmeros casos sobre pedofilia veiculados nos meios de comunicação, não sei se alguma coisa dentro de mim se assoma e eu ainda não estou dando conta… Mas sei bem que confiar está cada vez mais difícil.

Thiago de Melo, em seu magistral “Os Estatutos do Homemâ€, evoca ao homem confiar no homem como um menino confia em outro menino. Sempre me deleitei com esta forma poética de sentir a confiança. Por toda a vida fiz disto um refrão de possibilidades e sonhei com esta quimera. No entanto, o que vejo, o que observo, o que sinto não corresponde a este sonho. Vejo crianças abandonadas esmolando pelas ruas, por não ter um lar que as abrigue e pais que as protejam. Vejo governos se sucedendo e não encontro nada de efetivo em suas políticas públicas. Escuto histórias de homens que batem em suas mulheres, chefes que assediam moralmente seus funcionários, crianças abusadas física e emocionalmente, adolescentes crescendo sem orientação e sem apoio. Vejo e escuto toda sorte de coisas deste mundo e muitas vezes me dá uma desesperança… Dá uma vontade de perguntar indignada, como fez Vinícius de Moraes em “Cotidiano n°2â€, no momento em que vê tanta insensatez e ao querer crer e não conseguir, perguntar a Deus: “escute, amigo se foi pra desfazer, por que é que fez?â€

Ando a ponto de fazer esta pergunta a Deus: se foi pra desfazer por que é que você fez? Se foi para sua obra prima transformar-se em sucata sem valor, por que a colocou em exposição? Por outro lado, existe uma crença em mim que se contrapõe a minha indignação. Existe um lado sonhador e irresponsável que faz meu coração batucar e se encher de fé na humanidade. E este lado me diz que confiar é possível e que nós conquistamos quando ultrapassamos a nossa barreira do egoísmo e penetramos no nosso espaço doador. Este lado meu percebe o livre arbítrio e que nem todos são iguais. Este lado percebe as particularidades humanas e que em nossa maioria somos bons. E que confiar é possível. É que bondade não sai no jornal. Pessoas generosas não são notícia, homens honrados existem, mesmo neste mundo do vale tudo.

Resta a nós termos sabedoria para escolher em quem confiar. Na nossa ânsia de nos dizermos, de mostrarmos quem somos e pra que viemos, findamos por nos entregarmos por qualquer tostão, sem armas, sem defesas e não é assim tão indefesos que devemos e podemos lidar com o mundo. As armas não devem estar a nossa frente nos defendendo de tudo e de todos, mas devem estar ao nosso alcance para quando necessitarmos delas. E bem sabemos que precisamos muitas vezes… Confiar é algo muito sutil.Confiar é mais do que relatar coisas a alguém. Costumo dizer em consultório que, ao chegar até a mim, o cliente confia na ética do profissional que ele procurou, sabe que não posso falar o que é dito, sabe que o que me disser está protegido pelas leis que regem a minha profissão, mas que ele não confia em mim de verdade e que só o tempo dirá se sou ou não digna de que ele me entregue a sua história com as verdadeiras cores que ela possui. Digo que confiar é tempo, é observação, é conhecimento e só após esta tríade ele estará realmente apto a saber se sou merecedora da sua confiança, pois confiar é entregar para o outro coisas que nem sabemos que são nossas, é dizer algo que nem a si próprio é dito, é rasgar mentiras para se estabelecer a verdade.

Confiar não é simples…A história que vivemos no mundo em que moramos nos diz para não mais confiar. Os ecos das notícias e da nossa experiência pessoal ressoam nos lembrando que o outro é um potencial inimigo. O nosso vizinho, o nosso companheiro, o nosso amigo pode nos trair. Pode sim, não vamos nos enganar, mas não é justo para conosco e para com o outro que sejamos tão paranóicos nas nossas relações. Não podemos viver acreditando que o outro é sempre o vilão. Podemos confiar sim, na medida em que confiamos em nós. Na medida em que nos propiciamos arcabouços que nos garantam fazer bons juízos de valores. Na medida em que tenhamos estrutura para não acreditar apenas em um sorriso bonito, palavras sedutoras e gestos de pura amabilidade. Na medida em damos a nós a vantagem do tempo, da observação e do conhecimento. A partir daí o bom senso se instala, pois mesmo sem garantias de uma confiança incondicional, nós merecemos como seres humanos, o benefício da dúvida. Merecemos, acima de tudo, a tranqüilidade que nos dá termos em quem confiar e sabermos que podemos caminhar junto de alguém quase (não quero ser utópica) confiando da mesma forma que “um menino confia em outro meninoâ€.

