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Zumbi


01/12/2011 - 9:52 -

1. NASCIMENTO E CRIAÇÃO.

Conta-se em duas cartas que existiam na casa da marquesa de Cadaval e que felizmente “foram copiadas em 1978, a pedido do historiador Décio Freitasâ€, antes que fossem “roubadas por um pesquisador disfarçado de paralítico em cadeira de rodas†que, quando Francisco Barreto era governador da Capitania de Pernambuco, Brás da Rocha Cardoso, em 1655, comandou uma expedição punitiva aos Palmares.

Em determinado quilombo, que se desconhece o nome e a localização foram, como sempre, efetuadas algumas prisões. Entre os prisioneiros, constava uma criança negra recém-nascida. Esta criança foi entregue a um padre chamado Antônio de Melo que, movido pela compaixão, batizou-a com o nome de Francisco – talvez porque seu batismo tenha se realizado no dia destinado a este Santo. Criou-a, educando-a nos moldes destinados exclusivamente aos filhos brancos dos poderosos senhores de engenho, ensinando-a a falar português e latim e, inclusive, tornando-a seu coroinha.

Tudo isto aconteceu nas colinas verdejantes de Porto Calvo, de onde se ouvia o cantar das aves e o som guerreiro dos tambores dos quilombos nas florestas dos Palmares.

Bela história! Mas, não parece uma lenda?

 

 

2. A FUGA

 

Numa bela noite de luar de 1670, “Franciscoâ€, ainda com quinze anos, tomou uma decisão inaudita: abandonou a vida sossegada e cheia de paz sob a proteção da Igreja e internou-se nas matas dos Palmares onde não havia nada para ele, a não ser a dor, a guerra e o sofrimento.

Por que esta decisão? Simplesmente porque ela obedecia ao irrecusável chamado dos deuses africanos, encarnava sua revolta contra as injustiças praticadas e atendia ao secular clamor de seus semelhantes massacrados na zona urbana e rural sem nenhuma piedade.

 

 

3. DE COROINHA A ZUMBI

 

Sem uma alta dose de especulação, é impossível imaginar o que aconteceu no período compreendido entre a fuga de Zumbi e a morte de Ganga Zumba.

Ao chegar num dos muitos quilombos que constituíam a região conhecida como Palmares, Francisco ficou horrorizado e terrivelmente frustrado. Horrorizado com as conseqüências da guerra, o sofrimento, a fome e a falta de esperança dos palmarinos, seu povo. Observou que o desespero era maior porque apesar do clamor, os deuses ainda não tinham enviado alguém que soubesse liderá-los contra as constantes invasões dos brancos deixando, portanto, de ouvir as suas preces e atender os seus pedidos. Frustrado, porque para lá tinha se dirigido com o objetivo de explicar que vivemos num planeta onde há espaço para todos e que nossa missão aqui não é competir nem nos digladiarmos, mas nos ajudarmos mutuamente e convivermos harmoniosamente; que também tomara conhecimento da doutrina pacifista Daquele que teve a coragem de sacrificar sua própria vida na cruz para ensinar ao mundo que as verdadeiras revoluções são aquelas que se processam “dentro de nós mesmos†ao praticarmos o amor ao próximo; as efetuadas através da violência, além de regadas com um banho de sangue, são efêmeras e características de bárbaros; que somos diferentes dos animais porque enquanto vivos somos dotados de uma alma que ao morrermos transforma-se em espírito e será ele o julgado perante o Tribunal Divino segundo nossas atitudes em vida e, finalmente, que os verdadeiros laços familiares não são os estabelecidos pela consangüinidade, pois perante Deus o que torna um ser humano irmão do outro é a ligação espiritual e não a consangüínea, ou seja, os verdadeiros irmãos são aqueles que estão unidos espiritualmente e não consanguineamente porque entre irmãos espirituais não há inveja, disputa, rancor, brigas e mortes. Mas, diante de tanta miséria, calou-se e, mudo, chorou. As lágrimas que rolaram de seus olhos eram iguais a gigantescas catadupas e por virem do fundo de sua alma, queimaram-lhe a face como a lava de um vulcão que, por onde passa, tudo incinera deixando a marca da destruição e da devastação. Houve, então, uma brusca mudança na personalidade do coroinha e aí o chamado dos deuses africanos foi muito mais poderoso. Começou, então, a falar. Todos pararam para escutá-lo. Em pouco tempo reconheceram que estavam diante de um líder nato, de alguém virtuoso e hábil que convencia e dominava pela firmeza e coragem. De um guerreiro por vocação, pois sentiram que sua função era liderar as grandes lutas que salvariam seus semelhantes da escravidão. Atônitos, entreolhavam-se e perguntavam-se: “Os deuses, por fim, ouviram nossas preces? Será que estamos diante do escolhido?â€.

Tinham de ter certeza que ele era, realmente, o enviado. Para isto, tornava-se imprescindível a realização do ritual apropriado: aquele que tem a finalidade de liberar o que está contido em outras dimensões, ou seja, o bem ou o mal. Este ritual só podia ser realizado com a autorização do Conselho porque o voluntário corria sério risco de vida: se não fosse o escolhido podia morrer, pois uma ou mais entidades africanas seriam invocadas e através dele se manifestariam. A energia oriunda de sucessivas possessões seria fatal.

Reuniram o Conselho. Depois de horas e horas de calorosas discussões, a permissão foi concedida. Relataram, minuciosamente, ao jovem Francisco tudo o que poderia ocorrer. Diante de um quadro de tanta calamidade ele, que aos olhos de todos representava a esperança, concordou em atender o apelo dos anciões e se submeter ao perigoso ritual. Levaram-no, acredito, para o espaço litúrgico circunscrito a Cachoeira da Serra dos Dois Irmãos.

Para eles, um lugar de mistério: visto e visitado por vivos e mortos. De sonhos e pesadelos. Um lugar onde se processam as inversões. De pesadelos que são sonhos e sonhos que são pesadelos. De escuridão e claridade espiritual. De encontro do divino com o humano, do espírito com a matéria, do sagrado com o profano. Onde há desejo e repúdio. Ódio e amor. Desespero e esperança. Vingança e perdão. Onde as auroras e os dias são escuros e as noites e os crepúsculos são claros. As sombras rondam a claridade e as trevas penetram na luz. Onde o Intangível é tangível e a morte é vida e a vida é morte. Com certeza, um portal interdimensional. Um local onde o Universo, como uma donzela que no cio fica nua, mostra suas belas formas e não permite que saiamos de dentro de si até que a saciemos completamente, despe-se e mostra sua verdadeira natureza: a ondulatória e corpuscular, ou seja, a andrógina, a masculina e feminina. Levaram-no para lá, porque na época, circundavam-na gigantescas florestas, existia abundância de águas cristalinas, grande diversidade de caça e muita rocha. Elementos essenciais para a manifestação de formas de vida superiores que, por viverem em outra dimensão de espaço e tempo, iriam indicar qual o seu destino.

Para identificar, agradecer e satisfazer os “Protetores†que se fariam presentes prepararam vários tipos de obás, incluindo espécies vegetais, e escolheram muitos animais e aves para o sacrifício. Iniciaram o ritual. Nos instantes seguintes, viram o jovem Francisco contorcer-se e debater-se violentamente. Utilizar, a princípio, uma linguagem diferente de tudo o que até então tinham ouvido, tinham escutado. Ele estava totalmente possuído.

Consumada a possessão, reinou a calma. Após olhar para todos, dirigiu-se às oferendas. Naquele momento, ele escolheu inhame, axoxó, arroz, milho com coco, feijão, bode, miúdos de boi, galo, guiné, cachaça, pimenta e sal. Quem estava ali era OGUM e OXÓSSI. O primeiro era considerado o temível “Senhor do Ferro e da Guerra†e o segundo, o “Rei das Florestas Tropicais e Protetor da Faunaâ€. Fizeram, então, as respectivas saudações: “Ogunhêâ€! “Okêâ€!

Algum tempo depois, quando pensavam que tudo havia terminado, para espanto de todos, o corpo de Francisco ficou exânime. De repente, novamente “Francisco†entra em violento transe. Vira-no desafiar a gravidade, isto é, levitar, modificar a tonalidade da voz e o próprio físico e dirigir-se aos sacrifícios. Desta vez, ele escolheu o amalá, o carneiro, o cágado, o galo e o pato.

O orixá presente era XANGÔ, o temível “Senhor da Justiçaâ€. Temerosos e cheios de espanto, o saudaram: “Kawó-Kabyesiléâ€!

Francisco foi, por determinação dos orixás, “rebatizado†com o nome africano ZUMBI. Nome que, em quibundo, designava alguém imortal. O ápice da cerimônia foi atingido quando OGUM, OXÓSSI e XANGÔ entregaram a Zumbi suas armas pondo sobre seus ombros a responsabilidade de, a qualquer preço, defender os marginalizados, oprimidos e excluídos e, principalmente, quando repassaram para ele parte de seus poderes sobrenaturais, ato que simbolizava a imortalidade de sua luta.

Como receptor, ele tornara-se um poderoso acumulador de forças oriundas de formas de vida cuja existência pertence a outras dimensões. Como todo acumulador, todo o poder estava reunido e estocado nele. Não demoraria muito para que a manifestação desta energia se fizesse visível. Zumbi tinha se tornado o guerreiro da vingança, o guerreiro da justiça. Vingança exige derramamento de sangue. Exige morte. E isto vai de encontro ao sentido da criação. Mas, o que fazer? Ele não viveria com nenhum drama de consciência porque foram “Forças Superiores†que decidiram o seu destino. Com o novo batismo, Francisco estava morto para o mundo dos brancos, porém mais vivo do que nunca para os de sua raça. A notícia rapidamente se espalhou e os quilombos comemoraram com intermináveis festas e renderam as mais justas homenagens ao primeiro guerreiro escolhido pelos seus deuses para regê-los e governá-los.

Pode parecer fantasia, mas esta, como veremos, é uma das explicações possíveis para a sua rápida ascensão.

Os palmarinos, no entanto, tinham um rei. Apesar de ser o escolhido, OGUM, OXÓSSI e XANGÔ ordenaram, expressamente, a Zumbi que não fosse de encontro à hierarquia vigente a não ser que algum fato anormal acontecesse.

Eis o verdadeiro “por que†de seu silêncio. O verdadeiro “por que†durante anos ele manteve-se, pode-se dizer, em total anonimato.

Ganga Zumba, o rei, ficou alarmado quando soube que o motivo daquelas infindáveis comemorações se devia a escolha divina de outra pessoa para ocupar seu lugar. Não tinha coragem para ir de encontro à vontade dos deuses. Mas podia criar situações, mesmo que fossem as mais vergonhosas, para continuar mantendo o status real. A gota d’água caiu quando, devido a expedição comandada por Fernão Carrilho em 1677, com medo de Zumbi, propositadamente, aceitou negociar a paz. O golpe de misericórdia em sua vida ocorreu devido à assinatura do Pacto de Cucaú.

Por ter sido escolhido por entidades que pertencem a outro nível de existência, seu nome e destino tornaram-se inseparáveis. Cedo, iniciou sua árdua jornada. Cedo, muito cedo, mostrou o seu valor e obteve suas primeiras vitórias vencendo os mais experientes comandantes de expedições antipalmarinas.

 

 

4. PERIODIZAÇÃO.

 

Hoje o “ouro negro†do mundo ocidental é o petróleo. Na época de Zumbi o “ouro negro†era o negro arrancado da Ãfrica que, aqui transformado em escravo, era utilizado para produzir o “ouro branco†que servia para enriquecer cada vez mais uma minoria de psicopatas que se consideravam acima da lei, acima do bem e do mal, inatingíveis. Foi contra isto que Zumbi se rebelou.

O “Tigre dos Palmares†não foi um conde, um príncipe ou um rei imaginário envolvido em façanhas mitológicas. Ao contrário, foi um escravo, ou seja, um ninguém, com certeza filho de outro ninguém que viveu numa época em que o ódio e a violência causada pela discriminação racial tinham alcançado o seu ápice.

No entanto, ele não foi um resignado, pois lutou, até o seu sádico assassinato, com todas as suas forças contra este nefasto preconceito que destrói a autoestima, causa a exclusão social e torna o ser humano um estigmatizado. É justamente isto que o faz ainda mais merecedor de admiração.

Com base na documentação existente, é possível dividir sua participação na história de Palmares em três períodos: o “pré-históricoâ€, o “proto-histórico†e o “históricoâ€.

O período “pré-histórico†inicia com o seu nascimento que na “versão oficial†se deu possivelmente em 1655, num dos inumeráveis quilombos que existia no imenso território de Palmares e finda com a primeira referência a seu nome que, segundo Décio Freitas, ocorre quando ele, com apenas 17 (dezessete) anos, derrota Antônio Jácome Bezerra, em 1672.

O período “proto-histórico†abrange os anos compreendidos entre 1672 e o Pacto de Cucaú, isto é, o final de 1678. Ele é caracterizado por testemunhos escritos escassos e brevíssimas alusões as suas ações. Em todo este período, sobre Zumbi, existe apenas na “Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do Governador D. Pedro de Almeida, de 1675 a 1678â€, menção ao “Quilombo de Zumbi†e a informação de que numa expedição anti-palmarina comandada por Manuel Lopes Galvão, “se feriu com uma bala o general das armas, que se chamava Zumbi, que quer dizer deus da guerra, negro de singular valor, grande ânimo e constância rara. Este é o espectador dos mais, porque a sua indústria, juízo e fortaleza aos nossos serve de embaraço, aos seus de exemplo. Ficou vivo, porém aleijado de uma pernaâ€.

O Pacto de Cucaú foi radicalmente rejeitado porque Zumbi além de não confiar no verbo e na escrita das autoridades portuguesas não aceitava viver em liberdade sabendo, que tanto na zona urbana quanto na rural da Capitania de Pernambuco, a honra de milhares e milhares de homens e mulheres de sua cor e oriundos de sua amada Pátria, continuava a ser maculada através do instituto da escravidão. Isto era inadmissível. Foi contra isto que ele lutou até derramar a última gota de seu sangue. Foi por causa disto que ele permaneceu nas florestas dos Palmares.

