1. NASCIMENTO E CRIAÇÃO.
Conta-se em duas cartas que existiam na casa da marquesa de Cadaval e que felizmente “foram copiadas em 1978, a pedido do historiador Décio Freitasâ€, antes que fossem “roubadas por um pesquisador disfarçado de paralÃtico em cadeira de rodas†que, quando Francisco Barreto era governador da Capitania de Pernambuco, Brás da Rocha Cardoso, em 1655, comandou uma expedição punitiva aos Palmares.
Em determinado quilombo, que se desconhece o nome e a localização foram, como sempre, efetuadas algumas prisões. Entre os prisioneiros, constava uma criança negra recém-nascida. Esta criança foi entregue a um padre chamado Antônio de Melo que, movido pela compaixão, batizou-a com o nome de Francisco – talvez porque seu batismo tenha se realizado no dia destinado a este Santo. Criou-a, educando-a nos moldes destinados exclusivamente aos filhos brancos dos poderosos senhores de engenho, ensinando-a a falar português e latim e, inclusive, tornando-a seu coroinha.
Tudo isto aconteceu nas colinas verdejantes de Porto Calvo, de onde se ouvia o cantar das aves e o som guerreiro dos tambores dos quilombos nas florestas dos Palmares.
Bela história! Mas, não parece uma lenda?
2. A FUGA
Numa bela noite de luar de 1670, “Franciscoâ€, ainda com quinze anos, tomou uma decisão inaudita: abandonou a vida sossegada e cheia de paz sob a proteção da Igreja e internou-se nas matas dos Palmares onde não havia nada para ele, a não ser a dor, a guerra e o sofrimento.
Por que esta decisão? Simplesmente porque ela obedecia ao irrecusável chamado dos deuses africanos, encarnava sua revolta contra as injustiças praticadas e atendia ao secular clamor de seus semelhantes massacrados na zona urbana e rural sem nenhuma piedade.
3. DE COROINHA A ZUMBI
Sem uma alta dose de especulação, é impossÃvel imaginar o que aconteceu no perÃodo compreendido entre a fuga de Zumbi e a morte de Ganga Zumba.
Ao chegar num dos muitos quilombos que constituÃam a região conhecida como Palmares, Francisco ficou horrorizado e terrivelmente frustrado. Horrorizado com as conseqüências da guerra, o sofrimento, a fome e a falta de esperança dos palmarinos, seu povo. Observou que o desespero era maior porque apesar do clamor, os deuses ainda não tinham enviado alguém que soubesse liderá-los contra as constantes invasões dos brancos deixando, portanto, de ouvir as suas preces e atender os seus pedidos. Frustrado, porque para lá tinha se dirigido com o objetivo de explicar que vivemos num planeta onde há espaço para todos e que nossa missão aqui não é competir nem nos digladiarmos, mas nos ajudarmos mutuamente e convivermos harmoniosamente; que também tomara conhecimento da doutrina pacifista Daquele que teve a coragem de sacrificar sua própria vida na cruz para ensinar ao mundo que as verdadeiras revoluções são aquelas que se processam “dentro de nós mesmos†ao praticarmos o amor ao próximo; as efetuadas através da violência, além de regadas com um banho de sangue, são efêmeras e caracterÃsticas de bárbaros; que somos diferentes dos animais porque enquanto vivos somos dotados de uma alma que ao morrermos transforma-se em espÃrito e será ele o julgado perante o Tribunal Divino segundo nossas atitudes em vida e, finalmente, que os verdadeiros laços familiares não são os estabelecidos pela consangüinidade, pois perante Deus o que torna um ser humano irmão do outro é a ligação espiritual e não a consangüÃnea, ou seja, os verdadeiros irmãos são aqueles que estão unidos espiritualmente e não consanguineamente porque entre irmãos espirituais não há inveja, disputa, rancor, brigas e mortes. Mas, diante de tanta miséria, calou-se e, mudo, chorou. As lágrimas que rolaram de seus olhos eram iguais a gigantescas catadupas e por virem do fundo de sua alma, queimaram-lhe a face como a lava de um vulcão que, por onde passa, tudo incinera deixando a marca da destruição e da devastação. Houve, então, uma brusca mudança na personalidade do coroinha e aà o chamado dos deuses africanos foi muito mais poderoso. Começou, então, a falar. Todos pararam para escutá-lo. Em pouco tempo reconheceram que estavam diante de um lÃder nato, de alguém virtuoso e hábil que convencia e dominava pela firmeza e coragem. De um guerreiro por vocação, pois sentiram que sua função era liderar as grandes lutas que salvariam seus semelhantes da escravidão. Atônitos, entreolhavam-se e perguntavam-se: “Os deuses, por fim, ouviram nossas preces? Será que estamos diante do escolhido?â€.
Tinham de ter certeza que ele era, realmente, o enviado. Para isto, tornava-se imprescindÃvel a realização do ritual apropriado: aquele que tem a finalidade de liberar o que está contido em outras dimensões, ou seja, o bem ou o mal. Este ritual só podia ser realizado com a autorização do Conselho porque o voluntário corria sério risco de vida: se não fosse o escolhido podia morrer, pois uma ou mais entidades africanas seriam invocadas e através dele se manifestariam. A energia oriunda de sucessivas possessões seria fatal.
Reuniram o Conselho. Depois de horas e horas de calorosas discussões, a permissão foi concedida. Relataram, minuciosamente, ao jovem Francisco tudo o que poderia ocorrer. Diante de um quadro de tanta calamidade ele, que aos olhos de todos representava a esperança, concordou em atender o apelo dos anciões e se submeter ao perigoso ritual. Levaram-no, acredito, para o espaço litúrgico circunscrito a Cachoeira da Serra dos Dois Irmãos.
Para eles, um lugar de mistério: visto e visitado por vivos e mortos. De sonhos e pesadelos. Um lugar onde se processam as inversões. De pesadelos que são sonhos e sonhos que são pesadelos. De escuridão e claridade espiritual. De encontro do divino com o humano, do espÃrito com a matéria, do sagrado com o profano. Onde há desejo e repúdio. Ódio e amor. Desespero e esperança. Vingança e perdão. Onde as auroras e os dias são escuros e as noites e os crepúsculos são claros. As sombras rondam a claridade e as trevas penetram na luz. Onde o IntangÃvel é tangÃvel e a morte é vida e a vida é morte. Com certeza, um portal interdimensional. Um local onde o Universo, como uma donzela que no cio fica nua, mostra suas belas formas e não permite que saiamos de dentro de si até que a saciemos completamente, despe-se e mostra sua verdadeira natureza: a ondulatória e corpuscular, ou seja, a andrógina, a masculina e feminina. Levaram-no para lá, porque na época, circundavam-na gigantescas florestas, existia abundância de águas cristalinas, grande diversidade de caça e muita rocha. Elementos essenciais para a manifestação de formas de vida superiores que, por viverem em outra dimensão de espaço e tempo, iriam indicar qual o seu destino.