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Fazer ou Criar


24/11/2009 - 8:32 -

Na última semana eu fui à duas exposições de arte. Não é hábito meu ir à exposições e saí das duas me penitenciando por não ir à todas. Tudo tão diferente. Eu conhecia o trabalho dos dois artistas, mas nada era igual. Tudo era novo, parido de criação. Percebi como a minha alma saiu renovada. Saí de mim e olhei para o que o outro é capaz de fazer. E os admirei. Os reverenciei. Fiquei pensando em que lugar se perdeu o meu processo artístico, onde se escondeu tudo aquilo que se expandia dentro de mim e em que momento ele foi bloqueado. Olho para trás e vejo um monte de desejos não realizados. Dançar, cantar, pintar… Eu não dei andamento a nenhum deles. Outras necessidades me tomaram e eu fui esquecendo partes importantes do meu eu, me negligenciei em nome do dever. E como eu que deixei para trás, vejo inúmeros artistas caminhando por aí sem saber que o são, sem olhar para dentro de si e sem se perceberem criadores.

A vida que escolhemos levar nos torna meros fazedores. Existe um poema de Drummond, “Fazedor de Homensâ€, um dos seus mais belos, em que ele fala que o homem fez o homem sem nem o homem querer e por isto ele possui direitos sobre este homem. Ele diz cresça, o homem fica mais alto, diz trabalhe e ele usa o seu corpo para o trabalho, diz viva e este homem respira, diz procrie e ele faz homens. E que quando este homem morre, percebe-se que a vida foi longa demais para viver e muito pequena para morrer, pois nada foi escolhido, nada foi pensado. Este homem foi apenas um fazedor de homens, não um criador. E o que diferencia um homem que faz do homem que cria é o seu pensamento. É a sua capacidade de exigir, de querer, de reivindicar que o torna maior. Este texto poderia parar por aqui… tudo já está dito. No entanto, atrevo-me a dizer mais.

Este homem que faz o outro homem, somos nós. Nós nos fazemos. Nós escolhemos ser esta pessoa que deixa os desejos para trás e segue a vida apenas trabalhando, apenas respirando, apenas procriando sem nada criar. Somos a nossa rotina, a nossa acomodação, a nossa preguiça, a nossa aceitação do que vivemos. Somos o acordar e seguir os passos do dia sem darmos conta do que foi feito. Somos o desejo de expansão encoberto pelo que devemos fazer. Paramos pouco para olhar dentro de nós e vermos o que desejamos mudar. E quando não expandimos, estagnamos. Acabamos nos tornando aquele que sempre come a mesma comida, que não pensa nada de novo, que não olha a vida de um prisma diverso, que não muda de opinião. Somos, realmente, simples fazedores. E até acreditamos que estamos bem, que conquistamos aquilo que queríamos, que fizemos as coisas que um dia desejamos fazer. Nem percebemos o quanto estamos engessados num modelo pronto de vida ideal, no quanto somos fazedores temerosos da mudança e como tais, sem pensar, estamos prontos para cumprir.

De repente, em meio ao tudo certo da nossa vida, aparece não sabemos de onde, um desejo mexendo dentro de nós. Desejo de mudar. Pintamos casa, trocamos almofadas, cortamos cabelo e por um tempo aquilo se aquieta. Em um outro momento, de novo vem o desejo. De novo o abafamos. De novo fazemos coisas. Coisas que garantam a nossa segurança, que muda, mas não de verdade. Colocamos os pés no mar e não mergulhamos. E em um círculo interminável de desejar e apenas fazer sem criar, encaixotamos necessidades que poderiam nos fazer melhores. Deixamos de experimentar novas texturas, novos sabores, novas experiência, novas capacidades… E continuamos a acreditar que isto é o correto. Mas nem sempre o que é correto é bom. Acredite nisto.