É a partir daí que as fontes históricas referentes à sua pessoa são numerosas e a grande maioria das informações corretas e confiáveis.

Começa, portanto, o período “histórico†de sua conturbada vida que se caracteriza pelas inúmeras vitórias impostas aos seus adversários e termina com o seu sádico assassinato.

 

 

5. ZUMBI: ÚNICO CHEFE DE PALMARES

 

O “período histórico†coincide com o início da fase adulta de sua vida

e encontra-se fartamente documentado. Após a rejeição do Pacto de Cucaú toma, em 1680, com apenas vinte e cinco anos, providências para eliminar, a peçonha, Ganga Zumba, considerado o maior traidor da causa palmarina.

Até aqui – desconheço outras interpretações – todos vêem a morte de Ganga Zumba como a eliminação de um dos principais adversários de Zumbi.

Tudo bem. Isto é um fato e, como diz o velho ditado popular, “contra fatos não há argumentosâ€. Mas, será que a importância deste acontecimento reside unicamente nisto? Acho que não. Eu não vejo somente desta maneira o seu assassinato. Não vejo porque parei para pensar no que foi utilizado para destituí-lo da condição humana: a peçonha, ou seja, o veneno de cobra. De qual serpente extraíram o veneno que o vitimou, eu não sei. De uma coisa, porém, estou certo: serpentes altamente venenosas não constituíam nenhum problema, pois nas selvas dos Palmares elas simplesmente superabundavam. Também não sei como fizeram para que Ganga Zumba, um homem super-experiente, se contaminasse com o veneno. Não sei se o colocaram em sua comida, bebida, se foi ferido por uma flecha, lança, arma branca ou o atingiram com algum tipo de arma de fogo cujo projétil continha o líquido da morte.

Estou absolutamente convencido de que a morte de Ganga Zumba à peçonha foi muito mais do que a eliminação de alguém cuja ingenuidade o fez

acreditar no verbo e na escrita das autoridades portuguesas, pois indubitavelmente, ela levanta duas questões importantíssimas: a do planejamento e, como conseqüência, a da possível existência em Palmares de outros grupos que influenciaram as atitudes de Zumbi, punindo a tolerância e o colaboracionismo com os supercivilizados da época com a morte prevista por seus deuses.

Zumbi sabia que sua ascensão encontraria tenaz oposição dos que apoiaram a decisão do Pacto de Cucaú. Visando eliminar resistências e tornar conhecido o primeiro estágio da reforma que pretendia realizar resolveu fazer da autoridade suprema de Palmares um exemplo mandando matá-lo da maneira mais terrível: à peçonha.

Só que este era um procedimento perigoso, pois exigia pessoas que possuíssem certas habilidades, como, por exemplo, a de conhecer os locais onde se encontravam as serpentes extremamente venenosas e saber extrair o seu veneno.

Quem seriam estas pessoas? Não posso imaginar outras senão aquelas que, mesmo sem serem bantos, fugiram para os Palmares porque estavam unidas pelo mesmo destino: o sofrimento físico e a humilhação causada pela escravidão.

Aquelas que respeitavam, tratavam com carinho e pretendiam usar os atributos de Dan, isto é, qualquer que seja a cobra para conseguir seus objetivos e que prestavam culto a grande serpente. Aquelas que adoravam e colocavam oferendas para Dangbê (Fig. 01), a serpente sagrada: os escravos

oriundos de Daomé, atual Benin. Uns dirão: como pode ter acontecido isso se Dangbê é a “píton sagrada†e aqui ela nunca existiu? Isso não constitui nenhum problema, porque nada impede que na falta dessa espécie eles tenham utilizado outras com características aproximadas, como por exemplo, uma gigantesca jibóia ou mesmo a sucuri.

Impossível existir uma cobra tão gigantesca?

Permitam-me conceder a palavra a Afonso de Escragnolle Taunay em seu “Zoologia Fantástica do Brasil†(séculos XVI e XVII). Diz Taunay, citando Gabriel Soares:

“E um Jorge Lopes, almoxarife da capitania de S. Vicente, grande língua e homem de verdade, afirmava que, indo para uma aldeia do gentio no sertão, achara uma cobra destas, no caminho, que tinha liado três índios para os matar, os quais livrara deste perigo ferindo a cobra com a espada por junto da cabeça e do rabo, com o que ficou sem força para os apertar, e que os largara; e que acabando de matar esta cobra, lhe achara dentro quatro porcos, a qual tinha mais de sessenta palmos de comprido; E junto do curral de Garcia de Ãvila, na Bahia, andavam duas cobras que lhe matavam e comiam as vacas, o qual afirmou que adiante dele lhe saíra um dia uma, que remeteu a um touro, e que lhe levou para dentro de uma lagoa; a que acudiu um grande lebréu ao qual a cobra arremeteu e engoliu logo; e não pode levar o touro para baixo pelo impedimento que lhe tinha feito o lebréu; o qual touro saiu acima da água depois de afogado; e afirmou que neste mesmo lugar mataram seus vaqueiros outra cobra que tinha noventa e três palmos e pesava mais de oito arrobas; e eu vi uma pele de uma cobra destas que tinha quatro palmos de largo.

Estas cobras têm as peles cheias de escamas verdes, amarelas e azuis, das quais tiram logo uma arroba de banha de barriga, cuja carne os índios têm em muita estima, e os mamelucos, pela acharem muito saborosa.â€

Comenta Taunay:

“Sessenta palmos, é bom notá-lo, são quase treze metros; noventa e três palmos, exatamente vinte metros e quarenta e três centímetros.

Terrível era a cobra aquática boiúna cujas fauces tal elasticidade tinham que um homem, adulto, por elas passava sem sofrer constrição alguma! E depois de engolidas a matavam estas vítimas deglutidas.â€

Continua Taunay, com o texto de Gabriel:

“Boiúna, afirma, é outra casta de cobras, que se criam na água, nos rios do sertão, as quais são descompassadas de grandes e grossas, cheias de escamas pretas, e têm tamanha garganta que engolem um negro em o tomarem, em tanto que quando o engolem ou alguma alimária, se metem na água para o afogarem dentro, e não saem da água senão para remeterem a uma pessoa ou caça, que anda junto ao rio; e se com a pressa com que engolem a presa se embaraça, com o que não pode tornar para água donde saiu, morre em terra, e sai-se a pessoa ou alimária de dentro viva; e afirmam os línguas que houve índios que estas cobras engoliram que estando dentro da sua barriga tiveram acordo de as matar com a faca que levavam dependurada ao pescoço, como costumam!â€

A estas informações acrescento apenas um comentário: os relatos sobre a existência de cobras gigantescas, como as acima citadas, continuam até hoje. Para mim, isto basta. Estou satisfeito.

 

 

 

 

Figura 01: Dangbê a gigantesca serpente sagrada

 

 

Outros, talvez, digam: se há um mínimo de fundamento nestas informações, porque então até agora não foi encontrada nenhuma prova do “Culto da Serpente†em Alagoas? Eu respondo: não é isto o que nos informa o trabalho “Sobrevivências do Culto da Serpente†(DÃNH-GBI NAS ALAGOAS) de Abelardo Duarte, publicado as páginas 60/67, da Revista do Instituto Histórico de Alagoas, Volume XXVI, Anos de 1948/49/50, pois o mesmo reproduz dois artefatos: o primeiro “uma pulseira de filha-de-santo, de latão, representando uma cobra enrodilhada, terminando nas duas extremidades em cauda e cabeça, sendo esta finamente trabalhada e os olhos formados por contas vermelhas†(Fig. 02).

 

 

 

 

Figura 02: Amuleto em forma de cobra

 

 

 

O segundo ainda de acordo com o autor, trata-se de uma “peça de ferro (22 centímetros de altura), constituída de três lanças e duas foices enlaçadas por uma serpente, na extremidade inferior, tendo uma pequena base ou suporte quadrangular†(Fig. 03).

 

 

 

 

Figura 03: A serpente protege as armas

 

 

 

Como se vê, a existência desses dois importantes artefatos, que “datam de mais de um séculoâ€, pertencentes a “Coleção Perseverança†vem, de certa maneira, corroborar a segunda hipótese.

Num mundo que órbita em torno de rigorosos Protetores, nada é feito sem a sua permissão. Portanto, para se colocar em prática tão elaborado plano, teriam que obter o seu consentimento e por isso realizavam sem cessar, no lugar onde se oferecia sacrifícios a Dangbê, os rituais apropriados para que eles aparecessem e aprovassem o que pediam. Esta era a única esperança. Certa vez, após realizarem os costumeiros ritos, viram as nuvens repentinamente enegrecerem, serem iluminadas por tremendos relâmpagos, fortíssimos raios e o solo estremecer devido ao violento ribombar dos trovões. Notaram espantados,que se abrira uma enorme fenda no continuum espaço-tempo. De repente, sem saberem como, sentiram uma presença que aos poucos foi se materializando: era ele, um dos Guardiões da Eternidade, o Protetor de Dangbê e de Dan (Fig. 04). A princípio ficaram amedrontados, depois atemorizados, em seguida, fascinados com aquela imagem espantosa e por fim, aliviados e imensamente satisfeitos não  só por terem a oportunidade de ficarem face a face com o Guardião, mas também por ele ter-lhes hipotecado total e irrestrita solidariedade. Aquilo era um verdadeiro milagre!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura: 04: Imagino que esta seria a Entidade Protetora de Dangbê e de Dan.

Portanto, a morte do rei dos palmarinos com peçonha é um fato importantíssimo por dois motivos: o primeiro porque não só admite, no início da ascensão de Zumbi, a possibilidade de outros grupos étnicos, até agora sequer mencionados, adeptos a um profundo processo de reforma religiosa. Talvez se possa ter uma idéia mais exata da importância desse movimento pela perseguição violenta e absurda que tanto as autoridades portuguesas quanto determinados membros de sua própria raça empreenderam para destruí-lo após o assassinato de Ganga Zumba.

O segundo também prova que ela foi um duríssimo recado, um aviso para todos aqueles que estavam contra ele de que sob sua liderança, a revolução que ocorreria nos Palmares não se limitava apenas a modificações nos campos político, administrativo e militar. Ela abrangeria também o que todos aqueles já escravos ou a isso destinados, mais temiam e respeitavam: a área religiosa.

Chegara, enfim, o momento tão esperado. Tinham alguém em quem confiar. Alguém a quem, com segurança, seguir. Sabiam que se não atendessem o chamado e fugissem, mais tarde ou mais cedo, de uma forma ou de outra, a escravidão faria com que tivessem a pior e mais atroz das mortes.

Mas, nem tudo eram flores. Existiam os que não queriam aceitar a nova vida. Mesmo assim, eram levados para os quilombos. Podemos dividi-los em duas categorias: aqueles a quem os castigos físicos e morais do cruel cativeiro dobrara o corpo e a alma e os colaboracionistas. Os primeiros não abandonavam as senzalas porque psicologicamente destruídos. Em Palmares eram tratados e uma vez curados do pânico em que viviam, tomavam para si, com bravura admirável, a luta pela causa palmarina. À segunda categoria pertenciam os escravos sadios, mas que, no entanto se opunham a abandonar as senzalas: eram os “convertidos†e os “colaboracionistasâ€. Com certeza, havia algum tipo de punição. Isto, de maneira alguma, significa dizer que eram escravizados. No máximo pode-se falar em tratamento diferenciado. Afirmar que nos inúmeros quilombos do imenso território palmarino existia escravidão, é negar os senhores de engenho. Negar os senhores de engenho, é negar os engenhos e as senzalas. Negar os engenhos e as senzalas é negar os escravos e a produção de açúcar. Negar a produção de açúcar e os escravos é negar a fuga para os quilombos. Negar a fuga para os quilombos é negar a escravidão. Negar a escravidão é negar Palmares. Negar Palmares é negar, em seu seio, a mais pura forma de liberdade e igualdade, é ir de encontro a centenas e centenas de fontes históricas primárias e secundárias que atestam ser a palavra Palmares sinônima de liberdade e igualdade não podendo por isso serem dissociadas. Negar isto é negar que em Palmares, no século XVII, homens estigmatizados pelo preconceito racial, em densa floresta, fundaram dezenas e dezenas de comunidades onde as majestades eram a liberdade e a igualdade. Infelizmente a brutalidade de seus opressores superou a valentia de seus defensores e elas foram simplesmente fisicamente destruídas por aqueles que achavam (e ainda hoje acham) que o valor do ser humano reside unicamente no fato de aceitarmos nossas semelhanças, nunca no de respeitarmos nossas diferenças, e por isso desapareceram tornando-se lembranças que ficaram gravadas apenas na memória do tempo.

Motivados por forças misteriosas não falta quem, baseados em documentos que além de escritos por vencedores tinham como única função o

completo desvirtuamento de sua história, queira macular sua belíssima trajetória atribuindo a estes Pólos de Liberdade o odor fétido do comportamento fascista. O que temos a obrigação de corrigir são estas versões extravagantes, pois Palmares era, na realidade, um gigantesco Santuário da Liberdade. Seus inumeráveis quilombos eram jardins cujas rosas só exalavam o perfume do ser livre. Sua imensa área era, intrinsecamente, impregnada por uma paz eterna. Versões divergentes nada acrescentam, só retiram, nada aumentam, só diminuem, nada prestigiam, só desmerecem e desmoralizam.

Um outro grande mérito de Zumbi foi o de ter tido a primazia de realizar o primeiro e único movimento de reforma religiosa em toda história de

Palmares. O que confere ao movimento do culto da serpente uma originalidade inconfundível é a exclusividade de sua prática sob sua liderança, pois ele não era somente o seu pontífice supremo, era também, e, sobretudo, “seu profeta, intérprete e executor da vontade divinaâ€: não foi ele quem ordenou que matassem a peçonha Ganga Zumba? Além do mais, esse processo de reforma religiosa foi um dos fatores que contribuíram para conduzir os palmarinos a uma era de liberdade, coragem e criação, arriscando-se, porém, a conseqüências extremas: o choque final entre senhores e servos. Ao admitirmos esta hipótese temos de aceitar que Zumbi foi também um revolucionário religioso.