Para identificar, agradecer e satisfazer os “Protetores†que se fariam presentes prepararam vários tipos de obás, incluindo espécies vegetais, e escolheram muitos animais e aves para o sacrifÃcio. Iniciaram o ritual. Nos instantes seguintes, viram o jovem Francisco contorcer-se e debater-se violentamente. Utilizar, a princÃpio, uma linguagem diferente de tudo o que até então tinham ouvido, tinham escutado. Ele estava totalmente possuÃdo.
Consumada a possessão, reinou a calma. Após olhar para todos, dirigiu-se à s oferendas. Naquele momento, ele escolheu inhame, axoxó, arroz, milho com coco, feijão, bode, miúdos de boi, galo, guiné, cachaça, pimenta e sal. Quem estava ali era OGUM e OXÓSSI. O primeiro era considerado o temÃvel “Senhor do Ferro e da Guerra†e o segundo, o “Rei das Florestas Tropicais e Protetor da Faunaâ€. Fizeram, então, as respectivas saudações: “Ogunhêâ€! “Okêâ€!
Algum tempo depois, quando pensavam que tudo havia terminado, para espanto de todos, o corpo de Francisco ficou exânime. De repente, novamente “Francisco†entra em violento transe. Vira-no desafiar a gravidade, isto é, levitar, modificar a tonalidade da voz e o próprio fÃsico e dirigir-se aos sacrifÃcios. Desta vez, ele escolheu o amalá, o carneiro, o cágado, o galo e o pato.
O orixá presente era XANGÔ, o temÃvel “Senhor da Justiçaâ€. Temerosos e cheios de espanto, o saudaram: “Kawó-Kabyesiléâ€!
Francisco foi, por determinação dos orixás, “rebatizado†com o nome africano ZUMBI. Nome que, em quibundo, designava alguém imortal. O ápice da cerimônia foi atingido quando OGUM, OXÓSSI e XANGÔ entregaram a Zumbi suas armas pondo sobre seus ombros a responsabilidade de, a qualquer preço, defender os marginalizados, oprimidos e excluÃdos e, principalmente, quando repassaram para ele parte de seus poderes sobrenaturais, ato que simbolizava a imortalidade de sua luta.
Como receptor, ele tornara-se um poderoso acumulador de forças oriundas de formas de vida cuja existência pertence a outras dimensões. Como todo acumulador, todo o poder estava reunido e estocado nele. Não demoraria muito para que a manifestação desta energia se fizesse visÃvel. Zumbi tinha se tornado o guerreiro da vingança, o guerreiro da justiça. Vingança exige derramamento de sangue. Exige morte. E isto vai de encontro ao sentido da criação. Mas, o que fazer? Ele não viveria com nenhum drama de consciência porque foram “Forças Superiores†que decidiram o seu destino. Com o novo batismo, Francisco estava morto para o mundo dos brancos, porém mais vivo do que nunca para os de sua raça. A notÃcia rapidamente se espalhou e os quilombos comemoraram com intermináveis festas e renderam as mais justas homenagens ao primeiro guerreiro escolhido pelos seus deuses para regê-los e governá-los.
Pode parecer fantasia, mas esta, como veremos, é uma das explicações possÃveis para a sua rápida ascensão.
Os palmarinos, no entanto, tinham um rei. Apesar de ser o escolhido, OGUM, OXÓSSI e XANGÔ ordenaram, expressamente, a Zumbi que não fosse de encontro à hierarquia vigente a não ser que algum fato anormal acontecesse.
Eis o verdadeiro “por que†de seu silêncio. O verdadeiro “por que†durante anos ele manteve-se, pode-se dizer, em total anonimato.
Ganga Zumba, o rei, ficou alarmado quando soube que o motivo daquelas infindáveis comemorações se devia a escolha divina de outra pessoa para ocupar seu lugar. Não tinha coragem para ir de encontro à vontade dos deuses. Mas podia criar situações, mesmo que fossem as mais vergonhosas, para continuar mantendo o status real. A gota d’água caiu quando, devido a expedição comandada por Fernão Carrilho em 1677, com medo de Zumbi, propositadamente, aceitou negociar a paz. O golpe de misericórdia em sua vida ocorreu devido à assinatura do Pacto de Cucaú.
Por ter sido escolhido por entidades que pertencem a outro nÃvel de existência, seu nome e destino tornaram-se inseparáveis. Cedo, iniciou sua árdua jornada. Cedo, muito cedo, mostrou o seu valor e obteve suas primeiras vitórias vencendo os mais experientes comandantes de expedições antipalmarinas.
4. PERIODIZAÇÃO.
Hoje o “ouro negro†do mundo ocidental é o petróleo. Na época de Zumbi o “ouro negro†era o negro arrancado da Ãfrica que, aqui transformado em escravo, era utilizado para produzir o “ouro branco†que servia para enriquecer cada vez mais uma minoria de psicopatas que se consideravam acima da lei, acima do bem e do mal, inatingÃveis. Foi contra isto que Zumbi se rebelou.
O “Tigre dos Palmares†não foi um conde, um prÃncipe ou um rei imaginário envolvido em façanhas mitológicas. Ao contrário, foi um escravo, ou seja, um ninguém, com certeza filho de outro ninguém que viveu numa época em que o ódio e a violência causada pela discriminação racial tinham alcançado o seu ápice.
No entanto, ele não foi um resignado, pois lutou, até o seu sádico assassinato, com todas as suas forças contra este nefasto preconceito que destrói a autoestima, causa a exclusão social e torna o ser humano um estigmatizado. É justamente isto que o faz ainda mais merecedor de admiração.
Com base na documentação existente, é possÃvel dividir sua participação na história de Palmares em três perÃodos: o “pré-históricoâ€, o “proto-histórico†e o “históricoâ€.
O perÃodo “pré-histórico†inicia com o seu nascimento que na “versão oficial†se deu possivelmente em 1655, num dos inumeráveis quilombos que existia no imenso território de Palmares e finda com a primeira referência a seu nome que, segundo Décio Freitas, ocorre quando ele, com apenas 17 (dezessete) anos, derrota Antônio Jácome Bezerra, em 1672.
O perÃodo “proto-histórico†abrange os anos compreendidos entre 1672 e o Pacto de Cucaú, isto é, o final de 1678. Ele é caracterizado por testemunhos escritos escassos e brevÃssimas alusões as suas ações. Em todo este perÃodo, sobre Zumbi, existe apenas na “Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do Governador D. Pedro de Almeida, de 1675 a 1678â€, menção ao “Quilombo de Zumbi†e a informação de que numa expedição anti-palmarina comandada por Manuel Lopes Galvão, “se feriu com uma bala o general das armas, que se chamava Zumbi, que quer dizer deus da guerra, negro de singular valor, grande ânimo e constância rara. Este é o espectador dos mais, porque a sua indústria, juÃzo e fortaleza aos nossos serve de embaraço, aos seus de exemplo. Ficou vivo, porém aleijado de uma pernaâ€.
