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Facilidades & Corrupção


24/08/2011 - 7:57 -

Você não se dá conta, mas na hora em que ‘molha a mão’ de alguém para facilitar sua vida, promove um típico ato de corrupção. O que seria singelo reconhecimento pelo empenho de quem lhe ‘quebra o galho’ com supersônica presteza, naquela complicada pretensão, afigura-se  inequívoco suborno. Ora, sempre estamos à busca de um ‘jeitinho’ que nos dê alguma vantagem e até em casa corrompemos os filhos, à base da velha teoria de que, ‘com banana e bolo, cala-se o tolo’.

Como ‘o uso do cachimbo faz a boca torta’, acabamos convencendo terceiros de que é normal manterem a mão ‘molhada’(com alguma grana ou benesse não necessariamente sob auspícios do vil metal). Impomos, no ‘trocado para a cervejinha’, uma relação de poder com que persuadimos o outro a contemplar nossas vontades.  O objetivo é garantir a ‘furada da fila’. Afinal, estamos sempre apressados e não podemos aguardar, placidamente, a exemplo dos outros mortais, que se esgote a romaria dos atendidos por ordem de chegada. Precisamos ser ‘espertos’ para sair ‘numa boa’.

Lá atrás, no século 18, Joaquim Silvério dos Reis, devedor do ‘quinto’ ao contratador português,  foi corrompido com outro tipo de propina, em troca do perdão de sua dívida: ‘entregou’ os clandestinos organizadores da conjuração mineira em Vila Rica e zerou a conta. Livrando-se da ‘derrama’, escorchante tributo colonial em favor da Coroa lusitana, ajudou o vice-rei a desbaratar a trama de Tiradentes e companhia.

Quase mil e quatrocentos anos antes, Judas Escariotes enchera o bolso com trinta dinares, remetendo o Mestre ao suplício do Calvário. Havia sido precedido por Herodes Antipas, rei da Judéia, que, doidão diante dos saracoteios sensuais de Salomé, filha de sua cunhada(e concubina) Herodíades, ofereceu numa bandeja a cabeça de João Batista. A crônica bíblica não entrou em detalhes, mas esse foi o pagamento do monarca para um ‘créu’ incestuoso na sobrinha, sob os lençóis da corte judaica, em Jerusalém.

Com efeito, a corrupção se dá no arcabouço de  ‘imperiosas’ razões(de seu exclusivo interesse)avocadas pelo corruptor. Eu mesmo promovi um desses ‘convencimentos’, nos remotos idos de 1971, aqui no Rio de Janeiro. Recém-chegado da alagoana Palmeira dos Índios, trouxera em mãos documentos de dois atletas do clube de futebol de lá, CSE, egressos de outros Estados e dependentes de transferência da CBD(hoje CBF), com sede na rua da Alfândega, centro carioca. Solene e cheio de dedos, fui atendido no balcão do 5º andar do Edifício ‘João Havelange’ por sisudo funcionário que, após os procedimentos de praxe, acomodou a papelada sob uma montanha de outros processos que me antecederam.

Haviam-me recomendado, na Federação, em Maceió, que repassasse na baixa  um ‘agrado lá na secretaria da CBD’, para adiantar o ‘meu’ lado(isto é, do CSE). Cheio de pruridos, ali, na poderosa Confederação Brasileira de Desportos, saquei  uma nota de 100(cruzeiros), à espera do momento certo para, sob um ‘psiu’ sugestivo do ‘crime’, chamar o recepcionista a um canto e, com aquela gorda ‘taxa de pressa’, pensei, resolver a pendência com sobras.

Eis que, ao meu lado, um senhor, cabelos grisalhos, em convincente sussurro, mandou-me entregar apenas 10 cruzeiros, sob pena de, marinheiro de primeira viagem, inflacionar inconsequentemente o ‘câmbio negro’ das transferências interestaduais do futebol. O cidadão, capixaba de Vitória, era, sem dúvida,  calejado usuário das ‘facilidades’ garantidas pelo ‘prestimoso’ atendente  da CBD. Escondendo os cem ‘cruzas’, meti no envelope uma mixuruca nota de dez e, no domingo seguinte, os jogadores, devidamente regularizados, já estavam em campo, no tricolor de Palmeira.

Com dizia experiente  camarada, de saudosa memória, “toda facilidade tem seu preço”. Ele explicava, com sorridente cinismo, o princípio ‘filosófico’ da corrupção.

(Postado por AMgóes em 24/08/2011)

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Os centuriões da ‘ditabranda’ na hora da verdade


12/08/2011 - 8:01 -

Dois projetos, oriundos do governo FHC, para regulamentação dos direitos coletivos e individuais, preconizados na Carta de 1988, foram o pano de fundo da polêmica ocorrida ano passado. Eram os PNDH-Plano Nacional de Direitos Humanos, 1 e 2, que visavam a destrinchar o que a Constituição estabelecera genericamente, ainda dependente de específica regulamentação. Os documentos anteriores foram, sem dúvida, substanciais avanços no processo, mas com subterfúgios malandramente urdidos para não melindrar os militares, em cujo ciclo autoritário foi criado feroz aparelho de repressão e tortura dos ‘inimigos’ do regime de exceção. O PNDH-3 mergulhou um pouco mais fundo(embora depois submetido a matreiras supressões nos bastidores do Congresso, por pressão de neonazifascistas consorciados às TFP, Opus Dei e similares), implicando explícito ranger de dentes dos supostos ‘intocáveis’.

Nenhum sistema baseado no estado democrático de direito pode permitir que sejam esquecidas as  nódoas degradantes dos mecanismos destinados a eliminar quem cometesse ‘delitos de opinião’, por pensar diversamente dos draconianos ‘salvadores’ da pátria, em suas alucinações contra o comunismo ‘internacional’ e outras falácias inerentes ao maniqueísmo da Guerra Fria entre Estados Unidos(dos bons, paladinos da liberdade) e a União Soviética(dos maus, patrocinadores da tirania).

O general Geisel cunhou a ‘distensão lenta e gradual’, precavido com virtual retomada  de um onda de ‘excessos libertários’, agarrado à tese do ‘devagar se vai ao longe’. A corda foi esticada até 1979, quando saiu uma Lei de Anistia capenga, ‘permitindo’ o retorno de ilustres personagens da política, ciências e afins, banidos pelos famigerados Atos Institucionais como ‘personae non gratae’ da Nação. Mas a interpretaram como inclusiva das sevícias do aparelho repressor estatal, sob a desculpa de ‘combate à subversão’. Passaram a borracha nos torturadores e ponto final. Acontece que, em todos os países ditos ‘civilizados’, a tortura é delito imprescritível e é aí que o bicho pega.

Na realidade, o Brasil fora transformado num imenso quartel de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados, onde  excelências fardadas e parceiros de fraque e cartola  passaram a donos absolutos da verdade, com poder de vida e morte sobre os cidadãos à paisana. A exemplo de Hitler, que previa o ‘Reich dos mil anos’ e só durou quinze, nossos oficiais-generais das três armas estabeleceram um consórcio na caserna, revezando-se entre tapas e sem beijos no Planalto, onde ruminariam e decretariam  os editos de caráter autocrático, avalizados por um Congresso  de maioria massacrantemente golpista e uma ‘oposição’ consentida(desde que não sonhasse em pisar nos  engraxados coturnos da ‘milicada’ que se esfacelaria apodrecida, ao cabo de 21 anos de sua ‘revolução redentora’).

Face ao ‘assanhamento’(fora do contexto discricionário) de alguns parlamentares, o Congresso, embora dócil, foi fechado duas vezes por não cumprir o dever de casa. Deputados e senadores  sumariamente cassados, por conta de suas ‘inadmissíveis ideias  esquerdizantes e alienígenas’, ao arrepio dos valores ocidentais, democráticos e cristãos na Terra de Santa Cruz(Vade retro!). Implementada a lei do ‘ame-o ou deixe-o’ e acenadas duas alternativas: sermos todos ‘vaquinhas de presépio’ no imenso pastoril de horrores que podou os incipientes avanços sociais do governo Goulart ou darmos no pé, numa escapada que não excluiria  tiros na  nuca, sob  a justificativa de que teríamos optado pelo enfrentamento subversivo com ‘a lei e a ordem’.

