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De Lula para Dilma: revezamento sem ‘poste’

terça-feira, dezembro 28th, 2010

Parafraseando o ‘cara’ de Caetés, ‘nunca na História deste país’ experimentamos concretamente a sensação de continuidade na sucessão presidencial, ainda que a sequência ocorresse nos marcos do mesmo grupo político-partidário.

A tão badalada alternância de poder, tradição falaciosa que mascarou o revezamento no plantão do governo, entre ‘os mesmos’ de sempre, nos bastidores das elites dominadoras e excludentes, foi interrompida a partir de 2003.

Submetido a traumas, desvios de conduta, hesitações e incoerências previsíveis no complicado contexto das relações sociais, o projeto de governo ora em curso expandiu, ao cabo de oito anos, os limites de nossa autoestima.

A mórbida submissão  do “é Deus que quer…” deu lugar aos alentadores avanços no rumo do andar de cima.  Convenhamos que todos os governos, cada qual nos limites de sua percepção política, inclusive nos 21 anos de exceção por que passamos, contribuíram, à sua maneira, para fomentar nosso desenvolvimento, raras vezes, porém, dirigidos aos deserdados.

Eventuais esboços de efêmeras tentativas reformistas(há anos-luz de profilática revolução de caráter doutrinário) foram drasticamente  obstados, face às denúncias de, por exemplo, ‘ameaça á civilização cristã, ao ‘perigo vermelho’ e outras sandices avalizadas pela classe média, principal beneficiária imediata de qualquer alteração legal da ordem socioeconômica.

Dessa forma, vínhamos remando entre vagalhões de incertezas, visando a encontrar um futuro que nunca chegava para remediar nossas crônicas mazelas.  Lá atrás, nos anos 1930, aliviamo-nos ao sair da servidão por conta da legislação trabalhista, no primeiro governo Vargas.

O novo marco social inspirava-se, entretanto, em  visão nazifascista da italiana ‘Carta del Lavoro’, de explícita tutela estatal. Conquanto os radicais à ‘sinistra’ subissem nas tamancas, com suas razões apropriadamente libertárias, avançamos à época em relação ao trabalho servil de raízes escravocratas aqui sedimentado.

Anarquistas e comunistas, naqueles remotos primeiros tempos do século 20, foram relevantes bastiões de resistência à dissimulada continuidade das oligarquias políticas e econômicas, subsidiadas pela leniência de cunho religioso e suas veladas ameaças com o fogo do inferno a fortuitos transgressores do ‘império da lei’(delas).

Malgrado contundentes descompassos com sazonais rupturas das instituições, sob justificativas pueris de ‘salvar a pátria do assédio de filosofias exóticas’, assistimos  à penosa superação dos  miseráveis sobre o degredo que lhe impuseram historicamente no interior de suas próprias fronteiras.

Rompendo a lógica sucessória das elites, que sempre tiveram um dos seus na presidência, mais ou menos alinhados, desde os idos de Deodoro e Floriano, aí incluídos Getúlio, Jk e Goulart, o migrante nordestino Luiz Inácio Lula da Silva cuidou de projetar o país à antessala do primeiro mundo, remando com determinação contra a maré do caos econômico internacional que feriu  seriamente o então poderoso G-4.

A contragosto das mesmas elites locais, excludentes e segregacionistas, ex-pobres, hoje remediados, superlotam terminais rodoviários, aeroportos, shoppings e supermercados, efusivos, falando alto e sem etiquetas nem firulas de ‘socialites’, comprando, pagando com pontualidade e registrando, como ocorreu em novembro último, o menor índice na média histórica de inadimplência do Brasil.

Eleita por conta do empenho do mais ilustre e competente cabo eleitoral, a nova presidente sequenciará o projeto em curso, que coordenou com expressivo desempenho,  em vantagem comparativamente a seu predecessor, oito anos atrás. Dilma sepultará a pejorativa teoria do ‘poste’, que lhe imputaram na campanha, com a responsabilidade(inédita) de primeira mulher na presidência, algo até pouco tempo impensável em país com arraigada estrutura de conservadorismo machista.

Lamentável, todavia, não contarmos com uma oposição que faça jus a suas prerrogativas constitucionais: fiscalizar, cobrar, denunciar eventuais descaminhos oficiais e, principalmente, oferecer à sociedade alternativas convincentes ao modelo que ingressa em seu terceiro mandato consecutivo. Com efeito, a dialética dos oposicionistas de hoje tem tudo para se consagrar como um fiasco monumental. Pelo andar da carruagem,  valerá a assertiva popular de que time vencedor não se muda.

