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‘Bomba’ tucana era vaticana

sábado, outubro 30th, 2010

Vivenciamos um clima  de expectativas e conjecturas  entre a rede de blogueiros nas últimas semanas, face a reverberadas ilações sobre a  existência de irrespondíveis ‘cartas-na-manga’ da campanha de Serra para virar o jogo sobre Dilma Rousseff, na undécima hora desta campanha eleitoral.

O ridículo da ‘bolinha de papel’ camuflada de míssil em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro,  foi arquitetado para manter o foco em possível ‘virada’ tucana, mas o tiro saiu pela culatra e Serra empacou nas pesquisas subsequentes. Nem os mais empedernidos institutos ‘serristas’(Datafolha e Ibope) seguraram a barra e, na prática, já jogaram a toalha.

Internautas, especialistas em artes gráficas e edição de imagens, desmoralizaram a fraude urdida nos bastidores da TV Globo, grosseiramente confeccionada ao arrepio dos avanços tecnológicos que permitiriam seu desmonte com relativa facilidade.

 Até o provecto perito Molina, que fez carreira nos anos de chumbo, assinando laudos transformadores de assassinatos por tortura, nos Doi-Codi da vida, em mortes por ‘causas naturais’, foi alvo de chacota ao ‘descobrir’, no precário vídeo de um celular,  a imagem borrada de um rolo de fita-crepe que teria atingido o candidato do PSDB.

Nem os panfletos apócrifos, sabidamente originários de sacristias nada ‘católicas’, vinculando  a candidata do PT a um suposto ideário ‘abortista’, provocaram o(perverso) efeito desejado. Muito menos a súbita e generalizada devoção do tucano a todos os santos, às onze mil virgens e ao séquito de querubins e serafins. Em sua onisciência,  Deus com certeza castiga a mentirosa conversão de última hora. Implacáveis, os números  das intenções de votos confirmam a justiça dos céus.

Nem a obstinada canalhice da Folha de São Paulo, ao reivindicar ao Superior Tribunal Militar direito de acesso ao inquérito a que Dilma Rousseff foi submetida mais de trinta anos atrás pelo regime autoritário, alegando presumido ‘interesse público’ no conhecimento do draconiano processo, logrou o resultado que a imprensa golpista desejava.

Impingiram à presidenciável do PT a ‘suspeita’ de ser(sinta você a abjeção do termo) ‘praticante do lesbianismo’, trazendo a modorrenta discussão da homossexualidade para o horário eleitoral. Igualmente não colou esse preconceito homofóbico ruminado nos ‘linving-rooms’ das mansões dos Jardins, coração da elite na paulicéia desvairada.

Há quilométrica lista de denúncias bombásticas, explicitada pelo saudável bom-humor da  blogosfera, que poderiam obter repercussões midiáticas, pretensamente capazes de inviabilizar a candidata governista: “Foi Dilma quem inventou o trabalho na segunda-feira!”,  “Médico de Michael Jackson, acusado de aplicar overdose de calmantes no astro ‘pop’, era filiado ao PT!”, “Foi Dilma(e não Pedro) quem negou Jesus três vezes nas ruas de Jerusalém!”, “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? A Folha apurou que Dilma sabe, mas sonegou a informação à sociedade!”

Agora, às vésperas do pleito em segundo turno, eis que, no Vaticano, diante de uma delegação de bispos brasileiros, o Papa Bento XVI exige sejam intensificadas, sem trégua,  as manifestações contra o aborto, como tema recorrente das prédicas eclesiais em nosso país. Serra adorou e saiu beijando todas e quaisquer imagens do culto católico, ‘oficiais’ ou não, do Padim Ciço do Juazeiro à Senhora da Aparecida. O eleitor, ao que parece, nem aí.

Depreende-se, salvo melhor juízo, que as artimanhas tucanas e similares, substitutas de um programa alternativo de governo para se contrapor ao atual, deverão dar solenemente com os burros n’água, a não ser que Dilma seja flagrada, por exemplo, profanando as ‘santas espécies’ ou outra heresia do gênero.

Caso se constatasse um fato ‘apocalíptico’, de todo inimaginável, Dilma Rousseff, em função da histeria provocada por um bem ensaiado ‘furor’ popular, escancarado nas ‘escaladas’ de abertura do Jornal Nacional,  seria submetida a um tribunal do inquisitório Santo Ofício, de caráter ‘ecumênico’, constituído ‘ad hoc’, entre outros, pelo bispo de Guarulhos, pelo  pastor Malafaia, além de beatos da TFP e da Opus Dei.

Como todas essas hilárias conjecturas integram minha descontraída fase ‘zen’, no pós-campanha de sacanagens  neonazifascistas da demotucanagem, só nos resta continuar a vigília para garantir o óbvio, como diria Jorge Benjor, ‘com humildade e gol’: na estratégia de comparações entre os governos Lula e FHC, de que Serra fugiu como o diabo da cruz, Dilma deverá vencer neste domingo, para assumir em janeiro de 2011 o mandato histórico de primeira presidenta do Brasil, por conta da cruzada cívica de Lula, seu ilustre cabo eleitoral.

Antônio Manoel Góes – jornalista e militante de movimentos sociais.

Rio, 30 de outubro de 2010.

