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Por onde andava o Estado quando os traficantes nasceram?

segunda-feira, dezembro 13th, 2010

Muito além da pirotecnia e espetacularização jornalística conferidas à recente ocupação policial-militar dos complexos de favelas da Penha e Alemão (foto), na zona da Leopoldina carioca,  cabe-nos uma reflexão que o título acima sugere: onde estava mesmo o poder público quando os atuais e hediondos traficantes nasceram?

O que faziam os  mais variados governos, desde o começo do século passado, quando contingentes da população marginalizada, moradores de cortiços no centro do Rio, então Distrito Federal, foram despejados pela ‘limpeza estética’ de Pereira Passos, Lacerda, Negrão de Lima, César Maia e outros barões da ‘assepsia social’?

Quais as condições, minimamente decentes, propiciadas para realocação dos pobres(que ‘enfeavam’ áreas reservadas às elites)  submetidos à decisão simplista e odiosa do ‘virem-se!’, promulgada pela visão excludente dos manda-chuva da  República?

Oficialmente reconhecido como bairro em 3 de dezembro de 1993, o Morro do Alemão foi  identificado com essa denominação a partir de 1920, quando um imigrante polonês, Leonard Kaczmarkiewcz, comprou extensa área na encosta rural da Serra da Misericórdia, margeada pela Estrada de Ferro D. Leopoldina. Branco, louro, o novo proprietário ficou conhecido como ‘alemão’.

Na área inferior do morro foi construído ainda em 1920, nos atuais limites de Olaria e Penha, o ‘Cortume Carioca’(foto), que seria anos depois a maior empresa do ramo na América Latina. Em 1946, com a abertura da Avenida Brasil, ligação viária de 58 quilômetros entre o centro da cidade e a então remota Santa Cruz, na zona oeste, a região contígua à Leopoldina foi transformada em polo industrial, cujos negócios ensejaram desordenada ocupação nos morros adjacentes, de que adveio o atual ‘complexo de favelas do alemão’.

Em dezembro de 1993,  um programa de integração social instaurado pelo segundo governo Brizola implicaria o reconhecimento do Alemão como  ‘bairro’, com  297  hectares e 65 mil pessoas residentes em pouco mais de 18 mil moradias,  já em meio ao recrudescimento do tráfico de drogas, iniciado  no começo da década anterior com sucessivas guerras entre grupos de traficantes rivais.

Expressiva área da Serra da Misericórdia foi destruída pela ação consentida de pedreiras em quase todo o curso do século 20, época em que inexistia qualquer política de preservação ambiental no país.  Nas imagens aéreas de poucos dias atrás, as câmeras da TV registraram colossais blocos de pedra deixados à margem das vias pela operação predatória de antigas empresas, na rota de que se valeram os traficantes para fuga diante do cerco policial.

Consumado aqui o prólogo ‘socioeconômico’ do Complexo do Alemão e vizinhanças, voltamos à vaca fria do questionamento que intitula esta nossa conversa: e o poder público o que fez em quase cem anos de adensamento demográfico de nossas encostas, única saída dos excluídos ao mais elementar exercício do direito cidadão à moradia?

À exceção do governador Leonel Brizola, cuja sensibilidade social foi duramente insultada sem trégua em dois mandatos, pelo PIG-partido da imprensa golpista, à frente os veículos ‘globais’(jornal, TV e rádios),  governantes locais e federais sempre trataram as populações faveladas como ‘bandidos-até-prova-em-contrário’, mantendo a velha máxima do ex-presidente Washington Luiz, no final dos anos 1920, de que  a questão social seria um  isolado ‘caso de polícia’.

Tradicionalmente autoritárias, as elites seguem produzindo monstrengos a fórceps, obcecadas com o bem-estar  de seu umbigo produzido na orla marítima,  em mansões e condomínios guardados 24 horas por vigilância armada até os dentes. Todavia, buscam serviçais nas comunidades carentes, para as tarefas  ditas  subalternas em seu refinado cotidiano(conquanto indispensáveis à sobrevivência do baronato).

