Vivenciamos um clima de expectativas e conjecturas entre a rede de blogueiros nas últimas semanas, face a reverberadas ilações sobre a existência de irrespondíveis ‘cartas-na-manga’ da campanha de Serra para virar o jogo sobre Dilma Rousseff, na undécima hora desta campanha eleitoral.
O ridículo da ‘bolinha de papel’ camuflada de míssil em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, foi arquitetado para manter o foco em possível ‘virada’ tucana, mas o tiro saiu pela culatra e Serra empacou nas pesquisas subsequentes. Nem os mais empedernidos institutos ‘serristas’(Datafolha e Ibope) seguraram a barra e, na prática, já jogaram a toalha.
Internautas, especialistas em artes gráficas e edição de imagens, desmoralizaram a fraude urdida nos bastidores da TV Globo, grosseiramente confeccionada ao arrepio dos avanços tecnológicos que permitiriam seu desmonte com relativa facilidade.
Até o provecto perito Molina, que fez carreira nos anos de chumbo, assinando laudos transformadores de assassinatos por tortura, nos Doi-Codi da vida, em mortes por ‘causas naturais’, foi alvo de chacota ao ‘descobrir’, no precário vídeo de um celular, a imagem borrada de um rolo de fita-crepe que teria atingido o candidato do PSDB.
Nem os panfletos apócrifos, sabidamente originários de sacristias nada ‘católicas’, vinculando a candidata do PT a um suposto ideário ‘abortista’, provocaram o(perverso) efeito desejado. Muito menos a súbita e generalizada devoção do tucano a todos os santos, às onze mil virgens e ao séquito de querubins e serafins. Em sua onisciência, Deus com certeza castiga a mentirosa conversão de última hora. Implacáveis, os números das intenções de votos confirmam a justiça dos céus.
Nem a obstinada canalhice da Folha de São Paulo, ao reivindicar ao Superior Tribunal Militar direito de acesso ao inquérito a que Dilma Rousseff foi submetida mais de trinta anos atrás pelo regime autoritário, alegando presumido ‘interesse público’ no conhecimento do draconiano processo, logrou o resultado que a imprensa golpista desejava.
Impingiram à presidenciável do PT a ‘suspeita’ de ser(sinta você a abjeção do termo) ‘praticante do lesbianismo’, trazendo a modorrenta discussão da homossexualidade para o horário eleitoral. Igualmente não colou esse preconceito homofóbico ruminado nos ‘linving-rooms’ das mansões dos Jardins, coração da elite na paulicéia desvairada.
Há quilométrica lista de denúncias bombásticas, explicitada pelo saudável bom-humor da blogosfera, que poderiam obter repercussões midiáticas, pretensamente capazes de inviabilizar a candidata governista: “Foi Dilma quem inventou o trabalho na segunda-feira!”, “Médico de Michael Jackson, acusado de aplicar overdose de calmantes no astro ‘pop’, era filiado ao PT!”, “Foi Dilma(e não Pedro) quem negou Jesus três vezes nas ruas de Jerusalém!”, “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? A Folha apurou que Dilma sabe, mas sonegou a informação à sociedade!”
Agora, às vésperas do pleito em segundo turno, eis que, no Vaticano, diante de uma delegação de bispos brasileiros, o Papa Bento XVI exige sejam intensificadas, sem trégua, as manifestações contra o aborto, como tema recorrente das prédicas eclesiais em nosso país. Serra adorou e saiu beijando todas e quaisquer imagens do culto católico, ‘oficiais’ ou não, do Padim Ciço do Juazeiro à Senhora da Aparecida. O eleitor, ao que parece, nem aí.
Depreende-se, salvo melhor juízo, que as artimanhas tucanas e similares, substitutas de um programa alternativo de governo para se contrapor ao atual, deverão dar solenemente com os burros n’água, a não ser que Dilma seja flagrada, por exemplo, profanando as ‘santas espécies’ ou outra heresia do gênero.
Caso se constatasse um fato ‘apocalíptico’, de todo inimaginável, Dilma Rousseff, em função da histeria provocada por um bem ensaiado ‘furor’ popular, escancarado nas ‘escaladas’ de abertura do Jornal Nacional, seria submetida a um tribunal do inquisitório Santo Ofício, de caráter ‘ecumênico’, constituído ‘ad hoc’, entre outros, pelo bispo de Guarulhos, pelo pastor Malafaia, além de beatos da TFP e da Opus Dei.
Como todas essas hilárias conjecturas integram minha descontraída fase ‘zen’, no pós-campanha de sacanagens neonazifascistas da demotucanagem, só nos resta continuar a vigília para garantir o óbvio, como diria Jorge Benjor, ‘com humildade e gol’: na estratégia de comparações entre os governos Lula e FHC, de que Serra fugiu como o diabo da cruz, Dilma deverá vencer neste domingo, para assumir em janeiro de 2011 o mandato histórico de primeira presidenta do Brasil, por conta da cruzada cívica de Lula, seu ilustre cabo eleitoral.
Antônio Manoel Góes – jornalista e militante de movimentos sociais.
Rio, 30 de outubro de 2010.