 

Conquanto engajado, aos 21 anos, na(abortada) resistência ao deletério 1º de abril, em Palmeira dos Índios, casado e pai de duas  bebês(Isabel e Cláudia), atravessei anos a fio desconfiado de que acabaria demitido do Banco do Brasil, da Rádio Sampaio e dos colégios onde lecionava  Português, preso e levado para as masmorras de Maceió,  Recife e Fernando de Noronha. Malgrado fortuitos contratempos, escapei ileso, até pela inexpressiva repercussão de nosso grupo de  obscuros ‘esquerdistas’ no agreste-sertão alagoano. Todavia, foi um estágio de desalento e angustiante expectativa, em pouco mais de duas décadas de perplexidade, diante dos  usurpadores de nossos sonhos em construir uma sociedade com espaço garantido aos ‘joões-da-silva’, protótipos do ‘operário em construção’, citado nos versos de Vinicius de Moraes, que aprendera a dizer ‘não’ diante da sedutora empáfia do patrão.

As corporações de trabalhadores foram varridas do mapa, execradas como estrutura de uma ‘república sindicalista’ a soldo de Moscou, Havana e Pequim, perigo iminente à preservação da sacrossanta propriedade privada. Quanta idiotice! Na realidade, os generais aderiram ao  ‘Big Brother’ do norte, ávido em apropriar-se dos inestimáveis recursos naturais de um país com economia majoritariamente primária, cantado em verso e prosa como a terra do ‘futuro’(que só agora começa a chegar, ainda em doses  homeopáticas, embora efetivamente concretas).

No pós-64, foi acelerado o  êxodo rural, fechadas as portas à agropecuária familiar que sustentava os pequenos produtores dos grotões, enxotados para as metrópoles, de preferência o ‘sul-maravilha’, onde acabaram protagonistas do ciclo excludente da favelização nos grandes e médios centros urbanos. Afinal, era preciso tocar a produção fabril com mão de obra barata e trocá-la por espelhinhos e outros penduricalhos no mercado externo. O ‘milagre’ brasileiro remetia-nos de volta, em nossa indolência indígena, ao distante século das sesmarias. Enquanto os jogadores brasileiros,  de cabelos cortados no estilo ‘reco’, abiscoitavam a Copa no México, com o capitão Coutinho e o Major Guaranis na comissão técnica e o brigadeiro Jerônimo Bastos no comando da delegação, Garrastazu Medici mandava os ‘órgãos de segurança’ liquidar  insurgentes declarados ou até cidadãos minimamente suspeitos de conspirar contra o regime.

Os militares achavam-se ‘mais preparados’ do que os civis para pensar o modelo de Brasil que interessava à população de  ‘paisanos’. Lembro-me de um subgerente do BB-Botafogo, onde trabalhei a partir de 1971, que  idolatrava os oficiais(de capitão para cima) da Escola do Estado Maior do Exército, na Praia Vermelha. Todos beneficiários de ‘cheque-ouro’ no limite cadastral inerente a suas estrelas gemadas. Eram, sem dúvida, amáveis e solícitos, aguardando o atendimento entre cafezinhos e água gelada,  refestelados em poltronas estofadas onde a ‘clientalha’ não tinha vez, naquele bem-bom de facilidades outorgadas pelo sistema do ‘sabe com quem está falando?’ Às suas ordens, coronel!

Recorro a esse viés, digamos, permissivamente ameno dos anos cinzentos, para lembrar o  competente desempenho midiático, através do ‘Partido da Imprensa Golpista’, reverberando o ideário de ‘Pra frente,  Brasil!’ Afinal, ganhamos uma Copa do Mundo, com Dadá-Maravilha, escalado pelo dedo linha-dura de Médici, no banco do escrete canarinho,  e festejamos nas ruas cantando a marcha de Miguel Gustavo, simpaticamente incorporada às bandas militares, na ordem unida dos quartéis. O espírito da decantada ‘superioridade’ castrense pairava sobre nossas cabeças, prenunciando longevidade à intentona de 1964, glorificada como ‘revolução redentora’ nos veículos de comunicação, apoiadores do golpe contra Jango e suas democratizantes ‘Reformas de Base’.

Agora, na primeira década do século vinte e um, aguça-nos o desejo de conhecer a ‘verdade’. Qual a razão de terem surgido organizações clandestinas de Jovens brasileiros, revoltados com aquele tipo de ‘democracia mais ou menos relativa’, uma ‘ditabranda’(como amenizou a Folha de São Paulo,  ano passado) se comparada ao chileno Pinochet e gorilas argentinos e uruguaios, que trucidaram milhares, a maioria deles até hoje desaparecidos? Aqui, entretanto, nossos ‘inefáveis’ militares, acolitados por uma horda de civis dignos da tenebrosa Gestapo do ‘fuhrer’ chucrute, patrocinaram ‘aulas práticas’ nos DOI-Codi, onde, por exemplo, no Rio de Janeiro(rua Barão de Mesquita-Tijuca, atual regimento da Polícia do Exército), o deputado cassado e empresário Rubem Paiva teria sido torturado, morto e esquartejado, depois de resistir aos interrogatórios e mandar repetidamente, aos berros de dor,  seus carrascos à ‘p-q-p’.

É pertinente nos interessarmos em apurar as barbaridades que os cândidos velhinhos de hoje – dóceis, faceiros e incapazes de matar um mísero pernilongo – cometeram décadas atrás, quando eram moços e vigorosos, contra patrícios discordantes da quartelada que apeou do poder republicano um presidente eleito(originariamente como ‘vice’) pelo voto consagradoramente popular. Queremos que paguem pelas atrocidades contra  seus prisioneiros,  manietados, indefesos, destroçados no pau-de-arara, sob o furor covarde de choques provocados por condutos energizados e introduzidos em retos e vaginas, além de seios deixados em carne viva pela brasa de charutos dos Fleury, Ulstra e outros facínoras menos votados.

A chiadeira, no começo de 2010, face ao novo(e já mutilado) projeto para regulamentação dos Direitos Humanos constantes da Lei Maior, com manifestações(desrespeitosas e inadmissíveis no Estado democrático de Direito) de militares aposentados contra o presidente Lula e sua sucessora constitucional na chefia suprema das Forças Armadas, conduziu-nos a uma chula e velha máxima que encerra a mais cristalina das verdades: “pimenta no…dos outros é refresco”. Justo, pois, que os comprovadamente culpados sintam, na própria pele,  a ‘ardência’ que  impingiram à alma brasileira, sem chance de defesa e  sob a mira do canhão.

Mudou o tempo: a Presidenta enquadrou as Armas da República ao seu comando constitucional e, sem alarde, despachou da Pasta da Defesa o boquirroto Jobim(que os chefes militares reverenciavam),  substituindo-o pelo competente e respeitado chanceler do governo Lula, Celso Amorim.  Apesar do furacão econômico  em curso no planeta, o país segue firme, voando democraticamente em céu de brigadeiro.

(Postado por AMgóes em 12/08/2011)

 

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‘Faxineira’ começa a passar o rodo nos podres poderes


25/07/2011 - 11:29 -

Antônio Manoel Góes (*)

Recentes textos,(“Presidenta é a mãe da faxina” e “A nova classe média e os velhos preconceitos”), entre tantos com que atravanco   cotidianamente a caixa postal de duas centenas de contatos,   suscitam  manifesto  apoio da sociedade à postura determinada da presidenta em extirpar  a crônica roubalheira da administração pública. Conquanto a histeria oposicionista, à frente o PiG-Partido da Imprensa Golpista(Globos, FolhaSP, Veja, Estadão ‘et caterva’),  Dilma, embora ainda lenta e gradualmente,  começa a impor sua marca pessoal de governo na formação do Ministério, depois das previsíveis concessões, face às ‘incongruências’ da campanha eleitoral(traduzindo: a arte de engolir sapos – logo com ela, famosa pelo pavio curto).

O ranger-de-dentes  nos bastidores da própria ‘base aliada’ revela, convenhamos, certo pânico pela constatação de que, salvo engano,  ela não deixará pedra sobre pedra nos arranjos ‘necessários’,  lá na posse, às explícitas conveniências da aliança  multipartidária, com vista a sua ‘governabilidade’. Todavia, sejamos francos, quem a elegeu foi o sucesso de Lula, independentemente do próprio PT que, lá atrás,  torcera o nariz  quando o presidente sugeriu(ou impôs) a candidatura de sua ministra durona contumaz  que, volta e meia,   dava  bico, sem cerimônia, na canela de colegas de outras pastas, permeáveis às recorrentes leniências políticas na antessala do poder.