O Pacto de Cucaú foi radicalmente rejeitado porque Zumbi além de não confiar no verbo e na escrita das autoridades portuguesas não aceitava viver em liberdade sabendo, que tanto na zona urbana quanto na rural da Capitania de Pernambuco, a honra de milhares e milhares de homens e mulheres de sua cor e oriundos de sua amada Pátria, continuava a ser maculada através do instituto da escravidão. Isto era inadmissÃvel. Foi contra isto que ele lutou até derramar a última gota de seu sangue. Foi por causa disto que ele permaneceu nas florestas dos Palmares.
É a partir daà que as fontes históricas referentes à sua pessoa são numerosas e a grande maioria das informações corretas e confiáveis.
Começa, portanto, o perÃodo “histórico†de sua conturbada vida que se caracteriza pelas inúmeras vitórias impostas aos seus adversários e termina com o seu sádico assassinato.
5. ZUMBI: ÚNICO CHEFE DE PALMARES
O “perÃodo histórico†coincide com o inÃcio da fase adulta de sua vida
e encontra-se fartamente documentado. Após a rejeição do Pacto de Cucaú toma, em 1680, com apenas vinte e cinco anos, providências para eliminar, a peçonha, Ganga Zumba, considerado o maior traidor da causa palmarina.
Até aqui – desconheço outras interpretações – todos vêem a morte de Ganga Zumba como a eliminação de um dos principais adversários de Zumbi.
Tudo bem. Isto é um fato e, como diz o velho ditado popular, “contra fatos não há argumentosâ€. Mas, será que a importância deste acontecimento reside unicamente nisto? Acho que não. Eu não vejo somente desta maneira o seu assassinato. Não vejo porque parei para pensar no que foi utilizado para destituÃ-lo da condição humana: a peçonha, ou seja, o veneno de cobra. De qual serpente extraÃram o veneno que o vitimou, eu não sei. De uma coisa, porém, estou certo: serpentes altamente venenosas não constituÃam nenhum problema, pois nas selvas dos Palmares elas simplesmente superabundavam. Também não sei como fizeram para que Ganga Zumba, um homem super-experiente, se contaminasse com o veneno. Não sei se o colocaram em sua comida, bebida, se foi ferido por uma flecha, lança, arma branca ou o atingiram com algum tipo de arma de fogo cujo projétil continha o lÃquido da morte.
Estou absolutamente convencido de que a morte de Ganga Zumba à peçonha foi muito mais do que a eliminação de alguém cuja ingenuidade o fez
acreditar no verbo e na escrita das autoridades portuguesas, pois indubitavelmente, ela levanta duas questões importantÃssimas: a do planejamento e, como conseqüência, a da possÃvel existência em Palmares de outros grupos que influenciaram as atitudes de Zumbi, punindo a tolerância e o colaboracionismo com os supercivilizados da época com a morte prevista por seus deuses.
Zumbi sabia que sua ascensão encontraria tenaz oposição dos que apoiaram a decisão do Pacto de Cucaú. Visando eliminar resistências e tornar conhecido o primeiro estágio da reforma que pretendia realizar resolveu fazer da autoridade suprema de Palmares um exemplo mandando matá-lo da maneira mais terrÃvel: à peçonha.
Só que este era um procedimento perigoso, pois exigia pessoas que possuÃssem certas habilidades, como, por exemplo, a de conhecer os locais onde se encontravam as serpentes extremamente venenosas e saber extrair o seu veneno.
Quem seriam estas pessoas? Não posso imaginar outras senão aquelas que, mesmo sem serem bantos, fugiram para os Palmares porque estavam unidas pelo mesmo destino: o sofrimento fÃsico e a humilhação causada pela escravidão.
Aquelas que respeitavam, tratavam com carinho e pretendiam usar os atributos de Dan, isto é, qualquer que seja a cobra para conseguir seus objetivos e que prestavam culto a grande serpente. Aquelas que adoravam e colocavam oferendas para Dangbê (Fig. 01), a serpente sagrada: os escravos
oriundos de Daomé, atual Benin. Uns dirão: como pode ter acontecido isso se Dangbê é a “pÃton sagrada†e aqui ela nunca existiu? Isso não constitui nenhum problema, porque nada impede que na falta dessa espécie eles tenham utilizado outras com caracterÃsticas aproximadas, como por exemplo, uma gigantesca jibóia ou mesmo a sucuri.
ImpossÃvel existir uma cobra tão gigantesca?
Permitam-me conceder a palavra a Afonso de Escragnolle Taunay em seu “Zoologia Fantástica do Brasil†(séculos XVI e XVII). Diz Taunay, citando Gabriel Soares:
“E um Jorge Lopes, almoxarife da capitania de S. Vicente, grande lÃngua e homem de verdade, afirmava que, indo para uma aldeia do gentio no sertão, achara uma cobra destas, no caminho, que tinha liado três Ãndios para os matar, os quais livrara deste perigo ferindo a cobra com a espada por junto da cabeça e do rabo, com o que ficou sem força para os apertar, e que os largara; e que acabando de matar esta cobra, lhe achara dentro quatro porcos, a qual tinha mais de sessenta palmos de comprido; E junto do curral de Garcia de Ãvila, na Bahia, andavam duas cobras que lhe matavam e comiam as vacas, o qual afirmou que adiante dele lhe saÃra um dia uma, que remeteu a um touro, e que lhe levou para dentro de uma lagoa; a que acudiu um grande lebréu ao qual a cobra arremeteu e engoliu logo; e não pode levar o touro para baixo pelo impedimento que lhe tinha feito o lebréu; o qual touro saiu acima da água depois de afogado; e afirmou que neste mesmo lugar mataram seus vaqueiros outra cobra que tinha noventa e três palmos e pesava mais de oito arrobas; e eu vi uma pele de uma cobra destas que tinha quatro palmos de largo.
Estas cobras têm as peles cheias de escamas verdes, amarelas e azuis, das quais tiram logo uma arroba de banha de barriga, cuja carne os Ãndios têm em muita estima, e os mamelucos, pela acharem muito saborosa.â€
Comenta Taunay:
“Sessenta palmos, é bom notá-lo, são quase treze metros; noventa e três palmos, exatamente vinte metros e quarenta e três centÃmetros.
TerrÃvel era a cobra aquática boiúna cujas fauces tal elasticidade tinham que um homem, adulto, por elas passava sem sofrer constrição alguma! E depois de engolidas a matavam estas vÃtimas deglutidas.â€
Continua Taunay, com o texto de Gabriel:
“Boiúna, afirma, é outra casta de cobras, que se criam na água, nos rios do sertão, as quais são descompassadas de grandes e grossas, cheias de escamas pretas, e têm tamanha garganta que engolem um negro em o tomarem, em tanto que quando o engolem ou alguma alimária, se metem na água para o afogarem dentro, e não saem da água senão para remeterem a uma pessoa ou caça, que anda junto ao rio; e se com a pressa com que engolem a presa se embaraça, com o que não pode tornar para água donde saiu, morre em terra, e sai-se a pessoa ou alimária de dentro viva; e afirmam os lÃnguas que houve Ãndios que estas cobras engoliram que estando dentro da sua barriga tiveram acordo de as matar com a faca que levavam dependurada ao pescoço, como costumam!â€
A estas informações acrescento apenas um comentário: os relatos sobre a existência de cobras gigantescas, como as acima citadas, continuam até hoje. Para mim, isto basta. Estou satisfeito.
