Antônio Manoel Góes
RIO DE JANEIRO – Vamos às entrelinhas da última pesquisa Datafolha sobre intenções de votos para a eleição presidencial. Retrocedamos, entretanto, para entender a variação, neste primeiro trimestre, dos números trazidos à luz pelos institutos de opinião. E partamos da premissa de que cada um deles levanta estatísticas em diferentes cidades, nas diversas variadas regiões onde atuam, adstritos à lógica de suas metodologias.
No sábado, 27 de fevereiro, um mês atrás, o Datafolha confirmava previsões de analistas sobre o crescimento de Dilma Roussef. Ela pulara de 23 para 28% e Serra caíra de 37 para 32%, 5 pontos transferidos de um para a outra, sintoma de migração na preferência dos entrevistados para a pré-candidata do PT.
Ocorre que, nesse sábado, 27, o mesmo Datafolha anunciou Serra com 9 pontos(36%) sobre Dilma(27%), sem explicitar as razões determinantes da reviravolta, pois o tucano vinha patinando e perdendo fôlego a cada pesquisa de intenção de votos em todo o país, em particular no Sudeste e Sul.
Obviamente, qualquer candidato(oficial ou virtual) depende de fatos relevantes que lhe garantam sufocar eventuais manifestações favoráveis ao adversário. Afinal, qual a novidade, ocorrida nos últimos 30 dias, que teriam feito Serra disparar, do ponto de vista de um eleitorado ainda desligado quanto ao vaivém das candidaturas ao pleito de outubro?
Em seu universo administrativo de São Paulo, Serra enfrenta graves problemas, entre eles, e mais recente, a greve dos professores estaduais, cujo salário-base não chega a 800 reais, no Estado mais rico da federação. E uma questão crucial: reticente, ele não mostra firmeza para assumir a potencial candidatura, contrariando a expectativa de seu partido face à indefinição prejudicial às alianças na campanha para os governos estaduais.
Enquanto isso, Lula, o cabo eleitoral de Dilma Roussef, segue sob céu de brigadeiro. ‘Nunca, na história deste país’, um presidente em fim de mandato, sobrevoou o acervo de realizações da altitude apreciável de 75 a 80% de aprovação de seus governados.
Os institutos de opinião oferecem à análise do eleitor algumas questões pontuais que deixam em polvorosa os bastidores do tucanato, além dos índices que referendam o governo Lula: 1) – 42% dos entrevistados disseram(ainda) não saber qual o(a) candidato(a) do presidente; 2) 53% gostariam de votar no(a) candidato(a) apoiado por Lula.
Dilma tem discurso consolidado(“Eu continuarei com as benfeitorias do governo Lula e farei muito mais”). E Serra dirá o quê? Se optar, exemplifiquemos, por ‘crescimento com estabilidade e geração de empregos’, tema de inequívoco apelo popular, dará um tiro de AR-15 no pé. Ao confirmar surrealmente as conquistas do atual governo, ele “abrirá caminho para Dilma ser apresentada como a ministra que ajudou Lula a conduzir com eficiência a economia brasileira”, conforme avaliação do leitor Adriano Oliveira, postada no site do Instituto Maurício de Nassau. E Adriano arremata: “…alguém do PSDB ou da equipe de Serra está desconectado do mundo.”
Líderes do PSDB não escondem desconforto e perplexidade por Serra não evidenciar um mote na ‘cantoria’ para convencer o eleitor curioso em saber as razões pelas quais deverá votar nele e não em Dilma. Serra, dirá, sem dúvida, que é competente, mas Dilma mostrará ter competência para continuar(e fazer avançar) os programas do governo Lula.
Por oportuno: pesquisa do Vox Populi, entre 20 e 22 de março, no Rio de Janeiro, divulgada nesta segunda, 28, pelo jornal O Dia, dá conta de que o presidente Lula, ‘cabo’ de Dilma, chegou aos 90% de aprovação dos fluminenses, capital e interior. E mais: 61% dos entrevistados afirmaram que votariam no(a) candidato(a) apoiado(a) por ele.
Convenhamos: a pesquisa Datafolha, anunciada no último sábado, 27, ficou pelo meio do caminho, sem apresentar os motivos que inflaram Serra e fizeram diminuir os números da candidata petista à sucessão de Lula, sugerida ao partido pelo próprio presidente.
(Postado em 29.03.2010)

