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Na cerimônia de entrega da Medalha do Mérito da República Marechal Deodoro da Fonseca, Hermeto Pascoal rouba à cena e vira a atração das atrações.
Quando eu soube que Hermeto Pascoal seria um dos agraciados,esse ano,com a Medalha do Mérito da República Marechal Deodoro da Fonseca, fiquei ansioso para comparecer ao evento.Minha ansiedade era consequência de uma curiosidade particular.Já tinha presenciado algumas de suas maravilhosas performances em espetáculos no Rio de Janeiro, mas como seria o mago do som fora dos palcos?
Como pensaria hoje esse jovem senhor, que saiu em 1958 da desconhecida Lagoa da Canoa para conquistar o Brasil e o mundo?O mundo sim, sem nenhum exagero.Airto Moreira,ao apresentá-lo, nos Estados Unidos, a outro gênio da música no século XX, testemunhou a imediata consonância mental entre Hermeto e ninguém menos que Miles Davis.O encontro de ambos, em 1970, virou disco do maestro e gênio do trompete, com direito a participação e inclusão de duas músicas de Hermeto: “Igrejinha†e “Nem um talvezâ€.
No ano seguinte, Airto Moreira grava uma música composta pelo pai de Hermeto: “Gaio de Roseiraâ€.A crÃtica inglesa rasgou-se de elogios à composição e ao arranjo.Estava consolidada a carreira do Albino Crazy( carinhoso apelido dado à Hermeto por Miles Davis) no exterior.
A história é muito mais extensa, mas não quero me alongar nela.A minha admiração por Hermeto começou justamente ao ouvir o disco Live Evil de Miles Davis e a reverência explÃcita, nesta obra , a Hermeto, me estimulou a acompanhar os voos e tendências sonoras do mesmo.Isso já era o suficiente para despertar a minha vontade de ver, estar perto, enfim captar alguma energia positiva que certamente emana dessas “almas diferenciadasâ€.
Chego bem antes da hora e ,para minha surpresa, Hermeto já se encontra no local com sua companheira: a jovem e simpática(e também instrumentista)Aline Morena.Com toda a minha emoção contida cumprimento o casal e passo a acompanhar a entrevista de Hermeto para a Rádio Gazeta.Eufórico e com excelente humor quase não deixa o repórter perguntar nada; fala, graceja e até ensaia com a companheira uns interessantes “embolados sonoros†.Quando o repórter Warner Oliveira insinua uma despedida Hermeto intervém: “Peraà meu filho,eu ainda não falei quase nadaâ€. Em meio aos risos dos que assistiam a cena, a entrevista continua. Ao terminarem peço para tirar uma foto com o casal, e sou prontamente atendido.
Os demais homenageados e as autoridades organizadoras do evento vão chegando à sala vip, mas permaneço “grudado ao casalâ€. Ele agora conta que num repentino momento daquela tarde ,ao olhar pela janela , começou a cantarolar e acabou escrevendo no “bloquinho do hotel “ uma música que acabara de batizar de suÃte alagoana. Sua companheira abre a bolsa e mostra as folhas do bloquinho cuidadosamente enroladas e amarradas,em forma de canudo, com um laço prateado. “Quero fazer uma surpresa para o governador.Vou presenteá-lo com os originais da minha mais nova criaçãoâ€.
No inÃcio da cerimônia sentamos na mesma mesa.Ao ser chamado para receber a sua honraria Hermeto já se diferencia dos anteriores pois encaminha-se para o palco dançando e gesticulando, tirando e colocando seu chapéu várias vezes sobre sua vasta cabeleira branca.Intensificam-se os aplausos.