Eleita, Dilma não se submeteria ‘ad eternam’ às injunções políticas,  para formatar, no devido tempo,  o  gabinete  adequado a seu modelo de gestão governamental. O descalabro suscitado no Ministério dos Transportes é a ponta do iceberg que a Presidenta, torçamos, terá de derreter no penoso processo de limpeza profilática, utilizando o jargão do  predecessor(“nunca dantes ocorrido neste país”).  É a aplicação de contraveneno em doses homeopáticas, para imunizar a máquina do Governo, cuja estrutura, no curso de variados mandatos eletivos  em  nossa História republicana, sempre foi corrompida pela intromissão direta de tradicionais oligarquias, manipuladoras do eleitorado.

Opositores e situacionistas de ocasião, desde os  antepassados de priscas eras, sempre se fartaram com as benesses ‘generosamente’ concedidas por eventuais governantes, dos municípios ao executivo federal, sob  a interveniência de legislativos que institucionalizaram a dilapidação dos cofres públicos, hábito, aliás, arraigado desde o remoto Império.

Não alcançaremos o Nirvana, com certeza,  no exíguo interstício de alguns mandatos com viés diferenciado,  mas pairam no ar, além dos aviões de carreira, sintomas ainda tênues de uma ‘assepsia ética’(na antevisão do “tudo é possível”) tempos atrás impensável  no imaginário de tantos quantos sempre nos indignamos, céticos e desalentados,  com o fétido odor dos podres poderes.

De resto, malgrado nossas expectativas à base do ‘confiar desconfiando’, cumpre-nos cobrar ansiadas mudanças comportamentais e aguardar, ao fim de cada noite, a chegada do novo dia, com a ‘faxineira’  passando o rodo  porque a improbidade no serviço público  está entranhada  desde tempos imemoriais. E vamos que vamos, com a perspectiva de abrir  a picada,  no caminho de amena e promissora realidade nacional. Quem viver, verá. E quem tiver rabo preso,  trate de tirar o seu da reta, que a limpeza vem aí,  com direito ao recurso de retroescavadeira.

(*) A quase sete meses de ausência, o blogueiro pede desculpas e retoma o salutar convívio no ‘Tudo Global’.

 

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Armas de última geração no Forte de Guarujá


12/01/2011 - 11:19 -

Os porta-vozes do PIG-Partido a Imprensa Golpista começaram o ano com todo o gás. De saída, ‘denunciam’  a ‘imoral’ hospedagem do ex-presidente Lula e seus familiares, ‘de graça’, em forte do Exército no litoral de Guarujá(SP). Folha, Estadão, FolhaSP , Veja e Época devem promover  uma cruzada nacional que estenda  a prerrogativa a todos os cidadãos brasileiros. De minha parte, já encaminhei  reserva para o próximo fim de ano.

Afinal, esse tal de Lula deita e rola no rastro dos 87 por cento de popularidade, índice, aliás, constatado ‘apenas’ em pesquisas ‘discutíveis’ de institutos de opinião. Um amigo de Alagoas me questionou, quando de minha recente estada em Maceió: “Onde está a prova técnica da apuração do Ibope, Datafolha e outros? Igual  à ida do homem à Lua. Tudo conversa fiada.”

E os passaportes especiais conferidos aos filhos do ‘apedeuta’, hein? Pode??? É preciso acabar com essa mamata! Em qualquer viagem, a família do governante deveria  viajar de ônibus ou navio cargueiro, ora essa! Quanta petulância desses tabaréus de São Bernardo do Campo! Se pelo menos tivessem nascido nos Jardins paulistanos…

Para meu conterrâneo, o país cresceria de qualquer maneira, por obra e graça da natureza(“É Deus que quer!” – deixou matreiramente de acrescentar).  Além da natureza, claro, a ‘decisiva’ largada de FHC, seu guru, mestre e inspirador. Ele assevera que Fernando Henrique preparou a cama com forro de cetim, onde Lula ‘indevidamente’ chegou ao orgasmo populista nas entranhas do oprimido povo brasileiro.

Mais recente, a notícia de que o Exército adquirira dois equipamentos ‘pesados’ de última geração, movidos a energia nuclear do Irã(secador de cabelos e frízer),  convidando Lula e Dona Marisa Letícia para acionarem os botões das temidas engenhocas bélicas instaladas no ‘bunker’ de Guarujá.

Por conta de um baronato provinciano e  incompetente, que não soube declarar a rica pauliceia independente dos grilhões getulistas, em 1932, agora, sim, o sonho finalmente se tornaria  realidade, ainda que com o alienígena Lula à frente do movimento separatista, garantido pela gloriosa  Força Pública e apoio das ‘antigas’ unidades federais baseadas  no Eldorado de Piratininga, reforçadas por furibundos kamikazes formados na Academia  Aérea de Pirassununga.

Depois da vitória e o subsequente reconhecimento internacional  de United  States, Europa e Bahia, o segundo ato seria  a derrubada do comandante-em-chefe, por desprovido de naturalidade local e deplorável origem, nada confiável,  nos cafundós de Pernambuco.  Previsível a encarniçada disputa pelo trono entre as facções tucanas de Alckmin-Opus-Dei e seu oponente Beato Serra de Aparecida, ambos ungidos por Bento XV.

Desliguemo-nos da digressão virtual  e retornemos ao mundo concreto,  cenário de explícitas sacanagens midiáticas da cambada de sempre contra Lula e engatilhadas para açoitar sua sucessora. Para o PIG, que não logrou impedir a eleição do ‘poste petista’, as miríades  ‘do bem’ não podem aturar essa descendente de búlgaro em Brasília. E prometem marcá-la sob permanente pressão, até que renuncie alegando coação irresistível das forças ocultas.

Pelos textos dos analistas ‘pignianos’, o governo Dilma tem tudo para se transformar em desesperador cenário de ranger de dentes.  Há pouco integrado à Academia Brasileira de Filósofos(disparate que provocou urros fantasmagóricos de Sócrates, Platão e Aristóteles nos  sarcófagos da antiga Grécia), Merval  do Globo prevê inevitáveis tempestades no Planalto. Na mesma linha, Eliane Catanhede, da Folha SP. Sem falar nas demais cassandras da  ‘grande imprensa’,  miniaturizadas em sua credibilidade moral.

Meu amigo alagoano e seus correligionários demotucanos seguem lendo com avidez os ‘tratados filosóficos’ de seus  comentadores ‘especializados’(nas artes do atraso excludente), esquecidos de que seu(nosso) Estado é, proporcionalmente, o maior celeiro da corrupção institucionalizada, cuja comprovação, a olho nu, roda no caótico trânsito da orla de Maceió,   proporcionalmente como maior frota de utilitários de luxo do país(‘Hilux’ de cabine dupla à frente), enquanto a maioria de coestaduanos vive às expensas do Bolsa-Família e programas emergenciais similares.

Projeta-se em Alagoas odioso contraste com um PIB cujo percentual majoritário se baseia no montante de receitas originadas em programas sociais do governo federal e uma população condenada a continuar, ainda por longo tempo, fora dos avanços que o próprio Nordeste experimenta a partir dos marcos do governo Lula.

Salvo para escancarar, como o fez tempos atrás, que o senador do PMDB pulara a cerca, o Partido da Imprensa Golpista veta, em seus veículos do Sul-maravilha, as notícias alvissareiras sobre a construção de um novo tempo nordestino que, no curso do governo Dilma,  consolidará a força econômica de uma região já denominada pelos ufanistas, em sua fé inquebrantável, de ‘nova Califórnia’.

Apesar dos recalcitrantes herdeiros do jurássico   coronelismo, desde as remotas eras do Império, que teimam em não largar o osso e desfilam em seus mirabolantes carrões, com indisfarçável arrogância medieval, não raras vezes à custa de FPM depositado em contas de ‘laranjas’ nos grotões interioranos, verba desviada para comprar os ‘possantes’ nas revendas  automotoras da capital. Se a PF for fundo, como tem feito desde passado recente, verá que a turma de Ali Babá não se limitou aos românticos quarenta lalaus das histórias infantis. Esse detalhe, por conivência, o PIG  ‘estrategicamente’ cuida de esconder.