Sei que por propor a interferência de “Forças Superiores†na história de Zumbi serei criticado por excesso de imaginação. Dirão que isso não passa de pura fantasia. Que foge inteiramente da realidade. Pergunto: o que é a realidade? Em se tratando de “seres†que possuem sua existência baseada no princípio da Criação e não no da Evolução, estou fugindo de qual realidade? Da realidade de um Universo, de uma dimensão ou de um mundo que sabemos existir, porém não temos a menor noção de onde se localiza? Da realidade de “seres†que não podem ser mapeados? Sabemos que a ciência hoje se encontra numa prisão: a do imperialismo empírico. Novamente pergunto: devemos nos resumir, nos submeter, unicamente ao que decreta este imperialismo ou acreditar que algo mais existe além do que vemos a nossa volta e que foge do nosso ridículo mundinho empírico? O que aconteceria se a “racionalidade†dos empiristas se defrontasse com o sobrenatural? É heresia acreditar, por exemplo, que determinados fenômenos paranormais além de existirem têm sua origem totalmente independente de nós e de nosso planeta e ocorrem para nos ajudar, orientar e prevenir? Se for, estou pronto, levem-me para a fogueira.

Não me importo se, devido ao que escrevi me acusem de “abuso de credulidade†ou disserem que tenho predisposição para acreditar na existência de vários mundos povoados por seres corpóreos extremamente mais evoluídos que nós e em outros habitados unicamente por entidades puramente espirituais, pois não podemos negar o que não entendemos.

Tenho a consciência tranqüila, pois não preciso de comprovação científica para acreditar que durante a história nunca deixamos de receber certo tipo de ajuda. A disposição de quem interesse tiver, encontra-se uma infinidade de fatos há muito considerados inexplicáveis. Afirmo isto sem nenhum medo do velho esquema baseado na suspeita>prisão>interrogatório>tortura>execução. Medo, eu não tenho. Seja de quem for. Quem tem responsabilidade, se preocupa com as conseqüências de seus possíveis atos. Isto é completamente diferente de ter medo. É bom não confundir. Portanto, como já disse, o velho esquema, eu não aceito. Se por falta de alguma nova informação acharem, que a este respeito, vago por uma escuridão impenetrável, eu peço, acendam, nem que seja um candeeiro para me iluminar. Se a minha cegueira for tamanha que mesmo com a luz da candeia eu não consiga enxergar o caminho certo então, por favor, peguem na minha mão e me conduzam à verdade. O mundo está repleto de pessoas que enxergam, mas fazem questão de não ver e quando vêem, insistem em não enxergar. Não faço parte deste “seleto grupoâ€, pois não sou míope e nem sofro de “deficiência conceitualâ€. Para mim, o caminho que acabaria com isto seria, com certeza, defender, iniciar e praticar com maior intensidade a interconsulta, ou seja, procurar, com a devida seriedade, saber o que nos pode informar, do ponto de vista parapsicológico, os sensitivos, e do ponto de vista espírita, os médiuns incorporadores.

Com a morte de Ganga Zumba, Zumbi torna-se o único herdeiro, perante os deuses e perante os homens, do destino dos palmarinos. A partir deste momento, os poderes político, religioso e militar estavam incorporados numa só pessoa. Agora, os componentes da “Tróia Negra†a ninguém mais deviam obediência e respeito à não ser a Zumbi. Sua liderança e autoridade se perpetuariam por ininterruptos vinte e cinco anos.

Uma nova história de Palmares iria começar. Por isso, era necessário que permanecesse no mato para responder a altura os absurdos e infames castigos aplicados a seus semelhantes nas áreas urbanas e rurais da Capitania de Pernambuco. Foi o que fez! E muito bem!

 

 

6. O PORQUÊ DA CONSTRUÇÃO DA FORTALEZA

 

 

Os que fugiram dos engenhos para a região que ficou conhecida com o nome de Palmares, encontraram uma segunda Canaã, uma segunda Terra Prometida. Apesar das profundas cicatrizes deixadas pela saudade da terra natal e pelos desumanos tratos recebidos, se contentaram com a tranqüilidade de nossos bosques, com a fartura de nossa fauna, com a fragosidade de nossa flora e com a fertilidade de nosso solo. Tudo era exuberante.

Queriam apenas viver em paz. Serem tratados como seres humanos. Ter o direito a terra não como ostentação, mas para explorá-la e trabalhá-la incessantemente para dela retirar sua completa subsistência. Não puderam porque os ditos supercivilizados da época lhes impuseram um pavoroso regime: o do terrorismo.

A quantidade de terras e de escravos que possuíam, não era suficiente e por isso invadiam os Palmares, saqueavam e depois incendiavam os quilombos, destruíam suas plantações, roubavam suas criações, estupravam suas mulheres, raptavam suas crianças, velhos e velhas, matavam seus guerreiros e, os poucos que sobreviviam, retornavam a uma bárbara escravidão.

As perdas causadas por estas investidas eram terríveis. Para evitá-las eram obrigados a viverem como ciganos, ou seja, em constante processo de mudança.

Se, por um lado, este comportamento “resolvia†a situação, por outro, só piorava, pois cada vez que isto acontecia, tudo o que havia sido construído através de árduo trabalho e muito sofrimento, era deixado para trás, simplesmente destruído.

É difícil, muito difícil, viver sempre recomeçando! E como é difícil!

Cansado de tantos “começar de novo†Zumbi, um pouco antes de 1694, decidiu, de uma vez por todas, tomar uma atitude radical: acabar com o desespero causado pelas constantes investidas antipalmarinas, parar com a guerra de emboscadas e com a vida de andarilho que até então mantinha, se fixar em determinado ponto dos Palmares, construir uma fortaleza no cume de uma serra e partir “para o tudo ou nadaâ€. Tinha consciência de que se vencesse o grande exército colonial que, com certeza, marcharia contra ele, a repercussão de sua vitória seria tão grande que todos os escravos se rebelariam e a escravidão acabaria. Com a ajuda deles e de todos os outros excluídos, passariam a ter o completo controle não só da Capitania de Pernambuco como também da Paraíba e do Rio Grande do Norte e jamais os supercivilizados voltariam a reconquistá-las. Não haveria necessidade de nenhuma “Lei Ãureaâ€, pois o fim do cativeiro seria escrito, em 1694, não pelas mãos perfumadas e delicadas de uma Princesa que segurava uma pena de ouro de caneta banhada com tinta originária de outras realezas, mas por baionetas, balas, facões, foices e facas ensopadas com o sangue da mundiça escravista. Neste caso, o conteúdo dos livros de História do Brasil seria completamente diferente. E como seria!

 

 

7. A DESTRUIÇÃO DA FORTALEZA

 

 

Sabedoras desta decisão as tropas coloniais se puseram em marcha. Nunca se vira tão grande exército. Tantos mercenários juntos. Calcula-se em mais de três mil. Lenta e decididamente, através de vales, colinas e montanhas, esta legião interminável rumou para a colossal fortificação. Lá chegando, os otimistas tornaram-se pessimistas, os decididos, tímidos e os corajosos, receosos, pois o que viram em todos os aspectos extrapolava tudo o que haviam imaginado: a Fortaleza era um monumento colossal, pois possuía, de uma extremidade a outra 2470 (duas mil quatrocentas e setenta) braças craveiras, isto é, praticamente oito quilômetros, ou seja oito mil metros.

No entanto, o estado de espírito derrotista que se abateu sobre as tropas não foi suficiente para fazer desistir seus comandantes: inúmeras vezes investiram contra a Fortaleza, mas devido à sofisticação de seu sistema defensivo interno e externo eram violentamente repelidos.

Para solucionar este problema e, também, aprisionar todos os defensores da Fortaleza dentro dela mesma, Domingos Jorge Velho foi de uma astúcia satânica: mandou construir duas contra-cercas oblíquas a Fortaleza.

No vigésimo segundo dia de cerco e trabalhos, quando a contra-cerca construída sob a supervisão de Domingos Jorge Velho havia atingido seu objetivo e a outra, supervisionada por Bernardo Vieira de Melo, achava-se a oito braças da Fortaleza, Zumbi e seus guerreiros saíram, através deste espaço, na madrugada do dia 6 de fevereiro de 1694, com o objetivo de lutar contra o exército invasor.

Foram pressentidos pelas sentinelas que, sem perca de tempo, deram o alarme e, da escuridão, centenas de armas de fogo foram disparadas. Uns morreram no local e, como tudo acontecia nas imediações de um precipício, outros despencaram no mesmo – fato gerador da lenda do suicídio épico – os restantes foram aprisionados e a Fortaleza foi incendiada.

Apesar do cerco a Fortaleza ter durado apenas 22 (vinte e dois) dias, o que aconteceu durante e após sua destruição foi de uma natureza tão brutal e genocida que só é igualada aos grandes crimes registrados pela História, como os cometidos pelo Império Romano contra os Cristãos, pela infame Inquisição, pelos nazistas com o Holocausto e pelas criminosas explosões atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki autorizada pelos americanos. Além do mais, após sua queda, toda a região foi submetida a uma indesejável atenção da inquisição militar dos exércitos invasores dos ditos supercivilizados.

Em seis de fevereiro de 1694, Zumbi, aos trinta e nove anos, desesperado, vê o gigantesco baluarte que mandara construir para defender o direito de ser livre, o direito de ser tratado como ser humano, cair. Cair, para sempre.

Apesar de todo esforço, de todo trabalho, todo idealismo, toda nobreza de ideal, toda coragem e valentia de seus defensores, a gigantesca Fortaleza, construída totalmente de material perecível e altamente inflamável, foi incendiada. O principal símbolo da resistência escrava e a última esperança de liberdade foi completamente destruído, completamente consumido pelas chamas.

Ardeu, como no passado arderam as fogueiras da Inquisição com os corpos de homens e mulheres que não possuíam nenhuma culpa; como o castelo de Montségur, com os santos cátaros e, como no futuro, arderiam os fornos de Auschwitz, com os inocentes judeus e se vaporizariam milhares e milhares de civis japoneses com as bombas de fissão nuclear.

Que destino trágico para a liberdade!

 

 

8. A LIDERANÇA DE ZUMBI: UM MITO?

 

 

Nos Palmares viviam milhares de ex-escravos. Acredita-se que entre 20 e 30 mil. Como Zumbi era o líder absoluto desta enorme massa, nada mais correto do que supor que uma boa porcentagem o acompanhou para ajudar a defender a Fortaleza.

Ficamos perplexos quando, ao compulsarmos os documentos que nos falam sobre a queda da Fortaleza, verificamos que isto não ocorreu, pois segundo um Requerimento de Domingos Jorge Velho – corroborado por outras fontes históricas primárias – por ocasião da queda da Fortaleza caíram no precipício “couza de duzentos, e mataram-se outros tantos, e aprisionaram-se quinhentos e dezenove de todos os sexos e idades…â€.

Entre os documentos que autenticam o citado Requerimento cito como exemplo, a “Carta do Governador de Pernambuco, Caetano de Mello e

Castro, de 18 de fevereiro de 1694, sobre a gloriosa restauração dos Palmaresâ€,  que afirma textualmente: “… e não houve entre os nossos toda a resistência necessária pelos poucos defensores que se achavam naquele distrito…â€.

A se dar crédito as fontes históricas primárias, a liderança de Zumbi resumia-se a novecentas e dezenove pessoas, incluindo velhos e velhas, rapazes e moças, crianças de ambos os sexos e os guerreiros.

Como se vê, a discrepância é considerável. A opinião dos historiadores e o relato de Domingos Jorge Velho contrastam-se completamente. Não há a mínima similaridade. Apesar disto, é a versão que Zumbi liderava uma imensa quantidade de palmarinos a mais lembrada e constantemente reproduzida, ou melhor, a que está completamente cronificada.

A Fortaleza de Zumbi era uma megaconstrução. Sabemos, através das informações transmitidas pelos repressores e corroboradas por outras fontes históricas, que para Zumbi construí-la necessitava de uma rígida organização, disponibilidade de trabalhadores e uma abundante mão-de-obra especializada.

Aqui, uma pergunta de extrema relevância se impõe: qual, então, a explicação para tão poucos defensores?

Acreditamos que não há nenhuma temeridade supormos que esta pouca quantidade de defensores pode nos levar as seguintes hipóteses:

 

a. o número de palmarinos aprisionados foi, na verdade, muito maior e houve um gigantesco caso de falsidade ideológica;

 

b. se correta esta hipótese, temos de admitir que sua construção não exigiu um esforço extraordinário dos adeptos do plano de Zumbi;

 

c. milhares eram os seguidores de Zumbi, mas a propaganda do gigantesco exército que marchava contra a Fortaleza fez com que a grande maioria debandasse, ou seja, fugisse para distante do local do combate;

 

d. os que foram assassinados, pelas tropas invasoras na madrugada do dia 6 de fevereiro de 1694, por arma de fogo e branca, ultrapassa consideravelmente a quantidade citada pelos documentos;

 

e. o número de palmarinos que caiu no precipício na mesma madrugada foi muito maior do que a relatada;

 

f. aqueles que acreditavam numa possível vitória de Zumbi resumia-se, na realidade, aos que foram encontrados na Fortaleza;

 

g. finalmente, será verdade que tanto a badalada liderança de Zumbi quanto o gigantismo da Fortaleza seriam, na realidade, um dos maiores mitos que povoam o final da epopéia palmarina?

 

Quem quer que tenha o interesse de compulsar a documentação existente sobre o assunto constatará que a mega-fortaleza com seu sistema defensivo interno e externo não só exigia uma abundante mão-de-obra e especializada para ser construída como também para ser defendida. O problema é que a documentação contemporânea aos fatos narrados nega a quantidade de defensores que seria necessária.

