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A Indignidade do Trabalho Infantil

terça-feira, junho 21st, 2011

Reprodução de artigo de Heloísa Helena*

A Conferência Global sobre Trabalho Infantil – realizada em Haia (Holanda) – reuniu mais de 450 delegados de 80 países que concordaram em assinar um documento caracterizando a importância da abolição do trabalho infantil como uma “necessidade moralâ€. Algumas metas foram estabelecidas para a superação do grave problema e muito especialmente a que estabelece o ano de 2016 como data limite para a erradicação do trabalho infantil no mundo. A Organização Internacional do Trabalho e várias entidades classificaram como urgentes todos os casos relacionados a qualquer forma de escravidão como prostituição infantil, tráfico e uso de crianças em conflitos armados e atividades ilícitas como a produção e repasse de drogas. Afinal, crianças não são despojos de guerras sujas!

No Brasil as estatísticas oficiais apresentam o número de quase cinco milhões de pequeninos seres humanos submetidos ao trabalho infantil. Desses mais de trezentos mil sofrem acidentes de trabalho com percentuais alarmantes de mutilações, incapacidades permanentes e mortes. Em Alagoas os dados são abomináveis e estarrecedores e vinculados diretamente às condições infames de indigência humana e vulnerabilidade social das famílias. Poucos municípios construíram seus Planos de Erradicação do Trabalho Infantil – e quase nenhum conseguiu de fato implementar. Tive a honra de participar da elaboração do Plano de Maceió coordenado pela Assistente Social Ana Tojal, com ampla participação das forças vivas da sociedade e com todo rigor técnico e compromisso social nas propostas objetivas construídas. Foi elaborado no começo de 2010 e até agora não foi aprovado pela Câmara Municipal.

Em cada uma das regiões do Brasil – ou conforme as especificidades da economia local ou da miséria social nos estados – identificamos a indignidade da exploração de crianças e adolescentes e ao mesmo tempo a extrema angústia de quem tem compromisso com a causa e conhece todo o arcabouço jurídico que a elas confere o direito à vida digna e a mudança dos seus destinos. Porque nós sabemos que muitas das perdas ao longo das nossas vidas podem ser repostas ou substituídas em outra fase… mas a Infância nunca poderá ser restituída a quem a teve roubada ou mutilada.  Assim sendo, registro a minha homenagem emocionada a todas (os) que continuam a lutar e neste momento especialmente a Profa. Cláudia Malta a quem as imensas e tristes dores do lúpus apenas agigantaram o seu compromisso social.

Nas florestas da Amazônia… correm crianças, como se pequenos duendes fossem, rapidamente fazendo estrias nas árvores para o sulco, colocando sacos para resina escoar, com as mãozinhas grudentas de goma ou cheirando a diesel usado para limpeza… ou se arriscando em pequeninos barcos rio acima rio abaixo comercializando pequenas coisas ou ainda com os olhos queimados pelo óleo da castanha… ou usadas sexualmente e covardemente como se mulheres adultas fossem, mas nem pequenas bonecas tiveram para viver a infância!

No trabalho da agricultura em várias regiões… mãos infantis marcadas pelo ácido da laranja, mutiladas pelas foices nos canaviais, colhendo folhas de chá ou fumo ou frutas, aplicando veneno e carregando imensas caixas. No serviço doméstico crianças são usadas como força de trabalho barata e exploradas na iniciação sexual dos filhos dos donos da casa em que trabalham ou abusadas sexualmente por bandos de adultos criminosos que contam com a impunidade para ocultá-los. Nas sufocantes e quentes carvoarias que mais parecem uma cratera de vulcão… Nas olarias alimentando o moinho, britando pedras, empurrando carrinhos pesados ou inalando os resíduos de pólvora… Na fabricação de louças e porcelanas com suas mãozinhas delicadas e depois com alvéolos pulmonares petrificados pelo pó de sílica e sem nenhuma alternativa de superação dos problemas respiratórios decorrentes.

Nas cidades e nos lixões onde brincam e dormem junto à combustão do lixo, disputam comida ou sonham com um brinquedo, morrem soterradas por tratores e caminhões… e nas feiras com carrinhos, nos sinais de trânsito, nas ruas das madrugadas vendendo pequenas flores, no turismo sexual das criminosas redes de pedofilia ou sendo utilizadas como aviãozinho e mão-de-obra escrava do mundo maldito do narcotráfico e estimulados a serem usuários para que a rede não seja desmantelada.

Mas o mais doloroso – para quem não faz parte dos bandos de políticos ladrões que sobrevivem como parasitas da miséria humana – é conhecer todas as conquistas da ordem jurídica vigente e todas as alternativas para a superação desses graves problemas. Das propostas objetivas para a independência econômica dos jovens e adultos das famílias vulneráveis socialmente – com a necessária capacitação profissional e inserção em arranjos produtivos viáveis economicamente – até as alternativas de educação, música, esporte e cultura para que as nossas crianças possam ter assegurado o direito de vivenciarem a riqueza emocional da infância.

Tomara que cheguem logo os dias em que todas as crianças possam ser crianças! E que possam rir alegremente e que os seus olhos tristes sejam apenas marcas do passado nos registros fotográficos! Como dizia o poeta “A minha luta é dura e regresso com os olhos cansados… às vezes por ver que a terra não muda… mas ao entrar teu riso sobe ao céu a procurar-me e abre-me todas as portas da vida!â€

Heloísa Helena é vereadora do PSOL em Maceió.

