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Facilidades & Corrupção

quarta-feira, agosto 24th, 2011

Você não se dá conta, mas na hora em que ‘molha a mão’ de alguém para facilitar sua vida, promove um típico ato de corrupção. O que seria singelo reconhecimento pelo empenho de quem lhe ‘quebra o galho’ com supersônica presteza, naquela complicada pretensão, afigura-se  inequívoco suborno. Ora, sempre estamos à busca de um ‘jeitinho’ que nos dê alguma vantagem e até em casa corrompemos os filhos, à base da velha teoria de que, ‘com banana e bolo, cala-se o tolo’.

Como ‘o uso do cachimbo faz a boca torta’, acabamos convencendo terceiros de que é normal manterem a mão ‘molhada’(com alguma grana ou benesse não necessariamente sob auspícios do vil metal). Impomos, no ‘trocado para a cervejinha’, uma relação de poder com que persuadimos o outro a contemplar nossas vontades.  O objetivo é garantir a ‘furada da fila’. Afinal, estamos sempre apressados e não podemos aguardar, placidamente, a exemplo dos outros mortais, que se esgote a romaria dos atendidos por ordem de chegada. Precisamos ser ‘espertos’ para sair ‘numa boa’.

Lá atrás, no século 18, Joaquim Silvério dos Reis, devedor do ‘quinto’ ao contratador português,  foi corrompido com outro tipo de propina, em troca do perdão de sua dívida: ‘entregou’ os clandestinos organizadores da conjuração mineira em Vila Rica e zerou a conta. Livrando-se da ‘derrama’, escorchante tributo colonial em favor da Coroa lusitana, ajudou o vice-rei a desbaratar a trama de Tiradentes e companhia.

Quase mil e quatrocentos anos antes, Judas Escariotes enchera o bolso com trinta dinares, remetendo o Mestre ao suplício do Calvário. Havia sido precedido por Herodes Antipas, rei da Judéia, que, doidão diante dos saracoteios sensuais de Salomé, filha de sua cunhada(e concubina) Herodíades, ofereceu numa bandeja a cabeça de João Batista. A crônica bíblica não entrou em detalhes, mas esse foi o pagamento do monarca para um ‘créu’ incestuoso na sobrinha, sob os lençóis da corte judaica, em Jerusalém.

Com efeito, a corrupção se dá no arcabouço de  ‘imperiosas’ razões(de seu exclusivo interesse)avocadas pelo corruptor. Eu mesmo promovi um desses ‘convencimentos’, nos remotos idos de 1971, aqui no Rio de Janeiro. Recém-chegado da alagoana Palmeira dos Índios, trouxera em mãos documentos de dois atletas do clube de futebol de lá, CSE, egressos de outros Estados e dependentes de transferência da CBD(hoje CBF), com sede na rua da Alfândega, centro carioca. Solene e cheio de dedos, fui atendido no balcão do 5º andar do Edifício ‘João Havelange’ por sisudo funcionário que, após os procedimentos de praxe, acomodou a papelada sob uma montanha de outros processos que me antecederam.

Haviam-me recomendado, na Federação, em Maceió, que repassasse na baixa  um ‘agrado lá na secretaria da CBD’, para adiantar o ‘meu’ lado(isto é, do CSE). Cheio de pruridos, ali, na poderosa Confederação Brasileira de Desportos, saquei  uma nota de 100(cruzeiros), à espera do momento certo para, sob um ‘psiu’ sugestivo do ‘crime’, chamar o recepcionista a um canto e, com aquela gorda ‘taxa de pressa’, pensei, resolver a pendência com sobras.

Eis que, ao meu lado, um senhor, cabelos grisalhos, em convincente sussurro, mandou-me entregar apenas 10 cruzeiros, sob pena de, marinheiro de primeira viagem, inflacionar inconsequentemente o ‘câmbio negro’ das transferências interestaduais do futebol. O cidadão, capixaba de Vitória, era, sem dúvida,  calejado usuário das ‘facilidades’ garantidas pelo ‘prestimoso’ atendente  da CBD. Escondendo os cem ‘cruzas’, meti no envelope uma mixuruca nota de dez e, no domingo seguinte, os jogadores, devidamente regularizados, já estavam em campo, no tricolor de Palmeira.

Com dizia experiente  camarada, de saudosa memória, “toda facilidade tem seu preço”. Ele explicava, com sorridente cinismo, o princípio ‘filosófico’ da corrupção.

(Postado por AMgóes em 24/08/2011)

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