Totalmente cabíveis são outras duas perguntas: quais as descobertas arqueológicas de relevância efetuadas na Serra da Barriga que possam comprovar que neste acidente geográfico existiu um monumento de tais proporções? Se nada, neste sentido, encontraram até agora, por que ainda continuam dando a entender que foi aí onde tudo ocorreu? Por que as comemorações neste local? Quais os estudos feitos no sentido de esclarecer que “os Outeiros do Barrigaâ€, o “Outeiro do Barriga†ou a “Serra do Barriga†de Domingos Jorge Velho é a mesma serra que hoje conhecemos com o nome de Serra da Barriga, situada em União dos Palmares?

Não tenho certeza, mas acredito que foi na administração do saudoso Reitor João Azevedo, há mais ou menos trinta anos, que se começou a gastar dinheiro com o que se conhece como Palmares e com o personagem Zumbi.

Historiadores, paleógrafos, sociólogos, antropólogos, arquitetos e arqueólogos, entre outros, estavam envolvidos nos mais diversos Projetos, que tinham como objetivo estudar setorialmente a “Tróia Negra†para fornecer explicações à sociedade.

Até Fundação, como a Fundação Palmares e outros órgãos – em Alagoas foi criado o NEAB – foram criados para estudar, orientar e patrocinar os interessados nas comunidades palmarinas.

Pergunta-se: quantos foram os Projetos? Quais os responsáveis? Qual o valor solicitado por cada um? Quais os resultados? Já se fez alguma sondagem para se saber se os resultados apresentados são compatíveis com o que se gastou?

Pergunta-se: quanto foi gasto, a nível pessoal, municipal, estadual e federal, até o presente, com o assunto Palmares em Alagoas?

Sou de opinião que o caso Palmares, como um todo, há muito que está a exigir perguntas e respostas. Isto só se consegue se as autoridades competentes determinarem que se faça, com a máxima urgência, uma investigação, uma sindicância, ou outro equivalente procedimento administrativo, sério e minucioso, sobre os investimentos efetuados, o volume financeiro gasto em todos os aspectos relacionados com Palmares – que acredito não foi pouco – e, depois, comparados com os resultados obtidos para se saber de que forma houve o retorno para a sociedade. Saber, também e, principalmente, se esses resultados são convincentes e compatíveis com as despesas.

O povo brasileiro merece uma resposta.

 

 

9. O ASSASSINATO DE ZUMBI

 

 

Na madrugada da destruição da Fortaleza, Zumbi não morreu. Seus guerreiros o defenderam e ele, mesmo atingido por “duas pelouradas†conseguiu livrar-se da morte. Era fundamental que permanecesse vivo. De sua incontestável liderança, indômita bravura e insubstituível presença física, dependia a reunificação do pouco que restara.

Mais morto do que vivo, pois arrasado psicologicamente, destruído militarmente e contando somente com a ajuda dos poucos companheiros que

conseguiram escapar do massacre, cambaleante, internou-se nas matas inóspitas a procura de um lugar seguro. De um lugar onde pudesse descansar, recobrar suas forças, colocar sua consciência e seu raciocínio em ordem e reagrupar seus guerreiros. Encontrou-o, e lá construiu seu esconderijo que consistia de um “sumidouro que artificiosamente havia fabricadoâ€.

Aos poucos a localização desse esconderijo tornou-se razoavelmente conhecida por pessoas que num futuro próximo se tornariam seus piores inimigos: aqueles que apesar de fazerem parte de seu círculo íntimo eram, na realidade, verdadeiros párias, calhordas, judas camuflados, pois só esperavam uma oportunidade para mostrar sua verdadeira face.

Um deles, chamado Antônio Soares, aprisionado nas imediações de Penedo, foi entregue a um “destacamento†em que ia por Cabo o Capitão André Furtado de Mendonça. Após algumas horas de “conversaâ€, comprometeu-se, em troca de sua liberdade, guiar o referido Capitão ao local onde Zumbi podia ser encontrado.

Palavra dada, palavra cumprida.

Guiado por Antônio Soares, o Capitão André Furtado de Mendonça e sua gente cometeu, neste misterioso sumidouro, um dos mais hediondos e sádicos crimes de que se tem notícia em toda a história do Brasil: Zumbi foi assassinado por “quinze ferimentos de bala e muitos de lanças vendo-se ainda que o membro da virilidade do dito negro se havia cortado e enfiado na boca também lhe faltando um olho e se lhe cortara a mão direita†(Fig. 05).

 

Figura 05: O assassinato de Zumbi: o sadismo

de um crime

10. ONDE MORREU ZUMBI?

 

Este é, sem dúvida alguma, um dos assuntos mais controversos do final da história da “Tróia Negraâ€, devido à ambigüidade dos dois únicos documentos que nos fornecem uma pista para localizar, geograficamente, a morte de Zumbi.

Basta dizer que enquanto uma fonte histórica informa que ele foi morto “nas cabeceiras do Paraíbaâ€, isto é, no município de Bom Conselho, no Estado de Pernambuco, o outro diz textualmente que o Capitão André Furtado de Mendonça “conseguiu a morte do negro no sumidouro que este artificiosamente fizera na Serra dos Dois Irmãosâ€, localizada no município de Viçosa, Estado de Alagoas.

No entanto, a bem da verdade, devo dizer que ainda não consegui localizar o original da preciosa fonte histórica que cita a Serra dos Dois Irmãos como o último refúgio de Zumbi.

 

 

11. A ESTRUTURA FÃSICA DE ZUMBI

 

Infelizmente o único documento, até a presente data descoberto, que contém informações sobre a estrutura física de Zumbi é o intitulado por Décio Freitas de “A Cabeça de Zumbiâ€. Nele afirma-se que seu físico era raquítico, pois possuía “um corpo pequeno e magro†(Fig. 06).

 

 

 

 

Figura 06: ZUMBI: Corpo raquítico e pequeno

 

 

No entanto, devo ressaltar que esta afirmação difere completamente do que diz “A Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do Governador D. Pedro de Almeida, de 1675 a 1678â€, onde, entre outras informações, consta que os chefes palmarinos eram “corpulentos e valentes todosâ€.

 

 

12. A ATITUDE MACABRA

 

 

Morto, foi levado para Porto Calvo, onde ordenaram um negro que decepassem sua cabeça e salgassem com “sal fino†para que pudesse ser enviada ao Governador de Pernambuco Caetano de Melo de Castro, prova irrefutável e definitiva de sua morte.

O Governador ao receber o macabro presente, determinou que “se pusesse em um pau lugar mais público daquela praça (segundo o documento n° 27 do livro “República de Palmaresâ€, o local escolhido foi a “ponteâ€), a satisfazer os ofendidos e justamente queixosos, e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam-no imortal†(Fig. 07).

 

Figura: 07: A cabeça de Zumbi atemoriza os escravos

 

CONCLUSÃO

Zumbi foi barbaramente assassinado em 20 de novembro de 1695 (!?), aos quarenta anos de idade. Ao longo de toda a história de Palmares nunca houve um personagem tão influente e carismático como ele. Isto o torna a personalidade mais importante da “Tróia Negraâ€. Foi uma vida apaixonante de 25 (vinte e cinco anos) de chefia repleta de fatos que se tornaram “marcos históricosâ€.

Marcos que atingiriam seu clímax com Aqueda da Fortaleza e a tragédia do sumidouro. No entanto, tanto heroísmo só o fez merecedor de um assassinato sádico e do funeral mais indigno que um ser humano poderia ter.

Ele se foi, mas deixou gravada no coração e na mente de cada palmarino, de cada escravo, de cada excluído, de cada injustiçado, uma lição que jamais será esquecida: a lição de que enquanto houver injustiça e não se minimizar a extravagante diferença existente entre os seres humanos é preciso, sem medo, lutar com bravura e coragem. Ensinou que tinham obrigação de se rebelar contra qualquer que seja o tipo de escravidão, pois todos nascem para ser livres. Que ninguém podia dizer o que deviam ou teriam a obrigação de fazer, porque todos eram iguais e sagrado é o direito de escolha. Que não deveriam ter medo de quem se comportasse como se fosse superior a lei porque nenhum ser humano, absolutamente nenhum, fosse quem fosse, possuísse a riqueza que possuísse, estava acima do bem e do mal ou era inatingível. Que eles, os menos favorecidos, deveriam se unir, formar um só corpo e, sem nenhuma piedade, marchar para derrubar todos aqueles que os prejudicavam: só assim poderia existir um novo comando, uma nova ordem, onde a riqueza tivesse sua origem na honestidade, não na corrupção, no trabalho digno e salário justo, não na humilhação e na miséria alheia, e fosse um patrimônio de todos, não um privilégio de poucos; que deveriam dizer não aos párias e aos calhordas que, mesmo humilhados e espoliados, faziam questão, em troca de migalhas sociais, culturais, políticas e materiais, de se unir a quem os escravizava, porque destituídos de vergonha e amor próprio, para aumentar o sofrimento de seu povo. Não deveriam se amedrontar com as constantes incursões em seu território, pois também podiam causar mais temor que esperança. Que não tolerassem passivamente os tormentos físicos e psicológicos que lhes impunham, mas partissem para conquistar a vitória e a glória. O que era a glória? A glória consistia em além de terem garantidas todas as suas necessidades básicas, possuírem o que existe de mais precioso para todo e qualquer ser humano: a liberdade, a paz e a tranqüilidade. Se lembrassem de que quem estava ali não era mais angolanos ou congoleses. Os Palmares tinham dono: eram dos palmarinos e apesar do poderio dos invasores supercivilizados, que somente queriam se apropriar de tudo o que a eles pertencia, lutassem para tornar a região livre e soberana. Se possível fosse, aceitassem colaboração na forma de ajuda e orientação, nunca na forma de prepotência e autoritarismo. Que lhes orientassem e lhes ajudassem para serem livres e não para continuarem a ser escravos. Isto era inadmissível. O caminho não era transformar conhecido em desconhecido; amigo em inimigo; correligionário em adversário; bem feitor em malfeitor, comprar pessoas como se fossem mercadorias e tratá-las como animais. O caminho não era este. Pessoas não se compram. Elas perdem a dignidade. Não se escraviza. É contra a ordem natural: são seres humanos, nossos semelhantes. Pessoas se conquistam por meio da educação e do respeito. Eles, os ditos supercivilizados, não estavam interessados em atitudes diferentes. Desejavam se beneficiar com as inimizades e aumentar sua riqueza transformando, cada vez mais, a liberdade em escravidão e os miseráveis em defuntos. Não havia mais como esperar porque jamais reconheceriam seus direitos e por isso de nada adiantava agir de maneira civilizada, mas sim, de forma truculenta. Não prometessem e nem pensassem em paz: mesmo amargurados e constrangidos, com as armas que dispunham, se preparassem para o confronto, para a vida ou para a morte.

Ah, como o presente seria diferente se todos os brasileiros menos favorecidos, excluídos e injustiçados se unissem e colocassem em prática este belo ensinamento! Eles querem e têm coragem. Não colocam porque os poucos líderes que surgiram foram sadicamente assassinados. Nada mais correto do que, em homenagem a estes líderes, nossas Instituições erigirem monumentos – no Campus da UFAL, por exemplo, há muito deviam ter construído várias estátuas que retratassem “fielmente†como era Zumbi quando vivo e o estado em que ficou após sua morte – para, quem os visse, pudesse entender melhor até que ponto pode chegar o ódio gerado pelo preconceito racial e por quem luta contra quem escraviza.

 

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS

Professor da UFAL

 

 

CRÉDITO DAS ILUSTRAÇÕES

 

 

1.     Os desenhos são meramente ilustrativos e foram elaborados pelo estudante Erivaldo Macário de Souza.

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

 

1. ENNES, Ernesto. As guerras nos Palmares                  (Subsídios para a sua história) 1º v.                             Domingos Jorge Velho e a “Tróia Negra†–    1687 – 1700.      Pref. de Afonso de E. Taunay.      São Paulo.         Nacional, 1938.

 

2.FILHO, Ivan Alves. Memorial dos Palmares. 1ª ed. Rio de Janeiro, Prisma, Industrial Gráfica, 1988.

 

3.  FONSECA, Pedro Paulino da. Memória dos feitos que se deram durante      os primeiros anos de guerra com os negros quilombolas dos Palmares,       seu destroço e paz aceita em junho de 1678. R, Trimestral    do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, Rio de Janeiro, t. 39, 1ª parte, 1876, p. 293-322.

 

4. FREITAS, Décio. Descrição com notícias importantes do interior de Pernambuco. República dos Palmares: pesquisas e comentários em documentos históricos do século XVII. Maceió : EDUFAL : IDEÃRIO, 2004. 300 p.

 

5. FREITAS, Décio. Palmares: a guerra dos escravos.      Porto Alegre. Ed. Movimento. 1973; 2. ed. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1978.

 

6. FREITAS, Décio. Descrição com notícias importantes do interior de Pernambuco. República dos Palmares: pesquisas e comentários em documentos históricos do século XVII. Maceió : EDUFAL : IDEÃRIO, 2004. 300 p.

7. RELAÇÃO das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador Dom Pedro de Almeida, de 1675 a 1678, MS de autor desconhecido, da Torre do Tombo, por cópia oferecida à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, pelo Conselheiro Drummond, (1794-1865). Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, t. 22, 2º tr., 1859, p. 303-3229.

 

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Em nome da paz


23/08/2011 - 8:58 -

Entre outros, quatro foram os principais fatos cuja barbaridade e perplexidade modificaram, por completo, a maneira do homem se comportar, do homem ver o próprio homem como seu semelhante: a Inquisição, a Teoria da Evolução, o Holocausto e a Bomba Atômica.

A Inquisição, movida pelo imperialismo religioso, fundamentada na ignorância e em falsas acusações, utilizou a fogueira para acabar com a crença na existência de outras Entidades e, assim, impor como única verdade o Cristianismo. Através deste procedimento tentaram excluir do ser humano o sagrado direito de escolha religiosa. Como combustível, para aniquilar todos aqueles que acreditavam “em falsos deuses†utilizaram em sua mais abominável máquina de matar, a madeira.