Figura 01: Dangbê a gigantesca serpente sagrada
Outros, talvez, digam: se há um mÃnimo de fundamento nestas informações, porque então até agora não foi encontrada nenhuma prova do “Culto da Serpente†em Alagoas? Eu respondo: não é isto o que nos informa o trabalho “Sobrevivências do Culto da Serpente†(DÃNH-GBI NAS ALAGOAS) de Abelardo Duarte, publicado as páginas 60/67, da Revista do Instituto Histórico de Alagoas, Volume XXVI, Anos de 1948/49/50, pois o mesmo reproduz dois artefatos: o primeiro “uma pulseira de filha-de-santo, de latão, representando uma cobra enrodilhada, terminando nas duas extremidades em cauda e cabeça, sendo esta finamente trabalhada e os olhos formados por contas vermelhas†(Fig. 02).
Figura 02: Amuleto em forma de cobra
O segundo ainda de acordo com o autor, trata-se de uma “peça de ferro (22 centÃmetros de altura), constituÃda de três lanças e duas foices enlaçadas por uma serpente, na extremidade inferior, tendo uma pequena base ou suporte quadrangular†(Fig. 03).
Figura 03: A serpente protege as armas
Como se vê, a existência desses dois importantes artefatos, que “datam de mais de um séculoâ€, pertencentes a “Coleção Perseverança†vem, de certa maneira, corroborar a segunda hipótese.
Num mundo que órbita em torno de rigorosos Protetores, nada é feito sem a sua permissão. Portanto, para se colocar em prática tão elaborado plano, teriam que obter o seu consentimento e por isso realizavam sem cessar, no lugar onde se oferecia sacrifÃcios a Dangbê, os rituais apropriados para que eles aparecessem e aprovassem o que pediam. Esta era a única esperança. Certa vez, após realizarem os costumeiros ritos, viram as nuvens repentinamente enegrecerem, serem iluminadas por tremendos relâmpagos, fortÃssimos raios e o solo estremecer devido ao violento ribombar dos trovões. Notaram espantados,que se abrira uma enorme fenda no continuum espaço-tempo. De repente, sem saberem como, sentiram uma presença que aos poucos foi se materializando: era ele, um dos Guardiões da Eternidade, o Protetor de Dangbê e de Dan (Fig. 04). A princÃpio ficaram amedrontados, depois atemorizados, em seguida, fascinados com aquela imagem espantosa e por fim, aliviados e imensamente satisfeitos não só por terem a oportunidade de ficarem face a face com o Guardião, mas também por ele ter-lhes hipotecado total e irrestrita solidariedade. Aquilo era um verdadeiro milagre!
Figura: 04: Imagino que esta seria a Entidade Protetora de Dangbê e de Dan.
Portanto, a morte do rei dos palmarinos com peçonha é um fato importantÃssimo por dois motivos: o primeiro porque não só admite, no inÃcio da ascensão de Zumbi, a possibilidade de outros grupos étnicos, até agora sequer mencionados, adeptos a um profundo processo de reforma religiosa. Talvez se possa ter uma idéia mais exata da importância desse movimento pela perseguição violenta e absurda que tanto as autoridades portuguesas quanto determinados membros de sua própria raça empreenderam para destruÃ-lo após o assassinato de Ganga Zumba.
O segundo também prova que ela foi um durÃssimo recado, um aviso para todos aqueles que estavam contra ele de que sob sua liderança, a revolução que ocorreria nos Palmares não se limitava apenas a modificações nos campos polÃtico, administrativo e militar. Ela abrangeria também o que todos aqueles já escravos ou a isso destinados, mais temiam e respeitavam: a área religiosa.
Chegara, enfim, o momento tão esperado. Tinham alguém em quem confiar. Alguém a quem, com segurança, seguir. Sabiam que se não atendessem o chamado e fugissem, mais tarde ou mais cedo, de uma forma ou de outra, a escravidão faria com que tivessem a pior e mais atroz das mortes.
Mas, nem tudo eram flores. Existiam os que não queriam aceitar a nova vida. Mesmo assim, eram levados para os quilombos. Podemos dividi-los em duas categorias: aqueles a quem os castigos fÃsicos e morais do cruel cativeiro dobrara o corpo e a alma e os colaboracionistas. Os primeiros não abandonavam as senzalas porque psicologicamente destruÃdos. Em Palmares eram tratados e uma vez curados do pânico em que viviam, tomavam para si, com bravura admirável, a luta pela causa palmarina. À segunda categoria pertenciam os escravos sadios, mas que, no entanto se opunham a abandonar as senzalas: eram os “convertidos†e os “colaboracionistasâ€. Com certeza, havia algum tipo de punição. Isto, de maneira alguma, significa dizer que eram escravizados. No máximo pode-se falar em tratamento diferenciado. Afirmar que nos inúmeros quilombos do imenso território palmarino existia escravidão, é negar os senhores de engenho. Negar os senhores de engenho, é negar os engenhos e as senzalas. Negar os engenhos e as senzalas é negar os escravos e a produção de açúcar. Negar a produção de açúcar e os escravos é negar a fuga para os quilombos. Negar a fuga para os quilombos é negar a escravidão. Negar a escravidão é negar Palmares. Negar Palmares é negar, em seu seio, a mais pura forma de liberdade e igualdade, é ir de encontro a centenas e centenas de fontes históricas primárias e secundárias que atestam ser a palavra Palmares sinônima de liberdade e igualdade não podendo por isso serem dissociadas. Negar isto é negar que em Palmares, no século XVII, homens estigmatizados pelo preconceito racial, em densa floresta, fundaram dezenas e dezenas de comunidades onde as majestades eram a liberdade e a igualdade. Infelizmente a brutalidade de seus opressores superou a valentia de seus defensores e elas foram simplesmente fisicamente destruÃdas por aqueles que achavam (e ainda hoje acham) que o valor do ser humano reside unicamente no fato de aceitarmos nossas semelhanças, nunca no de respeitarmos nossas diferenças, e por isso desapareceram tornando-se lembranças que ficaram gravadas apenas na memória do tempo.
Motivados por forças misteriosas não falta quem, baseados em documentos que além de escritos por vencedores tinham como única função o
completo desvirtuamento de sua história, queira macular sua belÃssima trajetória atribuindo a estes Pólos de Liberdade o odor fétido do comportamento fascista. O que temos a obrigação de corrigir são estas versões extravagantes, pois Palmares era, na realidade, um gigantesco Santuário da Liberdade. Seus inumeráveis quilombos eram jardins cujas rosas só exalavam o perfume do ser livre. Sua imensa área era, intrinsecamente, impregnada por uma paz eterna. Versões divergentes nada acrescentam, só retiram, nada aumentam, só diminuem, nada prestigiam, só desmerecem e desmoralizam.