Ao se dirigir ao púlpito para fazer uso da palavra Hermeto desmonta a apresentadora Gilka Mafra ao recusar um aperto de mão e exigir da mesma “um cheiroâ€.Exigência atendida e formalidades quebradas, Hermeto pede para que o governador se aproxime pois trouxera alguns presentes.Entrega-lhe, então, um DVD, um CD e, ele mesmo, desenrola os papéis do “bloquinho do hotel†,entregando folha por folha ao governador, fazendo com que o mesmo repetisse os números: “Folha um, folha dois etc…†Ao governador, meio sem entender do que se tratava, Hermeto finalmente explica que naquelas folhas(num total de sete) estavam os rascunhos da sua mais recente composição: “SuÃte Alagoanaâ€. Aplausos!
Em seu longo discurso de encerramento o governador Teotônio Vilela Filho exalta as qualidades e o merecimento de cada um dos agraciados com aquela homenagem.Ao chegar na parte de Hermeto o governador diz não saber exatamente o que a sua genialidade representava, quando é abruptamente interrompido por um sonoro “Nem eu!†do próprio. Risos e muitos aplausos.Mais uma vez Hermeto quebrava a monotonia protocolar da cerimônia.Ao final da fala do governador ,todos os homenageados se reúnem para a foto histórica.
O evento se aproximava do fim, mas muita gente ainda queria tirar uma foto, ter uma rápida conversa com Hermeto e Aline.O casal, sempre atencioso, atendia as solicitações de todos.Procuro o motorista para os levar de volta ao hotel.Antes de sair, Hermeto faz questão de ir até o palco e cumprimentar os músicos que tocavam naquele já fim de noite.Os mesmos param para reverenciá-lo em sinal de agradecimento.Antes de encerrar , uma última surpresa:voltaria no mesmo carro com eles.
No rápido caminho de volta ,Aline conta que estão com a agenda cheia pelos próximos quatro meses.Hermeto lamenta que não “rolou†cerveja no coquetel pois é a bebida que mais gosta e faz uma revelação inusitada. Quando voltar à Alagoas cobrará do governador os presentes que pediu:um jumento e duas galinhas.
Depois desses agradáveis momentos fico me perguntando como são criados os mitos?O que eles têm de diferente da maioria das pessoas?Praticamente nada.No caso de Hermeto sua genialidade se confunde com a sua simplicidade.Penso que sua naturalidade é o segredo de sua gigantesca criatividade.
Simples assim…
Ricardo Leal
etcetal@tudoglobal.com.br
terça-feira, 17 de novembro de 2009 às 12:24
A pequena Lagoa da Canoa, de Hermeto Pascoal, é o canteiro que fez nascer um fantástico “bruxo” musical. Não fosse o anonimato que a ignorância gera naqueles que desconhecem um gênio mundial, brotado nos Olhos d`´Agua da Canoa, terÃamos o reconhecimento cultural não apenas das autoridades, mas principalmente do seu povo.
E que povo é esse? Aquele que foi privado do maior dos bens: o conhecimento. Este elemento, produzido historicamente, não é dom. Mas fruto do que é feito com a cultura do povo, com o direcionamento dado à educação escolarizada, com a gestão de outras instituições sociais. A genialidade dos conterrâneos de Hermeto Pascoal, pode está velada na escuridão da exclusão. A exclusão pela impossibilidade do “acesso”. Acesso à arte, à cultura, ao lazer, ao esporte, à educação – de qualidade -, à saúde – humanizada -, ao emprego, à segurança.
Quantos jovens canoenses conhecem a história do mito albino? O que sabem os nosso jovens acerca da sua própria história cultural?
terça-feira, 17 de novembro de 2009 às 18:19
Hermeto é gênio!Simples assim.
terça-feira, 17 de novembro de 2009 às 20:45
Hermeto é uma das grandes mágicas da vida.
Parabéns pela percepção; grande texto.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009 às 19:43
Apesar da negatividade que passa, através de seus polÃticos,a nivel nacional, Alagoas ainda pode se orgulhar de exportar para outros estados e até para fora do Brasil , talentos como Hermeto e tantos outros .Hermeto é motivo de orgulho para todos os alagoanos.Longa vida ao nosso bruxo dos sonhos e sons!