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‘Cabo’ Lula: 90 por cento no Rio

segunda-feira, março 29th, 2010

Antônio Manoel Góes

RIO DE JANEIRO – Vamos às entrelinhas da última pesquisa Datafolha sobre intenções de votos para a eleição presidencial. Retrocedamos, entretanto, para entender a variação, neste primeiro trimestre, dos números trazidos à luz pelos institutos de opinião. E partamos da premissa de que cada um deles levanta estatísticas em diferentes cidades, nas diversas variadas regiões onde atuam, adstritos à lógica de suas metodologias.

No sábado, 27 de fevereiro, um mês atrás, o   Datafolha confirmava previsões de analistas sobre o crescimento de Dilma Roussef. Ela pulara de 23 para 28% e Serra caíra de 37 para 32%, 5 pontos transferidos de um para a outra, sintoma de migração na preferência dos entrevistados para a pré-candidata do PT.

Ocorre que, nesse sábado, 27, o mesmo Datafolha anunciou Serra com 9 pontos(36%) sobre Dilma(27%), sem explicitar as razões determinantes da reviravolta, pois o tucano vinha patinando e perdendo fôlego a cada pesquisa de intenção de votos em todo o país, em particular no Sudeste e Sul.

Obviamente, qualquer candidato(oficial ou virtual) depende de fatos relevantes que lhe garantam sufocar eventuais manifestações favoráveis ao adversário. Afinal, qual a novidade, ocorrida nos últimos 30 dias, que  teriam feito Serra disparar, do ponto de vista de um eleitorado ainda  desligado quanto ao vaivém das candidaturas ao pleito de outubro?

Em seu universo administrativo de São Paulo, Serra enfrenta graves problemas, entre eles, e mais recente, a greve dos professores estaduais, cujo salário-base não chega a 800 reais, no Estado mais rico da federação. E uma questão crucial: reticente, ele não mostra firmeza para assumir a potencial candidatura, contrariando a expectativa de seu partido face à indefinição prejudicial às alianças na campanha para os governos estaduais.

Enquanto isso, Lula, o cabo eleitoral de Dilma Roussef, segue  sob céu de brigadeiro. ‘Nunca, na história deste país’, um presidente em fim de mandato,  sobrevoou o acervo de realizações da altitude apreciável de 75 a 80% de aprovação de seus governados.

Os institutos de opinião oferecem à análise do eleitor algumas questões pontuais que deixam em polvorosa os bastidores do tucanato, além dos índices que referendam  o governo Lula: 1) – 42% dos entrevistados disseram(ainda) não saber qual o(a) candidato(a) do presidente; 2) 53% gostariam de votar no(a) candidato(a) apoiado por Lula.

Dilma tem discurso consolidado(“Eu continuarei com as benfeitorias do governo Lula e farei muito mais”). E Serra dirá o quê? Se optar, exemplifiquemos, por ‘crescimento com estabilidade e geração de empregos’, tema de inequívoco apelo popular, dará um tiro de AR-15 no pé. Ao confirmar  surrealmente  as conquistas do atual governo, ele “abrirá caminho para Dilma ser apresentada como a ministra que ajudou Lula a conduzir com eficiência a economia brasileira”, conforme avaliação do leitor Adriano Oliveira, postada no site do Instituto Maurício de Nassau. E Adriano arremata: “…alguém do PSDB ou da equipe de Serra está desconectado do mundo.”

Líderes do PSDB não escondem desconforto e perplexidade por Serra não evidenciar um mote  na ‘cantoria’ para convencer o eleitor  curioso em  saber as razões pelas quais deverá votar nele e não em Dilma.  Serra, dirá, sem dúvida, que é competente, mas Dilma mostrará ter competência para continuar(e fazer avançar) os programas do governo Lula.

Por oportuno: pesquisa do Vox Populi, entre 20 e 22 de março, no Rio de Janeiro, divulgada nesta segunda, 28, pelo jornal O Dia, dá conta de que o presidente Lula, ‘cabo’ de Dilma, chegou aos 90% de aprovação dos fluminenses, capital e interior. E mais: 61% dos entrevistados afirmaram que votariam no(a) candidato(a) apoiado(a) por ele.

Convenhamos: a pesquisa  Datafolha, anunciada no último sábado, 27, ficou pelo meio do caminho, sem apresentar os motivos que inflaram Serra e fizeram diminuir os números da candidata petista à sucessão de Lula, sugerida ao partido pelo próprio presidente.

(Postado em 29.03.2010)

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De Dunga a “Zangado”

quinta-feira, março 11th, 2010

Reencontro, dobrada dentro de um livro empoeirado na estante, a página que subtraí de uma revista da TAM, faz alguns anos, agora imprescindível como inspiração para divagar sobre um personagem pouco (ou nada) palatável do esporte nacional.

