Na sexta-feira, 7, o Almirante Negro voltou ao mar, depois de quase um século da Revolta da Chibata. O destemido marujo, filho de ex-escravos, nascido no Rio Grande do Sul, pôs fim ao odioso regulamento de nossa Marinha, que punia praças infratores com o açoite, prática usual no planeta desde tempos imemoriais. Um método herdado, por sinal, da influência inglesa em nossa Armada, advindo do tempo do Império.
A estrutura do Estado brasileiro na República Velha, ainda com o ranço reverberado em mais de 300 anos de escravidão, fora construÃda sobre as bases da violência para impor a hierarquização social. Na Marinha de Guerra, em particular, seguia impune o mesmÃssimo regime implementado à época das milenares galés.
Na realidade, João Cândido Felisberto foi reabilitado em 2007, aos pés de cuja estátua recebeu o indulto e a retratação nacional, por decreto do presidente Lula, que o anistiou em plena Praça XV, Rio de Janeiro, ‘nas pedras pisadas do cais’ rememoradas pelo notável samba de Aldir Blanc e João Bosco, em honra ao ‘mestre-sala dos sete mares’.
Perto de cem anos atrás(novembro de 1910), a anistia trombeteada pelo presidente Hermes da Fonseca foi uma farsa para iludir a boa fé dos insurgentes, que tomaram de assalto o encouraçado ‘Minas Gerais’ e outras três belonaves fundeadas na BaÃa de Guanabara, dispostos a bombardear prédios do governo, em caso de resistência ao fim do degradante castigo aplicado à marujada, por eventual inobservância do regulamento a bordo.
João Cândido foi enganado pela ‘anistia’ de Hermes (redigida por Ruy Barbosa), preso, torturado nas masmorras da Ilha das Cobras e internado no Hospital dos Alienados(‘era um louco’, diziam), depois de contrair tuberculose por maus-tratos que lhe impingiram, aos quais sobreviveu com um camarada, o fuzileiro naval Paulo de Lira, após confinamento em calabouço forrado por cal virgem e ácido fênico, que produziam dolorosas lacerações na pele.
O marinheiro rebelde, expulso e execrado por décadas, sobreviveu à miséria que lhe impuseram até os 89 anos, enquanto a totalidade de seus algozes já sucumbira nas profundas. Foi vendedor de peixe no entreposto da Praça XV, onde, ironicamente, há três anos finalmente o reverenciaram, depois de morrer(dezembro de 2009), esquecido e desonrado nos anos de chumbo do regime militar.
Em 1959, aos 79 anos, seu estado de penúria foi amenizado pela garantia de modesta pensão que lhe conferiu o Rio Grande do Sul, terra natal, através do governador Leonel Brizola. O benefÃcio foi abruptamente cassado pelos adesistas gaúchos ao golpe de 1964.
Sexta, 7 de maio, no estaleiro Atlântico Sul, complexo industrial de Suape, em Pernambuco, a Petrobras recebeu o ‘João Cândido’, com 254 metros e capacidade para 1 milhão de barris do ‘ouro negro’, primeiro dos 22 navios-petroleiros destinados à modernização de sua frota, cujo programa, constante dos investimentos do PAC, visa a reestruturar a indústria naval brasileira.
As licitações do PROMEF circunscrevem-se a três requisitos fundamentais, explicitados pelo governo Lula: os navios devem ser fabricados em nosso paÃs, com preço e qualidade internacional competitivos, e 65 por cento de conteúdo nacional. No caso do petroleiro agora lançado ao mar, esse terceiro item chegou a 72,6 por cento. Aliás, oportuno lembrar que, na década de 70, a indústria naval brasileira era a segunda maior fabricante do mundo, deteriorando-se gradativamente, ainda no ciclo dos generais, até o governo FHC.
Um século depois, com a imponência e ‘a dignidade de um mestre-sala’, o ‘João Cândido’ começa a singrar mares afora, açoitado apenas pelas ondas que rompe, firme e forte, para transportar nosso desenvolvimento.
Pena que o velho e sonhador marujo não esteja por aqui para testemunhar, em sua sagrada negritude rebelde, os reflexos da liberdade e consciência cidadã por que brigou em 1910.
Vai, Almirante de aço, que o mar é teu!