Postado em  12.jan.2011.

Antônio Manoel Góes, 68, é jornalista e militante de movimentos sociais .

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De Lula para Dilma: revezamento sem ‘poste’


28/12/2010 - 22:56 -

Parafraseando o ‘cara’ de Caetés, ‘nunca na História deste país’ experimentamos concretamente a sensação de continuidade na sucessão presidencial, ainda que a sequência ocorresse nos marcos do mesmo grupo político-partidário.

A tão badalada alternância de poder, tradição falaciosa que mascarou o revezamento no plantão do governo, entre ‘os mesmos’ de sempre, nos bastidores das elites dominadoras e excludentes, foi interrompida a partir de 2003.

Submetido a traumas, desvios de conduta, hesitações e incoerências previsíveis no complicado contexto das relações sociais, o projeto de governo ora em curso expandiu, ao cabo de oito anos, os limites de nossa autoestima.

A mórbida submissão  do “é Deus que quer…” deu lugar aos alentadores avanços no rumo do andar de cima.  Convenhamos que todos os governos, cada qual nos limites de sua percepção política, inclusive nos 21 anos de exceção por que passamos, contribuíram, à sua maneira, para fomentar nosso desenvolvimento, raras vezes, porém, dirigidos aos deserdados.

Eventuais esboços de efêmeras tentativas reformistas(há anos-luz de profilática revolução de caráter doutrinário) foram drasticamente  obstados, face às denúncias de, por exemplo, ‘ameaça á civilização cristã, ao ‘perigo vermelho’ e outras sandices avalizadas pela classe média, principal beneficiária imediata de qualquer alteração legal da ordem socioeconômica.

Dessa forma, vínhamos remando entre vagalhões de incertezas, visando a encontrar um futuro que nunca chegava para remediar nossas crônicas mazelas.  Lá atrás, nos anos 1930, aliviamo-nos ao sair da servidão por conta da legislação trabalhista, no primeiro governo Vargas.

O novo marco social inspirava-se, entretanto, em  visão nazifascista da italiana ‘Carta del Lavoro’, de explícita tutela estatal. Conquanto os radicais à ‘sinistra’ subissem nas tamancas, com suas razões apropriadamente libertárias, avançamos à época em relação ao trabalho servil de raízes escravocratas aqui sedimentado.

Anarquistas e comunistas, naqueles remotos primeiros tempos do século 20, foram relevantes bastiões de resistência à dissimulada continuidade das oligarquias políticas e econômicas, subsidiadas pela leniência de cunho religioso e suas veladas ameaças com o fogo do inferno a fortuitos transgressores do ‘império da lei’(delas).

Malgrado contundentes descompassos com sazonais rupturas das instituições, sob justificativas pueris de ‘salvar a pátria do assédio de filosofias exóticas’, assistimos  à penosa superação dos  miseráveis sobre o degredo que lhe impuseram historicamente no interior de suas próprias fronteiras.

Rompendo a lógica sucessória das elites, que sempre tiveram um dos seus na presidência, mais ou menos alinhados, desde os idos de Deodoro e Floriano, aí incluídos Getúlio, Jk e Goulart, o migrante nordestino Luiz Inácio Lula da Silva cuidou de projetar o país à antessala do primeiro mundo, remando com determinação contra a maré do caos econômico internacional que feriu  seriamente o então poderoso G-4.

A contragosto das mesmas elites locais, excludentes e segregacionistas, ex-pobres, hoje remediados, superlotam terminais rodoviários, aeroportos, shoppings e supermercados, efusivos, falando alto e sem etiquetas nem firulas de ‘socialites’, comprando, pagando com pontualidade e registrando, como ocorreu em novembro último, o menor índice na média histórica de inadimplência do Brasil.

Eleita por conta do empenho do mais ilustre e competente cabo eleitoral, a nova presidente sequenciará o projeto em curso, que coordenou com expressivo desempenho,  em vantagem comparativamente a seu predecessor, oito anos atrás. Dilma sepultará a pejorativa teoria do ‘poste’, que lhe imputaram na campanha, com a responsabilidade(inédita) de primeira mulher na presidência, algo até pouco tempo impensável em país com arraigada estrutura de conservadorismo machista.

Lamentável, todavia, não contarmos com uma oposição que faça jus a suas prerrogativas constitucionais: fiscalizar, cobrar, denunciar eventuais descaminhos oficiais e, principalmente, oferecer à sociedade alternativas convincentes ao modelo que ingressa em seu terceiro mandato consecutivo. Com efeito, a dialética dos oposicionistas de hoje tem tudo para se consagrar como um fiasco monumental. Pelo andar da carruagem,  valerá a assertiva popular de que time vencedor não se muda.

(*) Antônio Manoel Góes é jornalista e militante de movimentos sociais.

Postado em 28/12/2010.

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Por onde andava o Estado quando os traficantes nasceram?


13/12/2010 - 19:42 -

Muito além da pirotecnia e espetacularização jornalística conferidas à recente ocupação policial-militar dos complexos de favelas da Penha e Alemão (foto), na zona da Leopoldina carioca,  cabe-nos uma reflexão que o título acima sugere: onde estava mesmo o poder público quando os atuais e hediondos traficantes nasceram?

O que faziam os  mais variados governos, desde o começo do século passado, quando contingentes da população marginalizada, moradores de cortiços no centro do Rio, então Distrito Federal, foram despejados pela ‘limpeza estética’ de Pereira Passos, Lacerda, Negrão de Lima, César Maia e outros barões da ‘assepsia social’?

Quais as condições, minimamente decentes, propiciadas para realocação dos pobres(que ‘enfeavam’ áreas reservadas às elites)  submetidos à decisão simplista e odiosa do ‘virem-se!’, promulgada pela visão excludente dos manda-chuva da  República?

Oficialmente reconhecido como bairro em 3 de dezembro de 1993, o Morro do Alemão foi  identificado com essa denominação a partir de 1920, quando um imigrante polonês, Leonard Kaczmarkiewcz, comprou extensa área na encosta rural da Serra da Misericórdia, margeada pela Estrada de Ferro D. Leopoldina. Branco, louro, o novo proprietário ficou conhecido como ‘alemão’.

Na área inferior do morro foi construído ainda em 1920, nos atuais limites de Olaria e Penha, o ‘Cortume Carioca’(foto), que seria anos depois a maior empresa do ramo na América Latina. Em 1946, com a abertura da Avenida Brasil, ligação viária de 58 quilômetros entre o centro da cidade e a então remota Santa Cruz, na zona oeste, a região contígua à Leopoldina foi transformada em polo industrial, cujos negócios ensejaram desordenada ocupação nos morros adjacentes, de que adveio o atual ‘complexo de favelas do alemão’.

Em dezembro de 1993,  um programa de integração social instaurado pelo segundo governo Brizola implicaria o reconhecimento do Alemão como  ‘bairro’, com  297  hectares e 65 mil pessoas residentes em pouco mais de 18 mil moradias,  já em meio ao recrudescimento do tráfico de drogas, iniciado  no começo da década anterior com sucessivas guerras entre grupos de traficantes rivais.

Expressiva área da Serra da Misericórdia foi destruída pela ação consentida de pedreiras em quase todo o curso do século 20, época em que inexistia qualquer política de preservação ambiental no país.  Nas imagens aéreas de poucos dias atrás, as câmeras da TV registraram colossais blocos de pedra deixados à margem das vias pela operação predatória de antigas empresas, na rota de que se valeram os traficantes para fuga diante do cerco policial.

Consumado aqui o prólogo ‘socioeconômico’ do Complexo do Alemão e vizinhanças, voltamos à vaca fria do questionamento que intitula esta nossa conversa: e o poder público o que fez em quase cem anos de adensamento demográfico de nossas encostas, única saída dos excluídos ao mais elementar exercício do direito cidadão à moradia?

À exceção do governador Leonel Brizola, cuja sensibilidade social foi duramente insultada sem trégua em dois mandatos, pelo PIG-partido da imprensa golpista, à frente os veículos ‘globais’(jornal, TV e rádios),  governantes locais e federais sempre trataram as populações faveladas como ‘bandidos-até-prova-em-contrário’, mantendo a velha máxima do ex-presidente Washington Luiz, no final dos anos 1920, de que  a questão social seria um  isolado ‘caso de polícia’.

