Muito além da pirotecnia e espetacularização jornalística conferidas à recente ocupação policial-militar dos complexos de favelas da Penha e Alemão (foto), na zona da Leopoldina carioca, cabe-nos uma reflexão que o título acima sugere: onde estava mesmo o poder público quando os atuais e hediondos traficantes nasceram?
O que faziam os mais variados governos, desde o começo do século passado, quando contingentes da população marginalizada, moradores de cortiços no centro do Rio, então Distrito Federal, foram despejados pela ‘limpeza estética’ de Pereira Passos, Lacerda, Negrão de Lima, César Maia e outros barões da ‘assepsia social’?
Quais as condições, minimamente decentes, propiciadas para realocação dos pobres(que ‘enfeavam’ áreas reservadas às elites) submetidos à decisão simplista e odiosa do ‘virem-se!’, promulgada pela visão excludente dos manda-chuva da República?
Oficialmente reconhecido como bairro em 3 de dezembro de 1993, o Morro do Alemão foi identificado com essa denominação a partir de 1920, quando um imigrante polonês, Leonard Kaczmarkiewcz, comprou extensa área na encosta rural da Serra da Misericórdia, margeada pela Estrada de Ferro D. Leopoldina. Branco, louro, o novo proprietário ficou conhecido como ‘alemão’.
Na área inferior do morro foi construído ainda em 1920, nos atuais limites de Olaria e Penha, o ‘Cortume Carioca’(foto), que seria anos depois a maior empresa do ramo na América Latina. Em 1946, com a abertura da Avenida Brasil, ligação viária de 58 quilômetros entre o centro da cidade e a então remota Santa Cruz, na zona oeste, a região contígua à Leopoldina foi transformada em polo industrial, cujos negócios ensejaram desordenada ocupação nos morros adjacentes, de que adveio o atual ‘complexo de favelas do alemão’.
Em dezembro de 1993, um programa de integração social instaurado pelo segundo governo Brizola implicaria o reconhecimento do Alemão como ‘bairro’, com 297 hectares e 65 mil pessoas residentes em pouco mais de 18 mil moradias, já em meio ao recrudescimento do tráfico de drogas, iniciado no começo da década anterior com sucessivas guerras entre grupos de traficantes rivais.
Expressiva área da Serra da Misericórdia foi destruída pela ação consentida de pedreiras em quase todo o curso do século 20, época em que inexistia qualquer política de preservação ambiental no país. Nas imagens aéreas de poucos dias atrás, as câmeras da TV registraram colossais blocos de pedra deixados à margem das vias pela operação predatória de antigas empresas, na rota de que se valeram os traficantes para fuga diante do cerco policial.
Consumado aqui o prólogo ‘socioeconômico’ do Complexo do Alemão e vizinhanças, voltamos à vaca fria do questionamento que intitula esta nossa conversa: e o poder público o que fez em quase cem anos de adensamento demográfico de nossas encostas, única saída dos excluídos ao mais elementar exercício do direito cidadão à moradia?
À exceção do governador Leonel Brizola, cuja sensibilidade social foi duramente insultada sem trégua em dois mandatos, pelo PIG-partido da imprensa golpista, à frente os veículos ‘globais’(jornal, TV e rádios), governantes locais e federais sempre trataram as populações faveladas como ‘bandidos-até-prova-em-contrário’, mantendo a velha máxima do ex-presidente Washington Luiz, no final dos anos 1920, de que a questão social seria um isolado ‘caso de polícia’.
Tradicionalmente autoritárias, as elites seguem produzindo monstrengos a fórceps, obcecadas com o bem-estar de seu umbigo produzido na orla marítima, em mansões e condomínios guardados 24 horas por vigilância armada até os dentes. Todavia, buscam serviçais nas comunidades carentes, para as tarefas ditas subalternas em seu refinado cotidiano(conquanto indispensáveis à sobrevivência do baronato).
Você acaso acha que os magnatas das drogas se escondem nas grotas camufladas pela vegetação de nossas serras e quer conhecer suas fortalezas? Dirija-se à sofisticada Lagoa Rodrigo de Freitas, ao Leblon, São Conrado, à Barra da Tijuca e cercanias da baixada de Jacarepaguá, onde qualquer passante fortuito lhe indicará os endereços de, pelo menos, meia dúzia deles(e delas).
