Reencontro, dobrada dentro de um livro empoeirado na estante, a página que subtraí de uma revista da TAM, faz alguns anos, agora imprescindível como inspiração para divagar sobre um personagem pouco (ou nada) palatável do esporte nacional.
Betinho, que, nos ‘rachas’ do Alto da Boa Vista, aqui no Rio, trata a bola por ‘amor, vem cá… Vai lá… ’, com açúcar e afeto, sugere-me produzir ‘duas laudas’ sobre um tal Carlos Caetano Bledorn Verri, ‘eleito’ em 1990 como preferencial saco de pancadas de uma era estigmatizada pelo futebol opaco, deslustrado e insosso no meio-campo da seleção.
Os críticos, geralmente cáusticos formadores de opinião, bateram o martelo na Copa da Itália, fingindo desconhecer que, no lado dos argentinos, havia certo Dieguito, rápido e destroçador como uma bala ‘dum-dum’, servindo de bandeja para Caniggia nos indicar o antecipado caminho de casa.
Nosso escrete, no papel, era de primeira linha, com maioria de badalados ‘europeus’(Alemão e Careca, do Napoli de Maradona; Ricardo Gomes e Valdo, do Benfica; Müller, do Torino; Branco, do Porto; Jorginho, do Leverkusen; além dos ‘brasileiros’ Taffarel, do Internacional; Mauro Galvão, do Botafogo; e Ricardo Rocha, do São Paulo). Todavia, no time de Lazaroni, segundo os analistas de antolhos, apenas um culpado: o ‘brasiliano’ Verri, da Fiorentina.
O outrora obstinado meio-campista do Beira-Rio, foi amaldiçoado sem clemência, embora ocasional vivente na esplendorosa Florença de Alighieri, o da ‘Divina Comédia’. Coincidência ou não, condenaram o gaúcho-florentino ao braseiro do ‘inferno de Dante’. Fizeram pouco caso do fato de que, lá às margens do rio Arno, ele era privilegiado vizinho dos fantasmas benfazejos de Rafael, Michelangello e Da Vinci, também moradores da antiga capital da Toscana, em tempos imemoriais.
Lembrei a Toscana? Entreguei o ouro! Os verdugos da mídia verde-amarela incrementaram na dose, sugerindo que o rapaz, incriminado pelo fracasso ‘canarinho’ na Copa, jogava mal e ‘toscamente’. E bateram o martelo, decretando para a posteridade que fôramos vítimas das jogadas ‘toscas’ e limitadas do referido gaúcho de Ijuí. Nascia, dessa forma, entre ranger de dentes, a ‘Era Dunga’ no futebol brasileiro.
Ocorre que Veríssimo, outro ilustre ‘colorado’, em defesa do conterrâneo escorraçado, sentencia enfático: “Todos os melhores times do mundo têm o seu dunga, de uma forma ou de outra. Ou são jogadores que galvanizam a equipe com sua própria energia, empenho e bronca, ou são destruidores que liberam os companheiros para a criação, garantindo o rebote.”
E segue o cronista dos pampas, no texto ‘Os Dungas’, publicado no livro ‘A eterna privação do zagueiro absoluto’: “Os dungas são os caroços do time. Já não se concebe um time só polpa, por melhor que seja a polpa. Até no Brasil, que custou a aceitar sua inevitabilidade, dá-se ao dunga o que é do dunga. O caroço dá forma ao time, garante a continuidade da sua alma e quebra os dentes de quem o ataca.” E finaliza, definitivo: “Nenhuma seleção sem um dunga passou das oitavas.”
Na volta por cima, em 1994, um escaldado Carlos Caetano chutou com raiva o último pênalte brasileiro e viu Baggio desmoronar destroçado, ao mandar sua cobrança às nuvens, depois de deslocar nosso goleiro. Capitão do time de Parreira, ergueu o troféu na tribuna do estádio de Pasadena/Califórnia, espumando e xingando num misto de desafogo e felicidade.
Alçado ao posto de treinador, após os excessos de gorduras e noitadas de Ronaldo e companhia, em 2006, na Alemanha, Dunga foi incumbido de organizar um time que vibre, motivado para vencer, no tradicional estilo ‘pátria de chuteiras’. Em sua experiência à beira do campo, só perdeu uma, na altitude insana da Bolívia, trajetória vitoriosa com que chegará a África do Sul, condimentado por rotinas de ira contra tudo e todos, sempre à base do ‘bateu, levou’.
Só temo(eu e milhões de ‘técnicos’) pela exorbitância de ‘dungas’ no setor pensante da atual seleção, onde as chances de um ‘renovado’ Ronaldinho Gaúcho, com seus celebrados engenho e arte, passou a desprezível carta fora do baralho. Nosso competente(e contestado) gaúcho de Ijuí aposta na receita infalível de sucesso que sempre o caracterizou, embora travestido de travesso Dunga, como polêmico e furibundo ‘Zangado’.
(*) jornalista e militante de movimentos sociais.