Tradicionalmente autoritárias, as elites seguem produzindo monstrengos a fórceps, obcecadas com o bem-estar  de seu umbigo produzido na orla marítima,  em mansões e condomínios guardados 24 horas por vigilância armada até os dentes. Todavia, buscam serviçais nas comunidades carentes, para as tarefas  ditas  subalternas em seu refinado cotidiano(conquanto indispensáveis à sobrevivência do baronato).

Você acaso acha que os magnatas das drogas se escondem nas grotas camufladas pela vegetação de nossas serras e quer conhecer suas fortalezas? Dirija-se à sofisticada Lagoa Rodrigo de Freitas, ao Leblon, São Conrado, à Barra da Tijuca e cercanias da baixada de Jacarepaguá, onde qualquer passante fortuito lhe indicará os endereços de, pelo menos,  meia dúzia deles(e delas).

‘Soldados’, gerentes de segundo e terceiro escalões,  enfurnam-se, com suas possantes armas de guerra, contrabandeadas pelos ‘patrões’, em estratégicas casamatas lá do alto dos morros, de onde observam eventuais incursões da Polícia. Sem contar que um nada desprezível grupo(ou bando?) de policiais, na mixórdia de uma má formação e aviltantes salários, já entrou no jogo e, corrompido, faz o ‘meio-campo’ e prende a bola  entre a bandidagem e a lei, em troca de ‘algum’, que ninguém é de ferro…

É aí que o bicho pega, sobrando para trabalhadores e seus familiares, protagonistas compulsórios do nefando sistema da  corda bamba,  do ‘se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come’. Distante do teatro de horror, você dirá para os próprios botões que o tráfico recruta seus ‘auxiliares’ na própria comunidade onde se homiziou.

Não é regra geral, mas o recrutamento de jovens é fato concreto, diante da tentação de exercerem ‘poder’ onde não dispõem de ínfima capacidade de mando(só ‘Cuidado! É proibido isso e aquilo!’, a partir da preocupado zelo familiar).

Ansiosos por sucesso, nos limites de sua vivência social de contornos  machistas, vários desses adolescentes mergulham de cabeça na marginalidade, estribados em recorrentes ‘vantagens’ oferecidas pelo enganoso ‘bem-bom’ que balança as estruturas consumistas de qualquer insipiente e  imprecavido mortal.

Entre os sonhos de ‘felicidade’ que acalentam o garoto iniciado no tráfico, os da conquista da garota de sua paixão juvenil pela ostentação de capacidade econômica para – quem sabe? -  comprar um barraco, onde instalarão o lar-doce-lar de um amor-bandido movido a doses de testosterona e gravidezes tão  inconsequentes quanto prematuras e indesejadas.

Afinal,  na cabeça do rapazola-metido-a-homem, a certeza de que tudo pode, principalmente com o dedo no gatilho de um destruidor AR-15, na perspectiva de ganhos sem limite, prova de afirmação de sua ‘superioridade’. Na dura competição por ganhos legalizados(ou nem tanto)  no asfalto, sem base intelectual e desprovido do insólito argumento do trabuco,  seria esmagado em piscar de olhos, face à incapacidade para a obtenção da grana firme que a função de combatente, ‘avião’ ou fogueteiro no negócio das drogas lhe oferece.

Pode não ser o caso de quem me lê, mas ponderável parcela do ‘respeitável público’ televisivo, em ‘frisson’ quase-orgasmático, ficou torcendo por ‘exemplar’ banho de sangue da polícia contra os traficantes em debandada. Não faltou, inclusive ‘formadores de opinião’, quem vociferasse contra a ‘incompetência’ das autoridades por não ordenarem a execução sumária  dos fugitivos,  versão justiceira da ‘lei do cão’, do ‘nós ou eles’, todo mundo esquecido de que ‘eles’,  em sua barbárie, também(e ironicamente) fazem parte do ‘nós’.

A diferença é ‘eles’ terem-se graduado no aprendizado da ‘escola do mal’, sob a odiosa percepção de mundo impingida pelo autismo hipócrita e maniqueísta da turma ‘do bem’. Aí(paciência!) é bola ou búrica. Fomos lá, protegidos pelos blindados dos fuzileiros navais e promovemos a faxina. Pena que ‘eles’ tiraram o time de campo e o show  ‘oficial’de horrores, com direito a ‘zoom’ em altíssima resolução visual,  foi adiado.

Com toda essa avidez sanguinolenta da sociedade, que clama pela constitucional prerrogativa da paz e da ordem pública, mas jamais cuidou de fazer competentemente a sua parte, insisto na pergunta: onde é que estavam mesmo os governantes quando os ferozes traficantes de hoje(e de ontem, vivos e mortos), bem assim suas vítimas,  nasceram???

Ora, cara pálida! Estavam costurando acordos, nas madrugadas de seus expedientes conspirativos, decretando que tudo continuaria na mesma,  ‘nós’ cá, numa boa, e ‘eles’, excluídos, confinados e reprimidos, lá no outro lado dos muros(charge) destinados a preservar os  aspirantes à plêiade celestial dos justos, candidatos a uma vaga cativa à direita do Pai.

Finalmente, perguntar não ofende: em Sua infinita misericórdia, por que  o Todo-Poderoso não mandou  arcanjos desferirem, lá da altura inexpugnável  da etérea plaga, meia dúzia de raios para reduzir a pó aquela horda em desabrida retirada pelo morro do Cruzeiro, na direção da Grota do Sapo, no Alemão?

Para fechar, a resposta  online dos céus: “Não me meto em problema decorrente de incompetência, arrogância e insensibilidade humanas. Resolvam por aí. Afinal, dei-lhes inteligência e discernimento a fim de garantirem a divisão equitativa de oportunidades na face da Terra. (Ainda)com minha tríplice bênção, Deus Pai-Filho-Espírito Santo”.

Postado por AMgóes em 6/12/2010.

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Metida a esperta, a elite é burra


