Rio de Janeiro – Navegue nas páginas da história contemporânea e confirmará que os militares, no Brasil e no mundo, exercitaram-se na doutrina da ‘falácia’, esse argumento inconsistente, sem fundamento e inverÃdico, mas de conotação psicológica, destinada a persuadir as pessoas de boa fé.
Alguns tipos de falácia, em particular, apontaram o rumo de sucessivos atentados ao estado democrático de direito: ‘argumentum ad populum’(apelo ao povo), destinado a sensibilizar bolsões desinformados da sociedade, cujos valores morais baseiam-se no sincretismo religioso, fonte geradora do pavor ao castigo dos céus; ‘argumentum ad nauseam’(apelo emocional, à exaustão), processo de repetição, para vencer pelo cansaço; e ‘argumentum ad baculum’( apelo à força), para impor a conclusão através do ‘convencimento’ escancarado com os tanques nas ruas.
Via de regra, as instituições religiosas, salvo honrosas exceções de ministros eclesiais defensores da manietada Teoria da Libertação, têm um histórico de cumplicidade figadal com golpistas de toda ordem, abonando arreganhos contra a Democracia. Aliás, prelados da Igreja Católica, conservadora e imperial, com seus correlatos da hierarquia dos evangélicos, esmeraram-se em demonizar os comunistas, acusados de comedores de criancinhas, esquartejadores de padres e profanadores de sacrários.
Nos púlpitos, a pregação da falácia sempre foi uma festa macabra, visando a preservar o caráter excludente dos objetivos ditatoriais. O discurso de que ‘precisamos salvar a democracia, ameaçada pelos Ãmpios, verdadeiros flagelos de Deus’, amiúde produziram eco, da ordem-do-dia dos quartéis ao sermão nas vetustas catedrais. Qualquer protesto contra injustiças sociais era(e continua sendo) um atentado inominável à liberdade(deles), argumento falacioso com que se apropriaram do poder, ao arrepio da majoritária vontade popular represada nos limites de sua incapacidade de reação.
Nos últimos 50 anos, generais, almirantes e brigadeiros-do-ar prestaram-se ao jogo das retrógradas oligarquias polÃticas: foram contra a campanha do ‘Petróleo é nosso’; induziram o velho Vargas ao suicÃdio; tentaram impedir a posse de JK(não fosse a ação decisiva do legalista e honrado general Lott); criaram empecilhos a posse de Jango, vice-presidente de Jânio(que tomou um porre e renunciou ao Planalto), mas recuaram ‘estrategicamente’ ante a reação liderada pelo governador gaúcho Leonel Brizola; finalmente ajudaram a inviabilizar o governo de Goulart, com o golpe de 1º de abril de 1964, uma falácia descomunal deflagrada, coincidentemente, no universal ‘dia da mentira’, até que se diluiram após 21 anos de sandices, torturas, ‘milagres econômicos’ e desprezo ao povo, em cujo nome todo e qualquer poder deve ser exclusivamente exercido, pela outorga do voto secreto.
O mais grave: quem usa a falácia(afirmação falsa, sem validade lógica), sabe que mente, que engana de forma despudorada e infame. ‘Nossos’ falaciosos, que golpearam tantas vezes as instituições pátrias, jamais deixaram de jurar solenemente que, tão logo ‘organizassem a casa, livrando-a da corrupção e da subversão’, devolveriam o poder aos cidadãos. Ledo engano! Aqui e em qualquer outro paÃs, eles tomam gosto, armam o circo de horrores e se encastelam ‘ad secula seculorum’. Só saem ao cair de podres no lixo da história, onde, com certeza, expiam as atrocidades praticadas contra cidadãos cuja arma é o trabalho cotidiano na construção de seu paÃs.
Agora, no governo Lula, velhinhos, envergando a ociosidade do pijama, do alto teor de suas arteroscleroses, em imprecações com baba de ódio congelado no tempo, brandem o recurso psicótico das velhas quarteladas, combatendo moinhos de vento com suas tropas de Brancaleone. Esses ‘salvadores do Brasil’, supostos proprietários do patriotismo verde-amarelo, continuam ‘se achando’ o que nunca foram. Explica-se: colaram grau sob a tese da falácia, motivo de se terem declarado, no curso do século passado, pretensos paladinos da liberdade democrática, mas empregaram espadas e canhões, comprados com nossos impostos, para esganar os cidadãos à base do garrote vil. Todavia, juravam defender nossas famÃlias dos avanços de ideologias ‘exóticas’, verdadeiros cruzados à busca do igualmente falacioso ‘santo graal’.
(*) jornalista e militante de movimentos sociais.

