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Realeza do açúcar

quinta-feira, agosto 11th, 2011

Não é de hoje que leigos e especialistas falam sobre os males causados pela doce, mas econômica e socialmente amarga cana-de-açúcar.

Amarga porque é muito difícil olhar para um canavial sem visualizar o engenho, a brutal figura de seu senhor, a infame senzala, o dantesco tratamento oferecido aos escravos, a constatação da absoluta predominância da matéria-prima de onde se extrai o ouro-branco, o controle da economia do nosso Estado por mais ou menos vinte e três famílias e a criação da realeza do açúcar.

Muito tempo nos separa dos idos coloniais. De lá para cá os canaviais se tornaram mais numerosos e os engenhos sumiram porque substituídos pelas usinas.

Ontem era o Senhor de Engenho em seu cavalo, o feitor e o negro na palha da cana. Hoje é o usineiro em seu jatinho olhando seus canaviais, os administradores e, na palha da cana, não há distinção de cor. Ontem, os

Senhores de Engenho marcavam seus escravos com atrozes castigos. Hoje, os usineiros deixam cicatrizes nos trabalhadores pagando por sua estafante atividade um ridículo salário.

O que, então, ganharam os moradores das regiões onde as usinas se instalaram? Enquanto a realeza do açúcar bebe whisky selo viking e degusta vinho safra “Rei Sol” em hotéis mil e uma estrelas, eles ganharam um trabalho parecido com o da escravidão, o direito de viver numa pobreza que beira a

miséria e de não ter um palmo sequer de terra para sepultar seus anônimos, mas sagrados ossos.

Além do mais, quem passar pelas regiões canavieiras verá um oceano de seres humanos destituídos de toda e qualquer esperança, com uma foice na mão, não para lutar contra aqueles que os mantêm em tão lastimável situação

(que seria o certo), mas para, cansados e esfomeados, enfrentar a palha da cana ou como animal que espera a hora de ser levado para o matadouro na beira do asfalto, aguardar o transporte que o levará para seu casebre situado

no mutirão (melhor seria chamá-lo de senzala) onde, em vez de descanso, encontrará mais dor, sofrimento e desespero por saber que não passa de um lúgrebe fantasma que vaga sem rumo na escuridão da noite, pois para ele

não há luz no fim do túnel.

Foi Octávio Brandão em sua poesia “Ao Trabalhador de Enxada”, publicada em 1919, quem denunciou o abandono e pregou a liberdade (revolta armada?) para os que possuem tão triste sina, lamentável fadário e doloroso

estigma.

Octávio Brandão! Ó, Filho Exilado! Ó, Ancestral de meus Ancestrais! Ó, Ermitão da Saudade! Se “neste País existe uma Pátria”, onde está a Pátria?

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS

Professor da UFAL

04.03.2011

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Venha, presidente

quarta-feira, julho 27th, 2011

A presidente Dilma Rousseff vem a Alagoas para lançar,  dia 25 de julho, na cidade de Arapiraca, o Programa “Água para Todos”. Mais uma viagem. Um Programa do projeto “Brasil sem Miséria”. Mais uma tentativa de tirar da miséria um povo que vive e morre na miséria.
Venha, Presidente, não para passear em nossas praias, andar em nossos bosques e beber da Fonte da Juventude, mas para admirar as “CRISTALINAS” águas do Salgadinho, ficar atônita com a devastação das matas, a poluição dos rios e nascentes e, por isso, chorar com a morte da fé em melhores dias vindouros.
Venha, Presidente, não para ficar impressionada com o verde dos extensos canaviais e com as gigantescas colméias que produzem o financeiramente doce ouro branco dos donos da economia do Estado, mas para pisar no solo que outrora foi ensopado com o sangue daqueles que lutaram pela liberdade e pelo direito a vida e assim, sentir diante da sofrida história de nossa terra, a obrigação de se redimir fornecendo os meios necessários para que se aumente o poder dos fracos.
Venha, Presidente, não para se hospedar e proteger nos castelos fortificados que pertencem à Realeza do Açúcar, mas para ver o tamanho das casas construídas com verba pública para as famílias brasileiras vítimas do sistema ou desabrigadas pelas intempéries, ouvir o clamor daqueles que perderam seus entes queridos devido a violência que campeia sem controle pelo Estado e o canto triste dos ébrios indigentes que nas madrugadas frias se desfazem em pranto porque a cheia levou sua residência e apesar das promessas ele e sua família ainda moram num desprezível abrigo ou barraco de lona.
Venha, Presidente, não para se alimentar com iguarias afrodisíacas, se contentar com o comum falatório dessas ocasiões ou coroar o rei ou a rainha da Realeza do Açúcar, mas para externar sua perplexidade por saber que a terra da “Tróia Negra” continua sendo manobrada pela classe contra a qual milhares de palmarinos morreram lutando, se nutrir, como a grande maioria dos alagoanos, de um punhado de farinha azeda e um taco de “pior-sem-ela” e, se joio houver em meio ao trigo, instalar a guilhotina em praça pública para ceifá-lo.
Venha, Presidente, mas não traga seu Conselho Médico para lhe atender em caso de necessidade. Deixe para ser atendida pela Saúde Pública onde é mais fácil ir de joelhos ao Juazeiro de meu “Padinho Ciço” pagar uma promessa porque se curou, do que pegar uma ficha de atendimento com rapidez e ser atendido sem que se tenha a paciência do profeta Jó.
Venha, Presidente, conhecer o único Estado da Federação que parou no tempo, pois permanece no Ciclo do Açúcar, ou seja, ainda mantém milhares e milhares de trabalhadores e grande parte de sua economia sob o tacão das botas de mais ou menos vinte e três privilegiadas famílias, e constatar que onde existe o culto ao latifúndio e a vassalagem à monocultura da cana de açúcar, os ricos ficam mais ricos, os pobres, miseráveis e os miseráveis, vivos ou moribundos, esquecidos, por mais úteis e nobres que um dia tenham sido.

Aloisio Vilela de Vasconcelos
Professor da UFAL

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