Um outro grande mérito de Zumbi foi o de ter tido a primazia de realizar o primeiro e único movimento de reforma religiosa em toda história de
Palmares. O que confere ao movimento do culto da serpente uma originalidade inconfundÃvel é a exclusividade de sua prática sob sua liderança, pois ele não era somente o seu pontÃfice supremo, era também, e, sobretudo, “seu profeta, intérprete e executor da vontade divinaâ€: não foi ele quem ordenou que matassem a peçonha Ganga Zumba? Além do mais, esse processo de reforma religiosa foi um dos fatores que contribuÃram para conduzir os palmarinos a uma era de liberdade, coragem e criação, arriscando-se, porém, a conseqüências extremas: o choque final entre senhores e servos. Ao admitirmos esta hipótese temos de aceitar que Zumbi foi também um revolucionário religioso.
Sei que por propor a interferência de “Forças Superiores†na história de Zumbi serei criticado por excesso de imaginação. Dirão que isso não passa de pura fantasia. Que foge inteiramente da realidade. Pergunto: o que é a realidade? Em se tratando de “seres†que possuem sua existência baseada no princÃpio da Criação e não no da Evolução, estou fugindo de qual realidade? Da realidade de um Universo, de uma dimensão ou de um mundo que sabemos existir, porém não temos a menor noção de onde se localiza? Da realidade de “seres†que não podem ser mapeados? Sabemos que a ciência hoje se encontra numa prisão: a do imperialismo empÃrico. Novamente pergunto: devemos nos resumir, nos submeter, unicamente ao que decreta este imperialismo ou acreditar que algo mais existe além do que vemos a nossa volta e que foge do nosso ridÃculo mundinho empÃrico? O que aconteceria se a “racionalidade†dos empiristas se defrontasse com o sobrenatural? É heresia acreditar, por exemplo, que determinados fenômenos paranormais além de existirem têm sua origem totalmente independente de nós e de nosso planeta e ocorrem para nos ajudar, orientar e prevenir? Se for, estou pronto, levem-me para a fogueira.
Não me importo se, devido ao que escrevi me acusem de “abuso de credulidade†ou disserem que tenho predisposição para acreditar na existência de vários mundos povoados por seres corpóreos extremamente mais evoluÃdos que nós e em outros habitados unicamente por entidades puramente espirituais, pois não podemos negar o que não entendemos.
Tenho a consciência tranqüila, pois não preciso de comprovação cientÃfica para acreditar que durante a história nunca deixamos de receber certo tipo de ajuda. A disposição de quem interesse tiver, encontra-se uma infinidade de fatos há muito considerados inexplicáveis. Afirmo isto sem nenhum medo do velho esquema baseado na suspeita>prisão>interrogatório>tortura>execução. Medo, eu não tenho. Seja de quem for. Quem tem responsabilidade, se preocupa com as conseqüências de seus possÃveis atos. Isto é completamente diferente de ter medo. É bom não confundir. Portanto, como já disse, o velho esquema, eu não aceito. Se por falta de alguma nova informação acharem, que a este respeito, vago por uma escuridão impenetrável, eu peço, acendam, nem que seja um candeeiro para me iluminar. Se a minha cegueira for tamanha que mesmo com a luz da candeia eu não consiga enxergar o caminho certo então, por favor, peguem na minha mão e me conduzam à verdade. O mundo está repleto de pessoas que enxergam, mas fazem questão de não ver e quando vêem, insistem em não enxergar. Não faço parte deste “seleto grupoâ€, pois não sou mÃope e nem sofro de “deficiência conceitualâ€. Para mim, o caminho que acabaria com isto seria, com certeza, defender, iniciar e praticar com maior intensidade a interconsulta, ou seja, procurar, com a devida seriedade, saber o que nos pode informar, do ponto de vista parapsicológico, os sensitivos, e do ponto de vista espÃrita, os médiuns incorporadores.
Com a morte de Ganga Zumba, Zumbi torna-se o único herdeiro, perante os deuses e perante os homens, do destino dos palmarinos. A partir deste momento, os poderes polÃtico, religioso e militar estavam incorporados numa só pessoa. Agora, os componentes da “Tróia Negra†a ninguém mais deviam obediência e respeito à não ser a Zumbi. Sua liderança e autoridade se perpetuariam por ininterruptos vinte e cinco anos.
Uma nova história de Palmares iria começar. Por isso, era necessário que permanecesse no mato para responder a altura os absurdos e infames castigos aplicados a seus semelhantes nas áreas urbanas e rurais da Capitania de Pernambuco. Foi o que fez! E muito bem!
6. O PORQUÊ DA CONSTRUÇÃO DA FORTALEZA
Os que fugiram dos engenhos para a região que ficou conhecida com o nome de Palmares, encontraram uma segunda Canaã, uma segunda Terra Prometida. Apesar das profundas cicatrizes deixadas pela saudade da terra natal e pelos desumanos tratos recebidos, se contentaram com a tranqüilidade de nossos bosques, com a fartura de nossa fauna, com a fragosidade de nossa flora e com a fertilidade de nosso solo. Tudo era exuberante.
Queriam apenas viver em paz. Serem tratados como seres humanos. Ter o direito a terra não como ostentação, mas para explorá-la e trabalhá-la incessantemente para dela retirar sua completa subsistência. Não puderam porque os ditos supercivilizados da época lhes impuseram um pavoroso regime: o do terrorismo.
A quantidade de terras e de escravos que possuÃam, não era suficiente e por isso invadiam os Palmares, saqueavam e depois incendiavam os quilombos, destruÃam suas plantações, roubavam suas criações, estupravam suas mulheres, raptavam suas crianças, velhos e velhas, matavam seus guerreiros e, os poucos que sobreviviam, retornavam a uma bárbara escravidão.
As perdas causadas por estas investidas eram terrÃveis. Para evitá-las eram obrigados a viverem como ciganos, ou seja, em constante processo de mudança.
Se, por um lado, este comportamento “resolvia†a situação, por outro, só piorava, pois cada vez que isto acontecia, tudo o que havia sido construÃdo através de árduo trabalho e muito sofrimento, era deixado para trás, simplesmente destruÃdo.
É difÃcil, muito difÃcil, viver sempre recomeçando! E como é difÃcil!
Cansado de tantos “começar de novo†Zumbi, um pouco antes de 1694, decidiu, de uma vez por todas, tomar uma atitude radical: acabar com o desespero causado pelas constantes investidas antipalmarinas, parar com a guerra de emboscadas e com a vida de andarilho que até então mantinha, se fixar em determinado ponto dos Palmares, construir uma fortaleza no cume de uma serra e partir “para o tudo ou nadaâ€. Tinha consciência de que se vencesse o grande exército colonial que, com certeza, marcharia contra ele, a repercussão de sua vitória seria tão grande que todos os escravos se rebelariam e a escravidão acabaria. Com a ajuda deles e de todos os outros excluÃdos, passariam a ter o completo controle não só da Capitania de Pernambuco como também da ParaÃba e do Rio Grande do Norte e jamais os supercivilizados voltariam a reconquistá-las. Não haveria necessidade de nenhuma “Lei Ãureaâ€, pois o fim do cativeiro seria escrito, em 1694, não pelas mãos perfumadas e delicadas de uma Princesa que segurava uma pena de ouro de caneta banhada com tinta originária de outras realezas, mas por baionetas, balas, facões, foices e facas ensopadas com o sangue da mundiça escravista. Neste caso, o conteúdo dos livros de História do Brasil seria completamente diferente. E como seria!