Betinho, que, nos ‘rachas’ do Alto da Boa Vista, aqui no Rio, trata a bola por ‘amor, vem cá… Vai lá… ’, com açúcar e afeto, sugere-me produzir ‘duas laudas’ sobre um tal Carlos Caetano Bledorn Verri, ‘eleito’ em 1990 como preferencial saco de pancadas de uma era estigmatizada pelo futebol opaco, deslustrado e insosso no meio-campo da seleção.

Os críticos, geralmente cáusticos formadores de opinião, bateram o martelo na Copa da Itália, fingindo desconhecer que, no lado dos argentinos, havia certo Dieguito, rápido e destroçador como uma bala ‘dum-dum’, servindo de bandeja para Caniggia nos indicar o antecipado caminho de casa.

Nosso escrete, no papel, era de primeira linha, com maioria de badalados ‘europeus’(Alemão e Careca, do Napoli de Maradona; Ricardo Gomes e Valdo, do Benfica; Müller, do Torino; Branco, do Porto; Jorginho, do Leverkusen; além dos ‘brasileiros’ Taffarel, do Internacional; Mauro Galvão, do Botafogo; e Ricardo Rocha, do São Paulo). Todavia, no time de Lazaroni, segundo os analistas de antolhos, apenas um culpado: o ‘brasiliano’ Verri, da Fiorentina.

O outrora obstinado meio-campista do Beira-Rio, foi amaldiçoado sem clemência, embora ocasional vivente na esplendorosa Florença de Alighieri, o da ‘Divina Comédia’. Coincidência ou não, condenaram o gaúcho-florentino ao braseiro do ‘inferno de Dante’. Fizeram pouco caso do fato de que, lá às margens do rio Arno, ele era privilegiado vizinho dos fantasmas benfazejos de Rafael, Michelangello e Da Vinci, também moradores da antiga capital da Toscana, em tempos imemoriais.

Lembrei a Toscana? Entreguei o ouro! Os verdugos da mídia verde-amarela incrementaram na dose, sugerindo que o rapaz, incriminado pelo fracasso ‘canarinho’ na Copa, jogava mal e ‘toscamente’. E bateram o martelo, decretando para a posteridade que fôramos vítimas das jogadas ‘toscas’ e limitadas do referido gaúcho de Ijuí. Nascia, dessa forma, entre ranger de dentes,  a ‘Era Dunga’ no futebol brasileiro.

Ocorre que Veríssimo, outro ilustre ‘colorado’, em defesa do conterrâneo escorraçado, sentencia enfático: “Todos os melhores times do mundo têm o seu dunga, de uma forma ou de outra. Ou são jogadores que galvanizam a equipe com sua própria energia, empenho e bronca, ou são destruidores que liberam os companheiros para a criação, garantindo o rebote.”

E segue o cronista dos pampas, no texto ‘Os Dungas’, publicado no livro ‘A eterna privação do zagueiro absoluto’: “Os dungas são os caroços do time. Já não se concebe um time só polpa, por melhor que seja a polpa. Até no Brasil, que custou a aceitar sua inevitabilidade, dá-se ao dunga o que é do dunga. O caroço dá forma ao time, garante a continuidade da sua alma e quebra os dentes de quem o ataca.” E finaliza, definitivo: “Nenhuma seleção sem um dunga passou das oitavas.”

Na volta por cima, em 1994, um escaldado Carlos Caetano chutou com raiva o último pênalte brasileiro e viu Baggio desmoronar destroçado, ao mandar sua cobrança às nuvens, depois de deslocar nosso goleiro. Capitão do time de Parreira, ergueu o troféu na tribuna do estádio de Pasadena/Califórnia, espumando e xingando num misto de desafogo e felicidade.

Alçado ao posto de treinador, após os excessos de gorduras e noitadas  de Ronaldo e companhia, em 2006, na Alemanha, Dunga foi incumbido de organizar um time que vibre, motivado para vencer, no tradicional estilo ‘pátria de chuteiras’. Em sua experiência à beira do campo, só perdeu uma, na altitude insana da Bolívia, trajetória vitoriosa com que chegará a África do Sul, condimentado por rotinas de ira contra tudo e todos, sempre à base do ‘bateu, levou’.

Só temo(eu e milhões de ‘técnicos’) pela exorbitância de ‘dungas’ no setor pensante da atual seleção, onde as chances de um ‘renovado’ Ronaldinho Gaúcho, com seus celebrados engenho e arte, passou a desprezível  carta fora do baralho. Nosso competente(e contestado) gaúcho de Ijuí aposta na receita infalível de sucesso que sempre o caracterizou, embora travestido de travesso Dunga, como polêmico e furibundo ‘Zangado’.

(*) jornalista e militante de movimentos sociais.

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