Uma das frases que mais venho repetindo para mim é de Raul Seixas: “prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter a velha opinião formada sobre tudo.†Repito para não esquecer minhas necessidades, para não ficar parada em um tempo acreditando que o que penso ter e acredito ser é o único lugar possível para mim. Metarmorfosear-se nada mais é que descobrir o nosso poder de criação, para que um dia nos orgulhemos de não sermos na vida apenas fazedores de homens e sim o artista, o criador da nossa existência.

Agradeço a arte de Gama Júnior e Vera Gama, que foi a inspiração para este texto.

P.S. Um enorme obrigada a todas as pessoas que me doaram um tempo de suas vidas para comentar o que escrevo, como também àqueles que passaram por aqui e nada disseram. A generosidade de cada um, com certeza, me engrandeceu como pessoa.

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Respeito Humano


17/11/2009 - 10:46 -

Estudei em colégio católico e hoje, apesar de professar uma fé só minha, lembro de frases ditas, de conceitos formadores que foram derrubados por mim pela lógica da ciência ou pelo aprendizado da vida, mas um me acompanhou durante muito tempo. E me acompanha, senão não estaria sendo discutido aqui: “não devemos ter tanto respeito humanoâ€. Passei muito tempo sem compreender esta frase. Como não devemos ter tanto respeito humano? É contraditório atender ao mandamento de amai-vos uns aos outros sem a grandiosidade de ter respeito humano. Depois de muito tempo, quando outras compreensões foram se juntando a esta, foi que entendi o que me foi ensinado… Sempre que esta frase era dita, ela estava aliada a profissão da fé, a vergonha que tínhamos, quando adolescentes, de participar dos rituais da igreja católica. Por sermos ainda jovens demais, estávamos sujeitos a aprovação de um grupo que nos interessava muito mais: os nossos amigos, a nossa turma.

Entendo hoje, com clareza, o que me foi dito naquela época e posso assim transpor para a realidade do meu hoje. Realmente, não devemos ter tanto “respeito humanoâ€. Não devemos necessitar tanto da aprovação do outro. Não devemos ser o que o outro espera de nós. Não devemos nos conduzir de acordo com normas prontas e massificadas, não aprovadas por nós. Decerto, não devemos. Sei que é fácil expor tantos “não devemos†e dizer: não faça, apenas, pelo outro! Preocupe-se com você, com seus anseios! E como sei que é simples dizer, entendo ser muito difícil fazer diferente, por não haver uma fórmula pronta de mudança, por existirem necessidades individuais, e, principalmente, por sermos seres em relação. Existimos neste mundo com o outro e muitas, muitas vezes, o que ele pensa sobre nós nos afeta. E nos transforma. Como é possível, nesta constante interação que temos com um universo de pessoas sairmos ilesos da opinião e expectativas que têm sobre nós?

Não estou falando do outro distante de nós. Do passageiro que faz caminhos distintos por este mundo em que nós andamos. Do outro sem nome, do que não nos diz respeito, daquele que nós nos sentimos anônimos ao olhar para ele. Falo do outro com quem nos relacionamos e com quem temos envolvimento de afeto, o outro que admiramos, o outro que tememos, o outro a quem não amamos, mas o carregamos pela vida, o outro para quem damos um jeito no nosso caminho para encostar no dele, como magnificamente disse Chico Buarque em Valsa Brasileira.

Sei não sermos espíritos tão livres como desejamos ser. Este outro nos importa sim. E mais, deve nos importar. Mas não deve nos importar a ponto de não valorizarmos o que desejamos ser e fazer. Senão, mais tarde, na frustração de nos perceber sendo o que não desejaríamos ser, na dor do dar-se conta de que não realizamos o que um dia ansiamos, iremos culpar o outro por nossos fracassos. Pareceremos, ao nosso olhar, frágeis vítimas nas mãos de algozes cruéis do nosso passado, esquecendo que todo tirano necessita de alguém subserviente para exercer o seu poder. Não sejamos tão inocentes assim na leitura das nossas concessões do hoje. Tudo tem um fim, um propósito. Tudo tem uma intenção. Sabemos que, quando não conseguimos deixar de ceder não estamos, apenas, querendo generosamente agradar ao outro, não estamos fazendo para o outro por estarmos subjugados a ele, fazemos, também, por querer garantir a nossa cota de amor e de admiração. Fazemos por não agüentarmos sermos vistos pelo olhar da crítica e do desagrado. Fazemos por acreditar que só cedendo seremos aceitos. Na maioria das vezes entregamos ao outro o direito de gerir nossas vidas pelo medo que temos de nos responsabilizarmos por ela, fazemos aquilo que esperam de nós por não sabermos como lidar com as nossas escolhas. Convenientemente esquecemos que somos senhores dos nossos desejos e da nossa vida. No momento que conseguimos perceber que somos nós o nosso gestor e que colocar no outro a culpa do que vivemos é abdicar de direitos inalienáveis, abre-se em nós um mundo de possibilidades, inclusive a de saber que nos adaptamos ao outro por ser bom para nós e que ele é só e apenas só, a desculpa que encontramos para não aceitarmos a felicidade.