Queimou-se carne.

A Teoria da Evolução acabou a crença de que somos “a imagem e semelhança de Deus†trocando, assim, nossas luminosas vestes espirituais pelo nudismo e, depois, por sujas e fedorentas vestes materiais, confeccionadas a partir das mais diversas espécies oriundas dos reinos animal e vegetal. Além do mais, por provar que não somos o produto de uma Criação, mas da Evolução, nos tornou quase semelhantes aos demais animais do planeta, quebrando, desta forma, o sublime e intocável vínculo que nos unia diretamente a Divindade Suprema e nos fazia seus únicos herdeiros.

Queimou-se a Criação.

Foi em Hitler que o Puro Mal encontrou um de seus mais implacáveis servidores. Aqui, houve uma luta do Mal contra o Bem. Das Trevas contra a Luz. O envolvimento de Adolf Hitler e da grande maioria da cúpula do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães com a Sociedade Secreta VRIL e Thule, a suástica desenhada em posição dextrogira, que tremulava nas bandeiras nazistas – significando “a ação do homem sobre o destino e por vezes contra o destino†– a construção dos campos de concentração e dos macabros fornos, povoados e alimentados, principalmente, pelos descendentes daqueles que presenciaram a Grande Teofania, constituem prova cabal do trágico destino que os aguardava. O objetivo era, ritualisticamente, exterminar todo um povo. Não conseguiram. O Exterminador exigiu como combustível fogo e gás.

Pela segunda vez, queimou-se a carne humana.

Em 6 e 9 de agosto de 1945, tudo mudou: sobre o povo e os prédios de  Hiroshima e Nagasaki, pela primeira vez na história da humanidade, foi usado um fogo altamente devastador e totalmente estranho, porque diferente de tudo o que até então se conhecia como arma de extermínio em massa: o fogo atômico. O grande problema é que este tipo de fogo não queima somente a carne: queima, também, o espírito, dos que atingem e dos que são atingidos, pois o que representa o Gigantesco Cogumelo Atômico senão o Fogo, a Tocha de Lúcifer? O que ocorre quando do ser humano retiramos seu espírito? Ele se torna irracional e, consequentemente, de comportamento instintivo. O que isto significa? Simplesmente que Hiroshima e Nagasaki foram a gota d’água para que o próprio homem, definitivamente, se tornasse mais animalesco e menos humano.

Que destino trágico para a Humanidade!

As superpotências da época entusiasmadas com o poder do novo fogo dividiram o mundo em dois blocos: o capitalista e o comunista.  Com a “guerra fria†teve início a corrida armamentista, ou seja, cada bloco queria ser o primeiro a demonstrar que era o dono do maior Cogumelo. Americanos e russos continuaram não só a construir como distribuir, estrategicamente, pelo globo, armas luciferinas cada vez mais potentes. Pouco interessava se o “poder de fogo†de seus arsenais dava para destruir não a raça humana, mas o Planeta, centenas, ou milhares de vezes. O motivo? Se defender da morte utilizando a própria morte.

Que brilhantismo!

Desconheço toda e qualquer informação – em caso contrário, perdoem minha ignorância – no sentido de que as autoridades religiosas, políticas ou militares americanas, tenham demonstrado remorso, arrependimento ou apresentado publicamente pedido de desculpas a Humanidade ou ao Japão por terem acendido essas duas Tochas Luciferinas sobre suas cidades – na verdade, utilizaram-nas como cobaias – e provocado o tenebroso massacre de milhares e milhares de japoneses causando um ferimento que jamais cicatrizará e uma das mais bizarras e cruéis atrocidades de toda a História.

Fato interessante e intrigante: apesar dos americanos terem transformado Hiroshima e Nagasaki num holocausto flamejante radioativo, apesar deste inominável comportamento, eles nunca sentaram no banco destinado aqueles que cometeram crimes contra a humanidade. Isto é interessante! Muito interessante!

O tempo passou. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas fragmentou-se. A sua derrocada forneceu todos os elementos imprescindíveis para que os Estados Unidos passassem a ser os Senhores do Mundo. Assim, depois de dois mil anos, surgia uma nova “Romaâ€, um novo “Império Romano†e, os seres humanos passaram a ter, consequentemente, um novo patrão. A nova “Roma†não era mais a capital da Itália: tinha sido transferida do Continente europeu para a América do Norte. Seu nome: Washington. As unidades de força do antigo Império Romano – as famosas e temidas Legiões – foram substituídas pelas forças militares americanas que, como antigamente, espalham seus legionários (entenda-se, aqui, por “legionário†não só os propensos a ações militares, como também às super-lucrativas diplomáticas) por quase todos os Países do mundo para conhecer suas deficiências, saber o que de melhor possuem e, depois, amparados pela superioridade militar, com ou sem motivo, desrespeitando todas as leis e deixando de atender a todos os pedidos, enviar seus exércitos para invadi-los tornando-os suas meras colônias.

Voltaram a abrir o Portão!

Mais uma vez estava aberto o portão. O portão onde desta vez permitia que se utilizasse não só a violência ou a força bruta, mas a diplomacia para se escravizar. O portão cuja função era de evitar os efeitos destruidores dos piores tormentos: a falta de paz causada pela invasão da privacidade e pelo desrespeito a soberania. O portão por onde passam os vícios que no passado transformaram e no presente ainda continuam transformando homens do quilate de Ben Hur em tipinhos como Messala!

Não se pode admitir que os erros do passado se repitam no presente. Deve-se resistir. A resistência, encontramos na virtude, no pacifismo, na contribuição e, se preciso for, na resposta de que se dispõe.

Na virtude, que faz parte do amor próprio de cada um de nós. Ela é a centelha oriunda do Puro Bem, eternamente acesa em nossos corações. No pacifismo, que nos torna diferentes dos outros animais porque além da racionalidade possuímos espiritualidade. Na contribuição, ao colocarmos o lado benéfico de nossa “imaginação criadora†para evitar todo e qualquer mal que nosso lado negro seja capaz de cometer contra nossos semelhantes e, em último caso, na resposta do que se dispõe ao utilizarmos contra nossos agressores toda e qualquer arma que esteja ao nosso alcance.

Única e exclusivamente com o intuito de contribuir para que o “Novo Império Romano†revisse sua política externa, por ocasião dos bárbaros atos terroristas cometidos contra Washington e Nova York eu, que não sou nenhum inquilino do Olimpo e muito menos do Sinai, mas simplesmente um humilde ser humano, que estava preocupado com o desenrolar dos fatos e que ainda acredita haja espaço suficiente para que todos possam viver em harmonia encaminhei, em 27 e 30 de janeiro de 2001, via Internet, repetidas vezes, não só ao Excelentíssimo Senhor Presidente e Vice-Presidente dos Estados Unidos, como também para dois grandes jornais americanos, antes da invasão do Afeganistão, a seguinte carta:

 

De: Aloísio Vilela de Vasconcelos

Para: President@whitehouse.gov

Enviada em: Domingo, 30 de Setembro de 2001 19:10

Assunto: Carta – Terrorismo – Afeganistão

 

Senhor Presidente,

 

Os ataques terroristas a Nova York e Washington foram atos bárbaros e covardes que deixaram a nação americana ferida, humilhada e revoltada.

Em resposta a esses ataques os Estados Unidos da América iniciaram um programa que tem como objetivo, infelizmente, através da utilização da força, eliminar o terrorismo do Planeta.

Como conseqüência dessa política o mundo inteiro assustado, acompanha o envio de tropas de elite e de sofisticados aparatos bélicos para as proximidades do Afeganistão, País onde segundo informações esconde-se OSAMA BIN LADEN, o principal suspeito pela autoria intelectual do maior e mais ousado atentado da história.

Em contrapartida, sabe-se que o Afeganistão encontra-se em estado deplorável devido há mais de duas décadas de incessantes guerras e que seu povo está morrendo. Morrendo de doenças, porque não tem saúde; morrendo de ignorância, porque não tem educação; morrendo de fome, porque não tem alimento; morrendo por causa das adversidades da natureza, porque não tem habitação; morrendo de medo e desespero, porque não mais há esperança.

Um povo e um País nestas condições não devem ser conquistados pela força, pois não merecem ter mais sofrimentos.

Portanto, Senhor Presidente, em suas mãos está o poder de evitar o pior. Substitua as tropas de elite por médicos, enfermeiros, odontólogos, engenheiros, agrônomos, professores, etc.; substitua os sofisticados aparatos bélicos por moradias, alimentos, vestimentas, remédios, hospitais, escolas, etc.; substitua as trevas pela luz e o desespero pela esperança; substitua, finalmente, a vontade de matar pelo desejo de manter a vida.

Bem sabe Vossa Excelência, que substituindo a lei de Talião pela filosofia do “Meigo Nazarenoâ€, os Estados Unidos da América não apenas alcançarão seus objetivos sem a necessidade de um banho de sangue, como também mudarão, por completo, sua imagem perante o mundo islâmico.

 

A Humanidade agradece.

 

 

Aloísio Vilela de Vasconcelos

avilela@ofm.com.br*

 

Aloísio Vilela de Vasconcelos

Alameda São Francisco, nº 385(*).

CEP: 57055-770

Bairro: Farol

Cidade:Maceió

Estado: Alagoas – Brasil

(*) À época, estes eram meus endereços eletrônico e residencial.

Esta carta – na realidade se trata de uma súplica – foi também enviada a outros Chefes de Estado e inclusive ao L’Osservatore Romano, do Vaticano. O único Presidente que teve coragem – o termo é este mesmo – de me responder foi o da França. Eis a resposta:

 

De: “Présidence de la Republique†courrier.president@elysee.fr

Para: avilela@ofm.com.br

Enviada em: terça-feira, 27 de novembro de 2001 07:42

 

Assunto: RE: Présidence de la RépubliquePRÉSIDENCE DE LA RÉPUBLIQUESCP/CdO/P053711

 

Cher Monsieur,

Le Président de la Republique française a pris connaissance avec attention du message par lequel vous avez souhaité lui faire part de votre sentiment concernant lês opérations engagées em Afeghanistan.

Face aux attentats odieux qui ont lês Etats-Unis d’Amérique, lê Chef de l’Etat, avec le Gouvernement, a souligné la solidarité de notre pays dans la lutte contre le terrorisme, qui concerne tous les pays épris de droit et de liberte.

Comme il  l’a declaré: “Nous avons éprouvé dans notre chair, il n’y a pás si longtemps, l’horreur du terrorisme. Nous savons qu’il ne faut jamais ceder au chantage ou à la peur. La liberte et dignité sont à ce prixâ€.

La France soutient donc l’action militaire engagée em Afghanistan. Il s’agit d’une action dont la légitimité a été reconnue par lê Conseil de sécutité dês Nations-Unies, conformémente à la Charte, mais aussi d’une action nécessaire car lês bases dês terroristes se situent em Afghanistan.

S’agissant de la contribution française à ces opérations, elle a été définie avec lê Premier minister et lês ministres compétents, dans lês enceintes approprées. Elle a été rendue publique. Elle respecte lês conditions fxées par notre pays et notamment as liberte d’apréciation dans lê choix de l’objectif et dês modalités.

La France a parallèlement oeuvré pour la recherche d’une solution politique pour l’avenir de l’Afghanistan, qui reste urgente, ainsi que pour une meilleure prise em compte dês besoins humanitaires dês populations civiles. Lê Chef d’Etat a reppelé cette doublé exigence à tous sés interlocuteurs et au Secrétaire general dês Nations-Unies, et a fait dês propositions em ce sens. La France est ainsi actuellement engagée dans une action de sécurisation de l’aide humanitaire dans lê nord de l’Afghanistan.

Bien cordialement.

 

Chef de Cabinet

Annie LHERITIER

 

M. Vilela ALOISIO

Alameda São Francisco, nº 395 – Farol (*)

CEP: 57055

MACEIÓ – ALAGOAS – BRESIL

avilela@ofm.com.br(*)

(*) À época, estes eram meus endereços eletrônico e residencial.

Por que os outros Chefes de Estado não me responderam? Por que tanta omissão em se tratando de assunto de tal importância? Alguns dirão: não responderam por que não receberam.        Outros, sem dúvida, acharão que os acompanhantes dos “Senhores do Mundo†não tinham tempo para responder uma correspondência enviada via Internet e ainda mais por alguém totalmente desconhecido e sem nenhum poder. Concordo. Pode, realmente, ter ocorrido isto. Mesmo porque se atualmente o ser humano tivesse algum valor o relacionamento entre eles não os levariam a destruir os membros de sua própria espécie e muito menos o Planeta onde vivem.

Acredito, no entanto, que podemos acrescentar mais uma resposta para o mencionado silêncio: a prepotência do “Novo Império†impõe tanto medo, tanto terror as outras Nações que elas, mesmo tendo conhecimento de que seus atos são nocivos, preferem calar, se omitir ou mesmo apóia-lo para não correrem o risco de sofrerem algum tipo de sansão. É, a História não passa de uma imensa roda gigante: o que muda é a quantidade de voltas, o horário, os passageiros, o local onde a instalaram e os apetrechos mecânicos. Mesmo assim, ela sempre para no mesmo lugar. Parece-nos que o passado é o futuro e o presente o passado.

Nunca é demais lembrar: Nero incendiou Roma e colocou a culpa nos cristãos. Se dessem mais quatro anos de mandato ao Senhor Bush ou a um de seus seguidores – e como são muitos! – eles incendiariam o Mundo e colocariam a culpa nos alienígenas. Apenas um detalhe: nós é que seríamos os culpados e como tais, teríamos de pagar a conta. É preciso exemplo? De onde o “Império†vai retirar mais de um trilhão de dólares, que o fez entrar em recessão e, assim, atingir todos os países de nosso Planeta, gastos numa guerra totalmente inócua, montada sobre falsas acusações, contra o Iraque? É claro, “do sangue, do suor e das lágrimas†dos habitantes de suas colônias.

