No último 22 de julho, ficamos distantes da sádica e brutal morte de Domingos Fernandes Calabar, trezentos e setenta e um anos.
Calabar foi uma das figuras mais polêmicas de Alagoas não só porque foi o primeiro alagoano a ser o alvo, em 1º de abril de 1634, da primeira tentativa de crime de mando, mas, principalmente, devido à posição que tomou entre 20 de abril de 1632 e 22 de julho de 1635, durante a guerra da Companhia Privilegiada das Ãndias Ocidentais contra a União Ibérica.
Quase quatro séculos se passaram e a mudança “de lado†de Calabar ainda continua uma incógnita porque ainda não nos chegou, de forma documentada a contento, o verdadeiro motivo de sua oscilação pró-flamengo. Isto, no entanto, não impede que tentemos fornecer uma versão que se aproxime do cerne do problema. Não aceitar, é sustar a imaginação criadora que, em muitos casos, nos conduz a concepções muito próximas do que houve.
Calabar se orgulhava de ser um brasileiro, alagoano, porto calvense que amava a tranqüilidade de nossos bosques, a fartura de nossa fauna, a fragosidade da nossa flora, a fertilidade de nosso solo e a exuberância de nossos rios. Era respeitado, considerado de muita importância e corajoso, porque lutava com bravura e não tinha medo de se expor e ser ferido, como ocorreu em 14 de março de 1630.
Após a invasão holandesa Calabar, como exÃmio militar, tinha conhecimento da situação gravÃssima da Capitania de Pernambuco, pois sendo amigo de Matias de Albuquerque, sabia da precariedade bélica-contingencial das forças ibéricas e que sem resposta ficavam os repetidos pedidos de socorro enviados a metrópole. Como homem de caráter férreo, não admitia este descaso e, a partir daÃ, começou a pensar em tomar uma atitude que forçasse as autoridades da União Ibérica a defender sua Pátria. Não interessava se com esta atitude teria sua reputação manchada, sua famÃlia perseguida, seus bens confiscados ou perderia a própria vida.
Como cristão, conhecia a célebre frase de Caifás sobre a morte de Jesus: “Vós de nada entendeis. Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?â€.
Decidido a morrer pela Pátria e forçar a União Ibérica a valorizar o Brasil, em 20 de abril de 1632, Domingos Fernandes Calabar, profundo conhecedor das intrincadas veredas da vastÃssima região cobiçada pelos invasores, mudou de lado e decidiu ajudar a até então inerte máquina de guerra holandesa a conquistar a nova Terra Prometida.
Devemos, então, manter Calabar onde está, isto é, não considerá-lo autor e agente de um plano sem precedentes, ou beatificá-lo e canonizá-lo politicamente, ou seja, reconhecer a beleza heróica de sua atitude?
Com a palavra as autoridades polÃticas e culturais de Alagoas.
ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS
Professor da UFAL
02.08.2011