‘Soldados’, gerentes de segundo e terceiro escalões, enfurnam-se, com suas possantes armas de guerra, contrabandeadas pelos ‘patrões’, em estratégicas casamatas lá do alto dos morros, de onde observam eventuais incursões da Polícia. Sem contar que um nada desprezível grupo(ou bando?) de policiais, na mixórdia de uma má formação e aviltantes salários, já entrou no jogo e, corrompido, faz o ‘meio-campo’ e prende a bola entre a bandidagem e a lei, em troca de ‘algum’, que ninguém é de ferro…
É aí que o bicho pega, sobrando para trabalhadores e seus familiares, protagonistas compulsórios do nefando sistema da corda bamba, do ‘se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come’. Distante do teatro de horror, você dirá para os próprios botões que o tráfico recruta seus ‘auxiliares’ na própria comunidade onde se homiziou.
Não é regra geral, mas o recrutamento de jovens é fato concreto, diante da tentação de exercerem ‘poder’ onde não dispõem de ínfima capacidade de mando(só ‘Cuidado! É proibido isso e aquilo!’, a partir da preocupado zelo familiar).
Ansiosos por sucesso, nos limites de sua vivência social de contornos machistas, vários desses adolescentes mergulham de cabeça na marginalidade, estribados em recorrentes ‘vantagens’ oferecidas pelo enganoso ‘bem-bom’ que balança as estruturas consumistas de qualquer insipiente e imprecavido mortal.
Entre os sonhos de ‘felicidade’ que acalentam o garoto iniciado no tráfico, os da conquista da garota de sua paixão juvenil pela ostentação de capacidade econômica para – quem sabe? - comprar um barraco, onde instalarão o lar-doce-lar de um amor-bandido movido a doses de testosterona e gravidezes tão inconsequentes quanto prematuras e indesejadas.
Afinal, na cabeça do rapazola-metido-a-homem, a certeza de que tudo pode, principalmente com o dedo no gatilho de um destruidor AR-15, na perspectiva de ganhos sem limite, prova de afirmação de sua ‘superioridade’. Na dura competição por ganhos legalizados(ou nem tanto) no asfalto, sem base intelectual e desprovido do insólito argumento do trabuco, seria esmagado em piscar de olhos, face à incapacidade para a obtenção da grana firme que a função de combatente, ‘avião’ ou fogueteiro no negócio das drogas lhe oferece.
Pode não ser o caso de quem me lê, mas ponderável parcela do ‘respeitável público’ televisivo, em ‘frisson’ quase-orgasmático, ficou torcendo por ‘exemplar’ banho de sangue da polícia contra os traficantes em debandada. Não faltou, inclusive ‘formadores de opinião’, quem vociferasse contra a ‘incompetência’ das autoridades por não ordenarem a execução sumária dos fugitivos, versão justiceira da ‘lei do cão’, do ‘nós ou eles’, todo mundo esquecido de que ‘eles’, em sua barbárie, também(e ironicamente) fazem parte do ‘nós’.
A diferença é ‘eles’ terem-se graduado no aprendizado da ‘escola do mal’, sob a odiosa percepção de mundo impingida pelo autismo hipócrita e maniqueísta da turma ‘do bem’. Aí(paciência!) é bola ou búrica. Fomos lá, protegidos pelos blindados dos fuzileiros navais e promovemos a faxina. Pena que ‘eles’ tiraram o time de campo e o show ‘oficial’de horrores, com direito a ‘zoom’ em altíssima resolução visual, foi adiado.
Com toda essa avidez sanguinolenta da sociedade, que clama pela constitucional prerrogativa da paz e da ordem pública, mas jamais cuidou de fazer competentemente a sua parte, insisto na pergunta: onde é que estavam mesmo os governantes quando os ferozes traficantes de hoje(e de ontem, vivos e mortos), bem assim suas vítimas, nasceram???
Ora, cara pálida! Estavam costurando acordos, nas madrugadas de seus expedientes conspirativos, decretando que tudo continuaria na mesma, ‘nós’ cá, numa boa, e ‘eles’, excluídos, confinados e reprimidos, lá no outro lado dos muros(charge) destinados a preservar os aspirantes à plêiade celestial dos justos, candidatos a uma vaga cativa à direita do Pai.
Finalmente, perguntar não ofende: em Sua infinita misericórdia, por que o Todo-Poderoso não mandou arcanjos desferirem, lá da altura inexpugnável da etérea plaga, meia dúzia de raios para reduzir a pó aquela horda em desabrida retirada pelo morro do Cruzeiro, na direção da Grota do Sapo, no Alemão?
Para fechar, a resposta online dos céus: “Não me meto em problema decorrente de incompetência, arrogância e insensibilidade humanas. Resolvam por aí. Afinal, dei-lhes inteligência e discernimento a fim de garantirem a divisão equitativa de oportunidades na face da Terra. (Ainda)com minha tríplice bênção, Deus Pai-Filho-Espírito Santo”.
Postado por AMgóes em 6/12/2010.