Isto tem de acabar! De um jeito ou de outro! Não através do barbarismo do terrorismo que faz Maomé, esteja onde estiver, tremer sob a sepultura e, de arrependimento, chorar sangue por ver que parte da belíssima e frondosa árvore que plantou, a religião islâmica, adoeceu e passou a produzir frutos podres, mas também porque a Humanidade não aceita, de forma alguma, ter mais um dono. Tenho certeza que a Estátua da Liberdade também está chorando! Como Maomé, está chorando sangue! Não só devido aos atentados terroristas praticados em solo americano ou de qualquer outro País, mas principalmente porque aqueles que tomaram para si a missão de praticar o que ela simboliza para o Mundo foram os primeiros a desvirtuarem o seu significado.

Que destino trágico para a Liberdade!

A vitória de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos nos faz acreditar que nem tudo está perdido. Nos faz acreditar que talvez haja uma esperança. Que talvez a Estátua da Liberdade pare de chorar. Que talvez a luz que se tornou tênue volte a brilhar com uma intensidade nunca vista. Que talvez do meio da prepotência e da arrogância tenha surgido a mansidão e a humildade. Que talvez do mais tórrido deserto, comece a jorrar uma fonte de águas cristalinas que a todos sacie e revigore. Que talvez não mais exista um Imperador que queira conquistar o Mundo, mas um pacificador que com suas mensagens e atitudes reunificará os dispersos, ajudará os menos favorecidos e não terá medo de domesticar a Ãguia Romana, quero dizer, a Ãguia Americana, para que ela se torne menos imperialista, violenta e predatória. Tudo indica que sua presença na Casa Branca tem algo de incomum, diria que até mesmo de profético, pois chega retumbantemente e em forma de resgate.

O grande problema é esta esperança não se contaminar ou se tornar vítima fatal da ideologia ariana ou de pessoas que apenas reprimiram o desejo de manter vivas organizações criminosas como a Ku Klux Kan.

Isto, inevitavelmente, seria o fim do que há muito começou a acabar.

Aloísio Vilela de Vasconcelos

Professor da Ufal

13.01.2009

 

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Eu e o casarão


19/08/2011 - 8:49 -

Mais uma vez, estou sozinho no casarão de meus saudosos pais. É noite alta. Faz frio. A ansiedade não me deixa cochilar, não me deixa dormir. Levanto e percorro todo o casarão. Olho, demoradamente, para cada cadeira, para cada sofá, para cada ambiente.

Lembro, com uma tristeza indescritível, os tempos idos. Recordo: ali era onde se ouvia o vozeirão de fulano. Lá, sentava beltrano. Acolá, bebia e dava infindáveis e sonoras gargalhadas, cicrano. O tempo passou e levou tudo. Só não levou o que devia ter realmente levado: a saudade, pois em cada canto do velho casarão ela está presente.

Uma saudade que faz questão de rir e mangar de mim justamente porque eu sinto saudade. E como é triste a sensação de solidão, de abandono!

Seria muito bom se quando as pessoas queridas “partissem†a saudade, a lembrança e a dor que sentíssemos fosse equivalente a um grave ferimento. Neste caso, seria fácil, muito fácil, sermos curados porque a medicina praticada por quem sabe e até por que não sabe, resolveria o problema.

Quando isto ocorre, nós não ficamos somente com a dor e a saudade provocada pela ausência de quem partiu. Não, não ficamos só com isto. O nosso mundo desaba. Desaba, por completo. Mergulhamos num poço sem fundo. E, acreditem, é difícil, e como é difícil nos deslocarmos apenas um metro em direção à superfície, ao topo.

Depois disto, vem o pior, pois com o “desaparecimento†de alguém de quem realmente gostamos se vai também um pedaço de nossa alma. E quando isto acontece, as conseqüências são terríveis porque se nossa alma diminui nos tornamos menos humanos e mais animalescos.

O grande problema é que, às vezes, sentimentos como a saudade e a lembrança são muito perigosos: da mesma maneira que nos trazem alegria, podem nos trazer tristeza; que nos trazem paz, podem nos trazer tormentos e guerra; que nos trazem amor, podem nos trazer ódio. Um ódio às vezes mortal. E todos nós sabemos que o ódio nada mais é do que a falta de controle do nosso lado negro. E como essa falta de controle nos impede de ver a Verdadeira e Única Luz, é desse fato que nasce o desejo de vingança. De fazer o mal. De lavar a honra. De levar às últimas conseqüências o amor próprio ferido.

A grande verdade é que para certas pessoas, por mais nobres que sejam nossas atitudes, elas, de nada valem, pois não reconhecem que, em troca, a paz conseguida é muito pouca, ou seja, fazemos o bem e recebemos o mal. Segundo esta filosofia, o correto é a inversão de valores, isto é, o justo é ser injusto, o santo, é ser pecador, o fiel é ser traidor, o amigo é ser  inimigo, a família, são os estranhos e o bom é ser ruim. Isto é interessante! Muito interessante! E como é interessante!

Mesmo na solidão da noite fria, alguma força estranha faz com que eu pare de pensar sobre assunto tão desagradável. Alguma força estranha me “pede†para sair. Atendendo o inexplicável pedido, abro o portão e saio. Dou uma volta na praça. Sem saber explicar como, de repente estou parado na Gruta de Nossa Senhora do Rosário, situada em frente da pequena, antiga e misteriosa Igreja consagrada a Rainha do Céu do mesmo nome. Penso em mim, em minha família e em todos os meus amigos – vivos e mortos. Apesar do barulho dos biriteiros do Bar Trovador Berrante, consigo me concentrar e, com os olhos cheios de lágrimas, rezo, rezo e rezo. Depois de minhas simples orações me sinto mais aliviado.

Por que¿ Descarrego psicológico ou influência do sobrenatural¿ Sinceramente, não sei o que responder.

Ao voltar, paro a certa distância do Casarão e após observá-lo por alguns momentos, entro e penso: AH! Casarão do Riacho do Meio, como estás velho e marcado pelo tempo! Como estás vazio e triste! Como estás solitário e amargo! Como tua estrutura apresenta cicatrizes! Como estás sem vida! Se te serve de consolo, eu te digo: apesar de todos os obstáculos, de todas as dificuldades e de todos os problemas, extrínsecos e intrínsecos, enquanto eu estiver de pé, também tu estarás de pé e enquanto eu viver, também tu viverás.

Onde está o povo, a razão principal de tua própria existência¿ Para onde foram os teus dias de glória¿ Onde estão aqueles que te deram vida¿ Os que, durante anos, abrigastes¿ Os que verdadeiramente te amavam¿

Uns, foram-se e nos observam de outra dimensão: da presença marcante de meu saudoso Pai, só existe lembranças e retratos. A meiga e doce voz de minha santa mãe quem hoje escuta são os Anjos e, através deles, a Santíssima Trindade. No entanto, por outro lado, o vazio deixado por sua definitiva ausência não mais me permite dizer com o anônimo, mas sábio poeta:

“Eu vi minha Mãe rezando

Aos pés da Virgem Maria:

Era uma santa escutando

o que a outra santa diziaâ€.

Ou com Tito de Barros:

“Não choro a minha cegueira,

Choro a falta de um guia,

Minha mãe quando era viva,

Eu era um cego que não viaâ€.

 

Os belíssimos, sinceros e sentimentais discursos, os abraços fiéis e verdadeiros, as sonoras gargalhadas e o vozeirão dos mais íntimos, até o eco a deusa Morte levou. Até mesmo a imprescindível presença de quem sempre pugnou pela união familiar, apesar de vivo, sumiu. O gigantesco barulho do povão de outrora o deus Tempo fez com que desaparecesse. Não sei se temporariamente ou para sempre.

Outros tomaram rumo diferente: apegaram-se a outras pessoas, sentimental ou politicamente e ao continuarem com o absurdo pensamento de que onde tu, Velho Casarão, vives existem apenas duas famílias, abandonaram por completo suas origens.

Não há como deixar de se lamentar algo tão estranho, pois quem esquece de quem foi não sabe quem é.

Velho Casarão do Riacho do Meio,  parece mais uma brincadeira de péssimo gosto, mas tornaste-te um desconhecido. Hoje, viram-te as costas e fecham-se as portas. Tratam-te como se nunca tivestes dado abrigo a determinados ancestrais! Como se nunca tivestes existido! Se ao menos os donos deste comportamento fossem Faraós, Imperadores Romanos, Senhores Feudais ou Reis Absolutistas, se não estivéssemos com a guilhotina preparada, ainda admitiríamos algo tão repugnante, mas quem hoje passa por te, acompanhados de seus inumeráveis cortesãos e cortesãs (na verdade, bajuladoras e bajuladores de plantão e ainda mais super-subservientes) e, além de não te dá à menor importância, se comportam como se nunca tivessem te visto ou conhecido, pertencem à classe dos biguzeiros.

Biguzeiros que podem, sem muita dificuldade, serem divididos em duas categorias: os biguzeiros onomásticos consangüíneos e os biguzeiros onomásticos não consangüíneos.

Justiça se faça: não há como deixar de admitir que a legitimidade dos primeiros lhes é conferida pela própria consangüinidade. Quando ocorre de se manterem em evidência mesmo depois de muito tempo após o desaparecimento dos grandes patriarcas, o bom senso, o reconhecimento e o valor intrínseco, nos informam sobre a indissociabilidade da herança genética da capacidade pessoal. Por isto mesmo, carregam sobre os ombros duas enormes responsabilidades de peso incalculável: do ponto de vista familiar, manter o indiscutível prestígio, a ilibada conduta, a respeitada inteligência e a extrema simpatia e simplicidade de seus ancestrais (nunca é demais lembrar que para diminuir a “pressãoâ€, renovar as “forças†e aliviar um pouco a “barraâ€, não há nada melhor do que darmos – nem que seja por um breve período de tempo – um “mergulho†nas origens, pois é de lá que retiramos confiança, segurança, ensinamento e apoio), e do ponto de vista político, adotar medidas que facilitem a vida de todos os cidadãos. E como se facilita a vida do cidadão¿ Fornecendo-lhe, é claro, condições para que ele possa satisfazer suas necessidades básicas. Não é, por acaso, a função de todo e qualquer homem público de respeito restituir a dignidade de todos os seus concidadãos que, há tempos vem, paulatinamente, sendo retirada¿

Aos segundos, os biguzeiros onomásticos não consangüíneos, está reservada a obrigação de aprenderem a caminhar com os próprios pés, ou seja, sem que haja necessidade de se agarrarem ao nome dos outros ou pedir emprestado suas muletas para, politicamente, conseguirem ficar de pé ou andar.

Não seria o caso dos figurões de hoje perceberem que, há muito, já passou da hora de assumirem uma nova postura no sentido de orientar as figuras, para que elas aconselhem as figurinhas e estas também o façam com os cínicos oportunistas e baratos aproveitadores no sentido de que mudem de atitude¿

É, Velho Casarão, mesmo após tanto tempo, os descendentes dos Grandes Chefes das Tribos que no passado abrigastes ainda continuam dispersos e por não perceberem que esta história de “gregos†e “troianos†não tem mais sentido, invocam motivos fúteis e descabidos de todo e qualquer fundamento para se digladiarem internamente, permitindo que outros povos “invadam†o território onde te situas e “domine†seu povo.

Não entendem que as diferenças devem acabar para que possamos unir nossas forças e, juntos, cumprirmos com nossa missão: libertar todos de todos os tipos de grilhões e de amarras que os prendem.

Por que não permitem que a força unificadora traga de volta a mesma linguagem para todos e transforme o passado no presente e o presente no passado que há muito, muito mesmo, infeliz e lamentavelmente se foi¿

É de admirar esta persistência gigantesca neste tipo de comportamento completamente descabido e retrógrado.

Afinal, onde reside o mistério¿ Na ingratidão¿ Na amnésia proposital¿

Se, infelizmente, assim for, o que fazer¿ Devemos, então acreditar em Tempore Mutantes!

Mas, um momento: neste caso o termo correto a ser utilizado seria “Tempore Mutantesâ€, “Exspectes ab alio quod feceris alteri†ou “Quosque tandem abutere, “Catilinaâ€, nostra patientiaâ€Â¿

No entanto, Velho Casarão do Riacho do Meio, independente de toda e qualquer frase que porventura possa ser utilizada, e em qualquer que seja o idioma, se pudesses falar, quantas histórias não terias para contar!

Em vista desta triste situação, tenho absoluta certeza que não cometo nenhum erro ao exclamar: Velho Casarão! Que destino trágico para você! Que destino trágico para pessoas que pensam como eu! Só eu, que altas horas da noite, vago sozinho e perdido pelos teus cantos e recantos, sinto o que tu sentes! Só eu sei que o que te atinge, também a mim atinge, pois comum é nossa dor! É incrível esta semelhança de fadário! Parece até que, numa das solitárias noites que contigo estive, celebramos um Contrato de Mútuo. Este “estado de espírito†torna-se mais acentuado quando as incertezas da vida contribuem para a formação de um turbilhão onde se misturam lembrança, ingratidão, tristeza, solidão, angústia, amargura e desespero. Apenas sete palavras! Mas, como são fortes! Como doem, ferem, machucam e destroem!

 

Lembro que certa vez depois de uma longa conversa, causada por uma explosão dos sentimentos acima citados, alguém me deu para ler um “folhetoâ€, anônimo, que até hoje guardo com bastante carinho. Tem como título a palavra “ESCUTE†e nele está escrito:

 

“Quando você sentir vontade

de chorar, não chore, pode Me

chamar que Eu venho chorar por você.

 

Quando você sentir vontade de

sorrir, Me avise que Eu venho

para sorrirmos juntos…

Quando você sentir vontade de

amar, Me chame, que Eu venho

amar você.

 

Quando você achar o mundo

pequeno para sua tristeza, Me

chame para partilharmos a dois

seus dias tristes.

Quando você achar que está

tudo acabado, Me chame, que Eu

venho ajudar a reconstruir.

 

Quando você precisar que alguém

lhe diga “Eu amo vocêâ€, me chame

que Eu digo isso a você

em qualquer momento, com muita

sinceridade.

