Parafraseando o ‘cara’ de Caetés, ‘nunca na História deste país’ experimentamos concretamente a sensação de continuidade na sucessão presidencial, ainda que a sequência ocorresse nos marcos do mesmo grupo político-partidário.
A tão badalada alternância de poder, tradição falaciosa que mascarou o revezamento no plantão do governo, entre ‘os mesmos’ de sempre, nos bastidores das elites dominadoras e excludentes, foi interrompida a partir de 2003.
Submetido a traumas, desvios de conduta, hesitações e incoerências previsíveis no complicado contexto das relações sociais, o projeto de governo ora em curso expandiu, ao cabo de oito anos, os limites de nossa autoestima.
A mórbida submissão do “é Deus que quer…” deu lugar aos alentadores avanços no rumo do andar de cima. Convenhamos que todos os governos, cada qual nos limites de sua percepção política, inclusive nos 21 anos de exceção por que passamos, contribuíram, à sua maneira, para fomentar nosso desenvolvimento, raras vezes, porém, dirigidos aos deserdados.
Eventuais esboços de efêmeras tentativas reformistas(há anos-luz de profilática revolução de caráter doutrinário) foram drasticamente obstados, face às denúncias de, por exemplo, ‘ameaça á civilização cristã, ao ‘perigo vermelho’ e outras sandices avalizadas pela classe média, principal beneficiária imediata de qualquer alteração legal da ordem socioeconômica.
Dessa forma, vínhamos remando entre vagalhões de incertezas, visando a encontrar um futuro que nunca chegava para remediar nossas crônicas mazelas. Lá atrás, nos anos 1930, aliviamo-nos ao sair da servidão por conta da legislação trabalhista, no primeiro governo Vargas.
O novo marco social inspirava-se, entretanto, em visão nazifascista da italiana ‘Carta del Lavoro’, de explícita tutela estatal. Conquanto os radicais à ‘sinistra’ subissem nas tamancas, com suas razões apropriadamente libertárias, avançamos à época em relação ao trabalho servil de raízes escravocratas aqui sedimentado.
Anarquistas e comunistas, naqueles remotos primeiros tempos do século 20, foram relevantes bastiões de resistência à dissimulada continuidade das oligarquias políticas e econômicas, subsidiadas pela leniência de cunho religioso e suas veladas ameaças com o fogo do inferno a fortuitos transgressores do ‘império da lei’(delas).
Malgrado contundentes descompassos com sazonais rupturas das instituições, sob justificativas pueris de ‘salvar a pátria do assédio de filosofias exóticas’, assistimos à penosa superação dos miseráveis sobre o degredo que lhe impuseram historicamente no interior de suas próprias fronteiras.
Rompendo a lógica sucessória das elites, que sempre tiveram um dos seus na presidência, mais ou menos alinhados, desde os idos de Deodoro e Floriano, aí incluídos Getúlio, Jk e Goulart, o migrante nordestino Luiz Inácio Lula da Silva cuidou de projetar o país à antessala do primeiro mundo, remando com determinação contra a maré do caos econômico internacional que feriu seriamente o então poderoso G-4.
A contragosto das mesmas elites locais, excludentes e segregacionistas, ex-pobres, hoje remediados, superlotam terminais rodoviários, aeroportos, shoppings e supermercados, efusivos, falando alto e sem etiquetas nem firulas de ‘socialites’, comprando, pagando com pontualidade e registrando, como ocorreu em novembro último, o menor índice na média histórica de inadimplência do Brasil.
Eleita por conta do empenho do mais ilustre e competente cabo eleitoral, a nova presidente sequenciará o projeto em curso, que coordenou com expressivo desempenho, em vantagem comparativamente a seu predecessor, oito anos atrás. Dilma sepultará a pejorativa teoria do ‘poste’, que lhe imputaram na campanha, com a responsabilidade(inédita) de primeira mulher na presidência, algo até pouco tempo impensável em país com arraigada estrutura de conservadorismo machista.
Lamentável, todavia, não contarmos com uma oposição que faça jus a suas prerrogativas constitucionais: fiscalizar, cobrar, denunciar eventuais descaminhos oficiais e, principalmente, oferecer à sociedade alternativas convincentes ao modelo que ingressa em seu terceiro mandato consecutivo. Com efeito, a dialética dos oposicionistas de hoje tem tudo para se consagrar como um fiasco monumental. Pelo andar da carruagem, valerá a assertiva popular de que time vencedor não se muda.
(*) Antônio Manoel Góes é jornalista e militante de movimentos sociais.
Postado em 28/12/2010.