Você acaso acha que os magnatas das drogas se escondem nas grotas camufladas pela vegetação de nossas serras e quer conhecer suas fortalezas? Dirija-se à sofisticada Lagoa Rodrigo de Freitas, ao Leblon, São Conrado, à Barra da Tijuca e cercanias da baixada de Jacarepaguá, onde qualquer passante fortuito lhe indicará os endereços de, pelo menos,  meia dúzia deles(e delas).

‘Soldados’, gerentes de segundo e terceiro escalões,  enfurnam-se, com suas possantes armas de guerra, contrabandeadas pelos ‘patrões’, em estratégicas casamatas lá do alto dos morros, de onde observam eventuais incursões da Polícia. Sem contar que um nada desprezível grupo(ou bando?) de policiais, na mixórdia de uma má formação e aviltantes salários, já entrou no jogo e, corrompido, faz o ‘meio-campo’ e prende a bola  entre a bandidagem e a lei, em troca de ‘algum’, que ninguém é de ferro…

É aí que o bicho pega, sobrando para trabalhadores e seus familiares, protagonistas compulsórios do nefando sistema da  corda bamba,  do ‘se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come’. Distante do teatro de horror, você dirá para os próprios botões que o tráfico recruta seus ‘auxiliares’ na própria comunidade onde se homiziou.

Não é regra geral, mas o recrutamento de jovens é fato concreto, diante da tentação de exercerem ‘poder’ onde não dispõem de ínfima capacidade de mando(só ‘Cuidado! É proibido isso e aquilo!’, a partir da preocupado zelo familiar).

Ansiosos por sucesso, nos limites de sua vivência social de contornos  machistas, vários desses adolescentes mergulham de cabeça na marginalidade, estribados em recorrentes ‘vantagens’ oferecidas pelo enganoso ‘bem-bom’ que balança as estruturas consumistas de qualquer insipiente e  imprecavido mortal.

Entre os sonhos de ‘felicidade’ que acalentam o garoto iniciado no tráfico, os da conquista da garota de sua paixão juvenil pela ostentação de capacidade econômica para – quem sabe? -  comprar um barraco, onde instalarão o lar-doce-lar de um amor-bandido movido a doses de testosterona e gravidezes tão  inconsequentes quanto prematuras e indesejadas.

Afinal,  na cabeça do rapazola-metido-a-homem, a certeza de que tudo pode, principalmente com o dedo no gatilho de um destruidor AR-15, na perspectiva de ganhos sem limite, prova de afirmação de sua ‘superioridade’. Na dura competição por ganhos legalizados(ou nem tanto)  no asfalto, sem base intelectual e desprovido do insólito argumento do trabuco,  seria esmagado em piscar de olhos, face à incapacidade para a obtenção da grana firme que a função de combatente, ‘avião’ ou fogueteiro no negócio das drogas lhe oferece.

Pode não ser o caso de quem me lê, mas ponderável parcela do ‘respeitável público’ televisivo, em ‘frisson’ quase-orgasmático, ficou torcendo por ‘exemplar’ banho de sangue da polícia contra os traficantes em debandada. Não faltou, inclusive ‘formadores de opinião’, quem vociferasse contra a ‘incompetência’ das autoridades por não ordenarem a execução sumária  dos fugitivos,  versão justiceira da ‘lei do cão’, do ‘nós ou eles’, todo mundo esquecido de que ‘eles’,  em sua barbárie, também(e ironicamente) fazem parte do ‘nós’.

A diferença é ‘eles’ terem-se graduado no aprendizado da ‘escola do mal’, sob a odiosa percepção de mundo impingida pelo autismo hipócrita e maniqueísta da turma ‘do bem’. Aí(paciência!) é bola ou búrica. Fomos lá, protegidos pelos blindados dos fuzileiros navais e promovemos a faxina. Pena que ‘eles’ tiraram o time de campo e o show  ‘oficial’de horrores, com direito a ‘zoom’ em altíssima resolução visual,  foi adiado.

Com toda essa avidez sanguinolenta da sociedade, que clama pela constitucional prerrogativa da paz e da ordem pública, mas jamais cuidou de fazer competentemente a sua parte, insisto na pergunta: onde é que estavam mesmo os governantes quando os ferozes traficantes de hoje(e de ontem, vivos e mortos), bem assim suas vítimas,  nasceram???

