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Os centuriões da ‘ditabranda’ na hora da verdade

sexta-feira, agosto 12th, 2011

Dois projetos, oriundos do governo FHC, para regulamentação dos direitos coletivos e individuais, preconizados na Carta de 1988, foram o pano de fundo da polêmica ocorrida ano passado. Eram os PNDH-Plano Nacional de Direitos Humanos, 1 e 2, que visavam a destrinchar o que a Constituição estabelecera genericamente, ainda dependente de específica regulamentação. Os documentos anteriores foram, sem dúvida, substanciais avanços no processo, mas com subterfúgios malandramente urdidos para não melindrar os militares, em cujo ciclo autoritário foi criado feroz aparelho de repressão e tortura dos ‘inimigos’ do regime de exceção. O PNDH-3 mergulhou um pouco mais fundo(embora depois submetido a matreiras supressões nos bastidores do Congresso, por pressão de neonazifascistas consorciados às TFP, Opus Dei e similares), implicando explícito ranger de dentes dos supostos ‘intocáveis’.

Nenhum sistema baseado no estado democrático de direito pode permitir que sejam esquecidas as  nódoas degradantes dos mecanismos destinados a eliminar quem cometesse ‘delitos de opinião’, por pensar diversamente dos draconianos ‘salvadores’ da pátria, em suas alucinações contra o comunismo ‘internacional’ e outras falácias inerentes ao maniqueísmo da Guerra Fria entre Estados Unidos(dos bons, paladinos da liberdade) e a União Soviética(dos maus, patrocinadores da tirania).

O general Geisel cunhou a ‘distensão lenta e gradual’, precavido com virtual retomada  de um onda de ‘excessos libertários’, agarrado à tese do ‘devagar se vai ao longe’. A corda foi esticada até 1979, quando saiu uma Lei de Anistia capenga, ‘permitindo’ o retorno de ilustres personagens da política, ciências e afins, banidos pelos famigerados Atos Institucionais como ‘personae non gratae’ da Nação. Mas a interpretaram como inclusiva das sevícias do aparelho repressor estatal, sob a desculpa de ‘combate à subversão’. Passaram a borracha nos torturadores e ponto final. Acontece que, em todos os países ditos ‘civilizados’, a tortura é delito imprescritível e é aí que o bicho pega.

Na realidade, o Brasil fora transformado num imenso quartel de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados, onde  excelências fardadas e parceiros de fraque e cartola  passaram a donos absolutos da verdade, com poder de vida e morte sobre os cidadãos à paisana. A exemplo de Hitler, que previa o ‘Reich dos mil anos’ e só durou quinze, nossos oficiais-generais das três armas estabeleceram um consórcio na caserna, revezando-se entre tapas e sem beijos no Planalto, onde ruminariam e decretariam  os editos de caráter autocrático, avalizados por um Congresso  de maioria massacrantemente golpista e uma ‘oposição’ consentida(desde que não sonhasse em pisar nos  engraxados coturnos da ‘milicada’ que se esfacelaria apodrecida, ao cabo de 21 anos de sua ‘revolução redentora’).

Face ao ‘assanhamento’(fora do contexto discricionário) de alguns parlamentares, o Congresso, embora dócil, foi fechado duas vezes por não cumprir o dever de casa. Deputados e senadores  sumariamente cassados, por conta de suas ‘inadmissíveis ideias  esquerdizantes e alienígenas’, ao arrepio dos valores ocidentais, democráticos e cristãos na Terra de Santa Cruz(Vade retro!). Implementada a lei do ‘ame-o ou deixe-o’ e acenadas duas alternativas: sermos todos ‘vaquinhas de presépio’ no imenso pastoril de horrores que podou os incipientes avanços sociais do governo Goulart ou darmos no pé, numa escapada que não excluiria  tiros na  nuca, sob  a justificativa de que teríamos optado pelo enfrentamento subversivo com ‘a lei e a ordem’.

 

Conquanto engajado, aos 21 anos, na(abortada) resistência ao deletério 1º de abril, em Palmeira dos Índios, casado e pai de duas  bebês(Isabel e Cláudia), atravessei anos a fio desconfiado de que acabaria demitido do Banco do Brasil, da Rádio Sampaio e dos colégios onde lecionava  Português, preso e levado para as masmorras de Maceió,  Recife e Fernando de Noronha. Malgrado fortuitos contratempos, escapei ileso, até pela inexpressiva repercussão de nosso grupo de  obscuros ‘esquerdistas’ no agreste-sertão alagoano. Todavia, foi um estágio de desalento e angustiante expectativa, em pouco mais de duas décadas de perplexidade, diante dos  usurpadores de nossos sonhos em construir uma sociedade com espaço garantido aos ‘joões-da-silva’, protótipos do ‘operário em construção’, citado nos versos de Vinicius de Moraes, que aprendera a dizer ‘não’ diante da sedutora empáfia do patrão.

