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Datafolha: pernas curtas da mentira

sexta-feira, abril 23rd, 2010

RIO DE JANEIRO – O instituto de Pesquisas da Folha de São Paulo, reverberado pela rede Globo de televisão e jornal O Globo, alardeou no último fim de semana o resultado de levantamento sobre intenções de voto para presidente.
Convém lembrar que, na semana anterior, o jornal paulista dos Frias, em parceria com os veículos ‘globais’, tentara desqualificar,numa jogada torpe, a metodologia dos concorrentes Vox Populi e Sensus, que, unanimemente, sob diferentes metodologias, constataram gradual crescimento da pré-candidata do PT e estagnação do adversário tucano.
Os números do Datafolha, com Serra-38 e Dilma-28, são justificados pelo fato de, oito dias antes, o ex-governador de São Paulo ter-se definido aspirante à corrida presidencial. O discurso pegajoso de ‘O Brasil pode mais’, surrealista confissão de que, nos marcos do governo Lula, ‘O Brasil(já) pode’, seria, por incrível que pareça, o motivo para o súbito ‘disparo’ em 10 pontos percentuais.
Entretanto, a Folha e a Rede Globo esconderam dados fundamentais contidos na pesquisa recém-divulgada. Mais da metade dos 2001 entrevistados(54%) ainda não sabem os nomes dos prováveis candidatos, pois estão ligados apaixonadamente em outro evento mais próximo: a Copa do Mundo na África do Sul.
Os resultados, reprisados a exaustão na mídia, referem-se à ‘pesquisa estimulada’, em que o entrevistador apresenta uma lista de nomes à escolha do entrevistado. Malandramente, não deram a mesma ênfase à ‘pesquisa espontânea’, embora compulsoriamente repassada ao TSE, em que o eleitor é perguntado sobre o nome de seu eventual candidato.
Vejamos: a ‘espontânea’ deu Dilma-13%, Serra-12%, Lula-7%(os que votariam nele, se fosse candidato) e candidato de Lula-3%. Se você acrescentar a Dilma, por pertinente, as intenções conferidas ao atual presidente, que a lançou, mais as destinadas ao ‘candidato dele’, independente de quem for, chegará obviamente a 23% para a postulante do PT.
E agora? Como o Datafolha terá operado o ‘milagre’ de Serra distanciar-se 10 pontos de sua virtual maior oponente, sem o reflexo de uma razão(política) efetivamente relevante? Você acredita em desígnios celestiais ou cínica manipulação? Afinal, 54 por cento dos 2001 sabatinados ainda não sabem em quem votar, por estarem desligados do processo eleitoral de outubro.
Segundo avaliação insuspeita de Mauro Paulino, diretor do próprio Datafolha, “…a eleição está apenas no começo e o voto dos eleitores não foi cristalizado.” No popular: a maioria, no Brasil, ainda não pensa em eleição. Discute-se em todas as rodas, isto sim, se Dunga convocará Ronaldinho Gaúcho e os garotos santistas Paulo Ganso e Neymar, estes últimos comendo a bola na Vila Belmiro.
Outro detalhe que impõe suspeita ao comportamento do Datafolha: onde distribuiu seus entrevistadores? Ora, majoritariamente na região Sudeste, em particular, no Estado de São Paulo, onde Serra é mais conhecido, por ter sido governador até bem pouco.
Aprofundemo-nos nas entrelinhas dos números que beneficiaram a avaliação do tucano: de 18 bairros da capital paulista, no levantamento do instituto em fevereiro, pularam para 71 na pesquisa recente. Também inflaram, de 25 para 55, o número de cidades pesquisadas no interior paulista. No Nordeste, o Datafolha pesquisou apenas 18 cidades, contra 28 na amostragem anterior. No Rio, onde o governo Lula detém a média de 85% de aprovação, o instituto da Folha só foi a 10 cidades.
Em suma: dos 2001 entrevistados para a última pesquisa do Datafolha, quase a metade(48%) foi de paulistas, dos quais 26% na capital. Sem dúvida, um trabalho centralizado em São Paulo para forjar suposta vantagem de Serra, ao arrepio das instruções eleitorais vigentes.
A seguir, diálogo na favela Suvaco da Cobra, periferia de Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana de Recife, entre o pesquisador e a moradora Sueli Dumont, 38 anos, mãe de 5 filhos e beneficiária do ‘Bolsa-Família’:
-A senhora sabe que haverá eleições este ano?
- É para prefeito?
-Não, para presidente. A senhora conhece os candidatos ou sabe em quem vai votar?
-Em Lula, claro.
-Mas ele não pode ser candidato desta vez…
-Valha-me Deus! Pode não?
-Ô mãinha(interrompe Késsia, filha de Sueli), a candidata é a mulher(?) do Lula, que vai entrar no lugar dele…
-Como é o nome dela?
-É a Vilma(sic), mãinha.
-Então voto na Vilma(sic).
Haveremos de depreender, pelo atual nível de conhecimento do eleitorado sobre o pleito de outubro, que a Folha de São Paulo(bem assim O Globo) mente, descaradamente.
(Postado em 19/04/2010)
AMgóes.