Ora, cara pálida! Estavam costurando acordos, nas madrugadas de seus expedientes conspirativos, decretando que tudo continuaria na mesma,  ‘nós’ cá, numa boa, e ‘eles’, excluídos, confinados e reprimidos, lá no outro lado dos muros(charge) destinados a preservar os  aspirantes à plêiade celestial dos justos, candidatos a uma vaga cativa à direita do Pai.

Finalmente, perguntar não ofende: em Sua infinita misericórdia, por que  o Todo-Poderoso não mandou  arcanjos desferirem, lá da altura inexpugnável  da etérea plaga, meia dúzia de raios para reduzir a pó aquela horda em desabrida retirada pelo morro do Cruzeiro, na direção da Grota do Sapo, no Alemão?

Para fechar, a resposta  online dos céus: “Não me meto em problema decorrente de incompetência, arrogância e insensibilidade humanas. Resolvam por aí. Afinal, dei-lhes inteligência e discernimento a fim de garantirem a divisão equitativa de oportunidades na face da Terra. (Ainda)com minha tríplice bênção, Deus Pai-Filho-Espírito Santo”.

Postado por AMgóes em 6/12/2010.

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Metida a esperta, a elite é burra

segunda-feira, novembro 15th, 2010

Lembro-me de que, nos anos 1960, época do pré-golpe, referíamo-nos à elite brasileira como retrógrada e reacionária, afora outros cognomes pejorativos apropriados à liberação de nossa jovem insatisfação e revolta com o cerco que seus esclerosados barões promoveram para impedir as reformas postuladas pelo presidente João Goulart.
No processo de persuasão popular que levou matronas da alta sociedade em passeata pelas alamedas dos Jardins paulistanos, quando muito em seus carrões rabos-de-peixe pela Avenida Paulista, a elite lambeu os beiços ao manipular a classe média-média (e também a média-baixa), arrebanhando milhões de adeptos a ‘sua’ causa nos mais
remotos recantos do país.
De repente, os que pichamos muros em Palmeira dos Índios, na madrugada de 12 para 13 de março de 1964, concitando a população a solidarizar-se com o ‘novo tempo’ das ‘Reformas de Base’, encaminhadas ao Congresso pelo governo federal, assistimos atônitos e sem rumo à ferocidade de outrora cândidas senhoras e seus maridos boas-praças nas marchas ‘com Deus, pela democracia’. Oportuno salientar
que as proposituras reformistas eram apenas um freio conjuntural de arrumação, nada ‘revolucionário’. Conquanto nacionalista, o presidente Goulart integrava uma estrutura dita burguesa de latifúndio nos Pampas, do Rio Grande ao Uruguai.
No agreste alagoano, funcionários do Banco do Brasil e servidores públicos de nossas relações, envolvidos em apaixonados debates socioeconômicos, nos limites da percepção provinciana de que dispúnhamos, face aos exíguos canais de comunicação eletrônica e veículos impressos, experimentávamos verdadeiros orgasmos ideológicos
quando nos chegavam, embora com atraso, jornais de linha editorial ‘progressista’, como ‘Correio da Manhã’(que mudou de lado na hora ‘H’) e ‘Última Hora’, empastelado por apopléticos ‘rebeldes de primeiro de abril’. Jango, um pacifista, sem o perfil caudilhesco de eminentes gaúchos da História, tanto remota quanto contemporânea, rejeitou qualquer ação emergencial de resistência, por contrário ao previsível
sacrifício de compatriotas. A decisão do presidente não teria sido pertinente para o cunhado e correligionário, deputado federal do
Rio de Janeiro, Leonel Brizola, líder do governo deposto, que tencionava resistir.
Ex-governador do Rio Grande do Sul, Brizola garantira em 1961, pela ‘Cadeia da Legalidade’, a posse de Goulart na presidência, após a tumultuada renúncia de Jânio Quadros, impedindo tentativa golpista, depois consumada em 1964.
Entremeando cânticos sacros, Hino Nacional e dobrados militares, transmitidos pelas rádios à exaustão, em apoio aos ‘salvadores da pátria’ que (falaciosamente) livraram o Brasil de uma ‘república comunossindicalista financiada por Moscou, Pequim e Havana’, a elite não deu trégua aos supostos subversivos, isto é, nós, do outro lado,