 

Quando você não precisar mais

de mim, Me avise… mesmo assim

Eu simplesmente continuarei

amando você, pois o meu amor por

você é ETERNO, pois

Eu sou o amor,

 

EU SOU O SEU DEUSâ€.

 

 

Não há a menor dúvida, o texto além de consolador, expressa um profundo, sublime e transcendental amor. Perdoe-me o Todo Poderoso, não por estar perdendo a fé, mas se o hoje nada mais é do que o reflexo, a projeção, do passado e o ontem já passou, nada mais resta a nós, pobres “Filhos de Adãoâ€, do que a esperança na tangibilidade do Intangível. Por isso, fixo todos os meus pensamentos na Sagrada Cruz onde, por nossa culpa, o Santo Profeta Galileu derramou Seu precioso sangue. Devido a minha desilusão, a minha solidão, a minha angústia, a minha dor, ao meu desespero, as adversidades gratuitas e não gratuitas da vida e ao cansaço físico e mental de meus modestos cinqüenta e oito anos aguardo, ansiosamente, nem que seja uma microscópica manifestação que não seja oriunda deste ridículo mundinho que nos rodeia. Espero, espero e espero. O tempo passa. Vejo-o passar mais rápido do que a luz e nada, absolutamente, nada, me faz sentir melhor. O grande problema é justamente este: nas horas que mais necessitamos que Ele venha ao nosso encontro, apesar de todo o nosso clamor, temos a triste mais errônea impressão – pois não corresponde à verdade – que nada acontece.

SENHOR, se não consigo Te enxergar, perdoa minha cegueira e lembra-Te que todos nós temos os “amigos†que tivestes e, como Vós, os nossos Montes das Oliveiras e do Calvário.

Lembra-Te, SENHOR, que por não possuirmos o Teu infinito perdão e a Tua infinita misericórdia, com extrema facilidade mudamos nossas posições e nossos sentimentos.

Por isso, SENHOR, quando meu corpo nada mais for do que pó e minha pobre alma estiver diante de Ti, no Supremo Tribunal Divino, tende compaixão e lembra-Te de perdoá-la, pois foi minha racionalidade e não minha espiritualidade que, abandonando Tua santa Doutrina, Teus divinos Ensinamentos, deixou que os sentimentos mais amargos e negros fossem tão grandes e me tornassem tão insensível a ponto de não deixar que eu sentisse Tua inefável presença e todo o bem que me fizestes e continuas me fazendo.

Subo para o meu quarto. Sento na cadeira do velho birô de meu saudoso pai e começo a rabiscar algumas palavras. Apesar do adiantado da hora, sou surpreendido por um imenso barulho. Abro a janela para olhar: trata-se de um montão de jovens de ambos os sexos, todos desempregados, moradores dos vários mutirões e povoados do município, que passam cantando regaee, pagode e samba cujas letras, se bem entendi, referem-se à utilização de drogas “pesadas†e álcool.

Continuo na janela ouvindo a imensa zoada até que o “auê†silencia na escuridão da noite. Agora, a cidade está completamente deserta. A umidade do clima faz com que a neblina envolva a copa das árvores e o telhado das antigas e novas residências da mesma maneira como, no rigor do inverno, as mães, carinhosamente, preocupam-se em agasalhar muito bem seus queridos filhos para protegê-los do intenso frio.

Penso: por que aqueles rapazes e moças – considerados por muitos como maloqueiros, vagabundos e bandidos – mas, na verdade, legítimas vítimas do sistema – em vez de regaee, pagode e samba tendenciosos, juntos, e a uma só voz, não cantam, mesmo erradamente, com lágrimas nos olhos, pensando neles e em todos aqueles que vivem como eles, ou pior, nos calhordas, traidores, perseguidores, nos servidores do autoritarismo, nos verdadeiros subservientes do mal, nos autores intelectuais das piores enganações, em quem exalta a diferença entre as classes, prega a miséria, e banaliza a existência do ser humano, o conhecidíssimo hino que há uma parte que diz:

 

“Avante, filhos da Pátria,

O dia da Glória chegou.

O estandarte ensangüentado da tirania

Contra nós se levanta.

…………………………………………………….

…………………………………………………….

…………………………………………………….

……………………………………………………

 

Às armas concidadãos!

Formais vossos batalhões!

Marchemos, marchemos!

Nossa terra do sangue impuro se saciaráâ€.

 

Fecho a janela e vou para a cama. Fico olhando para a moldura que contém o Sagrado Rosto de Nossa Senhora de Fátima. Novamente, penso: foi com Ela que se encerrou o ciclo das Grandes Aparições da Rainha do Céu.

Seu maternal olhar faz com que meus olhos comecem a lacrimejar. Se choro, é porque a solidão de minha alma é maior do que o significado de minhas palavras.

Olhando-A, digo: Minha Divina Mãe! Hoje, mais do que nunca, precisava, desesperadamente, falar Contigo. Falar da minha tristeza, solidão, dor, sofrimento e angústia. Falar de minha revolta e pedir autocontrole. Falar, enfim, de minha vida, pois há muito tempo ando perdido. Caminhando na maior escuridão, nas mais densas trevas. Procurando um caminho e não encontro! Querendo ver a Luz e não consigo!

AH! Minha Divina Mãe! Estou desesperado e não Vens me acalmar. Sozinho, e não Vens me fazer companhia. Chorando, e não Vens enxugar minhas lágrimas. Triste, e não Vens me alegrar. Sofrendo, e não Vens aliviar a minha dor. Angustiado, e não Vens me consolar. AH! Minha Divina Mãe! Perdoa, por favor, a falta de fé deste teu fraco filho, mas é minha obrigação Te dizer: vejo-Te, porém não sinto Tua presença. Procuro-Te, mas não Te acho.

Sei que não podes ficar só comigo porque são muitos os que Te chamam e mais ainda os que socorres. Desejo, apenas, que dediques uma minúscula parcela de Teu preciosíssimo tempo a mim e digas: “Meu querido filho! Tu me chamastes, e por maiores e piores que sejam os teus pecados, Eu estou aqui. Como dissestes, Eu sou tua Mãe. Portanto, lembra-te: uma verdadeira Mãe, jamais abandona seus filhos. Por isso, não penses que te esqueci ou abandonei. Deita tua cabeça em Meu colo que Eu, como pedistes, com Meu Manto, enxugarei tuas lágrimas, com Minhas Palavras, te acalmarei, alegrarei e consolarei, com Minhas Graças, aliviarei tua dor e nunca, nunca mais sentirás a Minha faltaâ€.

Apesar deste ardente desejo, ninguém, absolutamente ninguém, vem ao meu encontro.

Sempre contemplando o Sagrado Rosto de minha Divina Mãe e Rainha do Céu, vagarosamente, adormeço.

A noite passa. O dia amanhece. A vida e meus tormentos continuam.

Sei que não mereço, mas é imorredoura a fé de que um dia Ela mandará também para mim um pouco de paz, esperança e tranqüilidade.

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS

Professor da UFAL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Eu não queria chorar


16/08/2011 - 8:17 -

Eu estava em Viçosa, minha querida “Pátria de nascimentoâ€. Como sempre, sozinho no casarão de meus saudosos pais. O crepúsculo havia passado e a noite já cobria a cidade. Apesar da artificial claridade, ainda via-se

o belíssimo cintilar dos milhões e milhões de estrelas que povoavam o céu.

Naquela noite, apesar de minhas preocupações com o conserto das profundas cicatrizes do Velho Casarão,

tinha assumido, com um grupo de jovens interessados em histórias e “estóriasâ€, um compromisso.

No exato momento em que tentava abrir a porta do carro vejo, do outro lado da rua, passar na calçada um grupo de pessoas humildes e vestidas de maneira simples, porém decente.

Um fato me chamou a atenção: notei que a grande maioria levava consigo uma Bíblia. Parei de tentar abrir a porta do carro e, imóvel, fiquei a olhar para aquele grupo de

pessoas que, sem nenhum barulho, caminhava silenciosa e

apressadamente. Logo descobri que além de pertencer, se

dirigia para determinada Igreja. Eu não sei o que houve, mas a verdade é que “algoâ€Â fez com que eu mudasse o meu endereço de ida, pois em vez de ir para onde me esperavam, decidi ser o meu destino o mesmo daquelas pessoas. Por isso, vagarosamente e a certa distância, segui-as.

Lá no final da Rua Frederico Maia, antiga Rua do Juazeiro, do lado esquerdo, no sentido numérico crescente, elas, e logo após eu, adentramos na Igreja.

Eu não queria chorar, mas durante o transcorrer da singela cerimônia, me emocionei e não houve como impedir que pelos cantos de meus olhos escorresse pesados pingos de lágrimas, que por virem do que existe de mais sagrado em meu íntimo, rolaram e queimaram minha face, assim como a lava de um vulcão tudo incinera por onde passa. Emocionei-me, com a fé inaudita dos que ali estavam (acho até que com relação a este ponto podiam me acusar de ter cometido um dos sete Pecados Capitais:

a Inveja); com a seriedade, autenticidade, e solidariedade dos participantes; com a ternura, o amor e o respeito que se faziam evidentes; com aqueles que, com os olhos mais parecendo com duas gigantescas catadupas, não tinham

vergonha de, no meio de todos, repentinamente, caírem de joelhos, dizer que acreditavam em JESUS, reconhecer que tinham pecado e pedir perdão; com os belíssimos cânticos dos coros formados pelos adolescentes e adultos; com a pregação simples, mas firme e substanciosa de quem naquela feliz noite dava explicações; finalmente, com o poder místico formado e o perfume exalado pela totalidade do conjunto. Por Deus, ali não existia Trevas, só Luz.

No entanto, tudo isto ocorria num ambiente onde reinava uma sublime simplicidade: o local onde a Igreja situava-se, sua arquitetura, seu mobiliário, os fiéis, pois não vi ninguém, absolutamente ninguém, elegantemente

vestido(a), exuberantemente adornado(a), fuxicando ou exibindo-se, nenhum rico ou “brasãoâ€, seja sentado ou de pé e, principalmente, nem sacos de ouro ou de prata.

A inexistência de ouro, de prata e de poderosos (onde há poderosos dificilmente deixa de existir também “espadasâ€), me fez lembrar uma das mais belas canções do Cristianismo. Uma canção que a minha santa mãe, Irene Vilela de Vasconcelos, e Tia Quinha (Irmã Francisca Brandão Vilela), sempre cantavam e eu, emocionado e com os olhos rasos d’água, ficava a escutar. Uma canção que foi cantada – e eu chorei – quando o negro véu da morte envolveu minha irmã Sílvia. Uma canção que em mim fez explodir o pranto, quando a cantaram por ocasião do falecimento de meu amigo Ricardo Mata.

Seu nome é a “A Barcaâ€. Foi composta pelo Padre Cesáreo Gabaraín e quem, belissimamente, a interpreta, é o Padre Zezinho.

Diz a letra:

Tu te abeiraste na praia

Não buscaste nem sábios, nem ricos

Somente queres que eu te siga…

Senhor, Tu me olhaste nos olhos

A sorrir, pronunciaste meu nome

Lá na praia, eu deixei o meu barco

Junto a Ti, buscarei outro mar

Tu sabes bem que em meu barco

Eu não tenho espadas nem ouro

Somente redes e o meu trabalho…

Senhor, Tu me olhaste nos olhos

A sorrir, pronunciaste meu nome

Lá na praia, eu deixei o meu barco

Junto a Ti, buscarei outro mar

Tu, minhas mãos solicitas

Meu cansaço, que a outros descansem

Amor que almeja seguir amando…

Senhor, Tu me olhaste nos olhos

A sorrir, pronunciaste meu nome

Lá na praia, eu deixei o meu barco

Junto a Ti, buscarei outro mar

Tu, pescador de outros lagos

Ânsia eterna de almas que esperam

Bondoso amigo, assim me chamas…

Senhor, Tu me olhastes nos olhos

A sorrir, pronunciaste meu nome

Lá na praia, eu deixei o meu barco

Junto a Ti, buscarei outro mar

Junto a Ti, buscarei outro mar

Junto a Ti, buscarei outro mar

Junto a Ti, buscarei outro mar

Me fez lembrar que foi devido a míseras trinta moedas

de prata que Aquele que tinha o poder de perdoar os

pecados, de curar os leprosos e paralíticos, de restituir a

visão aos cegos e de ressuscitar os mortos, foi traído.

Ouro e prata, SENHOR! Sempre ouro e prata! Tantos

com tanto ouro! Tantos com tanta prata!

Tantos sem uma casa para morar, sem um lugar para

dormir e sem ter o que comer! Tantos sem nada!

Absolutamente, nada!

São tantos, SENHOR, os que devido aos cruéis

sofrimentos causados pelas perigosas curvas da vida

perderam a fé, deixaram de crer e esqueceram a Tua

doutrina! Como são tantos!

SENHOR, eu não queria chorar, mas Vós que

dissestes que “As raposas têm tocas e as aves do céu,

ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a

cabeçaâ€, chorando, Te peço: socializa a riqueza para que

todos os Teus filhos não mais se sintam materialmente

desamparados, mas lembra-Te de socializar também a

espiritualidade para que eles possam crer, ter fé e praticar

o que ensinastes.

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS

Professor da UFAL

18.01.2010

 

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Realeza do açúcar


11/08/2011 - 7:45 -

Não é de hoje que leigos e especialistas falam sobre os males causados pela doce, mas econômica e socialmente amarga cana-de-açúcar.

Amarga porque é muito difícil olhar para um canavial sem visualizar o engenho, a brutal figura de seu senhor, a infame senzala, o dantesco tratamento oferecido aos escravos, a constatação da absoluta predominância da matéria-prima de onde se extrai o ouro-branco, o controle da economia do nosso Estado por mais ou menos vinte e três famílias e a criação da realeza do açúcar.

Muito tempo nos separa dos idos coloniais. De lá para cá os canaviais se tornaram mais numerosos e os engenhos sumiram porque substituídos pelas usinas.