As corporações de trabalhadores foram varridas do mapa, execradas como estrutura de uma ‘república sindicalista’ a soldo de Moscou, Havana e Pequim, perigo iminente à preservação da sacrossanta propriedade privada. Quanta idiotice! Na realidade, os generais aderiram ao  ‘Big Brother’ do norte, ávido em apropriar-se dos inestimáveis recursos naturais de um país com economia majoritariamente primária, cantado em verso e prosa como a terra do ‘futuro’(que só agora começa a chegar, ainda em doses  homeopáticas, embora efetivamente concretas).

No pós-64, foi acelerado o  êxodo rural, fechadas as portas à agropecuária familiar que sustentava os pequenos produtores dos grotões, enxotados para as metrópoles, de preferência o ‘sul-maravilha’, onde acabaram protagonistas do ciclo excludente da favelização nos grandes e médios centros urbanos. Afinal, era preciso tocar a produção fabril com mão de obra barata e trocá-la por espelhinhos e outros penduricalhos no mercado externo. O ‘milagre’ brasileiro remetia-nos de volta, em nossa indolência indígena, ao distante século das sesmarias. Enquanto os jogadores brasileiros,  de cabelos cortados no estilo ‘reco’, abiscoitavam a Copa no México, com o capitão Coutinho e o Major Guaranis na comissão técnica e o brigadeiro Jerônimo Bastos no comando da delegação, Garrastazu Medici mandava os ‘órgãos de segurança’ liquidar  insurgentes declarados ou até cidadãos minimamente suspeitos de conspirar contra o regime.

Os militares achavam-se ‘mais preparados’ do que os civis para pensar o modelo de Brasil que interessava à população de  ‘paisanos’. Lembro-me de um subgerente do BB-Botafogo, onde trabalhei a partir de 1971, que  idolatrava os oficiais(de capitão para cima) da Escola do Estado Maior do Exército, na Praia Vermelha. Todos beneficiários de ‘cheque-ouro’ no limite cadastral inerente a suas estrelas gemadas. Eram, sem dúvida, amáveis e solícitos, aguardando o atendimento entre cafezinhos e água gelada,  refestelados em poltronas estofadas onde a ‘clientalha’ não tinha vez, naquele bem-bom de facilidades outorgadas pelo sistema do ‘sabe com quem está falando?’ Às suas ordens, coronel!

Recorro a esse viés, digamos, permissivamente ameno dos anos cinzentos, para lembrar o  competente desempenho midiático, através do ‘Partido da Imprensa Golpista’, reverberando o ideário de ‘Pra frente,  Brasil!’ Afinal, ganhamos uma Copa do Mundo, com Dadá-Maravilha, escalado pelo dedo linha-dura de Médici, no banco do escrete canarinho,  e festejamos nas ruas cantando a marcha de Miguel Gustavo, simpaticamente incorporada às bandas militares, na ordem unida dos quartéis. O espírito da decantada ‘superioridade’ castrense pairava sobre nossas cabeças, prenunciando longevidade à intentona de 1964, glorificada como ‘revolução redentora’ nos veículos de comunicação, apoiadores do golpe contra Jango e suas democratizantes ‘Reformas de Base’.

Agora, na primeira década do século vinte e um, aguça-nos o desejo de conhecer a ‘verdade’. Qual a razão de terem surgido organizações clandestinas de Jovens brasileiros, revoltados com aquele tipo de ‘democracia mais ou menos relativa’, uma ‘ditabranda’(como amenizou a Folha de São Paulo,  ano passado) se comparada ao chileno Pinochet e gorilas argentinos e uruguaios, que trucidaram milhares, a maioria deles até hoje desaparecidos? Aqui, entretanto, nossos ‘inefáveis’ militares, acolitados por uma horda de civis dignos da tenebrosa Gestapo do ‘fuhrer’ chucrute, patrocinaram ‘aulas práticas’ nos DOI-Codi, onde, por exemplo, no Rio de Janeiro(rua Barão de Mesquita-Tijuca, atual regimento da Polícia do Exército), o deputado cassado e empresário Rubem Paiva teria sido torturado, morto e esquartejado, depois de resistir aos interrogatórios e mandar repetidamente, aos berros de dor,  seus carrascos à ‘p-q-p’.

