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Imprensa e poder na Terra do Sol

terça-feira, março 2nd, 2010

“A opinião pública acometendo os reis, mesmo sobre seus tronos, os forçará a conter-se nos limites de uma autoridade legal.†Tão nobre desígnio encimava a primeira página do primeiro jornal que circulou em Alagoas, o célebre Ãris Alagoense, que teve sua primeira edição impressa na Bahia, em 1831.

O Ãris, depois mudaria o nome para O Federalista Alagoense, que circulou até 1836. Porta-voz da Sociedade Patriótica de Maceió, o “jornal político, literário e mercantil†era administrado e editado pelo seu único redator, o jornalista francês Adolphe Emile de Bois Garin, vindo de Recife, onde editara o periódico Espelho das Brasileiras.

Antes do Ãris Alagoense, a publicação de jornais, em Alagoas, era proibida pelo Império. Moacir Medeiros de Sant’Ana, autor da História da Imprensa de Alagoas, registra: “A imprensa, que tanto temor causara aos interesses coloniais de Portugal, chegava a Alagoas com suas características essenciais: o inconformismo e a crítica a todas as formas de poder absoluto.â€

Pois não é que Bois Garin, o editor do primeiro jornal alagoano, suspendeu a sua publicação ao sofrer um atentado praticado por quatro homens, sendo atingido com um tiro de pistola?!

O Ãris transformado em O Federalista Alagoense, aí atuou o primeiro jornalista alagoano, Afonso de Albuquerque Melo, padre e deputado provincial, natural da antiga cidade de Alagoas (atual Marechal Deodoro).

Em seus 170 anos, a imprensa de Alagoas abre um fosso enorme entre o propósito inicial da Sociedade Patriótica de Maceió, que se caracterizava pela defesa do ideário político contrário ao absolutismo, e as empresas jornalísticas atuais, defensoras do imediatismo-pragmatismo político de seus proprietários, que varia de eleição a eleição.

Sob o domínio permanente da “oligarquia imortal†que atua desde a instauração da República, a imprensa de Alagoas apenas mascara seu “ideário†de “porta-voz da coletividadeâ€. Em verdade, existe a imprensa alagoana para defender e fazer perpetuar o mando da oligarquia agro-pastoril-açucareira, intransigente ao extremo quanto à modificação do perfil econômico-social do Estado.

Conclusão óbvia, embora polêmica: a imprensa, em Alagoas, como em qualquer parte do país, não é o “quarto poderâ€, como, de modo romântico e escamoteador da realidade, costuma-se apelidá-la.

Imprensa, pois, confunde-se com o próprio poder e, sem ela, o exercício deste, nas sangrentas terras das Alagoas, somente seria possível, exclusivamente, pelo acionar do velho trabuco papo-amarelo, similar da pistola que tentou calar o editor francês do nosso Ãris primeiro.

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