Eu estava em Viçosa, minha querida “Pátria de nascimento”. Como sempre, sozinho no casarão de meus saudosos pais. O crepúsculo havia passado e a noite já cobria a cidade. Apesar da artificial claridade, ainda via-se
o belíssimo cintilar dos milhões e milhões de estrelas que povoavam o céu.
Naquela noite, apesar de minhas preocupações com o conserto das profundas cicatrizes do Velho Casarão,
tinha assumido, com um grupo de jovens interessados em histórias e “estórias”, um compromisso.
No exato momento em que tentava abrir a porta do carro vejo, do outro lado da rua, passar na calçada um grupo de pessoas humildes e vestidas de maneira simples, porém decente.
Um fato me chamou a atenção: notei que a grande maioria levava consigo uma Bíblia. Parei de tentar abrir a porta do carro e, imóvel, fiquei a olhar para aquele grupo de
pessoas que, sem nenhum barulho, caminhava silenciosa e
apressadamente. Logo descobri que além de pertencer, se
dirigia para determinada Igreja. Eu não sei o que houve, mas a verdade é que “algo” fez com que eu mudasse o meu endereço de ida, pois em vez de ir para onde me esperavam, decidi ser o meu destino o mesmo daquelas pessoas. Por isso, vagarosamente e a certa distância, segui-as.
Lá no final da Rua Frederico Maia, antiga Rua do Juazeiro, do lado esquerdo, no sentido numérico crescente, elas, e logo após eu, adentramos na Igreja.
Eu não queria chorar, mas durante o transcorrer da singela cerimônia, me emocionei e não houve como impedir que pelos cantos de meus olhos escorresse pesados pingos de lágrimas, que por virem do que existe de mais sagrado em meu íntimo, rolaram e queimaram minha face, assim como a lava de um vulcão tudo incinera por onde passa. Emocionei-me, com a fé inaudita dos que ali estavam (acho até que com relação a este ponto podiam me acusar de ter cometido um dos sete Pecados Capitais:
a Inveja); com a seriedade, autenticidade, e solidariedade dos participantes; com a ternura, o amor e o respeito que se faziam evidentes; com aqueles que, com os olhos mais parecendo com duas gigantescas catadupas, não tinham
vergonha de, no meio de todos, repentinamente, caírem de joelhos, dizer que acreditavam em JESUS, reconhecer que tinham pecado e pedir perdão; com os belíssimos cânticos dos coros formados pelos adolescentes e adultos; com a pregação simples, mas firme e substanciosa de quem naquela feliz noite dava explicações; finalmente, com o poder místico formado e o perfume exalado pela totalidade do conjunto. Por Deus, ali não existia Trevas, só Luz.
No entanto, tudo isto ocorria num ambiente onde reinava uma sublime simplicidade: o local onde a Igreja situava-se, sua arquitetura, seu mobiliário, os fiéis, pois não vi ninguém, absolutamente ninguém, elegantemente
vestido(a), exuberantemente adornado(a), fuxicando ou exibindo-se, nenhum rico ou “brasão”, seja sentado ou de pé e, principalmente, nem sacos de ouro ou de prata.
A inexistência de ouro, de prata e de poderosos (onde há poderosos dificilmente deixa de existir também “espadas”), me fez lembrar uma das mais belas canções do Cristianismo. Uma canção que a minha santa mãe, Irene Vilela de Vasconcelos, e Tia Quinha (Irmã Francisca Brandão Vilela), sempre cantavam e eu, emocionado e com os olhos rasos d’água, ficava a escutar. Uma canção que foi cantada – e eu chorei – quando o negro véu da morte envolveu minha irmã Sílvia. Uma canção que em mim fez explodir o pranto, quando a cantaram por ocasião do falecimento de meu amigo Ricardo Mata.
Seu nome é a “A Barca”. Foi composta pelo Padre Cesáreo Gabaraín e quem, belissimamente, a interpreta, é o Padre Zezinho.
Diz a letra:
Tu te abeiraste na praia
Não buscaste nem sábios, nem ricos
Somente queres que eu te siga…
Senhor, Tu me olhaste nos olhos
A sorrir, pronunciaste meu nome
Lá na praia, eu deixei o meu barco
Junto a Ti, buscarei outro mar
Tu sabes bem que em meu barco
Eu não tenho espadas nem ouro
Somente redes e o meu trabalho…
Senhor, Tu me olhaste nos olhos
A sorrir, pronunciaste meu nome
Lá na praia, eu deixei o meu barco
Junto a Ti, buscarei outro mar
Tu, minhas mãos solicitas
Meu cansaço, que a outros descansem
Amor que almeja seguir amando…
Senhor, Tu me olhaste nos olhos
A sorrir, pronunciaste meu nome
Lá na praia, eu deixei o meu barco
Junto a Ti, buscarei outro mar
Tu, pescador de outros lagos
Ânsia eterna de almas que esperam
Bondoso amigo, assim me chamas…
Senhor, Tu me olhastes nos olhos
A sorrir, pronunciaste meu nome
Lá na praia, eu deixei o meu barco
Junto a Ti, buscarei outro mar
Junto a Ti, buscarei outro mar
Junto a Ti, buscarei outro mar
Junto a Ti, buscarei outro mar
Me fez lembrar que foi devido a míseras trinta moedas
de prata que Aquele que tinha o poder de perdoar os
pecados, de curar os leprosos e paralíticos, de restituir a
visão aos cegos e de ressuscitar os mortos, foi traído.
Ouro e prata, SENHOR! Sempre ouro e prata! Tantos
com tanto ouro! Tantos com tanta prata!
Tantos sem uma casa para morar, sem um lugar para
dormir e sem ter o que comer! Tantos sem nada!
Absolutamente, nada!
São tantos, SENHOR, os que devido aos cruéis
sofrimentos causados pelas perigosas curvas da vida
perderam a fé, deixaram de crer e esqueceram a Tua
doutrina! Como são tantos!
SENHOR, eu não queria chorar, mas Vós que
dissestes que “As raposas têm tocas e as aves do céu,
ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a
cabeça”, chorando, Te peço: socializa a riqueza para que
todos os Teus filhos não mais se sintam materialmente
desamparados, mas lembra-Te de socializar também a
espiritualidade para que eles possam crer, ter fé e praticar
o que ensinastes.
ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS
Professor da UFAL
18.01.2010