7. A DESTRUIÇÃO DA FORTALEZA
Sabedoras desta decisão as tropas coloniais se puseram em marcha. Nunca se vira tão grande exército. Tantos mercenários juntos. Calcula-se em mais de três mil. Lenta e decididamente, através de vales, colinas e montanhas, esta legião interminável rumou para a colossal fortificação. Lá chegando, os otimistas tornaram-se pessimistas, os decididos, tÃmidos e os corajosos, receosos, pois o que viram em todos os aspectos extrapolava tudo o que haviam imaginado: a Fortaleza era um monumento colossal, pois possuÃa, de uma extremidade a outra 2470 (duas mil quatrocentas e setenta) braças craveiras, isto é, praticamente oito quilômetros, ou seja oito mil metros.
No entanto, o estado de espÃrito derrotista que se abateu sobre as tropas não foi suficiente para fazer desistir seus comandantes: inúmeras vezes investiram contra a Fortaleza, mas devido à sofisticação de seu sistema defensivo interno e externo eram violentamente repelidos.
Para solucionar este problema e, também, aprisionar todos os defensores da Fortaleza dentro dela mesma, Domingos Jorge Velho foi de uma astúcia satânica: mandou construir duas contra-cercas oblÃquas a Fortaleza.
No vigésimo segundo dia de cerco e trabalhos, quando a contra-cerca construÃda sob a supervisão de Domingos Jorge Velho havia atingido seu objetivo e a outra, supervisionada por Bernardo Vieira de Melo, achava-se a oito braças da Fortaleza, Zumbi e seus guerreiros saÃram, através deste espaço, na madrugada do dia 6 de fevereiro de 1694, com o objetivo de lutar contra o exército invasor.
Foram pressentidos pelas sentinelas que, sem perca de tempo, deram o alarme e, da escuridão, centenas de armas de fogo foram disparadas. Uns morreram no local e, como tudo acontecia nas imediações de um precipÃcio, outros despencaram no mesmo – fato gerador da lenda do suicÃdio épico – os restantes foram aprisionados e a Fortaleza foi incendiada.
Apesar do cerco a Fortaleza ter durado apenas 22 (vinte e dois) dias, o que aconteceu durante e após sua destruição foi de uma natureza tão brutal e genocida que só é igualada aos grandes crimes registrados pela História, como os cometidos pelo Império Romano contra os Cristãos, pela infame Inquisição, pelos nazistas com o Holocausto e pelas criminosas explosões atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki autorizada pelos americanos. Além do mais, após sua queda, toda a região foi submetida a uma indesejável atenção da inquisição militar dos exércitos invasores dos ditos supercivilizados.
Em seis de fevereiro de 1694, Zumbi, aos trinta e nove anos, desesperado, vê o gigantesco baluarte que mandara construir para defender o direito de ser livre, o direito de ser tratado como ser humano, cair. Cair, para sempre.
Apesar de todo esforço, de todo trabalho, todo idealismo, toda nobreza de ideal, toda coragem e valentia de seus defensores, a gigantesca Fortaleza, construÃda totalmente de material perecÃvel e altamente inflamável, foi incendiada. O principal sÃmbolo da resistência escrava e a última esperança de liberdade foi completamente destruÃdo, completamente consumido pelas chamas.
Ardeu, como no passado arderam as fogueiras da Inquisição com os corpos de homens e mulheres que não possuÃam nenhuma culpa; como o castelo de Montségur, com os santos cátaros e, como no futuro, arderiam os fornos de Auschwitz, com os inocentes judeus e se vaporizariam milhares e milhares de civis japoneses com as bombas de fissão nuclear.
Que destino trágico para a liberdade!
8. A LIDERANÇA DE ZUMBI: UM MITO?
Nos Palmares viviam milhares de ex-escravos. Acredita-se que entre 20 e 30 mil. Como Zumbi era o lÃder absoluto desta enorme massa, nada mais correto do que supor que uma boa porcentagem o acompanhou para ajudar a defender a Fortaleza.
Ficamos perplexos quando, ao compulsarmos os documentos que nos falam sobre a queda da Fortaleza, verificamos que isto não ocorreu, pois segundo um Requerimento de Domingos Jorge Velho – corroborado por outras fontes históricas primárias – por ocasião da queda da Fortaleza caÃram no precipÃcio “couza de duzentos, e mataram-se outros tantos, e aprisionaram-se quinhentos e dezenove de todos os sexos e idades…â€.
Entre os documentos que autenticam o citado Requerimento cito como exemplo, a “Carta do Governador de Pernambuco, Caetano de Mello e
Castro, de 18 de fevereiro de 1694, sobre a gloriosa restauração dos Palmaresâ€, que afirma textualmente: “… e não houve entre os nossos toda a resistência necessária pelos poucos defensores que se achavam naquele distrito…â€.
A se dar crédito as fontes históricas primárias, a liderança de Zumbi resumia-se a novecentas e dezenove pessoas, incluindo velhos e velhas, rapazes e moças, crianças de ambos os sexos e os guerreiros.
Como se vê, a discrepância é considerável. A opinião dos historiadores e o relato de Domingos Jorge Velho contrastam-se completamente. Não há a mÃnima similaridade. Apesar disto, é a versão que Zumbi liderava uma imensa quantidade de palmarinos a mais lembrada e constantemente reproduzida, ou melhor, a que está completamente cronificada.
A Fortaleza de Zumbi era uma megaconstrução. Sabemos, através das informações transmitidas pelos repressores e corroboradas por outras fontes históricas, que para Zumbi construÃ-la necessitava de uma rÃgida organização, disponibilidade de trabalhadores e uma abundante mão-de-obra especializada.
Aqui, uma pergunta de extrema relevância se impõe: qual, então, a explicação para tão poucos defensores?
Acreditamos que não há nenhuma temeridade supormos que esta pouca quantidade de defensores pode nos levar as seguintes hipóteses:
a. o número de palmarinos aprisionados foi, na verdade, muito maior e houve um gigantesco caso de falsidade ideológica;
b. se correta esta hipótese, temos de admitir que sua construção não exigiu um esforço extraordinário dos adeptos do plano de Zumbi;
c. milhares eram os seguidores de Zumbi, mas a propaganda do gigantesco exército que marchava contra a Fortaleza fez com que a grande maioria debandasse, ou seja, fugisse para distante do local do combate;
d. os que foram assassinados, pelas tropas invasoras na madrugada do dia 6 de fevereiro de 1694, por arma de fogo e branca, ultrapassa consideravelmente a quantidade citada pelos documentos;
e. o número de palmarinos que caiu no precipÃcio na mesma madrugada foi muito maior do que a relatada;
f. aqueles que acreditavam numa possÃvel vitória de Zumbi resumia-se, na realidade, aos que foram encontrados na Fortaleza;
g. finalmente, será verdade que tanto a badalada liderança de Zumbi quanto o gigantismo da Fortaleza seriam, na realidade, um dos maiores mitos que povoam o final da epopéia palmarina?