15/11/2010 - 12:35 -

Lembro-me de que, nos anos 1960, época do pré-golpe, referíamo-nos à elite brasileira como retrógrada e reacionária, afora outros cognomes pejorativos apropriados à liberação de nossa jovem insatisfação e revolta com o cerco que seus esclerosados barões promoveram para impedir as reformas postuladas pelo presidente João Goulart.
No processo de persuasão popular que levou matronas da alta sociedade em passeata pelas alamedas dos Jardins paulistanos, quando muito em seus carrões rabos-de-peixe pela Avenida Paulista, a elite lambeu os beiços ao manipular a classe média-média (e também a média-baixa), arrebanhando milhões de adeptos a ‘sua’ causa nos mais
remotos recantos do país.
De repente, os que pichamos muros em Palmeira dos Índios, na madrugada de 12 para 13 de março de 1964, concitando a população a solidarizar-se com o ‘novo tempo’ das ‘Reformas de Base’, encaminhadas ao Congresso pelo governo federal, assistimos atônitos e sem rumo à ferocidade de outrora cândidas senhoras e seus maridos boas-praças nas marchas ‘com Deus, pela democracia’. Oportuno salientar
que as proposituras reformistas eram apenas um freio conjuntural de arrumação, nada ‘revolucionário’. Conquanto nacionalista, o presidente Goulart integrava uma estrutura dita burguesa de latifúndio nos Pampas, do Rio Grande ao Uruguai.
No agreste alagoano, funcionários do Banco do Brasil e servidores públicos de nossas relações, envolvidos em apaixonados debates socioeconômicos, nos limites da percepção provinciana de que dispúnhamos, face aos exíguos canais de comunicação eletrônica e veículos impressos, experimentávamos verdadeiros orgasmos ideológicos
quando nos chegavam, embora com atraso, jornais de linha editorial ‘progressista’, como ‘Correio da Manhã’(que mudou de lado na hora ‘H’) e ‘Última Hora’, empastelado por apopléticos ‘rebeldes de primeiro de abril’. Jango, um pacifista, sem o perfil caudilhesco de eminentes gaúchos da História, tanto remota quanto contemporânea, rejeitou qualquer ação emergencial de resistência, por contrário ao previsível
sacrifício de compatriotas. A decisão do presidente não teria sido pertinente para o cunhado e correligionário, deputado federal do
Rio de Janeiro, Leonel Brizola, líder do governo deposto, que tencionava resistir.
Ex-governador do Rio Grande do Sul, Brizola garantira em 1961, pela ‘Cadeia da Legalidade’, a posse de Goulart na presidência, após a tumultuada renúncia de Jânio Quadros, impedindo tentativa golpista, depois consumada em 1964.
Entremeando cânticos sacros, Hino Nacional e dobrados militares, transmitidos pelas rádios à exaustão, em apoio aos ‘salvadores da pátria’ que (falaciosamente) livraram o Brasil de uma ‘república comunossindicalista financiada por Moscou, Pequim e Havana’, a elite não deu trégua aos supostos subversivos, isto é, nós, do outro lado,
que sonhávamos com os explorados joões-da-silva livres em nova ordem de bem-estar social.
Afinal, defendíamos um governo eleito pelo voto popular, pois, à luz da Constituição de 1945,o ‘vice’(caso de Goulart) fora escolhido independentemente do titular que renunciou. Todavia, o que adveio foi perseguição, cadeia e porrada em nosso lombo, além de cova rasa para eventuais inconformados com o golpe e dispostos ao confronto
armado.
Livre da ‘ameaça de cubanização’(era esse o termo corrente, que fazia piedosas filhas-de-maria se diluirem em frêmitos de incontinência urinária, isto é, traduzindo para o ‘lulês’ dos pobres, empaparem de mijo suas indefectíveis ‘roupas de baixo’, tal o pavor histérico provocado pelos ‘comunistas ateus e antropofágicos’, comedores de criancinhas indefesas, como reverberava a ‘direitona’, dos púlpitos eclesiais aos
convescotes em suas associações corporativas, de milicos ou paisanos.
Naquele tempo, sacerdotes pedófilos e/ou defloradores de virgens(mais ou menos) convictas nas sacristias ou alcovas bentas de casas paroquiais, nem pensar! Isto é, concretamente já existiam, todo mundo sabia. Mas, se alguém ousasse denunciar, correria o risco da excomunhão, passaporte compulsório outorgado ao ‘caluniador’ no
rumo do fogo do inferno, que nem Dante Alighieri ousaria descrever.
A elite se fartou sob os favores dos generais de plantão, tudo em nome de uma civilização ocidental, cristã, verde-amarela e fiel ao ‘Big Brother’ do hemisfério norte.
A cor púrpura passou a identificar os perigosos ’comunas’, serviçais do ‘coisa ruim’.
Concomitantemente, homéricas falcatruas eram promovidas com o dinheiro público, maquiando-se operações bancárias autorizadas através de bilhetes em papel de embrulho pelos chefões, embora, na propaganda, além da subversão, ‘eles’ estavam atentos a qualquer indício de corrupção. “Pra frente, Brasil! Ame-e ou deixe-o!”
Pois meteram a mão na cumbuca e rasparam o fundo do tacho. Em Alagoas, cujos governantes, historicamente, sempre andaram de pires na mão, o Produban, banco estadual de fomento à produção local(majoritariamente açucareira), liberou centenas de milhões com hipotecas juridicamente inexequíveis. Na prática, os ‘promitentes
devedores’(é este o título pomposo dos tomadores de empréstimos bancários) ofereceram, como garantia do financiamento, o mais profundo subsolo de sua propriedade rural. Como não há incidência de jazidas petrolíferas no ‘pós’ ou ‘pré’-sal alagoano, deram uma ‘volta’ descomunal nas obrigações celebradas. O Produban foi à lona e, depois de anos de luta inglória para viabilizá-lo(militei adoidado nesse esforço
em vão), foi solenemente ‘deletado’ pelo governo privatista de FHC.
Agora, retomada a autoestima brasileira, pelas políticas de inclusão social do governo Lula, em que, ‘como nunca, na história deste país’, os mais ricos ganharam tanto e os mais pobres subiram o elevador, na direção da classe ‘C’, a elite joga pesado, na tentativa de desqualificar os eleitores(principalmente do norte/nordeste) que elegeram Dilma Rousseff primeira mulher presidente da República.
Na realidade, a elite, ‘decrépita e reacionária’, como a intitulávamos mais de meio século atrás, já se esfarela, a começar pela fragilidade de seus bastiões político-partidários, haja vista o dilema tucano em assumir, sem mínima competência para tal, o papel de ‘oposição’ que lhe cabe, como perdedor em três consecutivos processos eleitorais.
A deletéria elite brasileira, embora metida a esperta e conceitualmente mal-intencionada, é burra para entender que não dispõe de exclusividade, como pensa, sobre o bolo da riqueza do mundo. Séculos afora, os fatos comprovam que o caminho indutor da interação pacífica no planeta leva-nos, necessariamente, à perene repactuação dos contratos sociais.
Luís XVI, para quem o estado(francês) era unicamente ele, acabou sem a cabeça coroada, por obra da afiadíssima engenhoca do doutor Guilhotin.
Postado por AMgóes em 14.11.2010.

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Tantas Dilmas(ou Vandas) e Gastones(ou Rosas)


06/11/2010 - 14:14 -

A vitória de Dilma Rousseff nas urnas remete-me a uma reflexão sobre o significado de uma mulher na presidência, para além do justo sentimento dessa afirmação de gênero derrubadora de históricos preconceitos de uma elite machista(“Mulher na presidência?”), que lograram contaminar setores da classe média trabalhadora, ironicamente beneficiária das políticas de inclusão social do governo Lula.

Aqui no Rio, áreas da zona sul onde viscejou bravamente, no contraponto ao regime autoritário de 1964, a badalada ‘esquerda festiva’, a lógica mudou de lado. Participei, no domingo 27 de outubro de 2002, da comoção de quase-reveillon na praia de Copacabana, em meio à celebração pela primeira eleição de Lula. Agora em 2010, a classe média de Copacabana, aliada aos emergentes da Barra da Tijuca e Recreio, foi de Serra, embora, no conjunto da obra, o Rio de Janeiro, tal qual o Brasil, tenha mais uma vez ‘avermelhado’.

Em 2006, havia comemorado a reeleição de Lula perto de casa, na Tijuca, onde nasceu a

‘jovem guarda’, e um dos bastiões da resistência democrática carioca, malgrado o estigma de bairro que abrigara o hediondo DOI-Codi, onde compatriotas foram trucidados pelos assassinos da repressão, vários destes até hoje impunes e escondidos por trás da imagem de cândidos velhinhos, jogadores de gamão e bocha remunerados por régias aposentadorias do serviço público.

Torço a fim de tais facínoras, milicos ou paisanos, viverem o suficiente, mesmo conservados à base de formol, para, a qualquer momento, chegarem às barras dos tribunais. A ansiada condenação dos algozes não trará os mortos de volta, a maioria bem jovem, quarenta anos atrás, mas confortaremos suas famílias, notadamente as até hoje de alma destroçada pelos filhos e filhas, irmãos e irmãs, maridos e mulheres dados como ‘desaparecidos’.e, dessa forma, insepultos.

Para além do exitoso duplo mandato de Lula, a vitória da ex-ministra remete-me às mulheres(e aos homens) que tombaram via-de-regra sob a tortura treinada na ‘Escola das Américas’, centro ‘didático’ de requintado terror oficial patrocinado pelos Estados Unidos, com sede no Panamá. Elas(e eles) decidiram-se pela ‘bola ou búrica’, certos de que não haveria outro caminho à retomada da democracia. E lá se foram à busca do utópico nirvana de suas concepções revolucionárias.

Quantas meninas, ainda adolescentes, mergulharam na clandestinidade, conscientes de que só lhes restaria o confronto armado para extirpar os atrozes anos de chumbo no país? Rapazes e moças, estudantes às vésperas da Universidade(e outros tantos já no curso superior) a deixarem desesperados os familiares pela quase-certeza de que não os veriam mais.

Retrucarão os ‘certinhos’, de ontem e de hoje, escudados no biombo de suas não-

assumidas pusilanimidades, que ‘esse pessoal’ foi ‘louco’ ao vislumbrar, como única saída, o enfrentamento pelas armas. Poderia ser minha própria e indignada opção naquele tempo, não consumada pela realidade de um casamento aos dezoito anos, a paternidade de três filhos aos vinte e três e o medo de jogar para o alto o emprego no Banco do Brasil.

