RIO DE JANEIRO – O instituto de Pesquisas da Folha de São Paulo, reverberado pela rede Globo de televisão e jornal O Globo, alardeou no último fim de semana o resultado de levantamento sobre intenções de voto para presidente.
Convém lembrar que, na semana anterior, o jornal paulista dos Frias, em parceria com os veículos ‘globais’, tentara desqualificar,numa jogada torpe, a metodologia dos concorrentes Vox Populi e Sensus, que, unanimemente, sob diferentes metodologias, constataram gradual crescimento da pré-candidata do PT e estagnação do adversário tucano.
Os números do Datafolha, com Serra-38 e Dilma-28, são justificados pelo fato de, oito dias antes, o ex-governador de São Paulo ter-se definido aspirante à corrida presidencial. O discurso pegajoso de ‘O Brasil pode mais’, surrealista confissão de que, nos marcos do governo Lula, ‘O Brasil(já) pode’, seria, por incrível que pareça, o motivo para o súbito ‘disparo’ em 10 pontos percentuais.
Entretanto, a Folha e a Rede Globo esconderam dados fundamentais contidos na pesquisa recém-divulgada. Mais da metade dos 2001 entrevistados(54%) ainda não sabem os nomes dos prováveis candidatos, pois estão ligados apaixonadamente em outro evento mais próximo: a Copa do Mundo na África do Sul.
Os resultados, reprisados a exaustão na mídia, referem-se à ‘pesquisa estimulada’, em que o entrevistador apresenta uma lista de nomes à escolha do entrevistado. Malandramente, não deram a mesma ênfase à ‘pesquisa espontânea’, embora compulsoriamente repassada ao TSE, em que o eleitor é perguntado sobre o nome de seu eventual candidato.
Vejamos: a ‘espontânea’ deu Dilma-13%, Serra-12%, Lula-7%(os que votariam nele, se fosse candidato) e candidato de Lula-3%. Se você acrescentar a Dilma, por pertinente, as intenções conferidas ao atual presidente, que a lançou, mais as destinadas ao ‘candidato dele’, independente de quem for, chegará obviamente a 23% para a postulante do PT.
E agora? Como o Datafolha terá operado o ‘milagre’ de Serra distanciar-se 10 pontos de sua virtual maior oponente, sem o reflexo de uma razão(política) efetivamente relevante? Você acredita em desígnios celestiais ou cínica manipulação? Afinal, 54 por cento dos 2001 sabatinados ainda não sabem em quem votar, por estarem desligados do processo eleitoral de outubro.
Segundo avaliação insuspeita de Mauro Paulino, diretor do próprio Datafolha, “…a eleição está apenas no começo e o voto dos eleitores não foi cristalizado.” No popular: a maioria, no Brasil, ainda não pensa em eleição. Discute-se em todas as rodas, isto sim, se Dunga convocará Ronaldinho Gaúcho e os garotos santistas Paulo Ganso e Neymar, estes últimos comendo a bola na Vila Belmiro.
Outro detalhe que impõe suspeita ao comportamento do Datafolha: onde distribuiu seus entrevistadores? Ora, majoritariamente na região Sudeste, em particular, no Estado de São Paulo, onde Serra é mais conhecido, por ter sido governador até bem pouco.
Aprofundemo-nos nas entrelinhas dos números que beneficiaram a avaliação do tucano: de 18 bairros da capital paulista, no levantamento do instituto em fevereiro, pularam para 71 na pesquisa recente. Também inflaram, de 25 para 55, o número de cidades pesquisadas no interior paulista. No Nordeste, o Datafolha pesquisou apenas 18 cidades, contra 28 na amostragem anterior. No Rio, onde o governo Lula detém a média de 85% de aprovação, o instituto da Folha só foi a 10 cidades.
Em suma: dos 2001 entrevistados para a última pesquisa do Datafolha, quase a metade(48%) foi de paulistas, dos quais 26% na capital. Sem dúvida, um trabalho centralizado em São Paulo para forjar suposta vantagem de Serra, ao arrepio das instruções eleitorais vigentes.
A seguir, diálogo na favela Suvaco da Cobra, periferia de Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana de Recife, entre o pesquisador e a moradora Sueli Dumont, 38 anos, mãe de 5 filhos e beneficiária do ‘Bolsa-Família’:
-A senhora sabe que haverá eleições este ano?
- É para prefeito?
-Não, para presidente. A senhora conhece os candidatos ou sabe em quem vai votar?
-Em Lula, claro.
-Mas ele não pode ser candidato desta vez…
-Valha-me Deus! Pode não?
-Ô mãinha(interrompe Késsia, filha de Sueli), a candidata é a mulher(?) do Lula, que vai entrar no lugar dele…
-Como é o nome dela?
-É a Vilma(sic), mãinha.
-Então voto na Vilma(sic).
Haveremos de depreender, pelo atual nível de conhecimento do eleitorado sobre o pleito de outubro, que a Folha de São Paulo(bem assim O Globo) mente, descaradamente.
(Postado em 19/04/2010)
AMgóes.