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Nada de tri, tetra, penta ou hexa!

domingo, junho 13th, 2010

RIO DE JANEIRO – Você pode estrilar, chamar-me de empata-orgasmo, pregador importuno de cultura inútil etc e tal. Reconheço nada mais apaixonante para a galera do que ufanar-se, aos berros, principalmente se houver um argentino por perto: ‘todo mundo tenta, mas só o Brasil é penta’. Argumento suficiente e definitivo para os indiferentes a eventuais análises linguísticas fora de hora.

 Estamos em plena Copa da África e, apesar da ‘batalha de Itararé’ de nosso treinador, tão furioso quanto nos tempos de apoplético meio-campista da seleção, integro o time dos que sempre preferiram  artistas e virtuoses da bola aos ‘guerreiros’ aloprados tipo Felipe Melo e companhia.

 Assim, toco de primeira para o que interessa: o Brasil não é ‘tri’ nem ‘tetra’ e muito menos ‘penta’. Somos, corretamente falando, competentes bicampeões, de 1958 e 1962. Nossa mídia, escancaradamente comprometida com os ‘anos de chumbo’ da Ditadura, produziu a expectativa falaciosa de um ‘tri’, atropelando as mais elementares regras da linguagem, à base do ‘Pra frente, Brasil!’, espécie de biombo para encobrir as atrocidades cometidas nos DOI-Codi da vida(e da morte).

  Sou incorrigível ortodoxo, quando se trata de preservar a lógica dos significados idiomáticos, que não podemos submeter às vãs manifestações hepáticas  de plantão, como ocorreu em 1970. Os acenos do ‘milagre’ econômico, nos marcos do AI-5, dependiam de reflexos no previsível ‘pão-e-circo’ do futebol, à época(apropriadamente) encarnado pelo timaço que foi ao México na perspectiva de abiscoitar em definitivo a ’Coupe Jules Rimet’.

 Quatro décadas atrás, nós, o Uruguai(1930-1950) e a Itália(1934-1938) éramos candidatos ao privilégio de levar para casa, sem retorno, o ambicionado troféu da FIFA, outorga destinada ao primeiro que o fizesse, mesmo alternadamente, pela terceira vez. Foi o nosso caso, embora, anos depois, sofrêssemos descomunal vexame com seu misterioso roubo, na sede da CBD, Rio de Janeiro, e sua provável transformação em pó.

 E o que tem a ver tudo isso com nossos festejados ‘tri’ de 70, ‘tetra’ de 94 e ‘penta’ de 2002? Compete-me informar que referidos ‘radicais’ (bem assim os ‘mono’, ‘bi’, ‘hepta’, ‘octa’, ‘enea’ e ‘deca’), de origem grega, designam a pluridade ‘sequencial’ semântica de um mesmo registro substantivo, necessariamente ‘consecutivo’, sem interrupção. Complicado? Bem, como diz o Arnaldo César Coelho na TV, ‘a regra é clara’.

 “Assunto para a Academia de Letras!”, retrucará você, p…da vida com este súbito corte em seu desvairado tesão de torcedor verde-amarelo, babando pelo ansiado ‘hexa’ que nos escapou na fatídica arrumada de meião do Roberto Carlos, em 2006. A onda agora é acionar as vuvuzelas e correr para o abraço, na final de 11 de julho, lá em Joanesburgo.

 Você sabia que alemães(1954-74-90) e italianos(1934-38-82-2006) não se proclamam, respectivamente, ‘tri’  e ‘tetra’? A ‘Squadra Azzurra’, a exemplo do Brasil, é simplesmente bicampeã. Por aqui, os veículos midiáticos alimentam há 40 anos a doce mentira que, repetida a cada Copa, sacode nossa autoestima futebolística como intrínseca verdade.

 Lembro-me de que Valdir Amaral,  com quem trabalhei entre  1977 e 81,  usava, entre outros, o bordão ‘Rádio Globo, a sua emissora, torcedora três vezes campeã do mundo!’ O ‘indivíduo competente’ jamais se referiu, por inexistente, ao suposto ‘tri’. Ainda que você, louco para me deletar, reitere e proclame o hipotético ‘penta’ de 2002, sustento tratar-se de grosseira reverberação de ‘marketing’, desde os idos do regime autoritário, que colou, oportunista, de 1970 em diante, no imaginário nacional.

 Para você também enfezar-se por não termos ‘tetra’ ou ‘penta’ de nossos clubes, em nível nacional, diferentemente do que alardeiam, vamos às verdadeiras  sequências de títulos no ‘Brasileirão’: bicampeões – Flamengo(82/83), Internacional(75/76), Palmeiras(72/73), Santos(2002/03); tricampeão – São Paulo(2006/07/08). O rubro-negro carioca detém duas séries de 10 conquistas(ininterruptas): decacampeão de remo e basquetebol, no âmbito regional, entre os anos 50 e 60 do século passado.

 Na expectativa da indulgência dos ocasionais leitores cristãos quanto à tese insólita aqui explicitada, pondero que a Bíblia Sagrada cita o ‘Pentateuco’(olhe aí novamente o radical grego, ‘penta’), ordem cronológica dos cinco primeiros  livros do Velho testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

 Embora às portas da Inquisição, por desmistificar as ‘religiosas’ e ‘dogmáticas’ estruturas esportivas da galera, que acredita em Dunga e sua botocuda ‘tropa de choque’ no meio-campo da seleção,  torço pelo êxito de nossos canarinhos(tudo é possível) nos belíssimos estádios da África do Sul. E que o peso desta assertiva sobre conquistas sequenciais nas quatro linhas me seja leve!

 (Postado por AMgóes em 13/06/2010)

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