Imagine você a inconformação que ruminávamos, os ‘insurgentes’ bem-comportados, diante do cerceamento de liberdade camuflado pelo brado ‘retumbante’ de ‘Pra frente, Brasil!’, dos gritos de dor nos covis dos repressores, abafados pelos gols de Pelé, Jairzinho e Carlos Alberto liquidando a fatura na Copa de 1970, no México.

Avançamos ‘relativamente’, é verdade, a partir de 1979, quando as organizações populares

mostraram a cara, na campanha da Anistia. Em 1984, fomos às ruas na frustrante ‘Diretas-já’.

No ano seguinte, mal das pernas e esclerosados, os militares voltaram aos quartéis. Escolhido em colégio eleitoral, Tancredo morreu antes da posse e fomos surrealisticamente de Sarney.

Assistimos à promulgação da Constituição ‘cidadã’ e, em 1989, perplexos, fomos impotentes para impedir as armações da Globo pró-Collor, decisivas à não-concretização do ‘Lula lá’.

Consternados, deparamo-nos com a ‘social-democracia’ dos tucanos, criada em 1988 à esquerda do fisiológico PMDB, substituída pelo ideário do ‘Estado mínimo’, estimulador do mercado neoliberal. Finalmente, em 2002, o PT assumiu sua porção ‘estrategicamente’ social-democrata e o governo Lula, em dois mandatos, mexeu com a autoestima de milhões de brasileiros.

Fortalecido por políticas de inclusão social, o Estado brasileiro transformou-se em indutor do desenvolvimento econômico. A crise mundial chegou às nossas praias, mas só produziu efeitos de marolinha.

Não poderia ser mais emblemático o desfecho eleitoral no primeiro decênio do século 21 em nosso país. Tido por governantes do primeiro mundo como ‘o cara’, nosso presidente – a quem beócios tupiniquins tratam pejorativamente de ‘apedeuta’ – é uma das mais importantes

personalidades do planeta. O sociólogo-entreguista FHC e seus áulicos de diferentes plumagens já teriam programado, na surdina, um haraquiri coletivo que contemple tucanos, demos e demais comparsas menos votados.

A reflexão a que me propus no tópico inicial, sobre o significado de uma mulher na presidência, remete-nos à temática dos direitos humanos, individuais e sociais. Com efeito, o pleno exercício da cidadania pelas mulheres depende de introjetarmos na sociedade os mais comezinhos preceitos estabelecidos na Constituição(de 1988) e em tratados internacionais.

Elas, evidentemente, lograram expressivos avanços com a normatização de direitos civis e

políticos nas três últimas décadas, mas ainda persiste no país(norte, nordeste e centro-oeste em primeiro plano) um ranço sexista e discriminatório, com injunções dogmático-religiosas, além de questões estruturais, da liberdade sexual e reprodutiva à livre decisão sobre a pertinência de constituir família.

A chegada de uma mulher à chefia do governo federal não é a instituição de singelo ‘clube

da luluzinha’; é a inserção da mulher no topo do poder, espaço conquistado pela capacidade

testada intramuros, na administração de intrincadas pendências domésticas. Idêntica ao

parceiro homem, mas sem perder a ternura, ela arremete com propriedade sobre os espaços

públicos, remotos feudos do absolutismo masculino.

Na vitória da primeira brasileira presidente da República, nosso afeto às centenas de

Dilmas, ‘Vandas’(do codinome que a protegeu) e a tantas outras guerreiras a se baterem por um novo tempo, agora possível, mesmo que várias delas só estejam aqui em forma de saudade para referendá-lo.

Retorno, por oportuno, a minha Alagoas para rememorar a menina Gastone Beltrão( a ‘Rosa’) (foto), de tradicional família de Coruripe, que estudava economia na UFAL, a exemplo de Dilma nas Minas Gerais. Sua alma rebelde e determinada levou-a ao confronto com a ditadura em São Paulo, onde caiu, aos 21 anos de uma vida plena de sonhos por um mundo melhor, sob as garras do bandido Fleury. Só soube de sua existência, e de ter combatido heroicamente o bom combate, anos depois, através de minha cunhada Maria Lessa Papini Góes.

Gastone era irmã do fraterno camarada Thomaz Beltrão, de Maceió. Seria hoje sessentona, igual a Dilma e, à semelhança da presidente eleita, certamente engajada na construção deste novo Brasil.

Postado em 6.11.2010 por AMgóes.

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‘Bomba’ tucana era vaticana


30/10/2010 - 12:49 -

Vivenciamos um clima  de expectativas e conjecturas  entre a rede de blogueiros nas últimas semanas, face a reverberadas ilações sobre a  existência de irrespondíveis ‘cartas-na-manga’ da campanha de Serra para virar o jogo sobre Dilma Rousseff, na undécima hora desta campanha eleitoral.

O ridículo da ‘bolinha de papel’ camuflada de míssil em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro,  foi arquitetado para manter o foco em possível ‘virada’ tucana, mas o tiro saiu pela culatra e Serra empacou nas pesquisas subsequentes. Nem os mais empedernidos institutos ‘serristas’(Datafolha e Ibope) seguraram a barra e, na prática, já jogaram a toalha.

Internautas, especialistas em artes gráficas e edição de imagens, desmoralizaram a fraude urdida nos bastidores da TV Globo, grosseiramente confeccionada ao arrepio dos avanços tecnológicos que permitiriam seu desmonte com relativa facilidade.

 Até o provecto perito Molina, que fez carreira nos anos de chumbo, assinando laudos transformadores de assassinatos por tortura, nos Doi-Codi da vida, em mortes por ‘causas naturais’, foi alvo de chacota ao ‘descobrir’, no precário vídeo de um celular,  a imagem borrada de um rolo de fita-crepe que teria atingido o candidato do PSDB.

Nem os panfletos apócrifos, sabidamente originários de sacristias nada ‘católicas’, vinculando  a candidata do PT a um suposto ideário ‘abortista’, provocaram o(perverso) efeito desejado. Muito menos a súbita e generalizada devoção do tucano a todos os santos, às onze mil virgens e ao séquito de querubins e serafins. Em sua onisciência,  Deus com certeza castiga a mentirosa conversão de última hora. Implacáveis, os números  das intenções de votos confirmam a justiça dos céus.

Nem a obstinada canalhice da Folha de São Paulo, ao reivindicar ao Superior Tribunal Militar direito de acesso ao inquérito a que Dilma Rousseff foi submetida mais de trinta anos atrás pelo regime autoritário, alegando presumido ‘interesse público’ no conhecimento do draconiano processo, logrou o resultado que a imprensa golpista desejava.

Impingiram à presidenciável do PT a ‘suspeita’ de ser(sinta você a abjeção do termo) ‘praticante do lesbianismo’, trazendo a modorrenta discussão da homossexualidade para o horário eleitoral. Igualmente não colou esse preconceito homofóbico ruminado nos ‘linving-rooms’ das mansões dos Jardins, coração da elite na paulicéia desvairada.

Há quilométrica lista de denúncias bombásticas, explicitada pelo saudável bom-humor da  blogosfera, que poderiam obter repercussões midiáticas, pretensamente capazes de inviabilizar a candidata governista: “Foi Dilma quem inventou o trabalho na segunda-feira!”,  “Médico de Michael Jackson, acusado de aplicar overdose de calmantes no astro ‘pop’, era filiado ao PT!”, “Foi Dilma(e não Pedro) quem negou Jesus três vezes nas ruas de Jerusalém!”, “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? A Folha apurou que Dilma sabe, mas sonegou a informação à sociedade!”

Agora, às vésperas do pleito em segundo turno, eis que, no Vaticano, diante de uma delegação de bispos brasileiros, o Papa Bento XVI exige sejam intensificadas, sem trégua,  as manifestações contra o aborto, como tema recorrente das prédicas eclesiais em nosso país. Serra adorou e saiu beijando todas e quaisquer imagens do culto católico, ‘oficiais’ ou não, do Padim Ciço do Juazeiro à Senhora da Aparecida. O eleitor, ao que parece, nem aí.

Depreende-se, salvo melhor juízo, que as artimanhas tucanas e similares, substitutas de um programa alternativo de governo para se contrapor ao atual, deverão dar solenemente com os burros n’água, a não ser que Dilma seja flagrada, por exemplo, profanando as ‘santas espécies’ ou outra heresia do gênero.

