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Homossexuais às feras

segunda-feira, maio 3rd, 2010

RIO DE JANEIRO – Historicamente, a Igreja Católica aponta o fogo do inferno aos sacerdotes flagrados em explícitas manifestações homossexuais. Enquanto tal comportamento não cair na boca do povo e permanecer convenientemente mascarado, sem abalar os foros eclesiásticos, fica o dito pelo não dito e segue a procissão dos ‘maledicentes’ profanadores da Santa Madre.
Vai que, certo dia, um coroinha sodomizado e desiludido com anunciadas recompensas e ‘vantagens’ que nunca chegam, decide escancarar sem medir as consequências. É quando o caldo entorna. Impiedosamente, o até então virtuoso monsenhor, venerado na paróquia faz décadas, é desnudado em suas fantasias, sob a sexualidade que não escolheu ao ser gerado, em sua remota gênese, cujas fortuitas(ou rotineiras) manifestações foi incapaz de sustar, ao longo de uma vida já octogenária.
De repente, a frustração de não ter nascido heterossexual, a exemplo da maioria. Seria fácil saciar sua libido, na encolha, com essa ou aquela paroquiana igualmente tolhida em seus tesões, pudicas e anuladas por freios culturais e familiares. Caso descoberto em pecado mortal da concupiscência, o reverendo contaria até com a compreensão comunitária, sob a justificativa de que ‘a carne é fraca’; ‘afinal, padre também é homem!’
Tempos atrás, a eventual seduzida pelos encantos do pároco, conquanto arrependida e jurando nuuuunca mais ‘pecar’, iria, no mínimo, expiar a culpa(exclusivamente dela) da tentação contra o ‘homem de Deus’, no claustro, por exemplo, das Carmelitas Descalças, reclusa ‘ad secula seculorum’. Expulsa de casa pelo pai, malgrado o pranto impotente da mãe submissa às vontades do marido e senhor, a moça ‘perdida’ era condenada ao degredo perpétuo, em lugar onde só se ouvissem ‘ais’ de dor e ranger de dentes.
Sem veleidades inquisitórias, recordo-me de casos pontuais registrados, 50 ou 60 anos atrás, em paróquias da Diocese de Penedo, coincidentemente a mesma a que pertence a de Arapiraca, palco de recentes escândalos de pedofilia ‘sodômico-presbiteriais’(o termo, acabo de criá-lo, por semântica e suposta pertinência).
Párocos apanhados com a mão na ‘botija’(vã metáfora!) eram solenemente ‘desagravados’ pelo clero diocesano – o senhor bispo à frente, nas igrejas-matrizes dos ditos cujos. Os fiéis, contritos e ajoelhados, entoavam a penitência, todos assumindo sua parte na ‘calúnia’ de que teria sido ‘vítima’ seu zeloso ‘cura d’almas’: “Senhor Deus/ pequei senhor/ misericó-ór-diaaa!”
As moças, ex-‘de família’, eram sutilmente banidas para os confins de ‘deus-me-livre’. Com prenhez provocada pelo sêmen do ‘pai espiritual’, seriam execradas até a morte, nos mexericos dos fariseus, por terem dado à luz ‘filhos(as) de padre’.
Eles ou elas, inocentes advindos da relação ‘incestuosa’, viriam ao mundo com o estigma de dois pecados originais: um pela bíblica ‘mordida’ de Adão na maçã de Eva, outro pela intempestiva fornicação nos fundos da sacristia ou, para ser ameno e não me excomungarem, sobre o pio leito da casa paroquial.
Os ‘corregedores’ do Vaticano, guardiães da doutrina celibatária(impeditiva, faz mais de um milênio, do casamento de seus clérigos), sempre utilizaram uma ‘meia-sola’ atenuante, exclusiva para os sacerdotes ocasionalmente caídos nas malhas do ‘desejo heterossexual’. Às provocadoras e pecaminosas filhas-de-Maria, o peso inexorável pelo ‘vilipêndio’ que cometeram. Deo gratias!
Entretanto, os escândalos recentes, em Alagoas, no Brasil e exterior, apontam para, digamos, recorrente ‘homopedofilia’. Arma-se dissimulado tribunal de moderno ‘Santo Ofício’, com objetivo de separar o ‘joio do trigo’. Isto é: a instituição, una, santa, católica e apostólica, é absolutamente intocável; seus pastores, todavia, embora velhinhos, aposentados e em fim de carreira, confessadamente reprimidos homossexuais, não! Na prática, são jogados às feras da impiedade humana e vamos em frente, até o próximo ‘bafafá’.
Não me compete defender ou acusar, ‘ad hoc’, pedófilos ou quaisquer incursos em atos delituosos, na forma da lei. Contudo, causou-me ânsias de vômito(e, certamente, a milhares por aí) o circo de horrores comandado pelo senador Magno Malta, ironicamente um ministro evangélico neopentecostal em campanha pró-reeleição no Espírito Santo, estrela de extemporâneo comício em terra alheia, cujos dividendos certamente lhe conferiram histéricas intenções de votos em seu Estado, através dos holofotes da mídia nacional.
Nesse festival de farisaísmo, perpetrado pelo presidente da ‘CPI da pedofilia’ no Senado federal, simulacros de autoridade com direito a voz de prisão ao principal indiciado, bem assim a nauseabunda exibição de um vídeo, produzido pelas ‘vítimas’, retaliadores que deram o troco, face a promessas promíscuas supostamente não cumpridas pelo ex-pároco aos antigos coroinhas no agreste alagoano.
Patética, com fluidos de ‘não me comprometa’, ‘nada a ver ou a declarar’, a nota da Mitra de Penedo, reprisando a cena retratada na execução dos apenados, séculos atrás: no patíbulo, em frente aos condenados, sempre um ‘representante dos céus’ a lembrá-los de que, se arrependidos na undécima hora, receberiam, logo após o aperto fatal do enforcamento, passaporte para acesso triunfal na vida eterna, mediante preventiva descontaminação de alguns anos-luz no purgatório. Amém.

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