Ontem era o Senhor de Engenho em seu cavalo, o feitor e o negro na palha da cana. Hoje é o usineiro em seu jatinho olhando seus canaviais, os administradores e, na palha da cana, não há distinção de cor. Ontem, os

Senhores de Engenho marcavam seus escravos com atrozes castigos. Hoje, os usineiros deixam cicatrizes nos trabalhadores pagando por sua estafante atividade um ridículo salário.

O que, então, ganharam os moradores das regiões onde as usinas se instalaram? Enquanto a realeza do açúcar bebe whisky selo viking e degusta vinho safra “Rei Sol†em hotéis mil e uma estrelas, eles ganharam um trabalho parecido com o da escravidão, o direito de viver numa pobreza que beira a

miséria e de não ter um palmo sequer de terra para sepultar seus anônimos, mas sagrados ossos.

Além do mais, quem passar pelas regiões canavieiras verá um oceano de seres humanos destituídos de toda e qualquer esperança, com uma foice na mão, não para lutar contra aqueles que os mantêm em tão lastimável situação

(que seria o certo), mas para, cansados e esfomeados, enfrentar a palha da cana ou como animal que espera a hora de ser levado para o matadouro na beira do asfalto, aguardar o transporte que o levará para seu casebre situado

no mutirão (melhor seria chamá-lo de senzala) onde, em vez de descanso, encontrará mais dor, sofrimento e desespero por saber que não passa de um lúgrebe fantasma que vaga sem rumo na escuridão da noite, pois para ele

não há luz no fim do túnel.

Foi Octávio Brandão em sua poesia “Ao Trabalhador de Enxadaâ€, publicada em 1919, quem denunciou o abandono e pregou a liberdade (revolta armada?) para os que possuem tão triste sina, lamentável fadário e doloroso

estigma.

Octávio Brandão! Ó, Filho Exilado! Ó, Ancestral de meus Ancestrais! Ó, Ermitão da Saudade! Se “neste País existe uma Pátriaâ€, onde está a Pátria?

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS

Professor da UFAL

04.03.2011

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Ébrio indigente


10/08/2011 - 7:27 -

Viçosa. Sexta-feira. Dezessete de junho. A mais escura e, espiritualmente, negra das horas da noite havia passado. Eu me preparava para tirar uma madorna no meu modesto refúgio quando o silêncio é quebrado pela voz em canto, cansada e suplicante, de um ébrio solitário que estava na Praça Apolinário Rebelo.

Sai do quarto e fui até a área ver o que acontecia. Ao longe, vislumbrei alguém em pé na calçada que, desordenadamente, alternava versos de violenta revolta com soluços de pranto em tom de gravíssima dor.

A cena me comoveu a tal ponto que fiquei olhando, por mais de uma hora, os tombos causado pela embriaguez do solitário seresteiro e escutando o que, repetidamente, sem violão ou outro qualquer instrumento musical, a chorar cantava.

Por que aquele homem estava ali, totalmente embriagado, naquela madrugada fria, chorando e cantando desesperadamente?

Ali estava, qual náufrago que não deseja se afogar, a espera de quem lhe estendesse a mão e o salvasse para que, também, pudesse salvar. Ali estava, qual menino doente e com fome, a aguardar a cura e o alimento. Ali estava, qual desabrigado e indigente, pois há muito que a cheia levou sua casa, e apesar das promessas, ele e sua família ainda moram num desprezível abrigo ou infame barraco de lona e vivem na mais absoluta miséria. Ali estava, qual cortador de cana, a sonhar com a chegada do doce vento de uma sociedade mais igualitária. Ali estava, qual cordeiro preso no redil, impaciente por não ter encontrado o pastor que lhe mostre o caminho da libertação e não o do holocausto.

Portanto, não achei estranho que utilizasse a linguagem da dor e da angústia e pedisse como presente a morte: ela, com certeza, o aliviaria da vergonha e do sentimento de fracasso, pois ele não tem mais nada, a não ser as drogas que o consome e o faz escravo dos outros e dele mesmo.

Para que dizer que está vivo se não sabe o que é viver e nunca conheceu a felicidade? Se só sabe quão amargo é o gosto da tristeza e do sofrimento? Se o presente que mais deseja é um abraço para o além? Se todo dia clama a um Deus misericordioso e seus lamentos não são ouvidos?

SENHOR DEUS, não deixe os ébrios tristes e solitários que cantam e soluçam nas madrugadas frias e incineram o chão com lágrimas de fogo tão sós e desesperados. Para libertar todos os teus filhos, injustiçados e escravizados, manda desta vez um messias de comportamento guerreiro e que tenha como objetivo a revolução através de golpes de baionetas, pois só com essa nova fé renascerá a esperança em outras estradas a serem trilhadas.

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS

PROFESSOR DA UFAL

19.06.2011

 

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Violência em Alagoas


06/08/2011 - 10:44 -

A maior parte da grande quantidade de sangue derramado no mundo é devido à violência. Existem vários tipos de violência e, entre eles, a física que, como sabemos, pode ser exercida de várias maneiras.

No Brasil, inicialmente povoado por degredados e, posteriormente, colonizado por uma elite de comportamento medieval e, consequentemente, de relacionamento vassálico ela começou muito cedo se agravando com os Ciclos Econômicos, particularmente no Ciclo do Açúcar, e ainda continua em disparada.

A primeira referência à violência física em Alagoas encontra-se, acredito, nos “Anais ou Feitos da Companhia Privilegiada das Ãndias Ocidentais, desde o seu começo até o fim do ano de 1636″, de Joannes de Laet.

No Livro Sétimo, referente ao ano de 1630, a página 109, diz: “Os habitantes de Alagoa são os mais robustos de toda a costa, fazem-se respeitar, não querem ouvir falar em polícia, exercendo eles mesmos a justiça, e matam os outros a faca, como se fossem cães”.

Como, na época, era conhecida como “Alagoa” a atual cidade de Marechal Deodoro, não vejo nenhuma temeridade em afirmar que com “Os habitantes de Alagoa…”, de Laet se referiu apenas aos que ali residiam. Eram os mais fortes porque beneficiados pela rica e sadia dieta oriunda dos afrodisíacos ambientes que os circundavam.

Também acredito que a primeira tentativa de crime de mando contra um alagoano ocorreu em 1º de abril de 1634, em Barra Grande, hoje a bela Maragogi. Nesta data e local, informava o então donatário da Capitania de Pernambuco, Diogo de Albuquerque Coelho, a página 197, de suas “Memórias Diárias da Guerra do Brasilâ€, Antônio Fernandes, em troca de “mercê que o contentasseâ€, devia assassinar, a mando de Matias de Albuquerque, o polêmico Domingos Fernandes Calabar. A tentativa não foi bem sucedida porque o assassino, “primo e coirmão†de Calabar, quando de seu intento, tropeçou, caiu sobre sua própria espada e morreu.

Ironia: quem devia matar foi quem, por acidente, morreu!

Mas, qual o problema? Primeiro, é digno de nota a ancianidade da violência em terras alagoanas; segundo, por vários motivos, entre eles o lamentável desaparecimento da natureza pródiga de outrora, o desemprego e a fome os deodorenses não mais continuam tão saudáveis; terceiro, os crimes são cometidos pelos mais diversos tipos de armas; quarto, há muito que a violência extrapolou os limites da antiga vila e campeia, sem controle, por todo Estado; quinto, as tentativas de crime de mando sempre logram êxito.

Só quando sairmos do Ciclo do Açúcar, isto é, acabarmos com a vassalagem a monocultura da cana-de-açúcar através da diversificação da atividade agrícola, e com o culto ao latifúndio, ou seja, transformá-los em pequenas propriedades produtivas tornando, assim, a terra um patrimônio de todos e não um privilégio de poucos, fornecermos condições aos cidadãos para que possam satisfazer suas necessidades básicas, enfim, resgatarmos a cidadania do sofrido povo alagoano, é que poderemos viver num Estado mais pacifista e humanista e que não possua índices sociais tão caóticos.

 

 

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS

Professor da UFAL

25.05.2011

 

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Calabar


04/08/2011 - 7:51 -

No último 22 de julho, ficamos distantes da sádica e brutal morte de Domingos Fernandes Calabar, trezentos e setenta e um anos.

Calabar foi uma das figuras mais polêmicas de Alagoas não só porque foi o primeiro alagoano a ser o alvo, em 1º de abril de 1634, da primeira tentativa de crime de mando, mas, principalmente, devido à posição que tomou entre 20 de abril de 1632 e 22 de julho de 1635, durante a guerra da Companhia Privilegiada das Ãndias Ocidentais contra a União Ibérica.

Quase quatro séculos se passaram e a mudança “de lado†de Calabar ainda continua uma incógnita porque ainda não nos chegou, de forma documentada a contento, o verdadeiro motivo de sua oscilação pró-flamengo. Isto, no entanto, não impede que tentemos fornecer uma versão que se aproxime do cerne do problema. Não aceitar, é sustar a imaginação criadora que, em muitos casos, nos conduz a concepções muito próximas do que houve.

Calabar se orgulhava de ser um brasileiro, alagoano, porto calvense que amava a tranqüilidade de nossos bosques, a fartura de nossa fauna, a fragosidade da nossa flora, a fertilidade de nosso solo e a exuberância de nossos rios. Era respeitado, considerado de muita importância e corajoso, porque lutava com bravura e não tinha medo de se expor e ser ferido, como ocorreu em 14 de março de 1630.

Após a invasão holandesa Calabar, como exímio militar, tinha conhecimento da situação gravíssima da Capitania de Pernambuco, pois sendo amigo de Matias de Albuquerque, sabia da precariedade bélica-contingencial das forças ibéricas e que sem resposta ficavam os repetidos pedidos de socorro enviados a metrópole. Como homem de caráter férreo, não admitia este descaso e, a partir daí, começou a pensar em tomar uma atitude que forçasse as autoridades da União Ibérica a defender sua Pátria. Não interessava se com esta atitude teria sua reputação manchada, sua família perseguida, seus bens confiscados ou perderia a própria vida.

Como cristão, conhecia a célebre frase de Caifás sobre a morte de Jesus: “Vós de nada entendeis. Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?â€.

Decidido a morrer pela Pátria e forçar a União Ibérica a valorizar o Brasil, em 20 de abril de 1632, Domingos Fernandes Calabar, profundo conhecedor das intrincadas veredas da vastíssima região cobiçada pelos invasores, mudou de lado e decidiu ajudar a até então inerte máquina de guerra holandesa a conquistar a nova Terra Prometida.

Devemos, então, manter Calabar onde está, isto é, não considerá-lo autor e agente de um plano sem precedentes, ou beatificá-lo e canonizá-lo politicamente, ou seja, reconhecer a beleza heróica de sua atitude?

Com a palavra as autoridades políticas e culturais de Alagoas.

 

ALOISIO VILELA DE VASCONCELOS

Professor da UFAL

02.08.2011

 

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Venha, presidente


27/07/2011 - 19:28 -

A presidente Dilma Rousseff vem a Alagoas para lançar,  dia 25 de julho, na cidade de Arapiraca, o Programa “Ãgua para Todosâ€. Mais uma viagem. Um Programa do projeto “Brasil sem Misériaâ€. Mais uma tentativa de tirar da miséria um povo que vive e morre na miséria.
Venha, Presidente, não para passear em nossas praias, andar em nossos bosques e beber da Fonte da Juventude, mas para admirar as “CRISTALINAS†águas do Salgadinho, ficar atônita com a devastação das matas, a poluição dos rios e nascentes e, por isso, chorar com a morte da fé em melhores dias vindouros.
Venha, Presidente, não para ficar impressionada com o verde dos extensos canaviais e com as gigantescas colméias que produzem o financeiramente doce ouro branco dos donos da economia do Estado, mas para pisar no solo que outrora foi ensopado com o sangue daqueles que lutaram pela liberdade e pelo direito a vida e assim, sentir diante da sofrida história de nossa terra, a obrigação de se redimir fornecendo os meios necessários para que se aumente o poder dos fracos.
Venha, Presidente, não para se hospedar e proteger nos castelos fortificados que pertencem à Realeza do Açúcar, mas para ver o tamanho das casas construídas com verba pública para as famílias brasileiras vítimas do sistema ou desabrigadas pelas intempéries, ouvir o clamor daqueles que perderam seus entes queridos devido a violência que campeia sem controle pelo Estado e o canto triste dos ébrios indigentes que nas madrugadas frias se desfazem em pranto porque a cheia levou sua residência e apesar das promessas ele e sua família ainda moram num desprezível abrigo ou barraco de lona.
Venha, Presidente, não para se alimentar com iguarias afrodisíacas, se contentar com o comum falatório dessas ocasiões ou coroar o rei ou a rainha da Realeza do Açúcar, mas para externar sua perplexidade por saber que a terra da “Tróia Negra†continua sendo manobrada pela classe contra a qual milhares de palmarinos morreram lutando, se nutrir, como a grande maioria dos alagoanos, de um punhado de farinha azeda e um taco de “pior-sem-ela†e, se joio houver em meio ao trigo, instalar a guilhotina em praça pública para ceifá-lo.
Venha, Presidente, mas não traga seu Conselho Médico para lhe atender em caso de necessidade. Deixe para ser atendida pela Saúde Pública onde é mais fácil ir de joelhos ao Juazeiro de meu “Padinho Ciço†pagar uma promessa porque se curou, do que pegar uma ficha de atendimento com rapidez e ser atendido sem que se tenha a paciência do profeta Jó.
Venha, Presidente, conhecer o único Estado da Federação que parou no tempo, pois permanece no Ciclo do Açúcar, ou seja, ainda mantém milhares e milhares de trabalhadores e grande parte de sua economia sob o tacão das botas de mais ou menos vinte e três privilegiadas famílias, e constatar que onde existe o culto ao latifúndio e a vassalagem à monocultura da cana de açúcar, os ricos ficam mais ricos, os pobres, miseráveis e os miseráveis, vivos ou moribundos, esquecidos, por mais úteis e nobres que um dia tenham sido.

Aloisio Vilela de Vasconcelos
Professor da UFAL

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