Caso se constatasse um fato ‘apocalíptico’, de todo inimaginável, Dilma Rousseff, em função da histeria provocada por um bem ensaiado ‘furor’ popular, escancarado nas ‘escaladas’ de abertura do Jornal Nacional,  seria submetida a um tribunal do inquisitório Santo Ofício, de caráter ‘ecumênico’, constituído ‘ad hoc’, entre outros, pelo bispo de Guarulhos, pelo  pastor Malafaia, além de beatos da TFP e da Opus Dei.

Como todas essas hilárias conjecturas integram minha descontraída fase ‘zen’, no pós-campanha de sacanagens  neonazifascistas da demotucanagem, só nos resta continuar a vigília para garantir o óbvio, como diria Jorge Benjor, ‘com humildade e gol’: na estratégia de comparações entre os governos Lula e FHC, de que Serra fugiu como o diabo da cruz, Dilma deverá vencer neste domingo, para assumir em janeiro de 2011 o mandato histórico de primeira presidenta do Brasil, por conta da cruzada cívica de Lula, seu ilustre cabo eleitoral.

Antônio Manoel Góes – jornalista e militante de movimentos sociais.

Rio, 30 de outubro de 2010.

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A Globo determina a (melhor) hora de nosso lazer


24/08/2010 - 9:36 -

Futebol às dez da noite das quartas-feiras e às quatro da tarde dos domingos no calor causticante do verão, para não atrapalhar o programa do Faustão. Estreia da seleção do Mano (21 horas) apenas no canal a cabo, só para quem pode, para não interferir no Jornal Nacional e na novela das oito.

E você então decide adaptar-se aos interesses da televisão, ao invés de ela se adequar a sua vida. Foi assim que a Rede Globo, com nossa aquiescência e omissão, impôs sua grade de programação à rotina do telespectador. Até um dia cair nossa ficha, impera a tese de ‘o que é bom para a Globo, é bom para o Brasil’.

Nelson Werneck Sodré, sociólogo e historiador, escreveu que “a história da imprensa é a história do desenvolvimento da sociedade capitalista”. No começo do século XX, os jornais deixaram de ser apenas ‘veículos de comunicação’ e se tornaram empresas que visavam ao lucro econômico (espaços publicitários) e também ‘simbólico’, ao se arrogarem detentores de ‘credibilidade’, publicando as notícias de interesse dos setores mais abastados da população. O rádio e, principalmente, a televisão, consolidariam mais tarde essa tutela, como modernos meios de comunicação.

Pierre Bourdier, estudioso dos mecanismos legitimadores das diversas formas de dominação social, asseverou que “as relações de força nunca se reduzem a si próprias: toda força é sequenciada por um discurso destinado a legitimar quem a exerce.” Invocar, por exemplo, a frase ‘Deus está conosco’, equivale a declarar que ‘a opinião pública está conosco’. Ao reverberar, em suas vinhetas, que ‘é mais você’, a Globo sugere ao telespectador reconheçamo-la como ‘autoridade’ e, assim, com prerrogativas para administrar nossos passos, a seu bel-prazer. Dessa forma, a hora mais conveniente para o futebol, à noite, dependerá dos ‘campeões de audiência’ da programação, preservados o Jornal Nacional e a novela das oito(que só começa às nove).

O binômio ‘mídia-opinião pública’ é, acima de tudo, uma relação de poder. Na prática, todos reconhecemos nas organizações midiáticas uma ‘autoridade’, com todo crédito, em matéria de informação.

O poder ‘simbólico’, a que aduz Bourdieu, é o ‘poder invisível’ exercido com nossa (inocente?)cumplicidade, ao abdicarmos a condição de ‘sujeitos do poder’, resignando-nos à instância de simples ‘objetos’.

Olimpíadas de Matemática

Até 2003, realizavam-se ‘Olimpíadas de Matemática’ no país, apenas com a participação de 274 mil alunos de escolas particulares, evento que, por exemplo, nos Estados Unidos, contava com 16 milhões de estudantes.

O governo Lula bancou, a partir de 2004, as Olimpíadas de Matemática das escolas públicas, que chegam, agora em 2010, à inscrição de mais de 20 milhões de jovens, com expressiva presença de estados nordestinos.

Um dos tantos motivos para o presidente, entre outros fatores, chegar aos 80% de aprovação no fim do mandato.

Serra mente (e afunda)

Ao se apropriar da paternidade dos medicamentos genéricos e da prevenção das DST/Aids, o candidato José Serra decidiu varrer do mapa os verdadeiros idealizadores desses programas.

Sobre o das DST/Aids, coube sua efetiva dinamização ao renomado professor Adib Jatene, nos governos Collor e FHC. Dos genéricos, seu idealizador foi o ministro Jamil Hadadd, falecido ano passado, no curso do governo Itamar.

Convém lembrar que o PN-DST/Aids foi elaborado pelo professor Jatene e pela doutora Lair Guerra de Macedo, com a participação dos epidemiologistas Pedro Cherques e Euclides Castilho, além dos infectologistas Luís Loure, Celso Ferreira Ramos Filho e uma equipe de colaboradores.

Coube ao ministro da Saúde do governo Sarney, Roberto Santos, em 1986, oficializar o Programa Nacional de DST/Aids, cujos primeiros núcleos de atendimento a infectados já funcionavam embrionariamente desde o ano anterior.

Quando titular da Saúde de FHC, Serra quebrou as patentes de alguns medicamentos, lançados como ‘genéricos’ no mercado, tarefa sequenciada pelos sucessores Humberto Costa e Temporão, no governo Lula. Aliás, esses programas não têm dono, tratando-se de conquistas da sociedade brasileira.

Ao se anunciar ‘pai’ de ambos, o candidato tucano comete apropriação indébita, na tentativa de sensibilizar o eleitorado. Não deu certo e corre o risco de acabar, dia 3 de outubro, em terceiro lugar na apuração do pleito presidencial, face à queda livre a que

foi atirado na atual campanha, rejeitado, inclusive, dentro de seu próprio ninho partidário. As pesquisas sobre tendências do eleitorado, diferentemente do aspirante tucano, não mentem.

Ex-comunista envergonhado

Os tempos do ‘pós-guerra fria’ ensejaram homéricas crises de identidade na maioria dos partidos comunistas europeus. Contaminados pela puxada-de-tapete de Gorbachov, que entregou a economia russa, de bandeja, às organizações mafiosas do país, tradicionais PC caíram em depressão e se decidiram por ‘adaptação’ às regras conceituais do sistema capitalista.

Convenhamos que apelos à ‘ditadura do proletariado’ e similares foram atropelados por injunções socioeconômicas ao longo do século passado. Por outro lado, planejamentos econômicos(quinquenais ou decenais) não se sustentaram diante do cerco imperialista ocidental, engendrado por Washington e subsidiado pelos coadjuvantes europeus. Estados sob férrea disciplina policial-militar tenderiam ao esgarçamento e desmonte institucional.

No Brasil, como reflexo do desbotamento do antigo tom vermelho, característico da clássica doutrina da luta de classes(que, apesar de tudo, continua bem viva nas contradições de nosso dia-a-dia), grupos do PCB pularam do barco e fundaram o PPS-Partido Popular Socialista, na sequência de polêmicas e sofismas que abalaram os alicerces do partido histórico, resgatado em parte pela instituição do PCdoB, nos idos de 1962.

Roberto Freire, pretenso guru do ‘neossocialismo’, passou a liderar o que, jocosamente, chamávamos de ‘ex-comunistas envergonhados’, na realidade um arremedo de grupamento social-democrata sem, todavia, a liderança de um Lula, do PT. Lembremo-nos de que o próprio PSDB, saído das entranhas do PMDB e seu famigerado ‘centrão’ no ‘pós-Constituinte’, chegou ao governo com FHC e se submeteu ao (des)mando neoliberalizante e coronelesco do PFL, atual DEM, época em que ACM ‘et caterva’ cavalgaram com rédea solta, de norte a sul do país.

Hoje inexpressivo e necrosado apêndice tucano, o PPS de Freire cambaleia rumo aos estertores. O ex-senador de Pernambuco, imagine, é empregado da prefeitura de São Paulo, acolhido ao tempo de Serra, onde sobrevive à custa de ‘jetons’ como ‘conselheiro’(?) em estatais vinculadas à municipalidade paulistana.

Postado por AMgóes em 24/08/2010.

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