Quem quer que tenha o interesse de compulsar a documentação existente sobre o assunto constatará que a mega-fortaleza com seu sistema defensivo interno e externo não só exigia uma abundante mão-de-obra e especializada para ser construÃda como também para ser defendida. O problema é que a documentação contemporânea aos fatos narrados nega a quantidade de defensores que seria necessária.
Totalmente cabÃveis são outras duas perguntas: quais as descobertas arqueológicas de relevância efetuadas na Serra da Barriga que possam comprovar que neste acidente geográfico existiu um monumento de tais proporções? Se nada, neste sentido, encontraram até agora, por que ainda continuam dando a entender que foi aà onde tudo ocorreu? Por que as comemorações neste local? Quais os estudos feitos no sentido de esclarecer que “os Outeiros do Barrigaâ€, o “Outeiro do Barriga†ou a “Serra do Barriga†de Domingos Jorge Velho é a mesma serra que hoje conhecemos com o nome de Serra da Barriga, situada em União dos Palmares?
Não tenho certeza, mas acredito que foi na administração do saudoso Reitor João Azevedo, há mais ou menos trinta anos, que se começou a gastar dinheiro com o que se conhece como Palmares e com o personagem Zumbi.
Historiadores, paleógrafos, sociólogos, antropólogos, arquitetos e arqueólogos, entre outros, estavam envolvidos nos mais diversos Projetos, que tinham como objetivo estudar setorialmente a “Tróia Negra†para fornecer explicações à sociedade.
Até Fundação, como a Fundação Palmares e outros órgãos – em Alagoas foi criado o NEAB – foram criados para estudar, orientar e patrocinar os interessados nas comunidades palmarinas.
Pergunta-se: quantos foram os Projetos? Quais os responsáveis? Qual o valor solicitado por cada um? Quais os resultados? Já se fez alguma sondagem para se saber se os resultados apresentados são compatÃveis com o que se gastou?
Pergunta-se: quanto foi gasto, a nÃvel pessoal, municipal, estadual e federal, até o presente, com o assunto Palmares em Alagoas?
Sou de opinião que o caso Palmares, como um todo, há muito que está a exigir perguntas e respostas. Isto só se consegue se as autoridades competentes determinarem que se faça, com a máxima urgência, uma investigação, uma sindicância, ou outro equivalente procedimento administrativo, sério e minucioso, sobre os investimentos efetuados, o volume financeiro gasto em todos os aspectos relacionados com Palmares – que acredito não foi pouco – e, depois, comparados com os resultados obtidos para se saber de que forma houve o retorno para a sociedade. Saber, também e, principalmente, se esses resultados são convincentes e compatÃveis com as despesas.
O povo brasileiro merece uma resposta.
9. O ASSASSINATO DE ZUMBI
Na madrugada da destruição da Fortaleza, Zumbi não morreu. Seus guerreiros o defenderam e ele, mesmo atingido por “duas pelouradas†conseguiu livrar-se da morte. Era fundamental que permanecesse vivo. De sua incontestável liderança, indômita bravura e insubstituÃvel presença fÃsica, dependia a reunificação do pouco que restara.
Mais morto do que vivo, pois arrasado psicologicamente, destruÃdo militarmente e contando somente com a ajuda dos poucos companheiros que
conseguiram escapar do massacre, cambaleante, internou-se nas matas inóspitas a procura de um lugar seguro. De um lugar onde pudesse descansar, recobrar suas forças, colocar sua consciência e seu raciocÃnio em ordem e reagrupar seus guerreiros. Encontrou-o, e lá construiu seu esconderijo que consistia de um “sumidouro que artificiosamente havia fabricadoâ€.
Aos poucos a localização desse esconderijo tornou-se razoavelmente conhecida por pessoas que num futuro próximo se tornariam seus piores inimigos: aqueles que apesar de fazerem parte de seu cÃrculo Ãntimo eram, na realidade, verdadeiros párias, calhordas, judas camuflados, pois só esperavam uma oportunidade para mostrar sua verdadeira face.
Um deles, chamado Antônio Soares, aprisionado nas imediações de Penedo, foi entregue a um “destacamento†em que ia por Cabo o Capitão André Furtado de Mendonça. Após algumas horas de “conversaâ€, comprometeu-se, em troca de sua liberdade, guiar o referido Capitão ao local onde Zumbi podia ser encontrado.
Palavra dada, palavra cumprida.
Guiado por Antônio Soares, o Capitão André Furtado de Mendonça e sua gente cometeu, neste misterioso sumidouro, um dos mais hediondos e sádicos crimes de que se tem notÃcia em toda a história do Brasil: Zumbi foi assassinado por “quinze ferimentos de bala e muitos de lanças vendo-se ainda que o membro da virilidade do dito negro se havia cortado e enfiado na boca também lhe faltando um olho e se lhe cortara a mão direita†(Fig. 05).
Figura 05: O assassinato de Zumbi: o sadismo
de um crime
10. ONDE MORREU ZUMBI?
Este é, sem dúvida alguma, um dos assuntos mais controversos do final da história da “Tróia Negraâ€, devido à ambigüidade dos dois únicos documentos que nos fornecem uma pista para localizar, geograficamente, a morte de Zumbi.
Basta dizer que enquanto uma fonte histórica informa que ele foi morto “nas cabeceiras do ParaÃbaâ€, isto é, no municÃpio de Bom Conselho, no Estado de Pernambuco, o outro diz textualmente que o Capitão André Furtado de Mendonça “conseguiu a morte do negro no sumidouro que este artificiosamente fizera na Serra dos Dois Irmãosâ€, localizada no municÃpio de Viçosa, Estado de Alagoas.
No entanto, a bem da verdade, devo dizer que ainda não consegui localizar o original da preciosa fonte histórica que cita a Serra dos Dois Irmãos como o último refúgio de Zumbi.
11. A ESTRUTURA FÃSICA DE ZUMBI
Infelizmente o único documento, até a presente data descoberto, que contém informações sobre a estrutura fÃsica de Zumbi é o intitulado por Décio Freitas de “A Cabeça de Zumbiâ€. Nele afirma-se que seu fÃsico era raquÃtico, pois possuÃa “um corpo pequeno e magro†(Fig. 06).
Figura 06: ZUMBI: Corpo raquÃtico e pequeno
No entanto, devo ressaltar que esta afirmação difere completamente do que diz “A Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do Governador D. Pedro de Almeida, de 1675 a 1678â€, onde, entre outras informações, consta que os chefes palmarinos eram “corpulentos e valentes todosâ€.
12. A ATITUDE MACABRA
Morto, foi levado para Porto Calvo, onde ordenaram um negro que decepassem sua cabeça e salgassem com “sal fino†para que pudesse ser enviada ao Governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro, prova irrefutável e definitiva de sua morte.