É pertinente nos interessarmos em apurar as barbaridades que os cândidos velhinhos de hoje – dóceis, faceiros e incapazes de matar um mísero pernilongo – cometeram décadas atrás, quando eram moços e vigorosos, contra patrícios discordantes da quartelada que apeou do poder republicano um presidente eleito(originariamente como ‘vice’) pelo voto consagradoramente popular. Queremos que paguem pelas atrocidades contra  seus prisioneiros,  manietados, indefesos, destroçados no pau-de-arara, sob o furor covarde de choques provocados por condutos energizados e introduzidos em retos e vaginas, além de seios deixados em carne viva pela brasa de charutos dos Fleury, Ulstra e outros facínoras menos votados.

A chiadeira, no começo de 2010, face ao novo(e já mutilado) projeto para regulamentação dos Direitos Humanos constantes da Lei Maior, com manifestações(desrespeitosas e inadmissíveis no Estado democrático de Direito) de militares aposentados contra o presidente Lula e sua sucessora constitucional na chefia suprema das Forças Armadas, conduziu-nos a uma chula e velha máxima que encerra a mais cristalina das verdades: “pimenta no…dos outros é refresco”. Justo, pois, que os comprovadamente culpados sintam, na própria pele,  a ‘ardência’ que  impingiram à alma brasileira, sem chance de defesa e  sob a mira do canhão.

Mudou o tempo: a Presidenta enquadrou as Armas da República ao seu comando constitucional e, sem alarde, despachou da Pasta da Defesa o boquirroto Jobim(que os chefes militares reverenciavam),  substituindo-o pelo competente e respeitado chanceler do governo Lula, Celso Amorim.  Apesar do furacão econômico  em curso no planeta, o país segue firme, voando democraticamente em céu de brigadeiro.

(Postado por AMgóes em 12/08/2011)

 

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Tantas Dilmas(ou Vandas) e Gastones(ou Rosas)

sábado, novembro 6th, 2010

A vitória de Dilma Rousseff nas urnas remete-me a uma reflexão sobre o significado de uma mulher na presidência, para além do justo sentimento dessa afirmação de gênero derrubadora de históricos preconceitos de uma elite machista(“Mulher na presidência?”), que lograram contaminar setores da classe média trabalhadora, ironicamente beneficiária das políticas de inclusão social do governo Lula.

Aqui no Rio, áreas da zona sul onde viscejou bravamente, no contraponto ao regime autoritário de 1964, a badalada ‘esquerda festiva’, a lógica mudou de lado. Participei, no domingo 27 de outubro de 2002, da comoção de quase-reveillon na praia de Copacabana, em meio à celebração pela primeira eleição de Lula. Agora em 2010, a classe média de Copacabana, aliada aos emergentes da Barra da Tijuca e Recreio, foi de Serra, embora, no conjunto da obra, o Rio de Janeiro, tal qual o Brasil, tenha mais uma vez ‘avermelhado’.

Em 2006, havia comemorado a reeleição de Lula perto de casa, na Tijuca, onde nasceu a

‘jovem guarda’, e um dos bastiões da resistência democrática carioca, malgrado o estigma de bairro que abrigara o hediondo DOI-Codi, onde compatriotas foram trucidados pelos assassinos da repressão, vários destes até hoje impunes e escondidos por trás da imagem de cândidos velhinhos, jogadores de gamão e bocha remunerados por régias aposentadorias do serviço público.

Torço a fim de tais facínoras, milicos ou paisanos, viverem o suficiente, mesmo conservados à base de formol, para, a qualquer momento, chegarem às barras dos tribunais. A ansiada condenação dos algozes não trará os mortos de volta, a maioria bem jovem, quarenta anos atrás, mas confortaremos suas famílias, notadamente as até hoje de alma destroçada pelos filhos e filhas, irmãos e irmãs, maridos e mulheres dados como ‘desaparecidos’.e, dessa forma, insepultos.

Para além do exitoso duplo mandato de Lula, a vitória da ex-ministra remete-me às mulheres(e aos homens) que tombaram via-de-regra sob a tortura treinada na ‘Escola das Américas’, centro ‘didático’ de requintado terror oficial patrocinado pelos Estados Unidos, com sede no Panamá. Elas(e eles) decidiram-se pela ‘bola ou búrica’, certos de que não haveria outro caminho à retomada da democracia. E lá se foram à busca do utópico nirvana de suas concepções revolucionárias.

Quantas meninas, ainda adolescentes, mergulharam na clandestinidade, conscientes de que só lhes restaria o confronto armado para extirpar os atrozes anos de chumbo no país? Rapazes e moças, estudantes às vésperas da Universidade(e outros tantos já no curso superior) a deixarem desesperados os familiares pela quase-certeza de que não os veriam mais.

