Coloque-se no lugar das elites que dominam há mais de um século o cenário político-econômico do Brasil. Sinta o desencanto, manifeste o ódio a escapar, em forma de baba peçonhenta, pelos cantos da boca. “Uma tragédia, absurdo dos absurdos a antecipar o fim dos tempos”, indignar-se-á o apoplético ‘antilula’ de carteirinha, para quem finalmente teria chegado o bíblico apocalipse.
Como é que é? Lula na ONU? E você explodirá de chofre: “Só pode ser piada pronta! Afinal, quem esse cara pensa que é?” Só que ele, o presidente Lula, não pensa que é. Ele ‘é’. Nascido nos cafundós de Caetés, agreste de Pernambuco, foi moleque de favela em São Paulo, brincando com parceiros infantes na água fétida dos córregos a céu aberto.
Operário e alçado à liderança no movimento sindical, idealizou, no começo dos anos 1980, um partido político para se contrapor às velhas estruturas do trabalhismo nacional no pós- redemocratização, gerando renovada perspectiva à luta que sequenciou os tempos mais antigos do proletariado. Esgotado o regime autoritário, a percepção de que a relação nos embates corporativos adquiriu novas roupagens, face à acachapante passagem do Brasil rural para sua(supostamente) moderna versão urbana.
Um ponto convergente para sedimentar interesses sociais-democratas com a clássica visão da ‘ditadura do proletariado’. O antigo retirante, fugido da seca e da fome nordestinas vivenciou uma passagem meteórica pela trilha sindical em São Paulo. Metalúrgico de São Bernardo, perguntaram-lhe certa feita, uma espécie de teste sobre sua posição no espectro ideológico que herdamos das primeiras e conturbadas décadas do século passado: “Lula, você é de direita ou de esquerda?”. A resposta:”Só sei que sou torneiro-mecânico”.
Candidato à presidência, em 1989, rotularam-no de incendiário disposto a virar a mesa e criar uma nova ordem social a ferro e fogo. Concorrente com apoio da rede Globo e azarão no começo da campanha, Collor caiu como uma luva no colo das elites, livres daquela reencarnação barbuda do ferrabrás. O blefe, de vida curta, expirou-se porém em 1992.
Lula e seus próximos aperceberam-se de que o confuso ‘neossocialismo’, gerador de conflitos insolúveis entre tendências intramuros no PT, responsáveis por defecções do tipo PSTU e sequelas posteriores do PSOL, não ensejou uma agenda ‘confiável’, na perspectiva de reforma sem cicatrizes na sociedade brasileira. Coube-lhes assumir a social-democracia que os tucanos adotaram como sigla, mas, na prática, trocaram sem pudores pelo neoliberalismo do Estado mínimo de Friedman e outros teóricos do ‘deus mercado’, em conluio com o PFL-DEM dos coronéis do atraso.
Cumpridos sete anos de dois mandatos, ultrapassando indesculpáveis pisadas de bola de alguns importantes( e íntimos) colaboradores, Lula tem exercido um governo alicerçado em singular pragmatismo político que o conduziu ao reconhecimento internacional, azeitou a autoestima interna, propiciando-lhe a condição de cidadão do mundo.
Ao preservar nosso preceito constitucional de observância da autodeterminação dos povos, solidarizando-se com a vizinha Venezuela de um Chavez que enquadrou uma rica oligarquia minoritária e tradicional exploradora de milhões de compatriotas, Lula promoveu competente e civilizada relação com o estadunidense ultraconservador Gorge W. Bush, até ser chamado, pelo sucessor Barack Obama, de ‘o cara’.
O ex-metalúrgico da Aço Villares, aplaudido de pé em Davos e nas instâncias de contraponto do Fórum Social Mundial, viu, a pouco e pouco, bolsões de brasileiros deixarem o gueto da exclusão social e passarem ‘a comer três vezes ao dia’. As políticas públicas avançam, malgrado desqualificados oposicionistas que se desdobram na tentativa de ‘melar’ o meio-de-campo do país, e, quanto mais lhe desferem sórdidos ataques, 83% da população declaram-se satisfeitos com seu governo.
Aproximando-se ao polêmico Irã, Lula questionou a arrogante decisão israelense em manter um colossal paiol de quase 70 ogivas nucleares garantidoras de um Estado imposto em território usurpado aos palestinos, sob o argumento de os judeus serem o ‘povo eleito’ que faz jus à ‘terra prometida’. Assim, entende Tel-Aviv, programas atômicos são sua exclusiva e hegemônica reserva de mercado, ao bel-prazer dos sionistas, donos de boa parte do capital especulativo no planeta.
Deu para sentir o drama de condestáveis de araque, do alto de seus grunhidos acadêmicos, do tipo FHC e companhia? Como pode o tal ‘apedeuta‘ chegar ao topo do mundo? Lula não confirma nem desmente, mas há fortes indícios de que seu próximo destino, a partir de 2011, será um alto posto de negociador da ONU, para aplacar históricas mazelas internacionais. Preferentemente, se possível, depois de eleger sua sucessora, uma ex-guerrilheira urbana seviciada nos porões da ditadura militar.