cartasdocotidiano@tudoglobal.com.br

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Tempo presente


10/11/2009 - 10:18 -

Percebi ontem que não lembro do rosto do meu pai…todas as vezes que tento vê-lo nas minhas lembranças me vem uma imagem nebulosa carregada das sensações dos momentos vividos com ele. Recorro à fotografia quando desejo ter sua imagem definida para mim. A minha memória recorda do seu jeito, das palavras, das ações, lembra essencialmente da emoção de instantes vividos, mas seus olhos, suas mãos, tudo vem em fragmentos esparsos e nada se completa como um todo. Parece que a imagem deixa de existir . A lembrança tem um jeito bem próprio de se fazer presente e nunca, nunca mesmo, é plenamente completada. Muitas vezes me fixo em um momento que está sendo especial para mim e tento retê-lo, quando vejo, já passou, já se foi e não mais se repetirá, jamais do mesmo jeito. Olho para trás e tento ver a menina que eu fui, tento enxergar os passos dados, o caminho percorrido, mas parece que tudo ocorre em uma rotação diferente do tempo do existir. Tento insistentemente completar os instantes, dar-lhes vida, e o que me chega são sensações, emoções, sentimentos, que muitas vezes não estão claros, estão misturados com todas as experiências por mim vivenciadas.

Quantas vezes, infelizmente, tenho a sensação de que não vivi plenamente! Quantas vezes desejei voltar no tempo e viver, não apenas reviver, as emoções por mim experimentadas. Quantas vezes desejei que o tempo estacionasse e ficasse ali, congelado como numa fotografia e eu pudesse, desta vez do jeito certo, guardar por inteiro o meu momento de plenitude. Mas a vida se move, não volta atrás. A vida caminha e nós caminhamos juntos com ela, queiramos ou não. Quando a gente menos espera já é amanhã e o ontem? O que eu fiz com o meu ontem?Onde eu o coloquei? E assim ficamos sem saber o que vivemos, não damos importância as pequenas coisas que a vida nos oferece, passamos o dia e achamos que foi rotineiro, igual, insípido, nada foi vivido, nada de novo foi experimento, nada grandioso!

Quando nos deparamos com o amanhã que é o nosso hoje e num raro momento de lucidez percebemos o que tivemos no ontem, queremos agarrar a lembrança, torná-la palpável, presente e tudo que temos são fragmentos fugazes de um tempo que não é mais nosso, pois o único momento possível de ser vivido é o hoje, é o agora, este exato momento em que estou escrevendo para você e só nele poderemos existir. Temos lembranças, sensações e emoções do ontem, temos anseios, temores, desejos do amanhã, mas só e apenas só, poderemos viver no agora. Este pleno, completo, inteiro instante que é o agora. Viver o momento não significa apenas estar ali, é um investimento muito maior. Viver agora é deixar-se conduzir pela beleza do que está sendo vivido e não controlar o que se está sentindo. Deixar-se levar e apenas experimentar. Sem pensar tanto, sem grandes argumentos, sem respostas prontas. Apenas viver. Viver por inteiro. Com plenitude. E mais, nem pensar se está vivendo ou não, apenas viver. Isto basta, já é precioso demais podermos experimentar. Depois disto, quando você perceber, como eu, que do seu passado lhe resta apenas fragmentos de imagens, você vai ter para lembrar não apenas o sorriso do outro, não só o seu corpo de criança preso em um tempo, mas sim a emoção de tudo que foi vivido no momento em que você estava presente.

cartasdocotidiano@tudoglobal.com.br

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