Retrucarão os ‘certinhos’, de ontem e de hoje, escudados no biombo de suas não-

assumidas pusilanimidades, que ‘esse pessoal’ foi ‘louco’ ao vislumbrar, como única saída, o enfrentamento pelas armas. Poderia ser minha própria e indignada opção naquele tempo, não consumada pela realidade de um casamento aos dezoito anos, a paternidade de três filhos aos vinte e três e o medo de jogar para o alto o emprego no Banco do Brasil.

Imagine você a inconformação que ruminávamos, os ‘insurgentes’ bem-comportados, diante do cerceamento de liberdade camuflado pelo brado ‘retumbante’ de ‘Pra frente, Brasil!’, dos gritos de dor nos covis dos repressores, abafados pelos gols de Pelé, Jairzinho e Carlos Alberto liquidando a fatura na Copa de 1970, no México.

Avançamos ‘relativamente’, é verdade, a partir de 1979, quando as organizações populares

mostraram a cara, na campanha da Anistia. Em 1984, fomos às ruas na frustrante ‘Diretas-já’.

No ano seguinte, mal das pernas e esclerosados, os militares voltaram aos quartéis. Escolhido em colégio eleitoral, Tancredo morreu antes da posse e fomos surrealisticamente de Sarney.

Assistimos à promulgação da Constituição ‘cidadã’ e, em 1989, perplexos, fomos impotentes para impedir as armações da Globo pró-Collor, decisivas à não-concretização do ‘Lula lá’.

Consternados, deparamo-nos com a ‘social-democracia’ dos tucanos, criada em 1988 à esquerda do fisiológico PMDB, substituída pelo ideário do ‘Estado mínimo’, estimulador do mercado neoliberal. Finalmente, em 2002, o PT assumiu sua porção ‘estrategicamente’ social-democrata e o governo Lula, em dois mandatos, mexeu com a autoestima de milhões de brasileiros.

Fortalecido por políticas de inclusão social, o Estado brasileiro transformou-se em indutor do desenvolvimento econômico. A crise mundial chegou às nossas praias, mas só produziu efeitos de marolinha.

Não poderia ser mais emblemático o desfecho eleitoral no primeiro decênio do século 21 em nosso país. Tido por governantes do primeiro mundo como ‘o cara’, nosso presidente – a quem beócios tupiniquins tratam pejorativamente de ‘apedeuta’ – é uma das mais importantes

personalidades do planeta. O sociólogo-entreguista FHC e seus áulicos de diferentes plumagens já teriam programado, na surdina, um haraquiri coletivo que contemple tucanos, demos e demais comparsas menos votados.

A reflexão a que me propus no tópico inicial, sobre o significado de uma mulher na presidência, remete-nos à temática dos direitos humanos, individuais e sociais. Com efeito, o pleno exercício da cidadania pelas mulheres depende de introjetarmos na sociedade os mais comezinhos preceitos estabelecidos na Constituição(de 1988) e em tratados internacionais.

Elas, evidentemente, lograram expressivos avanços com a normatização de direitos civis e

políticos nas três últimas décadas, mas ainda persiste no país(norte, nordeste e centro-oeste em primeiro plano) um ranço sexista e discriminatório, com injunções dogmático-religiosas, além de questões estruturais, da liberdade sexual e reprodutiva à livre decisão sobre a pertinência de constituir família.

A chegada de uma mulher à chefia do governo federal não é a instituição de singelo ‘clube

da luluzinha’; é a inserção da mulher no topo do poder, espaço conquistado pela capacidade

testada intramuros, na administração de intrincadas pendências domésticas. Idêntica ao

parceiro homem, mas sem perder a ternura, ela arremete com propriedade sobre os espaços

públicos, remotos feudos do absolutismo masculino.

Na vitória da primeira brasileira presidente da República, nosso afeto às centenas de

Dilmas, ‘Vandas’(do codinome que a protegeu) e a tantas outras guerreiras a se baterem por um novo tempo, agora possível, mesmo que várias delas só estejam aqui em forma de saudade para referendá-lo.

Retorno, por oportuno, a minha Alagoas para rememorar a menina Gastone Beltrão( a ‘Rosa’) (foto), de tradicional família de Coruripe, que estudava economia na UFAL, a exemplo de Dilma nas Minas Gerais. Sua alma rebelde e determinada levou-a ao confronto com a ditadura em São Paulo, onde caiu, aos 21 anos de uma vida plena de sonhos por um mundo melhor, sob as garras do bandido Fleury. Só soube de sua existência, e de ter combatido heroicamente o bom combate, anos depois, através de minha cunhada Maria Lessa Papini Góes.

Gastone era irmã do fraterno camarada Thomaz Beltrão, de Maceió. Seria hoje sessentona, igual a Dilma e, à semelhança da presidente eleita, certamente engajada na construção deste novo Brasil.

Postado em 6.11.2010 por AMgóes.

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