Twitter: @_heloisa_helena

E-mail: heloisa.ufal@uol.com.br

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Educação Infantil

quinta-feira, maio 5th, 2011

Reprodução de artigo da vereadora *Heloísa Helena

“Tentativa de Superação do Abandono e Solidão das Crianças Pobresâ€

A defesa dos Direitos das Crianças é sempre parte dos discursos políticos e dos programas eleitorais… entretanto a realidade de abandono e negligência do setor público para com elas mostra claramente como a demagogia é ferramenta poderosa para vitórias eleitorais e instrumento perverso de preservação do absurdo processo de aniquilamento da infância.

Muitos, em todos os partidos, menosprezam este debate! A direita reacionária e corrupta nem se incomoda com isso – rouba da merenda escolar para comprar uísque e sem escrúpulos rouba a dignidade humana – e sempre acaba se dando bem em terras-sem-lei, como a nossa e muitas outras também! Setores da esquerda acham este debate menor e típico do paternalismo caritativo e assim se contentam com as revoluções em mesa de bar ou guerrilhas na internet onde adoram proclamar que esperem o socialismo – pois só ele resolverá – mas usufruem das oportunidades do teto digno pra se abrigar, dos lençóis limpos para os filhos, dos planos de saúde, das escolas que ofertam dignidade.

A sociedade, em geral, fica extremamente comovida diante de casos extremos: “crianças morrem queimadas após incêndio no barraco… a mãe tinha saído para trabalhar!â€; “bebê recém-nascido encontrado morto dentro de uma lixeira no banheiro do supermercado!â€; “encontradas duas crianças carbonizadas em incêndio na favela…os pais trancaram a porta de cadeado com medo da violênciaâ€; “pai espanca o recém-nascido até a morte!â€; “criança de um ano morre após ser estuprada em casa!  Mas essa mesma sociedade, em maioria, observa com distância e pouco incômodo a situação indigna das trabalhadoras da educação, das mulheres pobres e a profunda humilhação das crianças jogadas na solidão da extrema miséria humana!

É verdade que existem grande lutas a serem travadas neste país que joga nos paraísos fiscais mais de 60 bilhões de dólares de fortunas de alguns poucos brasileiros – parasitas-sem-pátria – patrocinados por carcomidas políticas econômicas que impedem alternativas de dinamização econômica, geração de emprego e renda no campo e cidade, e políticas sociais que possibilitem ao menos a inclusão de populações vulneráveis socialmente. Mas enquanto nós lutamos para promover as grandes mudanças estruturais podemos lutar também para garantir, ao menos de imediato, 12 mil novas Unidades Educacionais como possibilidade concreta de um lugar digno para abrigar mais de 15 milhões de crianças de 0 a 3 anos que vivenciam miseráveis experiências cotidianas de humilhações diversas e abomináveis.

Esta luta é travada cotidianamente por conselheiros tutelares, movimentos sociais, agentes públicos comprometidos, intelectuais ou pessoas simples e lutadoras espalhadas pelo Brasil…é a luta desesperada de mulheres mães e avós – que precisam trabalhar e estudar – buscando um lugar digno para a proteção das suas crianças! Certamente, alguns farsantes da política, geralmente os ladrões ou a eles coligados, gritarão: “… Onde tem dinheiro pra tudo isso?  mas a preocupação das excelências delinquentes não é por incompetência técnica de não compreender que menos de 2% do Orçamento da União garantiria de forma impecável a concretização dessa meta…é falta de compromisso social! Aliás, ainda lembro a histeria no antro da vadiagem política, em Alagoas e Brasília, para impedir a aprovação da PEC 40 de minha autoria – que garantia a obrigatoriedade da Educação Infantil… foram 5 anos de lutas para conseguir aprovar no Senado! E depois ainda tive que ver os 7 milhões de reais que mandei para construção de creches em Alagoas serem devolvidos ao Governo Federal num misto de incompetência e vagabundismo vulgar típico da “nossa†política local!

O mais doloroso mesmo é que todos sabem que os mais importantes estudos em neurociência apresentam elementos extremamente importantes para a compreensão dos três primeiros anos de vida do ser humano, onde o cérebro constrói estruturas duradouras que permitirá e determinará a capacidade de aprendizagem, memória, raciocínio, habilidades linguísticas, sociais e afetivas. A rede de conexões neurológicas desse período potencializa não apenas as habilidades em lógica e matemática, a evolução da linguagem e da percepção ou coordenação motora… mas também um belíssimo período da nutrição do afeto, da estruturação dos preciosos laços de afetividade que muitas vezes a vulnerabilidade econômica, a desestruturação familiar, o alcoolismo e outras drogas psicotrópicas impedem que as pequeninas crianças possam vivenciar em suas casas.

Algumas crianças estão em creches brincando em areia esterilizada, em piso de vinil acolchoado, com ensino bilíngue a partir de 10 meses de idade, com pediatras e outros profissionais à disposição em tempo integral, com seus pais recebendo até fotos pelo celular todos os dias! Mas a grande maioria, a imensa maioria das nossas crianças, convive apenas com o medo, a tristeza, a violência, a frustração e a solidão da indigência!

É preciso lutar por toda a Educação Infantil, em todas as suas etapas e em qualquer denominação que a elas sejam dadas! Alguns acham ríspido tratar deste tema de tal forma… eu apenas repito Saramago… â€Se tens o coração de ferro, bom proveito! O meu fizeram-no de sangue e sangra todo dia!â€

Heloísa Helena é vereadora pelo PSOL em Maceió,

Twitter: @_heloisa_helena

E-mail: heloisa.ufal@uol.com.br

 

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