O Governador ao receber o macabro presente, determinou que “se pusesse em um pau lugar mais público daquela praça (segundo o documento n° 27 do livro “República de Palmaresâ€, o local escolhido foi a “ponteâ€), a satisfazer os ofendidos e justamente queixosos, e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam-no imortal†(Fig. 07).
Figura: 07: A cabeça de Zumbi atemoriza os escravos
CONCLUSÃO
Zumbi foi barbaramente assassinado em 20 de novembro de 1695 (!?), aos quarenta anos de idade. Ao longo de toda a história de Palmares nunca houve um personagem tão influente e carismático como ele. Isto o torna a personalidade mais importante da “Tróia Negraâ€. Foi uma vida apaixonante de 25 (vinte e cinco anos) de chefia repleta de fatos que se tornaram “marcos históricosâ€.
Marcos que atingiriam seu clÃmax com Aqueda da Fortaleza e a tragédia do sumidouro. No entanto, tanto heroÃsmo só o fez merecedor de um assassinato sádico e do funeral mais indigno que um ser humano poderia ter.
Ele se foi, mas deixou gravada no coração e na mente de cada palmarino, de cada escravo, de cada excluÃdo, de cada injustiçado, uma lição que jamais será esquecida: a lição de que enquanto houver injustiça e não se minimizar a extravagante diferença existente entre os seres humanos é preciso, sem medo, lutar com bravura e coragem. Ensinou que tinham obrigação de se rebelar contra qualquer que seja o tipo de escravidão, pois todos nascem para ser livres. Que ninguém podia dizer o que deviam ou teriam a obrigação de fazer, porque todos eram iguais e sagrado é o direito de escolha. Que não deveriam ter medo de quem se comportasse como se fosse superior a lei porque nenhum ser humano, absolutamente nenhum, fosse quem fosse, possuÃsse a riqueza que possuÃsse, estava acima do bem e do mal ou era inatingÃvel. Que eles, os menos favorecidos, deveriam se unir, formar um só corpo e, sem nenhuma piedade, marchar para derrubar todos aqueles que os prejudicavam: só assim poderia existir um novo comando, uma nova ordem, onde a riqueza tivesse sua origem na honestidade, não na corrupção, no trabalho digno e salário justo, não na humilhação e na miséria alheia, e fosse um patrimônio de todos, não um privilégio de poucos; que deveriam dizer não aos párias e aos calhordas que, mesmo humilhados e espoliados, faziam questão, em troca de migalhas sociais, culturais, polÃticas e materiais, de se unir a quem os escravizava, porque destituÃdos de vergonha e amor próprio, para aumentar o sofrimento de seu povo. Não deveriam se amedrontar com as constantes incursões em seu território, pois também podiam causar mais temor que esperança. Que não tolerassem passivamente os tormentos fÃsicos e psicológicos que lhes impunham, mas partissem para conquistar a vitória e a glória. O que era a glória? A glória consistia em além de terem garantidas todas as suas necessidades básicas, possuÃrem o que existe de mais precioso para todo e qualquer ser humano: a liberdade, a paz e a tranqüilidade. Se lembrassem de que quem estava ali não era mais angolanos ou congoleses. Os Palmares tinham dono: eram dos palmarinos e apesar do poderio dos invasores supercivilizados, que somente queriam se apropriar de tudo o que a eles pertencia, lutassem para tornar a região livre e soberana. Se possÃvel fosse, aceitassem colaboração na forma de ajuda e orientação, nunca na forma de prepotência e autoritarismo. Que lhes orientassem e lhes ajudassem para serem livres e não para continuarem a ser escravos. Isto era inadmissÃvel. O caminho não era transformar conhecido em desconhecido; amigo em inimigo; correligionário em adversário; bem feitor em malfeitor, comprar pessoas como se fossem mercadorias e tratá-las como animais. O caminho não era este. Pessoas não se compram. Elas perdem a dignidade. Não se escraviza. É contra a ordem natural: são seres humanos, nossos semelhantes. Pessoas se conquistam por meio da educação e do respeito. Eles, os ditos supercivilizados, não estavam interessados em atitudes diferentes. Desejavam se beneficiar com as inimizades e aumentar sua riqueza transformando, cada vez mais, a liberdade em escravidão e os miseráveis em defuntos. Não havia mais como esperar porque jamais reconheceriam seus direitos e por isso de nada adiantava agir de maneira civilizada, mas sim, de forma truculenta. Não prometessem e nem pensassem em paz: mesmo amargurados e constrangidos, com as armas que dispunham, se preparassem para o confronto, para a vida ou para a morte.
Ah, como o presente seria diferente se todos os brasileiros menos favorecidos, excluÃdos e injustiçados se unissem e colocassem em prática este belo ensinamento! Eles querem e têm coragem. Não colocam porque os poucos lÃderes que surgiram foram sadicamente assassinados. Nada mais correto do que, em homenagem a estes lÃderes, nossas Instituições erigirem monumentos – no Campus da UFAL, por exemplo, há muito deviam ter construÃdo várias estátuas que retratassem “fielmente†como era Zumbi quando vivo e o estado em que ficou após sua morte – para, quem os visse, pudesse entender melhor até que ponto pode chegar o ódio gerado pelo preconceito racial e por quem luta contra quem escraviza.
ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS
Professor da UFAL
CRÉDITO DAS ILUSTRAÇÕES
1.    Os desenhos são meramente ilustrativos e foram elaborados pelo estudante Erivaldo Macário de Souza.
BIBLIOGRAFIA
1. ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares                 (SubsÃdios para a sua história) 1º v.                          Domingos Jorge Velho e a “Tróia Negra†–   1687 – 1700.     Pref. de Afonso de E. Taunay.     São Paulo.        Nacional, 1938.
2.FILHO, Ivan Alves. Memorial dos Palmares. 1ª ed. Rio de Janeiro, Prisma, Industrial Gráfica, 1988.
3. FONSECA, Pedro Paulino da. Memória dos feitos que se deram durante     os primeiros anos de guerra com os negros quilombolas dos Palmares,      seu destroço e paz aceita em junho de 1678. R, Trimestral   do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, Rio de Janeiro, t. 39, 1ª parte, 1876, p. 293-322.
4. FREITAS, Décio. Descrição com notÃcias importantes do interior de Pernambuco. República dos Palmares: pesquisas e comentários em documentos históricos do século XVII. Maceió : EDUFAL : IDEÃRIO, 2004. 300 p.
5. FREITAS, Décio. Palmares: a guerra dos escravos.     Porto Alegre. Ed. Movimento. 1973; 2. ed. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1978.
6. FREITAS, Décio. Descrição com notÃcias importantes do interior de Pernambuco. República dos Palmares: pesquisas e comentários em documentos históricos do século XVII. Maceió : EDUFAL : IDEÃRIO, 2004. 300 p.
7. RELAÇÃO das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador Dom Pedro de Almeida, de 1675 a 1678, MS de autor desconhecido, da Torre do Tombo, por cópia oferecida à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, pelo Conselheiro Drummond, (1794-1865). Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, t. 22, 2º tr., 1859, p. 303-3229.
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