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Lula na ONU?

sábado, abril 3rd, 2010

Coloque-se no lugar das elites que dominam há mais de um século o cenário político-econômico do Brasil. Sinta o desencanto, manifeste o ódio a escapar, em forma de baba peçonhenta, pelos cantos da boca. “Uma tragédia, absurdo dos absurdos a antecipar o fim dos tempos”, indignar-se-á o apoplético ‘antilula’ de carteirinha, para quem finalmente teria chegado o bíblico apocalipse.

Como é que é? Lula na ONU?  E você explodirá de chofre: “Só pode ser piada pronta! Afinal, quem esse cara pensa que é?”  Só que ele, o presidente Lula, não pensa que é. Ele ‘é’.  Nascido nos cafundós de Caetés, agreste de Pernambuco, foi moleque de favela em São Paulo, brincando com parceiros infantes na água fétida dos córregos a céu aberto.

Operário e alçado à liderança no movimento sindical, idealizou, no começo dos anos 1980,  um partido político para se contrapor às velhas estruturas do trabalhismo nacional no pós- redemocratização, gerando renovada perspectiva à luta que sequenciou os tempos mais antigos do proletariado. Esgotado o regime autoritário, a percepção de que a relação nos embates corporativos adquiriu novas roupagens, face à acachapante passagem do Brasil rural para sua(supostamente) moderna versão urbana.

Um ponto convergente para sedimentar interesses sociais-democratas com a clássica visão da ‘ditadura do proletariado’.  O antigo retirante, fugido da seca e da fome nordestinas vivenciou uma passagem meteórica pela trilha sindical em São Paulo. Metalúrgico de São Bernardo, perguntaram-lhe certa feita, uma espécie de teste sobre sua posição no espectro ideológico que herdamos das primeiras e conturbadas décadas do século passado: “Lula, você é de direita ou de esquerda?”. A resposta:”Só sei que sou torneiro-mecânico”.

Candidato à presidência, em 1989,  rotularam-no de incendiário disposto a virar a mesa e criar uma nova ordem social a ferro e fogo. Concorrente com apoio da rede Globo e azarão no começo da campanha, Collor caiu como uma luva no colo das elites, livres daquela reencarnação barbuda do ferrabrás.  O blefe, de vida curta, expirou-se porém em 1992.

Lula e seus próximos aperceberam-se de que o confuso ‘neossocialismo’, gerador de conflitos  insolúveis entre tendências intramuros no PT, responsáveis por defecções do tipo PSTU e sequelas posteriores do PSOL, não ensejou uma agenda ‘confiável’, na perspectiva de reforma sem cicatrizes na  sociedade brasileira. Coube-lhes assumir a social-democracia que os tucanos adotaram como sigla, mas, na prática, trocaram sem pudores pelo neoliberalismo do Estado mínimo de Friedman e outros teóricos  do ‘deus mercado’, em conluio com o PFL-DEM dos coronéis do atraso.

Cumpridos sete anos de dois mandatos, ultrapassando indesculpáveis pisadas de bola de alguns importantes( e íntimos) colaboradores,  Lula tem exercido um governo alicerçado em singular pragmatismo político que o conduziu ao reconhecimento internacional, azeitou a autoestima interna, propiciando-lhe a condição de cidadão do mundo.

Ao preservar nosso preceito constitucional de observância da autodeterminação dos povos, solidarizando-se com a vizinha Venezuela  de um Chavez que enquadrou uma rica oligarquia minoritária e tradicional exploradora de milhões de compatriotas, Lula promoveu competente e civilizada relação com o estadunidense ultraconservador Gorge W. Bush, até ser chamado, pelo sucessor Barack Obama, de ‘o cara’.

O ex-metalúrgico da Aço Villares, aplaudido de pé em Davos e nas instâncias de contraponto do Fórum Social Mundial, viu, a pouco e pouco,  bolsões de brasileiros deixarem o gueto da exclusão social e passarem ‘a comer três vezes ao dia’. As políticas públicas avançam, malgrado desqualificados oposicionistas que  se desdobram na tentativa de ‘melar’ o meio-de-campo do país,  e, quanto mais lhe desferem sórdidos ataques, 83% da população declaram-se satisfeitos com seu governo.

Aproximando-se ao polêmico Irã, Lula questionou  a arrogante decisão israelense em manter um colossal paiol de quase 70 ogivas nucleares garantidoras de um Estado imposto em território usurpado aos palestinos, sob o argumento de os judeus serem o ‘povo eleito’ que faz jus à ‘terra prometida’. Assim,  entende Tel-Aviv, programas atômicos são sua exclusiva e hegemônica reserva de mercado, ao bel-prazer dos sionistas, donos de boa parte do capital especulativo no planeta.

Deu para sentir o drama de condestáveis de araque, do alto de seus grunhidos acadêmicos, do tipo FHC e companhia? Como pode o tal ‘apedeuta‘ chegar ao topo do mundo? Lula não confirma nem desmente, mas há fortes indícios de que seu próximo destino,  a partir de 2011, será um alto posto de negociador da ONU, para aplacar históricas mazelas internacionais. Preferentemente, se possível, depois de eleger sua sucessora, uma ex-guerrilheira urbana seviciada nos porões da ditadura militar.

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