Antônio Manoel Góes
RIO DE JANEIRO – Torço pelo Flamengo há mais de meio século, exatos 58 anos, remoto simpatizante do rubro-negro carioca à margem esquerda do São Francisco, em Penedo. Colecionava a revista ‘Esporte Ilustrado’, naquele tempo distante em que a intimidade com os grandes clubes do futebol brasileiro se limitava à fantasia do rádio.
O ‘Canal 100’, de Carlinhos Niemeyer, ainda nem produzia, para exibição nas telas dos cinemas, os jogos do campeonato carioca, que nos chegavam, anos depois, com um mês de atraso. Assim, sem as atuais imagens digitais, diretas e ao vivo, condimentadas com a tecnologia dos ‘replays’, promovÃamos a resenha no domingo, à porta da Catedral, enquanto aguardávamos o fim da missa noturna, esticando a discussão à ‘soirée’ do cinema e à hora do lanche, dia seguinte, na escola, louvados nos narradores e comentaristas da Nacional, Mayrink Veiga e Tupi.
Hoje, tudo ficou fácil, com a televisão e a internet. Você acessa até o blog do jogador ou o site do clube e opina sobre o besteirol de sempre, digitado, via de regra, pelo ‘assessor de imprensa’. Diferentemente da distante fantasia de antigamente, suscitada pela transmissão do rádio, agora campeia, por exemplo, uma relação promÃscua que interfere no dia-a-dia das agremiações, Surgiram as torcidas ‘organizadas’, eufemismo para hordas de desocupados com direito a meter o bedelho na rotina das equipes, implementando desabrida paixão movida a destemperos e violência, através do expediente das ameaças fÃsicas contra jogadores, treinadores e dirigentes, face a eventuais insucessos dentro de campo. E o mais grave e estarrecedor: gente privilegiada com ingressos de jogos do clube para cometer, nas arquibancadas e nas ruas, ações delituosas que não raras vezes redundam em feridos e mortos.
Detentor da maior torcida no paÃs(e no mundo, como todos do ‘mais querido’ proclamamos), o Flamengo é o paradigma da esculhambação institucionalizada na esfera administrativa dos clubes esportivos do Brasil(e, por extensão, do planeta), com um passivo praticamente impagável de quase meio bilhão de reais. Submeti-me, anos atrás, à tarefa de ler as quatrocentas e tantas páginas da malograda CPI do futebol, que tramitou na Câmara Federal: a metade dos desatinos ali registrados tinha origem nos subterrâneos nauseabundos da Gávea, seguida das atrocidades cometidas contra o Vasco da Gama por seu presidente-malfeitor Eurico Miranda.
Pense nas mais horripilantes histórias do arco da velha: ‘causos’ inocentes diante do festival de falcatruas perpetrado no Clube de Regatas Flamengo por seguidas administrações, cujos dirigentes, em sua maioria, usaram e abusaram da notoriedade dos cargos para ganhos ilÃcitos de toda ordem. Afinal, ser presidente ou diretor do Flamengo sempre deu mais fama do que variados postos da vida polÃtico-partidária no Rio de Janeiro.
Depois da metade dos anos 1970, por conta de quase duas décadas de passagens medÃocres e irregulares nas temporadas carioca, da Taça Brasil e do Brasileirão iniciado em 1971, um grupo de abonados e ‘famosos’ assumiu o clube, daà advindo a inesquecÃvel ‘era Zico’ que conquistou tudo a que tinha direito, inclusive o tÃtulo mundial contra o Liverpool. Todavia, as brigas internas de vaidades e poder já haviam aflorado e, na sequência, salvo algumas raras conquistas expressivas e pontuais, começou a temporada de mediocridades rubro-negras.
O dono da maior torcida passou a frequentar com assiduidade as zonas de rebaixamento do campeonato brasileiro da primeira divisão, safando-se da degola por fortuitos e iluminados golpes de sorte na undécima hora. Havia conquistado um tÃtulo nacional no longÃnquo 1992, sob a batuta, nas quatro linhas, do consagrado e veterano Leovigildo Júnior, cumprindo, até o sofrido caneco de 2009, 17 anos de homéricos vexames.
Pois não é que sua nova e festejada presidenta PatrÃcia Amorim, obscura vereadora eleita pelo PMDB, alimenta um projeto polÃtico de chegar à Prefeitura do Rio(e – quem sabe? – ao governo do Estado) nas asas tucanas do PSDB, para o qual se passou de mala e cuia no ano passado? Na verdade, ostentando um currÃculo de vitoriosa nadadora do Flamengo e se proclamando disposta a ‘dar a vida pelo clube de seu coração’, ela pavimenta, nos bastidores do tucanato, velada intenção de emergir como nova estrela polÃtica que possibilite ao referido partido, vazio de figuras de apelo popular, o retorno ao comando carioca ou fluminense.
Enquanto anuncia projetos de suposto impacto para ‘revitalizar’(?) a Gávea, dona PatrÃcia vai fingindo que administra as sandices de Adriano, Vagner Love, Bruno e outros menos votados, cuja fama nos gramados é ameaçada por ‘excentricidades’ extra-campo, publicadas nas páginas policiais. Até mesmo o sérvio Petkovic, atleta técnica e intelectualmente acima da média, além de rigoroso cumpridor de seus deveres, que perdoou, ano passado, 8 dos 16 milhões de uma das tantas dÃvidas do Flamengo e foi decisivo na conquista do Brasileirão, é tido por ‘marrento’ ao cobrar um relacionamento profissional da diretoria com seus profissionais.
Pena que o Santa Cruz de Penedo, , campeão alagoano do Centenário da Independência, em 1922, em cujo time fui goleiro(e ‘frangueiro’) dos ‘juvenis’, em meados dos anos 1950, fechou as portas faz tempo, também vÃtima do descaso com a história esportiva de minha vetusta cidade natal. Caso contrário, voltaria a torcer por ele.
(Postado em 22/03/2010)