que sonhávamos com os explorados joões-da-silva livres em nova ordem de bem-estar social.
Afinal, defendíamos um governo eleito pelo voto popular, pois, à luz da Constituição de 1945,o ‘vice’(caso de Goulart) fora escolhido independentemente do titular que renunciou. Todavia, o que adveio foi perseguição, cadeia e porrada em nosso lombo, além de cova rasa para eventuais inconformados com o golpe e dispostos ao confronto
armado.
Livre da ‘ameaça de cubanização’(era esse o termo corrente, que fazia piedosas filhas-de-maria se diluirem em frêmitos de incontinência urinária, isto é, traduzindo para o ‘lulês’ dos pobres, empaparem de mijo suas indefectíveis ‘roupas de baixo’, tal o pavor histérico provocado pelos ‘comunistas ateus e antropofágicos’, comedores de criancinhas indefesas, como reverberava a ‘direitona’, dos púlpitos eclesiais aos
convescotes em suas associações corporativas, de milicos ou paisanos.
Naquele tempo, sacerdotes pedófilos e/ou defloradores de virgens(mais ou menos) convictas nas sacristias ou alcovas bentas de casas paroquiais, nem pensar! Isto é, concretamente já existiam, todo mundo sabia. Mas, se alguém ousasse denunciar, correria o risco da excomunhão, passaporte compulsório outorgado ao ‘caluniador’ no
rumo do fogo do inferno, que nem Dante Alighieri ousaria descrever.
A elite se fartou sob os favores dos generais de plantão, tudo em nome de uma civilização ocidental, cristã, verde-amarela e fiel ao ‘Big Brother’ do hemisfério norte.
A cor púrpura passou a identificar os perigosos ’comunas’, serviçais do ‘coisa ruim’.
Concomitantemente, homéricas falcatruas eram promovidas com o dinheiro público, maquiando-se operações bancárias autorizadas através de bilhetes em papel de embrulho pelos chefões, embora, na propaganda, além da subversão, ‘eles’ estavam atentos a qualquer indício de corrupção. “Pra frente, Brasil! Ame-e ou deixe-o!”
Pois meteram a mão na cumbuca e rasparam o fundo do tacho. Em Alagoas, cujos governantes, historicamente, sempre andaram de pires na mão, o Produban, banco estadual de fomento à produção local(majoritariamente açucareira), liberou centenas de milhões com hipotecas juridicamente inexequíveis. Na prática, os ‘promitentes
devedores’(é este o título pomposo dos tomadores de empréstimos bancários) ofereceram, como garantia do financiamento, o mais profundo subsolo de sua propriedade rural. Como não há incidência de jazidas petrolíferas no ‘pós’ ou ‘pré’-sal alagoano, deram uma ‘volta’ descomunal nas obrigações celebradas. O Produban foi à lona e, depois de anos de luta inglória para viabilizá-lo(militei adoidado nesse esforço
em vão), foi solenemente ‘deletado’ pelo governo privatista de FHC.
Agora, retomada a autoestima brasileira, pelas políticas de inclusão social do governo Lula, em que, ‘como nunca, na história deste país’, os mais ricos ganharam tanto e os mais pobres subiram o elevador, na direção da classe ‘C’, a elite joga pesado, na tentativa de desqualificar os eleitores(principalmente do norte/nordeste) que elegeram Dilma Rousseff primeira mulher presidente da República.
Na realidade, a elite, ‘decrépita e reacionária’, como a intitulávamos mais de meio século atrás, já se esfarela, a começar pela fragilidade de seus bastiões político-partidários, haja vista o dilema tucano em assumir, sem mínima competência para tal, o papel de ‘oposição’ que lhe cabe, como perdedor em três consecutivos processos eleitorais.
A deletéria elite brasileira, embora metida a esperta e conceitualmente mal-intencionada, é burra para entender que não dispõe de exclusividade, como pensa, sobre o bolo da riqueza do mundo. Séculos afora, os fatos comprovam que o caminho indutor da interação pacífica no planeta leva-nos, necessariamente, à perene repactuação dos contratos sociais.
Luís XVI, para quem o estado(francês) era unicamente ele, acabou sem a cabeça coroada, por obra da afiadíssima engenhoca do doutor Guilhotin.
Postado por AMgóes em 14.11.2010.

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