(*) Antônio Manoel Góes é jornalista e militante de movimentos sociais.

Postado em 28/12/2010.

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Neogolpistas ameaçam pôr as garras de fora

quarta-feira, maio 26th, 2010

 

RIO DE JANEIRO –  Ricardo Noblat promoveu, nesta terça, 25, o primeiro ‘ensaio’ efetivo das articulações que começam a ser engendradas contra possível vitória da candidata presidencial Dilma Rouseff em outubro próximo.

O contraponto de Paulo Henrique Amorim, no ‘Conversa Afiada’ implicou  tiroteio eletrônico ao sabor da velocidade inerente a estes tempos de internet, em que a notícia voa na velocidade da luz.

Segundo o portal ‘Vermelho’,  “O jornal Folha de S.Paulo desta terça afirma que ‘a candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff (PT) à Presidência caminha para ter problemas já no registro e, se eleita, na sua diplomação”, pelo TSE, por abuso de poder econômico e político’. A fonte é a procuradora da República e vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau”.

Comentário de Noblat em sua página da Web: “Há abusos suficientes para ameaçar o registro da candidatura de Dilma, admitem dois ministros do Tribunal Superior Eleitoral ouvidos por este blog. Mas falta ao tribunal coragem para tomar qualquer medida mais drástica a esse respeito.”

Embora os analistas mais equilibrados não acreditem na existência de ‘golpe’, à moda dos anos 50 e 60 do século passado, para desestabilizar eventual sucesso da candidata do PT, os arreganhos dos demotucanos, nos últimos dias, evidenciam iminente lodaçal de baixarias ainda nesta pré-campanha, sinalizando o que virá  no curso do horário eleitoral.

Sobre ‘neogolpistas’ em estado latente, sem dúvida que os há, destilando veneno face à inusitada popularidade do presidente Lula neste fim de mandato e à quase-certeza da transferência de votos com que contemplará  sua candidata ora decolando, segundo as últimas pesquisas, em límpido céu de brigadeiro.

O TSE, que tem aplicado um festival de multas ao presidente, à candidata de seu partido e a dirigentes sindicais,  por ‘propaganda fora de época’, passou ao largo na fiscalização dos programas do PSDB e DEM,  fim do ano passado e este ano,  especificamente dedicados a José Serra e Aécio Neves, quando este ainda era tido como potencial ‘vice’ na chapa do ‘outro’.

Ao asseverar os ‘suficientes’  abusos, supostamente impeditivos do registro de Dilma, Noblat segue exercendo a tarefa que lhe cabe na desconstrução da candidatura do PT.  Se você acaso acompanha o blog do jornalista, bem assim sua coluna semanal no Globo, já constatou a ‘pertinência’ de seu comentário em negrito.

Os ‘neogolpistas’ estão aí, como sempre estiveram, prontos para colocar as unhas de fora, embora não disponham mais de um Carlos Lacerda(acima caricaturado  pelo traço do genial LAN, em desenho de 50 e tantos anos atrás) para incitar os quartéis, como fizeram seus ancestrais em 1955, na tentativa de impedir a posse de JK, depois de tentarem derrubar Getúlio, que se matou um ano antes para impedir o golpe. Lacerda, apelidado de ‘Corvo’, foi decisivo em 1964, na derrubada do governo constitucional de João Goulart.

A esmagadora maioria dos ‘gorilas’ fardados virou pó, conquanto uns poucos sobreviventes ainda balbuciem tragicômicas insanidades através da imprensa, na mofada psicose de ‘defensores da civilização ocidental e cristã, contra a sanha dos asseclas de Moscou, Pequim e Havana’. Puts! Esse discurso ‘tiranossáurico’ não cola mais!

Velhinhos de pijama, no espasmo de suas arteroscleroses de fim de linha, vez por outra vociferam contra o ‘apocalipse’ da sociedade civil no poder. Afinal, desde os ‘iluministas’ de Benjamim Constant, que golpearam o Império, sem qualquer consulta popular, eles se consideram os legítimos e inigualáveis ‘pais da pátria’. Ao menor assanhamento das massas, punham os tanques na rua. Ironicamente, sempre rasgaram a Constituição, ‘para garanti-la’.

Voltando à (pré-) campanha eleitoral, os ‘neogolpistas’ devem tirar o cavalo da chuva. Afinal, os quartéis(assim como os tempos) hoje são outros. Aliás, o eleitor, único com prerrogativa de conduzir ao poder quem melhor lhe aprouver, aprendeu na adversidade a força que tem.

(Postado por AMgóes em 26/05/2010)

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